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19 de novembro de 2021

Karen Blixen, a história contada de Ehrengarda, a ninfa do lago

En gammel dame fortalte denne historie…
For hundrede og tyve år siden, begyndte hun, fortalte min historie sig selv, over et længere tidsrum end De eller jeg nu kan give til den, og med et mylder af enkeltheder og biomstændigheder, som vi aldrig kan håbe på at lære at kende.
Karen Blixen, Ehrengard (1963)

uma cena no filme de Sydney Pollack, Out of Africa (1985), onde Meryl Streep, a encarnar o papel de Karen Blixen, nos demonstra a capacidade inata que a aristocrata escandinava tinha de contar uma história, de a improvisar de viva voz quando a ocasião surgia e dispunha dum público atento para a ouvir e se deixar envolver pela intriga. Ao passarmos da versão oral para a escrita, a sensação imediata de quem a é a mesma. Tal o caso do Ehrengarda, a ninfa do lago (1963), um conto redigido em inglês, trabalhado depois pela autora e publicado em dinamarquês um ano após a sua morte.

Depois de lidos os livros com dimensão de conto, publicados avulso ou em coletâneas, transpostos ou não para o pequeno ou grande ecrãs, com suporte em vídeo ou bobine de celuloide, o universo imagético criado pela baronesa de Blixen-Finecke possui o dom inato de nos prender à densidade discursiva que nos é dado sempre com a maior economia de meios gráficos e editoriais. Os géneros e subgéneros transmitidos são conjuntamente variados e singulares. A estrutura aparente dum conto de fadas parece ser o modelo seguido neste texto que nos deixou a título póstumo.

A entidade narrativa incumbida de unir as várias vozes que contam a história tem sempre em pano de fundo o testigo duma velha senhora, sua bisavó, através dos escritos por si recebidos dum participante na ação. A crise dinástica dos Fugger-Babenhausen está cindida em três partes/movimentos, anotados na didascálico inicial da comediazinha representada em meados do século dezanove num esquecido e fictício principado livre, alegadamente extinto e diluído no Império Alemão. Ao extenso prelúdio-pastoral-rondó, segue-se um breve epílogo no trecho final da crónica grã-ducal de Lotário (= guerreiro famoso) e Ludmilla (= amada do povo), bem como do desempenho em cena de Ehrengarda (= guarda de honra), a dama de honor da herdeira consorte do trono, a Ninfa do Lago, retratada como Vénus no banho pelo pintor da corte Herr Cazotte.

O raconto deixado inédito pela antiga dona duma quinta africana e senhora absoluta de Rungstedlund nas imediações de Copenhaga, também conhecida por Isak Dinesen, expõe-nos um cenário mágico sem fadas nem bruxas, sem elfos nem duendes, sem feitiços nem varinhas de condão, sem reis nem rainhas, sem sequer dispor dum final feliz. Revela-nos, todavia, alguns segredos de alcova, intrigas de bastidor e duelos travados pelas linhagens dinásticas legítimas e pelos ramos colaterais duvidosos de grão-duques e grã-duquesas, de príncipes e princesas, de damas e cavaleiros de nobreza registada nos anais ancestrais dum país de fantasia. Dá-nos ainda a conhecer o caso irónico dum sedutor que acaba seduzido, singularidades laterais a rivalizar com a centralidade da palavra dita feita escrita.

13 de maio de 2021

Karen Blixen, uma história imortal da baronesa contadora de histórias

„Jeg holder ikke af opspind, jeg holder ikke af profetier. Det er forrykt og uanstændigt at give sig af med uvirkelige ting. Jeg holder mig til virkeligheden. Jeg skal sørge for at forvandle dette stykke opspind til virkelighed
Karen Blixen, Den udødelige historie (1958)

O meu fascínio pela escrita de Karen Christetze Dinesen é antigo e perene. Data do início dos anos oitenta, quando visitei a Dinamarca pela primeira vez. Lidos os livros disponíveis no mercado, me resta voltar às segundas e terceiras leituras que nos trazem sempre algo de novo a explorar desse manancial singular que nos legou, em parte já editado com caráter póstumo. Recomecei a viagem com a História Imortal, um dos cinco contos inseridos na coletânea Anecdotes of Destiny / Skæbne-Anekdoter (1958) e mais tarde impressos avulso.

