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3 de março de 2026

Trilogia épica lusitana

A epopeia e a tragédia concordam somente em serem, ambas, imitação de ho-mens superiores, em verso; mas difere a epopeia da tragédia, pelo seu metro único e a forma narrativa. E também na extensão, porque a tragédia procura, o mais que é possível, caber dentro dum período de sol, ou pouco excedê-lo, po-rém a epopeia não tem limite de tempo – e nisso diferem, ainda que a tragédia, ao princípio, igualmente fosse ilimitada no tempo, como os poemas épicos.
Aristóteles, Poética. Ed. Eudoro de Sousa. Lisboa: IN-CM, 1994.
[1449b 9-16; cap. v, §24, p. 10]

Uma Epopeia (gr. εποποιία) é, em termos etimológicos, um conjunto de Epos (gr. επος), i.e., uma sucessão de relatos orais mais ou menos autónomos e de origem lendária, ligados por um fio condutor comum. As poéticas deram-lhe depois outros sentidos, baseados todos em maior ou menor grau na visão que lhe foi conferida por Aristóteles. Com um conjunto de episódios protagonizados pelo 5.º rei da 1.ª dinastia suméria de Uruk, compuseram os acádios as 12 placas cuneiformes que até nós chegaram do Gilgameš. O mesmo fez Homero em grego com a Ilíada e a Odisseia e Virgílio em latim na Eneida, bem como muitos outros poetas-cantores em datas posteriores nos mais diversos idiomas.

Camões terá sido o mais fiel continuador da tradição épica antiga. Cavalga à sua maneira o modelo greco-romano e adapta-o à realidade lusitana. Ultrapassa o longo hiato medieval e renasce com todo o esplendor nos tempos modernos, que ajudou a moldar e perpetuar. Os descendentes míticos de Heleno são substituídos pelos de Luso, o Eneias troiano sai de cena e o Gama lusitano ocupa toda a ribalta n'Os Lusíadas. O obreiro do quarto império apaga-se no horizonte mediterrânico e o fundador do quinto império instala-se no grande mar oceano atlântico, índico e pacífico. Os barões assinalados da ocidental praia lusitana transformam-se em heróis coletivos triunfantes a nível global.

Os criadores das Epopeias em Verso abrem as portas às Epopeias em Prosa, a que passámos a chamar Novelas e Romances. A cultura helenística consagrou-as aos amores e aventuras dum jovem casal de protagonistas. Ao invés, Petrónio prefere converter esses heróis exemplares em verdadeiros anti-heróis acabados no Satíricon, numa crítica cerrada aos costumes e à política romana do seu tempo. As aventuras/desventuras vividas por Fernão Mendes Pinto no Oriente são arroladas na Peregrinação, substituindo os heróis com nome da epopeia clássica camoniana pela arraia-miúda anónima, sem a qual os nomeados pelo vate consagrado seriam  sequer lembrados pelos anais oficiais.

O rio da literatura tem sido pródigo em fazer sulcar nas suas águas os relatos épicos das grandes navegações realizadas pelos muitos nautas que as efetuaram e dos naufrágios que as acompanharam. Assim ocorreu no regresso de Ulisses a Ítaca ou nas tópicas viagens dos peregrinos centrais da ficção diegética greco-bizantina. Vitoriosos todos eles tiveram os fados mais a seu favor do que o sem-número de embarcados tragados pela fúria dos mares nos domínios imperiais da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia. Muitos deles são referidos nos doze relatos compilados por Bernardo Gomes de Brito na História Trágico-Marítima. E assim a trilogia épica lusitana se fez: heroica, peregrina e dramática.  

Luís de Camões, Os Lusíadas (1572) - Fernão Mendes Pinto, Peregrinação (1614)
Bernardo Gomes de Brito, História Trágico-Marítima (1735-1736)

5 de dezembro de 2025

Garrett no rasto existencial de Camões

A índole deste poema é absolutamente nova; e assim não tive exemplar a que me arrimasse, nem norte que me seguisse Por mares nunca d'antes navegados.

