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3 de março de 2026

Trilogia épica lusitana

A epopeia e a tragédia concordam somente em serem, ambas, imitação de ho-mens superiores, em verso; mas difere a epopeia da tragédia, pelo seu metro único e a forma narrativa. E também na extensão, porque a tragédia procura, o mais que é possível, caber dentro dum período de sol, ou pouco excedê-lo, po-rém a epopeia não tem limite de tempo – e nisso diferem, ainda que a tragédia, ao princípio, igualmente fosse ilimitada no tempo, como os poemas épicos.
Aristóteles, Poética. Ed. Eudoro de Sousa. Lisboa: IN-CM, 1994.
[1449b 9-16; cap. v, §24, p. 10]

Uma Epopeia (gr. εποποιία) é, em termos etimológicos, um conjunto de Epos (gr. επος), i.e., uma sucessão de relatos orais mais ou menos autónomos e de origem lendária, ligados por um fio condutor comum. As poéticas deram-lhe depois outros sentidos, baseados todos em maior ou menor grau na visão que lhe foi conferida por Aristóteles. Com um conjunto de episódios protagonizados pelo 5.º rei da 1.ª dinastia suméria de Uruk, compuseram os acádios as 12 placas cuneiformes que até nós chegaram do Gilgameš. O mesmo fez Homero em grego com a Ilíada e a Odisseia e Virgílio em latim na Eneida, bem como muitos outros poetas-cantores em datas posteriores nos mais diversos idiomas.

Camões terá sido o mais fiel continuador da tradição épica antiga. Cavalga à sua maneira o modelo greco-romano e adapta-o à realidade lusitana. Ultrapassa o longo hiato medieval e renasce com todo o esplendor nos tempos modernos, que ajudou a moldar e perpetuar. Os descendentes míticos de Heleno são substituídos pelos de Luso, o Eneias troiano sai de cena e o Gama lusitano ocupa toda a ribalta n'Os Lusíadas. O obreiro do quarto império apaga-se no horizonte mediterrânico e o fundador do quinto império instala-se no grande mar oceano atlântico, índico e pacífico. Os barões assinalados da ocidental praia lusitana transformam-se em heróis coletivos triunfantes a nível global.

Os criadores das Epopeias em Verso abrem as portas às Epopeias em Prosa, a que passámos a chamar Novelas e Romances. A cultura helenística consagrou-as aos amores e aventuras dum jovem casal de protagonistas. Ao invés, Petrónio prefere converter esses heróis exemplares em verdadeiros anti-heróis acabados no Satíricon, numa crítica cerrada aos costumes e à política romana do seu tempo. As aventuras/desventuras vividas por Fernão Mendes Pinto no Oriente são arroladas na Peregrinação, substituindo os heróis com nome da epopeia clássica camoniana pela arraia-miúda anónima, sem a qual os nomeados pelo vate consagrado seriam  sequer lembrados pelos anais oficiais.

O rio da literatura tem sido pródigo em fazer sulcar nas suas águas os relatos épicos das grandes navegações realizadas pelos muitos nautas que as efetuaram e dos naufrágios que as acompanharam. Assim ocorreu no regresso de Ulisses a Ítaca ou nas tópicas viagens dos peregrinos centrais da ficção diegética greco-bizantina. Vitoriosos todos eles tiveram os fados mais a seu favor do que o sem-número de embarcados tragados pela fúria dos mares nos domínios imperiais da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia. Muitos deles são referidos nos doze relatos compilados por Bernardo Gomes de Brito na História Trágico-Marítima. E assim a trilogia épica lusitana se fez: heroica, peregrina e dramática.  

Luís de Camões, Os Lusíadas (1572) - Fernão Mendes Pinto, Peregrinação (1614)
Bernardo Gomes de Brito, História Trágico-Marítima (1735-1736)

20 de novembro de 2024

Pilares marítimos da cultura portuguesa

Laterais: folhas de rosto d'Os Lusíadas (1572 ) e das Flores de Música (1620)
C
entro: gravura alemã dos «Jerónimos» (1650) e «Painel do Infante» (c. 1450)
Inferior: anotação musical dum Tento de Manuel Rodrigues Coelho

TESE MARÍTIMA
«A força atrativa do Atlântico, esse grande mar povoado de tempestades e de mistérios, foi a alma da Nação e foi com ele que se escreveu a história de Portugal.»
Jorge Dias, Os elementos fundamentais da cultura portuguesa (1950)