O exemplar que tenho comigo corresponde à mais antiga tradução portuguesa feita e publicada entre nós da obra da grande contadora de histórias de inspiração gótica, a quem alguém considerou com legítima razão a Sherazade do Século Vinte. Foi-me oferecido pela Sílvia S., residente no país e profunda admiradora da Baronesa Blixen-Finecke, aquando do lançamento pela Assírio & Alvim em 1985 do relato. Escrito originalmente em dinamarquês e vertido depois pela autora para inglês, ou vice-versa, as duas variantes divergem nos pormenores, mantendo, todavia, uma estrutura narrativa idêntica. Para conciliar em parte as discrepâncias encontradas, a versão composta e prefaciada por Aníbal Fernandes seguiu de muito perto a fonte gaulesa que vertera diretamente da escandinava em detrimento da britânica.

Condicionada pelo seu estatuto de mulher, a contista-novelista recorreu a diversos pseudónimos para tornar pública a sua produção literária. O mais divulgado foi o de Isak Dinesen, mas também o de Osceola e Pierre Andrézel, tendência masculinizante mais seguro na época para garantir algum sucesso editorial, prática que as modernas edições têm vindo a desfazer, substituindo-os a todos eles pelo de Karen Blixen, um semiortónimo pelo qual a Baronesa passou a ser reconhecida nos dias de hoje no universo das letras tomadas a nível internacional.

Cruzadas todas as lições disponíveis do texto, incluindo a adaptação cinematográfica de Orson Welles de 1969, fica-nos como pano de fundo o conto que Mr. Clay, um poderoso comerciante de chá de Cantão, mão de ferro e espírito avarento, ouvira em tempos sobre um marinheiro que fora abordado à chegada a um porto por um velho muito rico e lhe propusera, a troco de cinco guinéus, engravidar a jovem esposa que até ao momento lhe não dera nenhum filho a quem deixar a sua imensa fortuna. Ao aperceber-se tratar-se duma ficção repetida de boca em boca como uma anedota em que ninguém acreditava de facto, resolveu torná-la realidade, porque detestava profecias e não era de acreditar em fábulas imaginárias. Assim o pensou, assim o fez, transformando esse seu projeto numa verdadeira história imortal.

Os pormenores seguem nas oito dezenas de páginas imaginadas pela ilustre aristocrata de Rungstedlund, nas imediações de Copenhaga, aquela que esteve casada com um barão sueco, que teve e viu falir uma plantação de café no Quénia e que para sobreviver financeiramente foi obrigada a dedicar-se à literatura aquando do seu regresso ao país natal. Em boa hora o tomou essa decisão, dado a vida do café ser efémera, desaparecendo para sempre depois de plantado, processado, torrado, fervido e bebido, enquanto a vida dum conto bem contado renasce em cada momento que o lemos, podendo ascender à esfera superior da eternidade. Assim aconteceu com esta história imortal cuja perenidade já vinha registada no próprio título com que foi composto, impresso e oferecido aos leitores, que somos todos nós.

26 de novembro de 2018

Henrik Nilsson, um piano em Sesimbra e outras histórias portuguesas contadas em sueco

«En skugga rörde sig. Kanske var det en människa [...] Varje dag badar vi i okunskapen om oss själva.»
Henrik Nilsson, Nätterna, Verónica (2006)
Numa passagem rápida por terras escandinavas, soube da existência dumas histórias situadas em cenários portugueses, idealizadas em forma de conto por um jovem escritor sueco. Sete, para ser mais preciso. Tantos como os dias da criação. De regresso ao palco retangular da ação diegética, dirigi-me ao Pátio de Letras, abrimos em conjunto o mundo em gavetas e topámos a seleta pesquisada, uma partitura assinada por Henrik Nilsson com a designação genérica de Um piano em Sesimbra (2006).

Percorridas as páginas que dão corpo à obra, lidas as imitações de vida nelas contidas, detetei ainda umas historietas adicionais inse-ridas no relato com que abre a compilação. Aquelas que um escritor da capital ouve contar numa noite passada inesperadamente na As-sociação Mourense para Narração Noturna. Um sono inoportuno im-pedira-o de abandonar o comboio no destino programado e obrigara-o a descer n’A última estação da linha. O cego que encontrara junto às sombras da rua, a mulher estrangeira que vira num bar da cidade e o homem que olhava pela janela da sala, tomaram a palavra, centra-ram-se no tema proposto «perder-se» e contaram um a um, até ao amanhecer, a história d’«A mulher dos passos lentos», a história d’«Os rostos» e a história das «Notas perdidas».