Onde jaz, Portugueses, o moimento
Que do imortal cantor as cinzas guarda?
Homenagem tardia lhe pagastes
No sepulcro sequer... Raça d’ingratos!
Nem isso! nem um túmulo, uma pedra,
Uma letra singela! - A vós meu canto,
Canto de indignação, último acento
Que jamais sairá da minha lira,
A vós, ó povos do universo, o envio.
Ergo-me a delatar tamanho crime,
E eterna a voz me gelará nos lábios.
Lira da minha pátria onde hei cantado
O lusitano - envilecido - nome,
Antes que nesse escolho, em praia estranha,
Quebrada te abandone, este só brado
Alevanta final e derradeiro:
Nem o humilde lugar onde repoisam
As cinzas de Camões, conhece o Luso.

Dizem os manuais literários ter o Romantismo sido introduzido entre nós precisamente 200 anos. O feito é atribuído a Almeida Garrett, ao publicar anonimamente, na Livraria Nacional e Estrangeira de Paris, o poema lírico-narrativo de feição anticlássica CamõesO grande vulto das letras portuguesas oitocentistas encontrava-se à data exilado na capital francesa, perseguido pelo regime absolutista então vigente no país, explicando assim o caráter assumidamente clandestino da editio princepsvendida por subscrição pública, como sendo uma obra proibida dum autor proscrito. O prefácio que a acompanhava referia ter sido redigida em janeiro do ano anterior, impressa nos dois meses seguintes e saído dos prelos em forma de livro a 22 de fevereiro de 1525. Todavia, a visibilidade dos dez cantos em verso branco e notas clarificadoras, inspirados na etapa final de vida do aedo épico d'Os Lusíadas, só seria alcançada em datas  posteriores, correspondentes às reedições de 1839, 1844 e 1854, todas elas revistas e alteradas profusamente pelo seu criador.   

«A ação do poema é a composição e publicação dos Lusíadas; os outros sucessos que ocorrem são de facto episódicos, mas fiz por os ligar com a principal ação»Assim resume o jovem bardo em poucas palavras preambulares o tecido diegético orientador da sua crónica camoniana. Poucas mais poderíamos registar sem correr o risco de entrar abusivamente no corpo poético do testemunho prestado ao urdidor do livro matricial maior das letras nacionais. Digamos, mesmo assim, tratar-se de duas histórias paralelas, fautora da aproximação simbólica do destino nefasto de Camões ao de Garrett. O primeiro, ao regressar pobre a um país em crise profunda, em via de se perder na aventura insana de Dom Sebastião em Alcácer-Quibir (1578). O segundo, na condição de exilado na Europa, por motivos políticos provocados pela Vilafrancada (1823), a insurreição liderada pelo infante rebelde Dom Miguel.

Continuando sem abusar do transcrição de extratos mais ou menos longos de Garrett, é difícil de evitar a transcrição da declaração de princípios genéricos documentada na prefação à edição inaugural da obra, quando averte os potenciais leitores: «Não sou clássico nem romântico; de mim digo que não tenho seita nem partido em poesia (assim como em coisa nenhuma) e por isso me deixo levam minhas ideias boas ou más...». E assim terá feito, quando substitui o número fixo de versos por estrofe pelo variável do chamado parágrafo poético. A revolta individual do versejador contra as regras típicas do nova escola literária marca assim a sua presença não se inibindo, porém, de seguir o princípio isométrico da sucessão regular de decassílabos heroicos não rimados. Neste compromisso de conciliar a tradição greco-latina desenvolvida n'Os Lusíadas com as nascentes tendências europeias ensaiadas no Camões, o seu arquiteto imprime ao Poema o aspeto formal duma epopeia clássica com um conteúdo nacional romântico.

