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12 de setembro de 2025

Murasaki Shikibu, a história do Hikaru Genji, o Príncipe Brilhante

どの天皇様の御代であったか、女御とか更衣とかいわれる後宮がおおぜいいた中に、最上の 貴族出身ではないが深い御愛寵を得ている人があった。最初から自分こそはという自信と、親 兄弟の勢力に恃む所があって宮中にはいった女御たちからは失敬な女としてねたまれた。その 人と同等、もしくはそれより地位の低い更衣たちはまして嫉妬の焔を燃やさないわけもなかっ た。夜の御殿の宿直所から退る朝、続いてその人ばかりが召される夜、目に見耳に聞いて口惜 しがらせた恨みのせいもあったかからだが弱くなって、心細くなった更衣は多く実家へ下がっ ていがちということになると、いよいよ帝はこの人にばかり心をお引かれになるという御様子 で、人が何と批評をしようともそれに御遠慮などというものがおできにならない。御聖徳を伝 える歴史の上にも暗い影の一所残るようなことにもなりかねない状態になった。高官たちも殿 上役人たちも困って、御覚醒になるのを期しながら、当分は見ぬ顔をしていたいという態度を とるほどの御寵愛ぶりであった。唐の国でもこの種類の寵姫、楊家の女の出現によって乱が醸 されたなどと蔭ではいわれる。今やこの女性が一天下の煩いだとされるに至った。馬嵬の駅が

O cume das letras japonesas de sempre é tido, por muitos, como o romance mais antigo de todos. Outros, mais contidos, preferem vê-lo como uma das obras matriciais da ficção universal, gizadas pela verve criativa humana, ou, apenas, candidata a primeiro conto, novela ou romance do mundoTeria, também, as caraterísticas dum relato psicológico traçado à sombra duma saga familiar semi-histórica, oriunda do Império do Sol Nascente durante a vigência do período Heian (794-1185). Esse feito notável deve-se ao pincel de escrita da dama de honor da corte imperial conhecida por Murasaki Shikibu (973/978-1014/1031), que numa dezena de anos compôs os 54 livros, rolos ou manuscritos de extensão variável d'O Romance do Genji (c. 1005-1014), traçados com elegância e arte em carateres silábicos kana.

Tomei conhecimento deste relato monumental nas páginas iniciais redigidas pelo ensaísta britânico Felipe Fernández-Armesto, no não menos volumoso Milénio. A história dos últimos 1000 anos (1995), mas só agora tive a ocasião de o ler parcelarmente na versão portuguesa da Relógio d'Água. Esta visão incompleta reside no facto da editora se ter limitado a publicar em dois tomos os 33 capítulos da Parte I do texto, designado «Esplendor», sem clarificar se estará ou não previsto nos seus projetos imediatos dar à estampa os 21 capítulos remanescentes da Parte II, constitutivos da apelidada «Impermanência» e dos «Livros de Uji». Seria uma boa iniciativa editorial, a fim de termos um conhecimento integral de todos os pormenores do percurso existencial do Hikaru Genji, o Príncipe Brilhante, e da linhagem por si gerada, bem como da totalidade das 795 waka, poemas de 31 sílabas, adaptados à poética portuguesa distribuídos predominantemente por estrofes de cinco versos de redondilhas menores/maiores, numa aproximação vizinha da métrica originalPedir um pouco mais, seria ainda incluir algumas das 80 ilustrações resistentes à voragem dos anos alusivas aos eventos abordados neste imenso prosímetro de intrigas políticas, aventuras amorosas, a sensualidade e o refinamento duma escrita feminina produzida num ambiente cortesão de ócio generalizado.