O impulso de revelar todos os pormenores das histórias contidas no primeiro conto deste livro de contos é enorme. Todavia, o bom senso necessário nestas ocasiões foi mais forte e impediu-me de revelar os seus segredos assim sem mais nem menos. Que a viagem de cada leitor pelo universo das letras feitas palavras se faça na íntegra, sem interferências estranhas e dispensáveis. Que a paráfrase não substitua a frase. Que a clonagem bem intencionada não mate a surpresa da descoberta pessoal. Fascinante, única, irrepetível. Sensações que a verdadeira arte nos pode e sabe transmitir.

As noites, Verónica, que dão título à versão original da coletânea, levam-nos aos encontros casuais dum investigador português e duma funcionária da limpeza angolana, tidos na sala de leitura da Sociedade de Geografia de Lisboa, e dos diálogos noturnos travados entre mapas, globos, manuscritos e atlas referentes a um império perdido. A versão traduzida remete-nos, em contrapartida, para Um piano em Sesimbra e para as deslocações que um juiz viúvo alfacinha efetua todos os sábados a essa vila piscatória da península de Setúbal, em busca da sonoridade sempre renovada da segunda balada de Chopin, executada por um misterioso pianista, enquanto degusta uma tradicional sapateira.

O protagonismo da grande cidade das muitas colinas, banhada pelas águas azul-esverdeadas do grande rio que lhe traça os limites com a outra banda, é confirmado nos restantes episódios do quotidiano convocados pela ficção. As ruas, praças, avenidas e bairros transformam-se em cenários privilegiados das gentes anónimas que a povoam. Por vezes ganham uma identidade passageira numa personagem que se destaca numa história contada. Os pormenores descritivos que suspendem o tempo encarregam-se de criar a tal expetativa tópica dos filmes de mistério. A secretária dum astrólogo angolano especialista em Aconselhamento espiritual, que vive uma experiência insólita de desespero existencial nos labirintos de Alfama. O despachante alfandegário quase falido que rouba espelhos das casas de banho dos Cargueiros ancorados no cais do Tejo. O vendedor de canais de televisão que imagina uma história de amor e morte vivida n’O terramoto de 1755. O silêncio de Adriana, assumido depois de se ter perdido a confiança no passado e não haver mais nada para dizer.

A habitual autopromoção registada nas badanas e contracapa do livro afirma tratar-se dum conjunto de contos extraordinários, gisados por um autor aplaudido unanimemente pela crítica especializada do país do Prémio Nobel da Literatura. Não duvido da justeza desse juízo de valor, muito embora desconheça a existência doutros títulos que tenha publicado desde então. Espero que a qualidade documentada neste universo narrativo de estreia não fique congelada num tempo cada vez mais passado sem promessas à vista de futuro. Há tantos casos desses por aí que tememos estar na presença de mais um desses sucessos meteóricos de repetição adiada. O ritmo da fábula é forte, a prosa vigorosa, o estilo original. Que venham mais histórias com final suspenso, para que o leitor tome conta do repto, asas à imaginação e se ponha a preencher lacunas e a substituir reticên-cias por pontos finais.

NOTA
Não voltei a ter notícias literárias deste jovem escritor sueco natural de Malmö, desde que há cinco anos o vi traduzido em português, o li com muitos prazer e compus estas notas tornadas públicas no Pátio de Letras. É pena. Trago-o para aqui numa altura em que me apeteceu voltar à sua companhia e ao modo como soube transmitir por escrito a sua sensibilidade artística bebida no nosso país.