Entre as muitas tiradas pessoais dum eu enunciativo, proferidas por um narrador extradiegético identificado com o próprio autor, e um outro eu poético atribuído ao herói épico ficcionado, a evocação das vidas similares dum e doutro conduz-nos do primeiro ao derradeiro verso do texto semifactual/semifantasista, com um relevo especial a todos as prefações e notas de rodapé e final de livro. No ano em que se cumprem os 500 anos do nascimento de Luís de Camões, não deixa de ser curioso associá-lo ao bicentenário da publicação da obra que abriu as portas ao Romantismo literário no nosso país. Almeida Garrett não deixou nenhum escrito explícito a assinalar a coincidência destes dois eventos, a vinda ao mundo do Poeta em 1525 e a publicação do Poema a si dedicado em 1825. Mas, mesmo assim, não será demais assinalá-la agora, quando mais não seja para relembrar, através das letras, a memória de ambos, e enviá-la depois lá para o Parnaso, onde residem lado a lado com toda a honra e glória merecidas.       

27 de março de 2025

Luís de Camões, três autos, farsas ou comédias ao gosto maneirista

 
Alcmena
Ah senhor Amphitrião | Onde está todo meu bem | Pois meus olhos vos não vem, | Fallarei c'o coração, | Que dentro n’alma vos tem. | Ausentes duas vontades, | Qual corre móres perigos, | Qual soffre mais crueldades, | Se vós entre os inimigos, | Se eu entre as saudades? | Que a ventura, que vos traz | Tão longe da vossa terra, | Tantos desconcertos faz, | Que se vos levou á guerra, | Não me quis leixar em paz. | Bromia, quem, com vida ter, | Da vida já desespera | Que lhe poderás dizer?
Luís de Camões, Auto dos Anfatriões (1587)

No momento em que se cumpre o quinto centenário do nascimento de Camões, nada melhor do que aproveitar o Dia Mundial do Teatro para dar voz a três peças por si gizadas nesse século dourado das letras lusitanas. Lembrar que o grande poeta lírico das Rimas e épico d'Os Lusíadas também emprestou o seu engenho e arte dramática aos autos, farsas ou comédias de sabor popular vicentino e cultura clássica greco-latina. Gizou-as em português e castelhano, em redondilha maior com algumas cenas prosificadas, publicadas todas elas com caráter póstumo: Anfitriões e Filodemo, juntamente com outros autores maneiristas em 1587 e separadamente em 1615; El-rei Seleuco, algo tardiamente em 1645; e a obra conjunta camoniana em 1782.

Tudo leva a crer que a Comedia dos Enfantriões tenha sido redigida e representada nos últimos anos que o autor terá passado em Coimbra, provavelmente depois de D. João III ter transferido a Universidade para essa cidade em 1537, até então sediada em Lisboa. Tê-lo-á feito enquanto hipotético colegial de Humanidades, onde se terá afeito aos mitos greco-romanos, mormente no do amor de Júpiter por Alcmena, a fiel esposa de Anfitrião, o rei lendário de Tirinto que empresta o nome ao auto. Aproveitando-se da ausência do rival, por se achar a combater os Teléboas, a suprema divindade olímpica toma a forma física do marido legítimo da amada, com quem passa uma noite, advindo desse ardil o nascimento de Hércules. As demais peripécias legadas pela tradição clássica antiga são atualizadas por Camões a seu modo, tal como Plauto o fizera em latim na homónima Amphitruo (c. 206 AEC) e outros o farão também por sua vez.

Pensa-se que a redação da Comedia d'El-Rey Selevco se situe entre 1543 e 1545, a anteceder o seu desterro da Corte para o Ribatejo em 1546. É que segundo a tese tradicional ainda seguida hoje em dia por alguns, o autor teria feito alusões veladas ao casamento em terceiras núpcias de D. Manuel I com D. Leonor de Áustria, até então destinada ao príncipe herdeiro D. João. Está por provar a veracidade da suspeita, o que não impede de se fixar uma série de paralelismos entre os factos históricos conhecidos e o argumento dramático levado a cena. Tal como Plutarco já havia contado nas Βίοι Παράλληλοι (100-120 EC), as Vidas paralelas compostas em grego que Camões terá lido em latim, o príncipe herdeiro da Síria apaixona-se pela madrasta e adoece, levando o pai a cedê-la ao filho em casamento, para evitar assim seu sofrimento e livrar da lei da morte. A versão portuguesa quinhentista segue em linhas gerais a fonte clássica que o inspirara e adapta-o mais uma vez à sua visão maneirista estes enredos singulares de manifesto agrado popular.