Espinhosa tarefa essa de estabelecer os elementos fundamentais duma determinada cultura, sobretudo se se referir a uma realidade multissecular como é o caso da nossa. Jorge Dias ousou fazê-lo em 1950, quando apresentou no I Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, realizado em Washington, uma tese subordinada a essa temática na secção de antropologia cultural. Identificou as dificuldades sentidas e centrou o resultado do seu trabalho na força atrativa do grande mar oceano, exercida desde na configuração da personalidade-base do país, que sintetiza em quatro pilares ou formas de pensar do génio criador português e canaliza para a criação literária, arquitetónica, pictórica e musical. Ei-los.

O edifício identitário nacional tem como suporte poético máximo Os Lusíadas (1572) de Luís de Camões. Assente nos dez cantos de oitavas decassilábicas, a grande viagem de descoberta do caminho marítimo para a Índia justifica perfeitamente a linha central de raciocínio seguido pelo etnólogo na sua comunicação. Vasco da Gama é erguido à categoria de herói épico, desenhado à maneira dos seus antecessores gregos e romanos, assume o comando da expedição, encarrega-se de relatar aos seus anfitriões orientais as glórias pretéritas do povo luso por si representado e prepara naquele tempo histórico ali vivido a revelação antecipada das muitas glórias vindouras a efetuar nos quatro cantos da terra e do mar.

A celebração das expedições às terras dos Algarves, Guiné, Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia, feitas nos mares oceanos ocidentais e orientais no período áureo das navegações, encontra-se exaltado em pedra no Mosteiro dos Jerónimos (1501-1601), entendido como padrão comemorativo da expansão marítima global efetuada sob a égide da Casa de Avis. Os elementos evocativos dos novos mundos visitados encontra-se copiosamente representada no complexo monumental de Belém, rendido ao manuelino então predominante e replicada em muitos outros edifícios de traça sacra e civil dessa e doutras épocas. É o caso dos túmulos escolhidos pelo revivalismo romântico para os túmulos do poeta e navegador festejados ali sepultados.

A ereção da ilustre casa lusitana prossegue com o Políptico (c. 1470) de Nuno Gonçalves, atualmente exposto nas Janelas Verdes no Museu Nacional de Arte Antiga. A eleição desta obra paradigmática da cultura portuguesa deve-se ao facto de no designado painel do Infante se encontrar a alegada figura de D. Henrique, o grande impulsionador da política das viagens marítimas, por isso mesmo cognominado o Navegador. Tudo seria perfeito se se desse o caso do enigmático homem do chapeirão ser o elemento mais famoso da Ínclita Geração. Polémicas à parte, parece não caber dúvidas que o Senhor de Sagres se encontra representado numa das tábuas quatrocentistas. Soluções alternativas credíveis não faltam.

O mais intrigante pilar indicado pelo conferencista na capital federal dos Estados Unidos da América, em meados do século passado, assenta nas Flores de Música (1620) de Manuel Rodrigues CoelhoA questão que de imediato se coloca é detetar a presença do mar nos Tentos para órgão, cravo e arpa ali coligidos pelo mestre de capela alentejano das catedrais de Badajoz, Elvas e Lisboa. A resposta só se poderá obter através da audição atenta das peças e à visão das respetivas partituras. A sucessão de subidas/descidas presentes nas composições perfeitamente visíveis na ondulação sistemática das notações musicais orientadoras da execução/navegação harmoniosa das melodias instrumentais ali desenhadas com engenho e arte.

À distância de sete décadas e meia de ter sido proferida, a tese marítima de Jorge Dias continua a ser editada, lida e comentada nos nossos dias. Mantém-se atual, apesar de não poder ser entendida dogmaticamente como uma constante perene da cultura portuguesa. A presença do mar foi muito discreta nos períodos limítrofes do Renascimento-Maneirismo-Barroco que moldaram a nossa idade dourada. Desempenhou um papel muito discreto nos tempos medievais e assim permanece nos contemporâneos. Outros pilares teriam de ser evidenciados, na certeza, porém, de se encontrarem forçosamente na sombra dos traçados pelo espírito criador lusitano do nosso devir histórico pretérito a apontar para o vindouro.