6 de julho de 2018

Peter Høeg, as investigações de Smilla Jaspersen sobre os mistérios da neve

Det fryser ekstraordinære 18 grader celcius, og det sner, og på det sprog som ikke mere er mit, er sneen qanik, store næsten vægtløse krystaller, der falder i stabler, og dækker jorden med et lag af pulveriseret, hvid frost.
Peter Høeg, Frøken Smillas fornemmelse for sne (1992)
Numa das minhas visitas a Copenhaga, tive um encontro inesperado numa das livrarias centrais de cidade, a Arnold Busck, na Købmagergade 49. Ia acompanhado duma amiga que ali vive há algumas décadas. Deu-me um toque no braço e perguntou-me se sabia quem era aquele sujeito de cachecol colorido enrolado à volta do pescoço à moda nórdica, que se encontrava a poucos metros de nós a folhear um qualquer livro de título indecifrável. Perante o meu ar de admiração, avançou tratar-se de Peter Høeg, um dos mais aclamados escritores locais do momento. Acabava de publicar um romance que já era bestseller numa trintena de países incluindo o nosso. Pasmei. Até já tinha sido adaptado ao cinema com um sucesso semelhante. Estava a referir-se a Smilla e os mistérios da neve (1992), que consegui encontrar com alguma facilidade no idioma nativo, não muito longe duma versão em inglês. Como o meu conhecimento do dinamarquês se restringe a uma dúzia de palavras mal-pronunciadas, resolvi procurar mais tarde uma tradução para português. Foi o que fiz. Depois deixei-o a repousar tranquilamente no meio de muitos parentes seus até que os dias quentes do Sul lhe ditaram o fim duma hibernação forçada de anos.

A capa-contracapa e badanas avançam logo pistas sobre a natureza da fábula. Filiam-na na esfera dos thrillers escandinavos, onde reina o suspense e o exotismo noir. A suspeita dum crime terrível ocorrida no seio da pequena comunidade esquimó da Gronelândia a viver em Copenhaga funciona como o leitmotiv que norteará a quase meia centena de páginas onde se urdirão todas as intrigas, maquinações, enredos e conspirações anunciados pelos editores nos locais de destaque referidos. A tarefa de desvendar os mistérios escondidos na neve estará a cargo da protagonista, cujo nome nos é revelado no título. Um policial, em suma, com cenário centrado em dois polos distintos do universo dinamarquês, a capital do reino e a antiga colónia dos mares do Norte. Uma informação tão circunstanciada da trama desencadeou um efeito inibidor na minha vontade de avançar com a leitura do livro. É que o efeito da surpresa me parecia seriamente ameaçada de morte. Após uma hesitação passageira, decidi-me pela visita completa a esse mundo branco desconhecido de secretismos revelados em primeira mão e na primeira pessoa. Não me arrependi de o ter feito. Os publicitários nem sempre são tão exagerados como os pintam.

O testemunho pessoal relatado por Smilla Qaavigaaq Jaspersen distribui-se por seis partes, agrupadas em três blocos temáticos: a cidade, o mar e o gelo. As deambulações reflexivas proferidas propiciam-nos uma quase visita guiada pelas ruas, ruelas, praças,  pracetas, avenidas e alamedas de København. A ficção acaba por nos conduzir a espaços emblemáticos tantas vezes percorridos em visitas reais. A Christianshavn, o Kongens Have, o Kongens Nytorv, o Hotel d'Angleterre e La Brioche d'Or, o Dyrehaven, a Frelserkirke e o Amaliansborg. Depois dirigimo-nos para o porto. Embarcamos no Kronos, transpomos o estreito de Øresund, deixamos o Báltico e navegamos pelas águas oceânicas do Atlântico e do Ártico. O estreito de Helsingør-Helsingborg e o castelo de Kronborg ficam para trás e entramos na toponímia algo exótica dum navio de grande cabotagem preparado para as rotas geladas da Grønland. A voz feminina da protagonista-narradora continua a marcar o discurso mas começa a confundir-se com a do autor-romancista, que, antes de se dedicar à arte da escrita, já abraçara as atividades de bailarino, ator, marinheiro e alpinista. Toda uma experiência de vida vivida emprestada às vidas imaginadas.