Um passar de olhos rápido pela estrutura deste «romance» nipónico permite-nos observar, ato contínuo, o quanto se afasta da tessitura narrativa helénica estabelecida mil e tal anos antes por Cáriton de Afrodísias no Quéreas e Calirroe (séc. I EC), este, sim, o mais antigo relato romanesco completo que até nós chegou, precedido dos fragmentos dispersos de muitos mais. De facto, se cotejarmos os amores constantes e aventuras peregrinas vividos pelo jovem casal de protagonistas gregos do período alexandrino, apercebemo-nos de imediato o quão distantes se encontram dos amores fugazes, frívolos e inconstantes do herói central da efabulação japonesa, fruto das fartas paixões efémeras, libertinas, volúveis, irrefletidas, adstritas aos padrões tolerados pelo clã Fugiwara, cujos membros se haviam tornado nos autênticos senhores do país. No contexto histórico em que são plasmados os factos reais/imaginários convocados, tanto no modelo ocidental como no oriental, permite-nos aceitá-los como naturais, que culturas diametralmente opostas poderiam gerar testemunhos logicamente distintos.

Malgrado o caráter inacabado já referido desta versão, assinale-se o cuidado tido na sua tradução e lançamento no mercado para um público comum, pouco familiarizado com um universo de referências civilizacionais tão distante do nosso. Nestes termos, destaque-se a importância crucial desempenhada pelo prefácio, anexos e notas, para entender melhor os sentidos obscuros deste monogatari, i.e., desta «narrativa de coisas», vertido por comodidade verbal no termo romance registado no título do livro. É através destes auxiliares de leitura ou guias de viagem pelo entorno histórico de imperadores e imperatrizes, de príncipes e princesas, de altos dignitários, de damas e cortesãos, que penetramos neste macrocosmo sofisticado de subtis perfumes, refinados trajes, singulares cores, de festas, certames, festivais, cerimónias e ritos mil, onde o gosto pela pintura, poesia, música, dança, literatura, arquitetura, educação e religião se estiram ao longo dum número desmedido de manuscritos elegantemente caligrafados para o porvir. A história do Genji, a apelação honorífica atribuída ao filho dum soberano, a quem é recusado o estatuto de shinnô ou Príncipe de Sangue. Este o tal romance que relata a saga do fundador (gen) duma nova linhagem (ji) de senhores, súbditos e descendentes do clã (uji), iniciado pelo herói central desta crónica medieval nipónica milenar.


EPÍGRAFE
«Houve uma pessoa que foi favorecida por Deus. Desde o início, ela confiou em si mesma e no poder dos pais e irmãos, e as senhoras que entraram na corte invejaram-na por ser uma mulher desrespeitosa. Não havia como as outras pessoas que estavam no mesmo nível daquela pessoa, ou até mesmo em status inferior, não sentirem as chamas do ciúme. Pela manhã, quando se retirou do serviço noturno no palácio, e na noite em que foi o único a ser convocado, muitos deles voltaram para a casa dos pais, com o corpo enfraquecido pelo rancor que ouvira com os olhos e ouvidos, e o coração enfraquecendo. Quando se trata de pessoas que tendem a curvar-se, o Imperador parece estar completamente atraído por essa pessoa, e não importa o quanto as pessoas o critiquem, ele não se consegue conter. A situação chegou a um ponto em que existe a possibilidade de que permaneça uma sombra escura na história que transmite as virtudes sagradas. Ele era tão querido que os altos funcionários e altos funcionários ficaram preocupados e decidiram fechar os olhos por enquanto, esperando que ele acordasse. Diz-se a portas fechadas que mesmo na Dinastia Tang, o aparecimento deste tipo de princesa favorita, uma mulher da família Yang, causou uma rebelião. Esta mulher passou a ser considerada o pior incómodo do mundo. A Estação Mabeng pode ser recriada a qualquer momento.»
Murasaki Shikibu, O romance do Gengi (c. 1005-1014)

