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1 de junho de 2022

Junho das romãzeiras, dos lírios, das perpétuas e do olhar atento do pavão

                  PENA  DE  PAVÃO                  
[O olhar vigilante de Argos]
«O atributo vulgar de Hera é o pavão cuja plumagem se dizia ser a imagem dos olhos de Argos, o "vigilante" que a deusa colocara junto de Io. As suas plantas eram o helicriso, a romãzeira, o lírio. | Em Roma foi identificada com Juno.»
Pierre Grimal, Dicionário da mitologia grega e romana (Lx: Difel, 1992, 205a)

O quarto mês do calendário romano primitivo pré-juliano estava dedicado a Juno, a nem sempre bem-amada irmã e mulher de Júpiter. As aventuras extraconjugais continuadas do rei dos deuses e dos homens levaram-na a ser conhecida como a mais ciumenta, violenta e vingativa moradora celestial do Monte Olimpo. Por essa razão também, a majestosa e solene filha de Crono e Reia converteu-se na todo-poderosa protetora das casadas, símbolo mítico da fecundidade e patrona da fidelidade conjugal.

Para idear esses atributos divinos da Iuno Lucia, aquela que preside desde o Esquilino ao nascimento das crianças, passou a estar associada à fertilidade das bagas vermelhas da romãzeira, à pureza imaculada do lírio branco e à perenidade dourada do helicriso solar. A Iuno Moneta, aquela que a partir das alturas do Quirinal e do Capitólio nos adverte e faz lembrar dos perigos latentes, socorria-se ainda do olhar atento e penetrante de Argos-o-Vigilante, espelhado na plumagem luxuriante do pavão.

Nestes dias tão cheios de surtos pandémicos e conflitos bélicos, não seria pedir muito a Iuno Deæ Diæ Virtus o mediar junto das mais altas esferas celestiais o retorno da ordem aos seus domínios terrestres. Depois lembramo-nos ser a esposa do Senhor dos Raios e Trovões a mãe de Marte, Éris e Vulcano, os deuses da Guerra, Discórdia e Fogo e pensamos que o melhor é deixar deuses entretidos entre si e obrigar os homens a resolverem por si sós as suas querelas multisseculares. Sic fiat semper!

Ana Hatherly, Romã (1971); Sydenham Edwards, Iris florentina (1803);
Antonio Šiber, Helichrysum italicum (2017)

1 de abril de 2022

Abril do nascer e do renascer

AVRIL
Très riches heures du duc de Berry (séc. xv)

[Musée Condé - Château de Chantilly]

Abril, cron. O 4.º mês do nosso calendário. Do lat. Aprīle-, o 2.º mês do ant. ano roma-no, sem dúvida adj. substantivado; a origem do voc. no entanto, continua obscura. A re-lação entre o lat. Aprīle- e o v. aperīre, «abrir», não se justifica; não se esqueça que a existência de aperilis como der. do mesmo v. não se comprova, pois não passa de cria-ção de gramáticos, depois usada por outros autores, para explicar precisamente o nome do mês Aprilio...
 J. P. Machado, Dicionário onomástico etimológico da língua portuguesa 
 (Lisboa: Horizonte, 1984; Ⅰ, 34b.)

Abril não deve o nome a nenhuma divindade conhecida, imperador ou político de relevo. Tão pouco anda associado a um número de ordem especial. É o quarto dos doze meses existentes e é tudo. Tem uma origem obscura mas todos o ligamos ao ato de abrir (latapĕrīre). Não dum novo do ciclo anual, já dado pelo mais antigo antigo calendário romano a março e pelo mais recente a janeiro, mas à chegada triunfante da primavera e, com ela, da pureza e da renovação.

As hesitações etimológicas ora defendem que o mensis aprilis estaria associado à germinação das frutas e das flores, ao separar das águas e das terras, ao renascer da vida em geral; ora poderia referir-se a Aprodita etrusca ou à Afrodite helénica, a Vénus do panteão romano; ora à própria espuma do mar (gr. αφρός) da qual a deusa do amor e da beleza teria nascido. Aqui como em qualquer situação de dúvida, pode bem dizer-se que a cada cabeça sua sentença.

Se de facto o mês de abril não carrega ainda em si o sentido pleno de abertura, que passe a fazê-lo. Que abra de vez as mentes a quem teima em mantê-las fechadas para a vida e para o amor. Que o faça sob a égide de Άφροδίτη-Venus, a mediadora greco-itálica da oração, o génio protetor da vegetação e dos jardins. Que troque a guerra pela paz e promova a união na terra europeia, filha dileta dos deuses e dos homens, e nos traga a primavera cabal dos novos tempos.