Um miúdo de seis anos caiu do telhado dum prédio de sete andares e estatelou-se no chão sem vida. A testemunhar essa escalada insensata, ficaram registadas na neve as suas pegadas de criança. O inquérito oficial arrolou o desfecho trágico verificado na categoria dos acidentes. Tudo ficaria por aí se o suspeita de assassinato não tivesse surgido como uma hipótese tornada certeza. É que a vítima tinha pavor às alturas e nunca teria subido até àquele local de livre e espontânea vontade. Assim o pensou a vizinha, convertida em investigadora por conta própria do enigma e relatora dos resultados obtidos. No final, tudo se resolve ou quase tudo. Nessa perseguição sem tréguas para encontrar uma solução plausível do insólito, os perigos sem fim encontrados em cada esquina surgem em catadupa, como cogumelos bravios em terreno propício. Os arrepios causados pelas peripécias de percurso só não atingem um grau maior, porque sabemos tratar-se duma ficção realista verbalizada por um eu singular concreto, humano, abrangido pelas leis do natural, obrigado a sobreviver até ao derradeiro parágrafo, período e palavra escrita em letra de imprensa. E nada mais fica por dizer quando não há mais nada para dizer.

5 de fevereiro de 2016

Karen Blixen, contos de inverno com sabor dinamarquês

"Tragedy should remain the right of human beings, subject, in their conditions or in their own nature, to the dire law of necessity. To them it is salvation and beatification." 
Karen Blixen, "Sorrow-Acre", IN Winter's Tales (1942)
Entretive-me este inverno a reler os Contos de inverno (1942) e os Novos contos de inverno (1957) de Karen Blixen. Um sol estival em plena estação hibernal. Milagres meteorológicos promovidos pela república das letras. A viagem de revisitação às duas coletâneas de textos, redigidos originalmente em inglês com o pseudónimo de Isak Dinesen, iniciou-se na capital dinamarquesa, na passagem do Natal de 2015 para o Ano Novo de 2016. Boas saídas, melhores entradas. Fi-lo através duma edição avulso de «Uma temporada em Copenhaga», título bem apropriado para avivar a memória dum conjunto de relatos que me foram apresentados há cerca de duas décadas. Encontrei-os a olhar para mim nos expositores da livraria da Rungstedlund, a Casa Museu da autora, situada nas costas bálticas do Øresund com vista para a Suécia. As imagens fixadas por Sydney Pollack na versão filmada do África minha (1985) estavam ainda muito vivas nas minhas retinas, levando-me a testar a facilidade que a protagonista tinha de contar histórias e de cativar os ouvintes com a sonoridade das suas palavras. Quis juntar-me ao auditório, partilhar esse privilégio de sedução verbal e adquiri todos os títulos que ali achei então à minha inteira disposição. 

E a inventora de heróis da imaginação começou logo a segredar-me ao ouvido, em jeito de confidência, o caso dum jovem aprendiz de marujo, que salvou um falcão e foi salvo por uma lapoa; a aventura dum escritor infeliz no porto de Antuérpia, que queria fugir da própria vida; o símbolo misterioso dum colar, que tinha uma pérola suplementar; os artifícios de duas irmãs arruinadas, que se faziam passar por herdeiras de grande fortuna; os atos destemidos duma heroína durante a grande guerra... E mais não me disse nessa altura, porque a contracapa onde lera a síntese desses cinco primeiros relatos se ficara por essas reticências indesejadas. Abandonei o Have og fuglereservat, o jardim e santuário de pássaros que envolve a casa senhorial onde a baronesa escandinava nasceu, morreu e criou todo o seu universo de faz-de-conta, como só ela sabia fazer, entrelaçando de modo indelével o real e o ideado. Apanhei um autocarro e dirigi-me a um sítio tranquilo para iniciar a descoberta completa de todo o manancial literário contido nos volumes impressos em tamanho de bolso que ganhara nessa tarde de verão dinamarquês em tempo de férias boreais. 