Jorge Dias, Os elementos fundamentais da cultura portuguesa. Lx: INCM, 1950

8 de julho de 2024

Filhos & Pecadores

O Pecado Original e a Expulsão do Paraíso
Michelangelo Buonarroti, Vaticano - Cappella Sistina, 1508-1512 
O Senhor Deus disse: «Eis que o homem, quanto ao conhecimento do bem e do mal, se tornou como um de nós. Agora é preciso que ele não estenda a mão para se apoderar também do fruto da árvore da Vida e, comendo dele, viva para sempre.»
O Senhor Deus expulsou-o do jardim do Éden, a fim de cultivar a terra, da qual foi tirado. Depois de ter expulsado o homem, colocou, a oriente do jardim do Éden, os querubins com a espada flamejante, para guardar o caminho da árvore da Vida.
Génesis. 3, 22-25

Era uma vez um deus sem nome que, para ocupar o tempo que não lhe faltava, resolveu criar um jardim pessoal e entregá-lo de guarda ao homem, um ser semidivino feito com barro amassado em água e animado com o sopro divino do demiurgo. Foi-lhe porém vedado o pomo do conhecimento, o que não se coibiu de infringir e sofrer as consequências, ser expulso do vergel que lhe havia sido confiado por ter cometido o designado pecado original.

Era uma vez um herói tebano que matou o pai e casou com a mãe. Subiu ao trono vago da cidade órfã do rei caído às mãos do filho e originou uma das tragédias áticas mais modelar da paideia grega antiga. O novo tirano tinha os dias e as noites contados pela poder punitivo do pai dos deuses olímpicos. Os erros juvenis conscientes cometidos pelo soberano assassinado deveriam ser assumidos na íntegra pelos atos inconscientes do herdeiro real.

Era uma vez um filho-do-vulgo que ideou ser um filho-de-algo, apesar do pai ser um mero presidente eleito duma res publica secular. Como infante lusitano ou príncipe real que julgava ser, começou a exercer um forte tráfico de influências em nome do progenitor, que conduziria a um resultado inesperado e um desfecho desconhecido. O pai virou-lhe as costassacudiu a chuva do capote e sem dó nem piedade arremessou todas as culpas para o filho.

Se na transgressão bíblica, o pecado original recai sobre os pais, que o legam aos filhos; se na hybris helénica, a perversidade do pai recai sobre o filho, que não a transmite a ninguém; no caso atual, o abuso do filho é delatado pelo pai que o incrimina de tudo. Cá se fazem se pagam. Amigos amigos, negócios à parte, ou, como sói dizer-se, quando o mar bate na rocha, quem se lixa é o mexilhão. E assim se gizam os mitos, as lendas e as histórias.

ADÃO E EVA NO PARAÍSO
(Painel de colmeia séc. xix)

10 de abril de 2024

Os pomos de ouro ou da discórdia

Lord Leighton, The Garden of the Hesperides (1892)

HELÉNICAS, LATINAS & LUSITANAS
maçãs laranjas tomates marmelos melões

Dizem os mitos dum tempo sem tempo, que os tempos com tempo transformaram em lendas, haver nas margens do rio Oceano, onde o Sol se põe, um horto pejado de pomos de ouro plantadas por Hera no Jardim das Hespérides, a morada das ninfas defendida por um dragão com corpo de serpente munido duma centena de cabeças vigilantes. Apesar da agrura da tarefa, Héracles logrou eliminar o feroz monstro guardião e apoderar-se do cobiçado fruto.  

Dizem as lendas antigas, que os ditos recentes reduziram a histórias dum diz que diz sem fim à vista, referirem-se esses pomos dourados a lídimas MAÇÃS de ouro de poderes divinos prodigiosos. Associá-los, v.g., a Éris, à deusa grega da Discórdia. Esta, despeitada por não ter sido convidada para o casamento de Peleu e Tétis, encarregou Páris de entregar um desses frutos à mais bela das deusas, ponto de partida para a sangrenta Guerra de Troia.

Dizem as histórias atuais, com que o imaginário coletivo transfigurou os mitos e lendas ancestrais sobreviventes à voragem do tempo, serem as LARANJAS dadas como as maçãs douradas existentes nesse paraíso perdido à beira-mar plantado. O grego moderno até aponta para o nosso país, ao designar o citrino por πορτοκάλι [portokáli], imitado por uma diversidade doutros idiomas, pese embora o facto do cultivo ser relativamente recente entre nós.