Sandro Botticelli, Nascita di Venere (1485)
[Firenze, Le Gallerie degli Uffizi]

16 de fevereiro de 2021

O entrudo ficou em casa num dia assim

MARIA HELENA VIEIRA DA SILVA
Ballet ou Les Arlequins
(1946)

Pierrot, Colombina & Arlequim

Segundo se julga saber, a palavra Carnaval provém da expressão latina carne, vale!, pelo italiano carnevale, com o sentido de «adeus, carne!», i.e., representava a última terça-feira do período litúrgico que mediava o Dia de Reis e a Quaresma. A abstinência começava na quarta-feira de Cinzas seguinte, substituindo as grandes festividades pagãs de despedida aos excessos da véspera e prolongar-se-ia por mais quarenta dias (quadragesima dies) até ao domingo de Páscoa. Também é conhecido por Entrudo, designação derivada da palavra latina introitus, a simbolizar a preparação para a mais importante celebração do calendário cristão.

Com raízes na antiga tradição ática dos hinos a Dioniso-Baco e do Canto de Aldeia, os folguedos, farras, festins, folias e pândegas mil andaram sempre ligados aos mais diversos disfarces, na tentativa de se fingir ser aquilo que não se é ou se tem pudor de assumir no resto do ano. Nos cortejos de rua multiplicam-se os mascarados, munidos duma caraça, máscara ou mascarilha de cartão ou com a cara profusamente pintada, caraterizada ou maquillée. As crianças apreciam especialmente transformarem-se por um só dia que seja nas mais diversificadas personagens de fantasia a enriquecer o seu imaginário infantil de faz de conta.

No Renascimento italiano, a camada menos instruída da população, desconhecedora da língua tida na época como universal, substituiu o latim da comédia erudita pelo vulgar italiano da Commedia dell'Arte também chamada Commedia all'Improviso e Commedia a Sogetto. As companhias familiares praticavam a itinerância de cidade em cidade. Deslocavam-se de carroça, tal como o fizera Téspis na Ática do séc.  AEC, representavam em pequenos palcos rudimentares instalados nas ruas e praças públicas, interagiam com o público exercendo a arte do improviso, limitando-se a seguir as linhas gerais dum roteiro simplificado. 

A criançada apropriou-se ao longo dos tempos de algumas das figuras-tipo dessa representação dramática. A riqueza cromática do seu vestuário e dos motivos que lhe dão forma estará na origem dessa preferência multissecular. Entre essas caricaturas da vida humana, foi-se destacando o triângulo amoroso constituído por Colombina, enamorada de Arlequim e amada por Pierrot. A vingança deste último sobre o rival está-se a manifestar sem dó nem piedade esta terça-feira gorda de jejum. Roubou-lhe o Carnaval pelo segundo ano consecutivo, depois de este lhe ter roubado a musa da sua paixão. Cá se fazem cá se pagam.      

8 de fevereiro de 2019

O Vaticano por um buraco de fechadura

                Il buco della serratura               

« Nous avons fait quelques promenades ensemble. Un taxi nous déposait Piazza Albania et nous montions sur l'Aventin. C'était l'un des endroits de Rome que le Gros préférait, " à cause du calme ", me disait-il. Il allait regarder par le trou de la serrure du portail de Malte, d'où l'on aperçoit la coupole de Saint-Pierre dans le lointain, et cela provoquait toujours chez lui un fou rire qui m'étonnait. »
Formas  alternativas  de  espreitar
A última vez que voei para a Itália, fui surpreendido por uma greve geral de transportes no Aeroporto Internacional de Fiumicino. Uma donna nativa habituada a essas paralisações sazonais instruiu-me dos expedientes a tomar em tais situações. E assim chegámos sem mais sobressaltos a Roma. Como reportei em tempos esta história aqui por estas bandas, dispenso-me de a repetir. Falhou-me todavia um pequeno pormenor que me apraz registar para assim completar este diário-de-bordo come dovrebbe essere

Depois de ter visto Braga por um canudo lá do alto do miradouro do Santuário do Bom Jesus do Monte, algumas décadas passadas dei comigo a observar a Cidade do Vaticano desde a colina do Aventino pelo buraco de fechadura do portão da Villa del Priorato di Malta. Duas formas alternativas de espreitar à distância: a primeira a ampliar, a segunda a limitar. De máquina fotográfica em punho, esperei numa longa fila de turistas a minha vez e fixei devidamente o momento per memoria futura che ora è arrivata. 

Voltei a ver a cúpula de São Pedro em toda a sua magnificência desde o giardino degli aranci, mesmo ali ao lado. Viagem prévia do olhar a preparar a que os pés pisariam de seguida. Deixei-me fotografar com a signora romana naquela varanda panorâmica debruçada sobre a Cidade Eterna, a papal e a imperial. Deve andar por aí perdida numa pen drive de trazer no bolso. O mesmo não posso dizer dos contactos registados num bloco de notas entretanto extraviado. Cosi, non ci vedremo mai più. Ecco!