Viagem vai, viagem vem, os enredos tão cuidadosamente tecidos foram sendo revelados um a um. Os sonhos grandiosos dum jovem órfão, originados pelas descrições entusiastas duma solteirona; as fantasias duma jovem órfã com nome de protagonista de mito grego; as alusões ao assassinato do rei Eric V, pressagiado por um anel achado na barriga dum peixe; o trajeto de Peter e Rosa pelas águas geladas do Sundo, ao largo do porto de Helsingor, em direção à fronteira invisível entre o mar e o céu, entre a vida e a morte, entre o tudo e o nada; a história trágica duma viúva, que, para salvar o filho da prisão, aceita ceifar um campo de centeio num único dia, quando em situação normal a tarefa exigiria o trabalho de três homens; o longo debate sobre a criação artística e a sua relação com os espetadores, que a transformam numa obra-prima ou numa caricatura digna de lástima. Os argumentos aí estão. Resumidos. Para que a vontade de conhecer os pormenores se não perca. E a resenha nem sequer foi exaustiva. Ficaram ainda alguns por visitar e referir. Estão agrupados na categoria dos últimos contos. Apetece-me destacar aquele que nos exibe uma modalidade muito especial de aplicar a justiça, digna dum drama passional, dum libreto de ópera ou duma história infantil, centrado num jovem rei português não identificado. Obviamente. No universo da literatura tradicional de vocação exemplar, os nomes contam pouco. Depois há ainda um diálogo travado em 1767 por Cristiano VII e Johannes Ewald, o monarca e o poeta dinamarqueses que tanta tinta fariam correr nos tempos conturbados que se lhe seguiram. E fico-me mesmo por aqui. 

Ao longo da visita, perguntei-me várias vezes sobre o significado do título dado ao conjunto destas catorze micronarrativas. O facto de terem sido compostas em ambiente de guerra, quando a contadora nata de contos fazia o percurso dos 57 para os 72 anos de idade, pode ajudar a justificar o inverno como estação específica escolhida. O século XIX, aquele em que veio ao mundo, é chamado à colação para servir de cenário aristocrático ou campesino privilegiado às fábulas, lendas, mitos e histórias trazidas à presença dos leitores-ouvintes como eu. É que, como é referido no corpo da obra, os quadros e os livros são feitos para ser olhados e lidos. Só existem de facto se tiverem espetadores. Caso contrário, a arte deixaria de existir. Destino que as palavras pronunciadas por Karen Blixen (1885-1962) no inverno da sua existência não se arrisca a correr. Nem de longe nem de perto.

6 de janeiro de 2016

Karen Blixen, a quinta africana da baronesa escandinava

Hun havde en farm i Afrika ved foden af bjerget Ngong...
Karen Blixen, Den afrikanske farm (1937)
Quando estive em Copenhaga, nos finais da década de oitenta, a cidade ainda guardava intactos alguns vestígios visíveis do esplendor hollywoodesco com que se vestira por altura da estreia do filme de Sydney Pollack, Out of Africa (1985). As réplicas ao guarda-roupa supersofisticado vestido por Meryl Streep, quando encarnou a figura da baronesa sueca nascida dinamarquesa, ainda luziam como rescaldo de luxo nas vitrinas de alguns magasins de moda com apetência para os universos dum certo chic revivalista com laivos de sangue azul. As livrarias ainda expunham em locais de destaque exemplares do bestseller transposto com grande sucesso de bilheteira para o grande ecrã. Resisti durante muito tempo a fazer uma leitura sistemática do meio milhar de páginas que serviram de suporte à versão cinematográfica do texto de Isak Dienesen, pseudónimo de Karen Blixen, traduzido para português com o título algo desviante de África minha (1937). O receio de quebrar o fascínio das imagens captadas pelo realizador norte-americano esteve na origem deste longo afastamento da versão literária da obra. Fi-lo agora de fio a pavio, com proveito e deleite, motivado por mais uma visita aos espaços escandinavos onde a história da «Quinta Africana» foi escrita.

Terminada a revisitação do mais conhecido livro da escritora aristo-crata, que entre 1914 e 1931 teve uma plantação de café no Quénia, apetece-me dizer que a etiqueta geralmente usada de romance para a definir foge um pouco ao conceito genérico documentado nos manuais académicos de teoria literária. Nesses dezassete anos que passou na antiga colónia britânica, teve oportunidade de contactar uma realidade bem diferente da experimentada no ambiente europeu natal e de os registar num conjunto heterogéneo de microrrelatos, posteriormente reunidos num volume único de recordações nostálgicas vividas na vizinhança das tribos nativas de masais, kikuyus, wakambas e karivondos, no convívio com as comunidades imigrantes de somalis, indianos, núbios e árabes, na companhia de eventuais visitantes do hemisfério norte de passagem mais ou menos prolongada pelo hemisfério sul. Na tranquilidade bucólica da mansão familiar de Rungstedlund, situada nas proximidades do mar Báltico, distribui o manancial recolhido por três partes ou secções temáticas distintas, ainda que complementares entre si. Uma montagem cuidadosa de sequências devidamente legendadas, para dar uma maior e melhor visibilidade às histórias compiladas.