Dizem por que o contramito da laranja mítica lusitana esbarra com a hipótese rival italiana de converter as maçãs douradas helénicas em TOMATES (pomodoros). Pomo da Discórdia nascido na antiguidade clássica, que se designa em latim uma «maçã doce» por melimellu, derivado grego de μελίμηλον [melimelon], para nomear o MARMELO, identificado à data com os seios divinos de Vénus/Afrodite, a deusa escolhida por Páris como a mais bela do Olimpo.

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Mitos e contramitos à parte, as histórias da História dizem-nos que urge achar os tais pomos de ouro sem discórdias à mistura. Maçãs, laranjas, tomates, marmelos. Tanto faz. Dadores do metal sonante amoedado com que se compram os MELÕES, amarelos por dentro e multicores por fora. Suculentos, saborosos, nutritivos. A provarem por a+b que nem tudo o que luz é ouro é como maçãs de ouro em salvas de prata enchem o olho e pouco mais.

26 de fevereiro de 2024

A maçã-de-elefante, bolsa-de-pastor ou fruta-cofre da árvore das patacas

DILLENIA INDICA

Contam as histórias com história que a lenda da árvore-das-patacas terá nascido no hemisfério sul, após a debandada da Corte Lusitana para Terras de Vera Cruz. A crença na existência duma árvore capaz de dar frutos repletos de moedas anda associada à dillenia indica, speciosa ou elongata, planta oriunda das Índias Orientais introduzida nas Índias Ocidentais durante a vigência da política imperial botânica dos Bragança. A particularidade que celebrizou essa espécie reside no facto das suas pétalas se fecharem sobre o centro das flores para produzir o respetivo fruto. 

Com o propósito de ministrar uma formação pedagógica adequada para o herdeiro, D. João VI ter-se-á aproveitado das propriedades insólitas da dilénia índica, colocou uma moeda de pataca numa das suas flores para que gerasse a maçã-de-elefante, bolsa-de-pastor ou fruta-cofre da árvore-do-dinheiro ou das patacas. Ao que parece, mais tarde D. Pedro de Alcântara terá usado com sucesso esse subterfúgio para desfazer os sonhos desmedidos de riqueza fácil dos súbditos reais de Portugal e imperiais do Brasil com resultados visíveis ainda nos nossos dias.

A árvore das patacas saiu dos jardins do palácio imperial brasileiro, varou o largo mar oceano e alojou-se de armas e bagagens na selva do partidarismo mediático português em véspera de eleições. Vestiu a roupagem do despudor atrevido e pôs-se a prometer mundos e fundos para resolver todos as crises atávicas que por aí vão pululando. Terá descoberto não se sabe muito bem onde uma nova fazedora vegetal de fundos capaz de cobrir todos os sufocos, um feliz pomo de ouro colhido no Jardim das Hespérides a trocar as velhas patacas há muito tempo caídas em desuso.

31 de dezembro de 2023

São Silvestre e as lágrimas da Virgem

Danuta Wojciechowska, Lenda da noite de São Silvestre (2007)
EPÍGRAFE
Me ha acontecido a veces al afirmar que, si la ciencia de la cultura adoptara los métodos y el lenguaje de la química, sólo iba a descubrir, en el vivo conjunto por la cultura formado, dos «Cuerpos» simples: Grecia y Portugal. Grecia, sím-bolo del espíritu de lo clásico; Portugal, símbolo del espíritu,— que no es logos [razão], pero nous [espírito] de lo barroco. Y el resto, cuestión de dosis.
Eugénio d'Ors, El Barroco (1933)

Helénicas & Lusitanas

A afirmação que pedi emprestada a Eugenio d'Ors como epígrafe é contestada por muitos críticos, mas, o ter sido escrita em espanhol por um grande vulto da cultura catalã sabe muito bem ao nosso ego português de ouvir. Deixando de lado o enfoque contrastivo entre o barroco e o clássico para mergulhar nos domínios da arte em geral, aqueles em que as técnicas geradas pela criatividade humana se aplicam à variedade estética da linguagem, incluindo a verbalização escrita e oral, como poderá ser a nascida no seio da singularidade helénica antiga e atualizada pela imaginação tradicional lusitana.

Busquemos a ligação ancestral desses dois corpos simples num velho relato que Platão desenvolve no Timeu e Crítias. Refere-se ali à Atlântida, uma ilha-continente situada para além das Colunas de Hércules que terá desaparecido do noite para o dia há cerca de 9600 anos. Os eventos chegaram-lhe aos ouvidos inseridos numa longa cadeia de transmissão oral, iniciada por um sacerdote egípcio de Salís, que o confiou a Drópis e este ao avô de Crítias. De boca em boca, os ecos dum desastre natural remoto ganham pouco a pouco o contorno mítico dum castigo dos deuses aos pecados dos homens.