A entrada em cena dos interlocutores da Comedia de Filodemo, a mais longa e elaborada da trilogia, é antecedida por um minucioso Argumento, quase dispensando a representação sequente. Camões retoma aqui a divisão em cinco atos, já ensaiado nos dois Anfitriões, o real e o falso, ausente nos amores cruzados de pai-filho-madrasta do imediato, estruturado num extenso Prólogo dialogado e num ato da peça. A ação reparte-se por duas gerações, separadas entre si por um naufrágio e pela morte dos pais dos protagonistas mais jovens. No final, um casal de irmãos acaba por se casar com um outro casal de irmãos e tudo termina em bem. Com um cheirinho fugaz às relações e notícias que mais tarde Bernardo Gomes de Brito reunirá na História Trágico-Marítima (1735-1736), os amores de Filodemo-Dionisa e de Venadoro-Florimana, compostos e representados na Índia por volta de 1555, enviam-nos para a roda das novelas pastoris e dos livros de cavalarias, muito em voga então, num período maneirista de transição veloz dos ideais renascentistas para os barrocos pós-tridentinos.

Lidas as três comédias e confrontados as suas linhas compositivas, apuramos que a vertente clássica presente na designação genérica e temas abordados em duas delas são derrotadas pelo pendor tradicional desenvolvido na sua totalidade. O decassílabo heroico ou sáfico de desenho épico e lírico das rimas construídas segundo os modelos da medida nova é substituído pelo septissílabo usual nas formas cultivadas pela medida velha. O tom sério, grave, sóbrio das grandes formas teatrais greco-latinas são substituídas pelo pendor jocoso, burlesco, cómico dos autos de sabor vicentino. O trágico deixa-se contaminar pelo cómico e surge-nos horizonte a tragicomédia, a comédia formal sai de cena e dá lugar à farsa real. Esta a trajetória de Camões, num século marcado pela mudança de tempos e vontades, mas também e sempre fiel à raízes ancestrais que moldaram de forma particular e indelével do ser portuguesa ou, se preferirmos, lusitana.

Editiones principes: 1587, 1615, 1615, 1645

21 de março de 2025

A Fortuna de Camões

José de Guimarães, Camões (1985)
S O N E T O
No Dia Mundial da Poesia

Enquanto quis Fortuna que tivesse
esperança de algum contentamento,
o gosto de um suave pensamento
me fez que seus efeitos escrevesse.

Porém, temendo Amor que aviso desse
minha escritura a algum juízo isento,
escureceu-me o engenho co tormento,
para que seus enganos não dissesse.

Ó vós, que Amor obriga a ser sujeitos
a diversas vontades! Quando lerdes
num breve livro casos tão diversos,

verdades puras são, e não defeitos...
E sabei que, segundo o amor tiverdes,
tereis o entendimento de meus versos

Luís de Camões
Lírica completa - II [Sonetos], org., pref. e notas de Maria de Lurdes Saraiva, 2.ª ed., revista, Lisboa: INCN, 1994, p. 25.
Obs.:
Hipotético prólogo duma compilação de poemas líricas, organizado por Camões numa fase adiantada da sua vida e que abre as duas edições quinhentistas do poeta. (1595, 1598)

20 de novembro de 2024

Pilares marítimos da cultura portuguesa

Laterais: folhas de rosto d'Os Lusíadas (1572 ) e das Flores de Música (1620)
C
entro: gravura alemã dos «Jerónimos» (1650) e «Painel do Infante» (c. 1450)
Inferior: anotação musical dum Tento de Manuel Rodrigues Coelho