As dezassete reflexões multiculturais que abrem a tessitura narrativa centram-se no desenho de cenários captados pelos sentidos atentos da recoletora de flashes de vida real testemunhados. A aceção etimológica do ato de descrever é atualizado e ampliado a cada momento. A grande preocupação de transmitir aos recetores é levada às últimas consequências. Vemos, ouvimos e cheiramos as imagens, sons e odores vistos, ouvidos e cheirados pela observadora branca em terra de negros. A mancha gráfica é preenchida sinestesi-camente com os carateres tipográficos com que as mensagens são transmitidas. Linha-após-linha. Incessantemente. Rios, montanhas, vales e lagos. Plantações, florestas, flora e fauna. Homens, mulheres, crianças e velhos. Episódios de caça e episódios do dia-a-dia. Convo-cados todos eles por igual. Elementos fundamentais para dar alma ao relato e pintar com palavras um painel de paisagens averbadas na lembrança.

O alinhamento prossegue com trinta e duas Notas duma emigrante. Digressões breves de poucos parágrafos sobre tudo e todos. Nada escapa ao olhar clínico e pena ágil da autora. Um entreato apropriado para ligar os sucessos compostos de factos feitos e refeitos no papel. Trivialidades quotidianas a assinalarem a sua passagem rápida pela propriedade rural situada junto ao Ngong, na linha do Equador, nas proximidades das falhas do Rift e gelos do Kilimanjaro. Observações rápidas a anteceder a despedida definitiva do continente que serviu de berço à humanidade. Adeus lhe chama e é composto por cinco únicos fragmentos de despedida compulsiva da terra de adoção que um dia quis que fosse a sua. As leis da oferta e da procura recusaram-no. A venda da fazenda impôs-se e o regresso à terra onde viera ao mundo perfilou-se no horizonte. A aventura tinha chegado inexoravelmente ao fim. Sem apelo nem agravo. Depois chegaria o momento de dar corpo a uma crónica composta por muitos e variados contos dignos de memória futura. A vida pessoal chamada à colação pelo filme está afastado do livro. Nada de divórcios conjugais, nada de ligações amorosas. O barão Bro von Blixen-Finecke é aludido de passagem como marido e sem direito a registo de nome. O caçador Denys Finche Halton protagoniza uma mão cheia de faits-divers sempre com a etiqueta de amigo e nada mais. Os pormenores românticos terão de ser procurados noutros registos. Os curiosos da literatura cor-de-rosa que o façam. Eu fico-me por aqui. E já está.

18 de dezembro de 2014

Per Olov Enquist: visita de médico ao rei da Dinamarca

«Johann Friedrich Struensee utsågs kungliga läkaren den danske kungen Christian VII den 5 april 1768, fyra år senare avrättades.»
Per Olov Enquist, Livläkarens besök (1999)
Todas as viagens são úteis para a aquisição de novas aprendiza-gens e experiências. Algumas delas conseguem mesmo mudar de modo radical pontos de vista pessoais até então tidos como definitivos. Uma passagem rápida por Copenhaga permitiu-me entrar em contacto com uma realidade escandinava que os roteiros turísticos geralmente ignoram ou a que imprimem uma ênfase muito reduzida. Convidam-nos a visitar castelos e palácios, a passear pelos parques e jardins que os enquadram, a fotografar os recantos mais aprazíveis que os alojam, mas omitem parte dos dramas que os seus proprietários aí vivenciaram. Acedi a alguns destes eventos pretéritos com a ajuda de Per Olov Enquist e d’ A visita do médico real (1999), através da escrita mágica dum autor sueco e dum romance histórico de enfoque dinamarquês, centrado na deslocação profissional do alemão Johann Friedrich Struensee à corte de Cristiano VII de Oldenborg e de Caroline Mathilde de Hanôver entre 1768 e 1772. Pequeno episódio aparentemente inócuo do Almanach de Gotha, que a Europa setecentista das monarquias absolutas do Ancien Régime comentou copiosamente em vários idiomas e depois remeteu para a órbita confortável dum esquecimento previsível.