A ambição alentada pelos atlantes de desafiar os céus e conquistar o mundo despertou a ira do Olimpo. No mito platónico, os validos de Poseidon são derrotados pelos pupilos de Atena e a sua arrogância é afogada para sempre nas águas profundas do grande Mar Oceano. Na versão lendária madeirense, a Virgem Maria ouve as palavras piedosas de São Silvestre e oferece aos mortais a possibilidade de se remirem da sua altivez. A última noite do ano deveria assim marcar a fronteira entre o passado e o futuro, dando a todos a esperança duma vida melhor, afastada para sempre dos erros outrora cometidos. 

Das lágrimas de pesar derramadas pela mãe do salvador cristão no exato local onde perecera a Atlântida, surgiria a afortunada ilha da Madeira, por todos conhecida como Pérola do Atlântico. Em honra do papa que patrocinara o nascimento miraculoso do arquipélago oceânico, comemora-se todos os anos a Noite de São Silvestre, a assinalar a passagem do ano velho para o ano novo. E o fogo de artifício lançado a dar as boas vindas ao Ano Bom aí está também a lembrar as pérolas sagradas vertidas pela Virgem Maria. E assim a lenda filosófica helénica se tornou numa lenda etiológica lusitana.

4 de agosto de 2020

Lucette Valensi, Fábulas sebastianistas da memória da batalha dos três reis

« Au lendemain du 4 août, la bataille appartient déjà au passé, mais pas encore pour les Portugais restés au pays. Plus qu'au-jourd'hui, reporters de la presse écrite, cameramen de la té-lévision et détenteurs de téléphone mobile assistent en direct aux événements qu'ils nous présentent, les " nouvelles " étai-ent alors des relations, des récits différés d'actions révolues, Qu'apprit-on, au Portugal, de la bataille du 4 août ? »
                                               Lucette Valensi, Fables de la mémoire: La glorieuse bataille des trois rois (1992, 2009)
Encontrei na pequena livraria do Museu Judaico de Belmonte um livro que procurava em vão uma eternidade, alegadamente por estar muito esgotado, apesar de Lucette Valensi ter visto as suas Fables de la mémoire: La glorieuse bataille des trois rois (1992) publicadas em duas edições francesas e outras tantas portuguesas. Fiquei-me com o único exemplar disponível no local, a versão mais recente da obra, preparada pelas Éditions Chadeigne  Librairie Portugaise, com o apoio do Centre Culturel Calouste Gulbenkian de Paris. Comprei-o há dois anos mas só agora lhe peguei e tenho vindo a seguir os relatos da malfadada incursão bélica do Rei de Portugal no Reino dos Algarves de além-Mar em África, bem como de todos os acidentes extraordinários, associados ao evento. Nela não faltam visões, vozes, aparições, revelações, vaticínios, sinais, alucinações, prodígios, presságios, histórias, lendas, fábulas, milagres, trovas, construções mitológicas e tudo o mais que a memória dos povos foi gizando ao longo dos séculos sobre o maior desastre da História portuguesa, a batalha de Alcácer-Quibir, travada a 4 de agosto de 1578, aquela em que morreram três soberanos: Dom Sebastião, rei de Portugal; Abd al-Mâlik, sultão legítimo de Marrocos; e Moulay Muhamed, o sultão destronado e aliado do exército invasor lusitano. No final da contenda, será  al-Mansûr, o novo senhor do Sultanato Saadiano, a receber de imediato os louros da vitória e, de certo modo, à distância de dois anos, Filipe II de Castela, ao tornar-se Filipe I de Portugal, depois de ter herdado, comprado ou conquistado para os Áustrias a Coroa dos Avis.