TESE MARÍTIMA
«A força atrativa do Atlântico, esse grande mar povoado de tempestades e de mistérios, foi a alma da Nação e foi com ele que se escreveu a história de Portugal.»
Jorge Dias, Os elementos fundamentais da cultura portuguesa (1950)

Espinhosa tarefa essa de estabelecer os elementos fundamentais duma determinada cultura, sobretudo se se referir a uma realidade multissecular como é o caso da nossa. Jorge Dias ousou fazê-lo em 1950, quando apresentou no I Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, realizado em Washington, uma tese subordinada a essa temática na secção de antropologia cultural. Identificou as dificuldades sentidas e centrou o resultado do seu trabalho na força atrativa do grande mar oceano, exercida desde na configuração da personalidade-base do país, que sintetiza em quatro pilares ou formas de pensar do génio criador português e canaliza para a criação literária, arquitetónica, pictórica e musical. Ei-los.

O edifício identitário nacional tem como suporte poético máximo Os Lusíadas (1572) de Luís de Camões. Assente nos dez cantos de oitavas decassilábicas, a grande viagem de descoberta do caminho marítimo para a Índia justifica perfeitamente a linha central de raciocínio seguido pelo etnólogo na sua comunicação. Vasco da Gama é erguido à categoria de herói épico, desenhado à maneira dos seus antecessores gregos e romanos, assume o comando da expedição, encarrega-se de relatar aos seus anfitriões orientais as glórias pretéritas do povo luso por si representado e prepara naquele tempo histórico ali vivido a revelação antecipada das muitas glórias vindouras a efetuar nos quatro cantos da terra e do mar.

A celebração das expedições às terras dos Algarves, Guiné, Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia, feitas nos mares oceanos ocidentais e orientais no período áureo das navegações, encontra-se exaltado em pedra no Mosteiro dos Jerónimos (1501-1601), entendido como padrão comemorativo da expansão marítima global efetuada sob a égide da Casa de Avis. Os elementos evocativos dos novos mundos visitados encontra-se copiosamente representada no complexo monumental de Belém, rendido ao manuelino então predominante e replicada em muitos outros edifícios de traça sacra e civil dessa e doutras épocas. É o caso dos túmulos escolhidos pelo revivalismo romântico para os túmulos do poeta e navegador festejados ali sepultados.

A ereção da ilustre casa lusitana prossegue com o Políptico (c. 1470) de Nuno Gonçalves, atualmente exposto nas Janelas Verdes no Museu Nacional de Arte Antiga. A eleição desta obra paradigmática da cultura portuguesa deve-se ao facto de no designado painel do Infante se encontrar a alegada figura de D. Henrique, o grande impulsionador da política das viagens marítimas, por isso mesmo cognominado o Navegador. Tudo seria perfeito se se desse o caso do enigmático homem do chapeirão ser o elemento mais famoso da Ínclita Geração. Polémicas à parte, parece não caber dúvidas que o Senhor de Sagres se encontra representado numa das tábuas quatrocentistas. Soluções alternativas credíveis não faltam.

O mais intrigante pilar indicado pelo conferencista na capital federal dos Estados Unidos da América, em meados do século passado, assenta nas Flores de Música (1620) de Manuel Rodrigues CoelhoA questão que de imediato se coloca é detetar a presença do mar nos Tentos para órgão, cravo e arpa ali coligidos pelo mestre de capela alentejano das catedrais de Badajoz, Elvas e Lisboa. A resposta só se poderá obter através da audição atenta das peças e à visão das respetivas partituras. A sucessão de subidas/descidas presentes nas composições perfeitamente visíveis na ondulação sistemática das notações musicais orientadoras da execução/navegação harmoniosa das melodias instrumentais ali desenhadas com engenho e arte.

À distância de sete décadas e meia de ter sido proferida, a tese marítima de Jorge Dias continua a ser editada, lida e comentada nos nossos dias. Mantém-se atual, apesar de não poder ser entendida dogmaticamente como uma constante perene da cultura portuguesa. A presença do mar foi muito discreta nos períodos limítrofes do Renascimento-Maneirismo-Barroco que moldaram a nossa idade dourada. Desempenhou um papel muito discreto nos tempos medievais e assim permanece nos contemporâneos. Outros pilares teriam de ser evidenciados, na certeza, porém, de se encontrarem forçosamente na sombra dos traçados pelo espírito criador lusitano do nosso devir histórico pretérito a apontar para o vindouro.