6 de março de 2025

Haruki Murakami, a busca do carneiro selvagem com uma estrela no dorso

「言いたくないんなら、言わなくてもいい」と男は言った。「その代わり君が羊を探し出すんだ。これが我々の最後の条件だ。今日から二ヵ月以内に君が羊を探し出せれば、我々は君が欲しいだけの報酬を出す。もし探し出せなければ、君の会社も君もおしまいだ。それでいいか?」
 村上春樹, 『羊をめぐる冒険 (1982)

Ao que consta, Haruki Murakami terá obtido o seu primeiro grande sucesso editorial dentro e fora das fronteiras insulares do Japão com o Em busca do carneiro selvagem (1982). Para quem entrou em contacto com a sua obra publicada em data posterior, as frases e páginas iniciais deste romance remetem-nos de imediato para a arte de contar muito especial deste eterno candidato ao Prémio Nobel da Literatura, galardão este que, com toda a probabilidade, nunca virá a receber. Palpites que, para o autor, pouco ou nada afetarão ou tirarão aos seus fiéis leitores, espalhados pelas várias partes do mundo, a vontade e prazer de viajar pelas histórias por si criadas ao longo dos tempos. Junta-se ao enorme rol de escritores ostracizados por Estocolmo e com mais ledores do que muitos dos distinguidos pela Academia Sueca.

O mais estranho neste texto maiormente Estranho, enquanto género teórico da literatura do insólito, é a omissão clara de sérias fugas da esfera do natural para a do sobrenatural, ao invés do verificado em títulos mais recentes. A presença dum Fantástico de hesitações seguidas no rasto das diversas variantes do Maravilhoso, nitidamente assumido, atestado e aceite, primam pela ausência. Tudo se passa num ambiente nipónico atual ‒ ou daquele em que foi captado pela ficção, centrada na década de 70 ‒, povoado por personagens sem nome próprio e apelido ou reduzido a etiquetas estereotipadas, provenientes do imaginário infantil dos contos da carochinha, nem sempre maiusculizados ou reduzidas a uma mera sigla, tais como maria-vai-com-todos, Líder Supremo, Homem Estranho, Rato, J., Condutor, Professor Carneiro, homem-carneiro, bem como ao «eu» implícito ou explícito do narrador, um jovem publicitário de Tóquio, divorciado e a caminho dos 30 anos de idade.

A badana de abertura da versão portuguesa, dado à estampa pela Casa das Letras, resume em três curtos parágrafos as linhas gerais que estruturam o relato, notas precisas que as casas distribuidoras depois registam ipsis verbis nas suas páginas de divulgação digital. Em poucas palavras, envia-nos para a tarefa detetivesca imposta ao relator-ator de encontrar um carneiro selvagem, invulgar, diferente dos demais, por exibir uma mancha de nascença em forma de estrela gravada no dorso e ser possuidor de propriedades extraordinárias que ultrapassam a compreensão humana. É certo que as oito partes e quarenta e três capítulos, enquadrados por um Prelúdio e um Epílogo, nos fornecem um número desmedido de pormenores pouco práticos de elencar neste espaço, mas que a arte do grande mestre japonês de associar palavras faz muito melhor nas mais de três centenas e meio de páginas que compõem a crónica de factos acontecidos ou tidos como tal. Leiamo-los com proveito e deleite. Não custa nada.

Na reta final do relatório investigativo redigido em forma de romance, ouvimos um dos partícipes afirmar estar morto, confissão singular de âmbito irreal até então afastado e que, à luz dos eventos até então revelados, nos leva a duvidar da sua veracidade. O predomínio dos sonhos descritos pelo fabulador leva-nos a dirigir a natureza de tal testemunho para o domínio restrito/total do imaginário onírico ou até do ilusório, causado pela solidão extrema a que se vira condenado. Coagido pelas exigências persecutórias do mandatário, sujeito às alucinações geradas por um coágulo de sangue no cérebro ou nas drogas tomadas para o debelar, o detetive forçado vê-se obrigado a achar o paradeiro do carneiro estrelado, suposto causador de todos os delírios prodigiosos, como o de invadir o corpo das pessoas, pondo ponto final às suas buscas policiais e relato das mesmas. Fá-lo à sua maneira, sem apelo nem agravo. Refaz o seu estilo de vida e prepara-se para encetar um novo capítulo da sua existência, longe agora do olhar atento dos leitores, que, ao fecharem o livro, já estarão à espera de de encontrar um outro, feito à medida única do grande criador de heróis/anti-heróis da imaginação literária.