Cruzei-me com a Matéria Sebástica  muitas e variadas vezes durante o meu percurso académico, enquanto discente/docente de Línguas, Literaturas e Culturas. Ainda me lembro da popularidade alcançada pelo Quarteto 1111 com A lenda de el-rei Dom Sebastião (1968), uma balada feita ao gosto saudosista da época a recontar de modo cantado os infortúnios d'O Desejado. Depois há ainda os ensaios políticos, os filmes alusivos, os documentários televisivos, as teses académicas, as peças de teatro, a ópera, as poesias, os artigos de revistas, os livros. Destaco um único romance, as Dix mille guitares, composto em 2010 por Catherine Clément, que recenseei para o Pátio de Letras em 2011, repus aqui neste espaço em 2017, reflexão reduzida duma comunicação mais extensa apresentada em 2011 na Uniwersytet Łódzki (Polónia), e publicada em 2014 pela Acta Universitatis Lodziensis, parcialmente disponível na Net. Acrescento a terminar uma conferência que proferi em 2017, na Association Culturelle Portugaise Alma Lusa sediada em Rennes (França), onde a temática foi tratada com todos os pormenores disponíveis. Em ambos as ocasiões, senti vontade de consultar o estudo da professora franco-tunisina de origem judaica, Lucette Valensi, que, como referi, só viria a encontrar numa pequena vila histórica da Beira Baixa em 2018, obra que não consegui vislumbrar nas mais reputadas livrarias da capital da Bretanha.

Nas cerca de quatro centenas de páginas do texto, a investigadora procede à resenha exaustiva de todas as relações investigadas e referentes ao tema d'O Encoberto, as anónimas e as assinadas, as manuscritas e as impressas, as portuguesas e as marroquinas. Menciona também as perdidas, os murmúrios, gemidos e silêncios, através dos testemunhos documentados pelas memórias escritas e orais, individuais e coletivas, imediatas e longínquas, sobreviventes à voragem do tempo. Desenvolve a gloriosa Batalha dos Três Reis, recorrendo às lembranças duma grande carnificina entre cristãos, judeus e muçulmanos. Através dessas Fábulas da Memória, as tais que começaram a ser contadas logo após a contenda e têm vindo a repetir-se mais de quatro centúrias, encontram-se distribuídas por dez capítulos, enquadradas por uma Introdução e uma Conclusão, secções canónicas obrigatórias neste tipo de trabalho, a que não falta, também, um curto Prefácio e uma extensa Bibliografia, para além dum muito completo aparato crítico de Notas, registadas a duas colunas. As diversas versões de vitória/derrota do combate e das suas repercussões na formação do Sebastianismo, entendido como o mais enraizado mito messiânico ou do homem providencial de toda a história cultural portuguesa, porque assente no regresso dum rei salvador do país.

Em 1986 ou 87  se a memória fragmentária dos eventos me não falha , andei pelos percursos bélicos marroquinos trilhados pelo derradeiro Cavaleiro-Cruzado europeu de feição medieval. Efetuei-o integrado numa viagem turística, sem fins peregrinos, organizada por um pequeno grupo de amigos. Entre Ceuta e Fez, fizemos escala em Tânger, Tetuão, Arzila e Larache. Tudo lugares paradigmáticos da Era Imperial portuguesa, que o guia oficial foi referindo com meias-palavras de circunstância e usando a técnica do politicamente correto. Passámos ao largo de Ksar-el-Kebir sem parar, depois de ter atravessado o Wâd al-Makhâzir, o local da batalha, sem ter avistado a ponte arruinada sobre o rio Oued al-Makhâzir, onde as forças invasoras cristãs foram dizimadas e o aliado rebelde muçulmano se afogou. O aqui e o agora também em que o Mito da Cruzada se converteu no Contramito da Decadência, aquele em que o jovem rei de 24 anos terá perdido a vida ou simplesmente desaparecido, para reaparecer, à boa maneira arturiana, numa manhã de nevoeiro, vindo duma ilha encantada, no seu cavalo real, para reassumir o Trono entretanto ocupado a título pessoal pelo tio materno, Filipe I/II de Habsburgo. E assim a história se fez lenda, e assim El-Rei Dom Sebastião passou de anti-herói derrotado pelo Islão nos labirintos da contenda em herói romanesco e prometido conquistador dum Quinto Império Global para a Cristandade. A crença na vinda dum salvador nacional frutificou e espalhou-se por todo o Império, com especial incidência no Brasil, e chegou até aos nossos dias vestido com as roupagens atuais. Continuamos à espera ansiosa duma vacina milagrosa que nos liberte do novo coronavírus, o Covid-19, que nos devolva a normalidade utópica que usufruíamos antes da pandemia. E como a esperança é a última a morrer, façamos fé que esta recente versão do Sebastianismo tenha pernas para andar e nos venha visitar o mais depressa possível. 

Lucette Valensi, Fábulas da Memória (1996, 2008)