Jorge Dias, Os elementos fundamentais da cultura portuguesa. Lx: INCM, 1950

10 de junho de 2024

Berço e Tumba de Camões

CAMÕES (2019)
Alexandre Farto Aka Vhils
[Lisboa, Imprensa Nacional, Mural]

Doces lembranças da passada glória


Doces lembranças da passada glória,
Que me tirou Fortuna roubadora,
Deixai-me descansar em paz ῦ'hora,
Que comigo ganhais pouca vitória.

Impressa tenho n’alma larga história
Deste passado bem, que nunca fora;
Ou fora, e não passara; mas já agora
Em mim não pode haver mais que a memória.

Vivo em lembranças, mouro d’esquecido
De quem sempre devera ser lembrado,
Se lhe lembrara estado tão contente.

Oh quem tornar pudera a ser nascido!
Soubera-me lograr do bem passado,
Se conhecer soubera o mal presente.

                 Luís de Camões*

NOTAS
Soneto autobiográfico a assinalar o início tímido e tardio da celebração oficial dos 500 anos do nascimento de Camões, na data apontada para a sua morte. Absurdos repetidos à exaustão, a de-monstrar por A+B a importância que se costuma dar em vida aos grandes vultos da cultura, faz-se tábua rasa do berço e tecem-se loas à tumba.

* Transcrita por Frederico Lourenço IN Camões, Uma antologia. Lisboa: Quetzal, 2024 

21 de março de 2024

Maneirismos versificados em décima rima métrica por três vates laureados

PETRARCA - CAMÕES - QUEVEDO

MANEIRISMO
Forma de arte que se desenvolveu na Itália, depois na Europa, no século XVI, sob a influência dos grandes mestres da Renascença.
Les beaux esprits se rencontrent...
I. Francesco Petrarca
     (1304-1374)

Pace non trovo e non ho da far guerra 

e temo, e spero; e ardo e sono un ghiaccio;
e volo sopra 'l cielo, e giaccio in terra;
e nulla stringo, e tutto il mondo abbraccio.

Tal m'ha in pregion, che non m'apre né sera,

né per suo mi ritèn né scioglie il laccio;
e non m'ancide Amore, e non mi sferra,
né mi vuol vivo, né mi trae d'impaccio.

Veggio senz'occhi, e non ho lingua, e grido;

e bramo di perir, e chieggio aita;
e ho in odio me stesso, e amo altrui.
 
Pascomi di dolor, piangendo rido;
egualmente mi spiace morte e vita:
in questo stato son, donna, per voi.
Canzoniere, 1470
II. Luís de Camões
      (1524-1580)

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo amor?

Rimas, 1595

III. Francisco de Quevedo

       (1580-1645)
Es hielo abrasador, es fuego helado, 
es herida que duele y no se siente, 
es un soñado bien, un mal presente,
es un breve descanso muy cansado.

Es un descuido que nos da cuidado,
un cobarde con nombre de valiente,
un andar solitario entre la gente,
un amar solamente ser amado.

Es una libertad encarcelada,
que dura hasta el postrero paroxismo;
enfermedad que crece si es curada.

Este es el niño Amor, este es su abismo.
¡Mirad cuál amistad tendrá con nada
el que en todo es contrario de sí mismo!
                                         Las tres Musas, 1670
NOTA
No Dia Mundial da Poesia, três poetas e um filósofo.