EÍGRAFE
«- Não és obrigado a falar, se não queres – referiu o homem. – Em vez disso, vais partir em busca do carneiro. São essas as nossas condições. Se dentro de dois meses, a partir de agora, conseguires dar com o carneiro, estamos dispostos a oferecer-te a recompensa que pedires. Agora, caso não o encontres, tanto tu como a tua empresa estarão acabados. De acordo?»
Haruki Murakami, Em busca do carneiro selvagem 
(Lx: CdL, 2007; P.6, cap.18, p.155)

29 de agosto de 2024

Haruki Murakami, o país cyberpunk das maravilhas e o fim do mundo surrealista

私は死ぬこと自体はそんなに怖くはなかった。ウィリアム・シェイクスピアが言っているように、今年死ねば来年はもう死なないのだ。考えようによっては実に簡単なことだ。しかし死んだあとで頭蓋骨を棚に並べられて火箸でこんこんと叩かれるというのはどうもあまり気がすすまなかった。死んだあとまで、自分の中から何かをひっぱりだされることを考えただけで私の気は|滅《め》|入《い》った。生きることは決して容易なことではないけれど、それは私が私自身の裁量でやりくりしていることなのだ。だからそれはそれでかまわない。『ワーロック』のヘンリー・フォンダと同じだ。しかし死んだあとくらいは、静かにそっと寝かせておいてほしかった。私は大昔のエジプトの王様が死んだあとでピラミッドの中に閉じこもりたがった理由がよくわかるような気がした。
村上春樹 「世界の終りとハードボイルド・ワンダーランド」(1985)

Haruki Murakami é um fabulista singular. Cada vez me convenço mais disso. A escassa meia dúzia de romances que passou pelo meu crivo de leitor atento leva-me a esta convicção, apesar de ainda desconhecer grande parte da sua já vasta criação literária. Viajou comigo estas férias de verão O impiedoso país das maravilhas e o fim do mundo (1985), cujo título, por si, não foge à regra aludida, por nos remeter para um amplo cenário de sugestões insólitas comprovativas das suspeitas referidas.

Se tivéssemos de selecionar uma palavra-chave para caraterizar a totalidade do relato, a escolha do vocábulo estranho seria de longe o eleito, tanto por ser um dos mais repetidos e flexionados pelas instâncias produtoras de discurso, como pela essência dos eventos reportados ou vividos pelos agentes centrais/laterais que lhes dão visibilidade ou protagonismo. Se entretanto nos deslocarmos do campo lexical para o semântico dos géneros poéticos, o caso muda de figuraA mera explicação natural das singularidades instadas fracassa em todas as linhas, surgindo de modo irreversível e imediato a premência de recorrer à aceitação sobrenatural do maravilhoso, a rondar de muito perto a esfera alotópica da ficção científica. Tzvetan Todorov e Umberto Eco definem muito bem as etiquetas teóricas acima apontadas.

A estranheza dominante nas cinco centenas e meia de páginas de texto nasce logo na capa do livro, cuja dualidade ecoa depois de o abrirmos e esbarrarmos com uma lídima história paralela dum dois em um, repartida alternadamente pelo país das maravilhas e pelo fim do mundo, a ocuparem nessa ordem vinte capítulos ímpares e outros tantos pares. Em ambos os casos, temos um narrador anónimo de primeira pessoa a partilhar as aventuras surreais por si passadas com um punhado de figurantes também carentes dum nome próprio. Tal como nos contos infantis, limitam-se a ser designados pelo aspeto físico ou ação laboral: Professor, Rapariga Gordinha, Bibliotecária, Calmeirão e Minorca, Guardião, Leitor de Sonhos, Coronel, Sombra, Encarregado da Central Elétrica, Homens e Mulheres.