Encarado desta forma simplista, o leitmotiv romanesco referido até pareceria roçar os limites da banalidade, se o obscuro visitante real não tivesse vivido um escandaloso caso de amor com a rainha e não tivesse implementado os alicerces da revolução dinamarquesa em nome do rei. Tudo isto em quatro anos que os anais oficiais consagraram com a designação de Era Struensee. O resultado de tão insólita efeméride é conhecido. A princesa da Grã-Bretanha e Irlanda foi obrigada a divorciar-se do rei da Dinamarca e Noruega e foi deportada para o castelo de Celle na Baixa-Saxónia. O até então médico, conselheiro e ministro do gabinete real foi condenado à morte por decapitação seguido de esquartejamento, sentença proferida mais pela implementação do processo de reforma do país do que pelo adultério cometido com a soberana. O tribunal que o julgou cortou o mal pela raiz, separando-lhe do corpo a mão que assinara os 632 decretos iluministas e a cabeça que os havia concebido e posto em prática. Por vezes vem-nos à lembrança o eco perdido doutros sucessos históricos cuja crueldade chocaram de igual modo o velho continente. A execução dos Távora (1759) serve de exemplo perfeito num contexto estritamente nacional. As semelhanças sangrentas são claras, conquanto a ação de Sebastião José de Carvalho e Melo, o ministro plenipotenciário de D. José I, tenha sido feita em nome no despotismo esclarecido do monarca fidelíssimo e não contra a sua concretização entre nós.

A urdidura dos factos é traçada com frases curtas, incisivas, clínicas, com o recurso a uma linguagem crua, sem falsos pudores, num estilo que certas práticas literárias reprovam mas que a natureza da matéria relatada justifica. O romancista fá-lo através da revisitação documental de confissões, relatórios, despachos, dissertações, jornais, escritos, notas, diários, livros e memórias. A oscilação discursiva entre luz e trevas é constante. O jogo dicotómico entre sonho e pesadelo, prazer e dor, realidade e ilusão, paixão e ódio invade o mundo imagético dos atores que dão corpo ao drama, levado à cena no país do lendário Amled, o príncipe louco celebrizado por Shakespeare com o nome trágico de Hamlet, um e outro referidos várias vezes na efabulação, sempre em confronto direto com Cristiano VII, o rei louco que passara toda a vida a representar o papel da corte no teatro da corte. O sentido paradoxal da peça assenta na tentativa absurda de se instaurar o reino da razão num reino entregue a um rei destituído de razão. A corte transforma-se num grande manicómio em que Struensee, o reformador idealista derrotado, é substituído nos labirintos do poder por Guldberg, o conspirador intriguista vencedor. Dois pequenos arbustos insignificantes entre árvores grandes e arrogantes. A aristocracia todo-poderosa podia voltar a respirar sossegada. A moral e os bons costumes tinham sido restaurados. O direito divino de governar os povos restituído às mãos do seu legítimo proprietário, i.e., dos seus leais colaboradores.

O romance mais conhecido do Prémio Nórdico da Academia Sueca começa com uma frase lapidar que sintetiza toda a fábula: «Johann Friedrich Struensee foi nomeado médico real do rei dinamarquês Christian VII no dia 5 de abril de 1768; quatro anos mais tarde foi executado». Felizmente para todos nós que o engenho e arte do escritor não se ficou por aí e nos introduziu nesse escasso período de tempo em que o livre-pensamento deu os primeiros passos decisivos nos palcos europeus e começou a mudar irreversivel-mente o destino dos seus cidadãos. Os filósofos da revolução perderam a batalha dinamarquesa no reinado de Cristiano VII mas ganharam a guerra francesa no reinado de Luís XVI. E assim se faz a história, e assim se contam histórias...

NOTA
Texto publicado há dois anos e meio no Pátio de Letras no regresso duma viagem rápida à Dinamarca. Reponho-a agora, no momento em que uma outra viagem nessa mesma rota corre o risco de ser inviabilizada por uma greve natalícia da TAP. As boas festas especiais que os envolvidos na transportadora aérea portuguesa dedicam aos seus clientes para celebrarem em separado a época por excelência no ano dedicada à família.  Ditos e reditos os factos fiquem os livros lidos e relidos.