12 de março de 2024

Camões: as armas e os barões assinalados dos filhos de Luso

       Eternos moradores do luzente
Eʃteliƒero polo & claro aʃʃento,
Se do grande valor da ƒorte gente,
De Luʃo, não perdeis o penʃamento,
Deueis de ter ʃabido claramente,
Como he dos ƒados grandes certo intento
Que por ella ʃeʃqueção os humanos,
De Aßirios, Perʃas, Gregos & Romanos.
Luis de Camoẽs, Os Lusiadas
(Cant. I, est. 24, fol.º 5)

Fará hoje precisamente 452 anos que Luís Vaz de Camões viu sair dos prelos de António Gonçalves a primeira edição d'Os Lusíadas (1572), aquela que as normas de referência bibliográfica assinalam com a sigla Ee/S ou E/D, tendo em atenção o pormenor do pelicano da xilografia do frontispício ter a cabeça voltada para a esquerda [Sinistra] ou para a direita [Destra] e corresponder à alternância do «E entre / Entre» das duas versões referidas [I.1:7]. Minudências à parte, é verdade que a folha de rosto só refere o mês e o ano de publicação, mas a dar fé no Alvará Régio que concedeu ao autor a tença anual vitalícia de 15000 réis a partir de 12 de março de 1572, leva-nos a inferir ter sido essa a data precisa da sua impressão.

Sobre o poema se disse muito e outro tanto fica ainda por dizer. Dizem ser o canto épico de todos os portugueses, quando o poeta só se propôs cantar as armas e os barões assinalados. Acrescenta ainda as memórias gloriosas dos reis que alargaram o império e daqueles que pelos atos valorosos feitos em vida se foram da lei da morte libertando. Por outras palavras, canta a glória dos heróis viris e faz tábua rasa da fama feminil das heroínas. Saem de cena as donas e donzelas também elas descendentes de Luso, o filho ou companheiro de Baco, bem como toda a arraia-miúda posta à sombra do peito ilustre lusitano. Ecos perceptíveis de ressonância latina, recolhidos nas fontes clássicas postas então à sua disposição.

Constitui um lugar-comum considerar Camões o expoente máximo do Renascimento português, pelo menos se o fizermos no sentido lato do termo. Para ser mais rigoroso, talvez fosse preferível redefinir melhor o período histórico-cultural em que viveu e remetê-lo para as fronteiras mais precisas do Maneirismo literário. Na idealização d'Os Lusíadas, o vate lusitano socorre-se do contributo romano da Eneida de Vergílio que, por sua vez, se inspirara na Ilíada e na Odisseia de Homero. Compõem as suas epopeias à maneira uns dos outros. Com boa vontade, até o próprio aedo jónico pode ter tido acesso a uma ou outra versão das façanhas mesopotâmicas de Gilgameš.

Se uma Epopeia [εποποιία] é um conjunto de Epos [επος], de relatos orais de origem lendária, unidos ao mito através do canto, então todos os casos referidos partilham dessa regra genérica, só divergindo na ânsia legítima de se superarem. Os Troianos vencidos pelos Aqueus, vingam-se destes em tempos históricos, quando os Latinos filhos dos primeiros derrotam os Helenos herdeiros dos segundos. O Império Grego sucessor do Assírio e do Persa acaba também ele por ser conquistado pelo nascente poder imperial Romano. Nada que o Príncipe dos Poetas Lusitanos não tenha referido na epopeia que o celebrizou, afirmando ter a vitória definitiva do mundo moderno sobre o antigo sido obtida pelo engenho e arte dos filhos de Luso.

Nos dias em que se comemoram os Quinhentos Anos do autor d'Os Lusíadas, seria bom começar a depurar a sua vida vivida das fábulas que lhe estão associadas e lhe dão corpo e colorido. Deve ser sina dos criadores laureados dos heróis épicos da imaginação. Do rapsodo da cólera de Aquiles e das odisseias de Ulisses nada se sabe, do cantor das façanhas marítimas de Vasco da Gama pouco mais ou nada. A meio milénio de distância, já seria altura de passar dos mitos e contramitos do Trinca Fortes, Pinga Amor e Cavaleiro da Fortuna aos factos de vida de facto vivida por aquele que com uma mão na espada e noutra a pena chegou até à nossa memória presente rumo às futuras perdidas na bruma do tempo.