Sem querer revelar os meandros labirínticos da intriga, digamos que entre os Programadores do Sistema e os Semióticos da Fábrica, com os Invisíveis de permeio, o destino do jovem sujeito de enunciação de Tóquio vai-se traçando numa aproximação-fusão paulatina com o repórter dos eventos ancorados na Cidade dos unicórnios de pelagem multicolorida nas estações quentes e dourada nas frias. As pistas ténues, subtis, suaves, discretas, imperceptíveis, distribuídas às mãos cheias no decorrer do duplo ato narrativo e efetuadas em momentos diferentes, recuperam o ponto de ligação perdido no final da viagem forçada do velho mundo real consciente para o novo mundo imaginado pelo subconsciente do herói/anti-herói relator dos dois cronótopos efabulados.

Os avanços científicos aflorados dispensam a antecipação dum porvir vindouro mais ou menos distante do nosso universo de referências. Tudo se passa nos nossos dias, naqueles que balizaram a escrita e publicação da obra, já lá vão cerca de quatro décadas, numa época em que o Japão e a aldeia global já desenhara cenários distópicos pautados pelos ditames da alta tecnologia. A inventiva literária tem explorado esse filão de associar a cibernética e o punk alternativo, de criar interfaces funcionais entre os computadores e o sistema nervoso interno. Em linhas gerais, o grande mestre das letras nipónicas ensaia nesta ficção a sua forma pessoal de encarar o subgénero diegético do cyberpunk. Fá-lo através das vozes sem nome das personagens que lhe dão vida e nos representam a todos nós. O protagonista é submetido sem para isso ter sido ouvido numa dessas experiências aberrantes e o resultado deixa-se ver no testemunho que nos legou. No final das suas peregrinações pelos subterrâneos pós-modernos, em que viveu mergulhado os seus 35 anos de idade, conquista pela primeira vez o ensejo de exercer o livre-arbítrio, de escolher um dos dois mundos retratados. Os leitores, todavia, terão de esperar até às últimas palavras por si proferidas. Respeitemos-lhe a vontade e saibamos lê-lo sem interrupções até então.

EPÍGRAFE
«Não era propriamente a ideia da morte que me aterrorizava. Como disse William Shakespeare: "Morre este ano e não terás de morrer no próximo." De um certo ponto de vista, convenhamos que a coisa  parecia muito simples. No entanto, a ideia de que, depois de morto, a minha cabeça seria colocada numa prateleira e alvo de pequenos toques dados com pinças não me entusiasmava. Mais: deprimia-me pensar que, uma vez morto, alguém pudesse extrair algo dentro de mim. A vida não é fácil, mas uma pessoa sempre pode ir gerindo o seu destino de acordo com a sua consciência. Como acontece com a personagem de Henry Fonda no filme O homem das pistolas de ouro. Ao menos gostaria que me deixassem descansar em paz. Julguei compreender o desejo manifestado pelos faraós do Antigo Egito, no sentido de serem enterrados no interior das pirâmides.»
Haruki Murakami, O impiedoso país das maravilhas e o fim do mundo (Lx, CdL: L1, cap. 5, p.74)

12 de julho de 2023

Natsume Sōseki, Kokoro: as batidas do Coração ou o testamento do Mestre

『私だからここでもただ先。はその人を常に先生と呼んでいたこれは世間を憚。生と書くだけで本名は打ち明けない はば かる遠慮私はそ。その方が私にとって自然だからである、というよりも筆。といいたくなる」先生「すぐ、の人の記憶を呼び起すごとにを執 と よそよそしい頭文字。っても心持は同じ事である。ても使う気にならな。』

Li algures por aí ser Natsume Sōseki considerado um dos mais apreciados ficcionistas japoneses e ser Kokoro: o Testamento do Mestre (1914) o seu romance mais lido e conhecido em todo o mundo. Encontrei-o sem dificuldade no passado mês de abril na primeira livraria onde entrei, numa posição de destaque das obras mais vendidas à data da sua edição entre nós pela Presença. Peguei no último exemplar disponível e trouxe-o debaixo do braço para casa. Depois li-o muito lentamente, a fim de degustar à perfeição todas as suas potencialidades e aqui vão as minhas notas de leitura.

Publicado dois anos antes da morte do autor em forma de folhetim num jornal de grande circulação, encontra-se divido em três partes, a rondar as três centenas de páginas. Trata-se dum relato psicológico de primeira pessoa, confiada à pena dos protagonistas, o jovem narrador anónimo [I-II] e o enigmático ancião designado por mestre [III]A estrutura seguida pela entidade emissora externa remete-nos para duas histórias autónomas ligadas pelas cumplicidades tecidas entre si. O mais novo começa por descrever as casualidades que o levaram a conhecer aquele que elegerá como mentor, passando depois a desvelar as particularidades de silêncios e traições do seu entorno familiar, com especial incidência nos pais e tios. O mais idoso envia ao pupilo uma longa carta, onde lhe revela um segredo do seu passado sobre a morte inesperada dum amigo e que apresentará como um verdadeiro testamento de vida.

Ao longo dos 109 capítulos constitutivas da tessitura dramática, o testemunho pessoal das instâncias narrativas estabelece uma série de paralelismos simbólicos que nos conduzem para o final inexorável da Era Meiji (1868-1912), aquela que marcara a viragem definitiva do sistema feudal dos xoguns para o poder central do imperador. A morte anunciada do pai do Narrador por diagnóstico médico e o suicídio do Mestre por confissão epistolar apontam decididamente para esse momento crucial da história recente do País do Sol Nascente, a passagem dum tempo que já era para um tempo dum há de ser. Mas sobre esse período desconhecido das personagens intervenientes na urdidura discursiva nada transpira nem podia transpirar. Provavelmente nem o autor estaria ciente que a agitação bélica então iniciada acabaria por conduzir o Japão para Primeira Grande Guerra e à sua derrota completa na Segunda.  

Finda a leitura dum autor-obra que vi anunciado não sei muito bem onde, fica a fascinante sensação de estranheza ante as confissões postas a nu nas páginas dum livro confiado ao olhar exótico dum leitor ocidental, pouco habituado a decifrar as particularidades ancestrais da sensibilidade nipónica. Estranheza lhe chama Tanikawa Tettsuzō no Prefácio que dedica à história contada por um universitário sem nome de Tóquio e vivida por um conjunto de outros atores nomeados simplesmente por formas educadas de tratamento cerimonioso, com uma equivalência muito relativa entre nós: Sensei (mestre), Okusan (esposa) Ojosan (filha), ou K-san (senhor K). Obscuro também o título kokoro mantido na versão portuguesa, traduzível por coração, a par de afeição, espírito, coragem, determinação, sentimento e até cerne das coisas. Palavra-chave, em suma, para proceder à síntese de todo o texto, centrado nos mistérios do amor e do destino, sem esquecer o poder fundamental da amizade cultivada pelos seres humanos, por certo a experiência mais intensa da vida.

EPÍGRAFE 
Sempre lhe chamei Mestre: é por isso que neste livro também só lhe chamarei Mestre, sem revelar o seu verdadeiro nome. Não é tanto que aos olhos do mundo eu o receasse fazer. Mas este nome Mestre é para mim o mais natural. Sempre que me recordo dele, «Mestre» está nos meus lábios; assim como também quando escrevo, o mesmo nome está sob a minha pena. Nem me ocorre recorrer a frias iniciais.
Natsume Sōseki, Kokoro (1914)