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23 de abril de 2025

Ditos dos livros no dia mundial dos livros


No hay libro tan malo que no tenga algo bueno...
Miguel de Cervantes, Don Quijote de la Mancha (2005, 2015; II, 3)

DIA  MUNDIAL  DO  LIVRO
Extratos em Contracorrente

Desvarío laborioso y empobrecedor el de componer vastos libros; el de explayar en quinientas páginas una idea cuya perfecta exposición oral cabe en pocos minutos. Mejor procedimiento es simular que esos libros ya existen y ofrecer un resumen, un comentario.

Jorge Luis Borges, El jardín de senderos que se bifurcan (1941)

What do the books say, he wonders. Oh, to scratch that itch, eh? Well, Montag, take my word for it, I've had to read a few in my time, to know what I was about, and the books say nothing! Nothing you can teach or believe. They're about non? existent people, figments of imagination, if they're fiction. And if they're non fiction, it's worse, one professor calling another an idiot, one philosopher screaming down another's gullet. All of them running about, putting out the stars and extinguishing the sun. You come away lost.
Ray Bradbury, Farenheit 45 (1953)

Spesso i libri parlano di altri libri. Spesso un libro innocuo è come un seme che fiorirà in un libro pericoloso o, all’inverso, è il frutto dolce di una radice amara. [...] Sino ad allora avevo pensato che ogni libro parlasse delle cose, umane o divine, che stanno fuori dai libri. Ora mi avvedo che non di rado i libri parlano di libri, ovvero è come si parlassero tra loro. [...] Il bene di un libro sta nell'essere letto. Un libro è fatto di segni che parlano di altri segni, i quali a loro volta parlano delle cose. Senza un occhio che lo legga, un libro reca segni che non producono concetti, e quindi è muto.

Umberto Eco, Il nome della rosa (1980)

L'écriture ne soulage guère. Elle retrace, elle délimite. Elle introduit un soupçon de cohérence, l'idée d'un réalisme. On patauge toujours dans un brouillard sanglant, mais il y a quelques repères. Le chaos n'est plus qu'à quelques mètres. Faible succès, en vérité.
Quel contraste avec le pouvoir absolu, miraculeux, de la lecture ! Une vie entière à lire aurait comblé mes vœux; je le savais déjà à sept ans. La texture du monde est douloureuse, inadéquate ; elle ne me paraît pas modifiable. Vraiment, je crois qu'une vie entière à lire m'aurait mieux convenu.

Michel Houellebecq, Extension du domaine de la lutte (1994)

As Luzes e a poesia salvaram-me, ao entornarem a doçura do mel do favo onde o fel e a raiva já haviam começado o seu trabalho devastador...

Habituei-me a ser criticada
por ler livros,
por falar de ciência, de política e de filosofia,
por saber inglês e latim,
por ter demasiadas Luzes para uma mulher. 
Alguns homens mais cultos chegaram a invocar Molière para me ridicularizarem.

Maria Teresa Horta, As luzes de Leonor (2011)

J. l. BORGES, R. BRADBURY, U. ECO, M. HOUELLEBECQ, M. T. HORTA

21 de janeiro de 2025

Umberto Eco, o segredo do ponto fixo, a ilha do dia antes e a arte do romance

«D’altra parte che, malgrado le loro virtù, i Romanzi abbiano i loro difetti, Ro-berto avrebbe dovuto saperlo. Come la medicina insegna anche i veleni, la me-tafisica turba con inopportune sottigliezze i dogmi della religione, l’etica racco-manda la magnificenza (che non giova a tutti), l’astrologia patrocina la supers-tizione, l’ottica inganna, la musica fomenta gli amori, la geometria incoraggia l’ingiusto dominio, la matematica l’avarizia – così’ l’Arte del Romanzo, pur avvertendoci che ci provvede finzioni, apre una porta nel Palazzo dell’Assur-dità, oltrepassata per leggerezza la quale, essa si richiude alle nostre spalle.»
Umberto Eco, L’isola del giorno prima (1994)

Ao reler de quando em vez os escritos de Umberto Eco, chego sempre à conclusão de ter circulado no mundo das letras muito mais à vontade como um ensaísta de prestígio do que como um autêntico romancista. A sua veia criativa está muito mais vocacionada para a vertente multifacetada de filósofo, semiólogo, linguista ou bibliófilo do que no espelhado nas páginas de pura ficção publicadas ao longo duma trintena e meia de anos. O próprio ato de contar uma história está invariavelmente associado a um qualquer evento de traçado científico que, em certos momentos do devir histórico, ocuparam a mente curiosa dos homens constantemente insaciáveis de novas descobertas e alargamento de conhecimentos. É o que se passa, v.gr., com A ilha do dia antes (1994), em que o grande objetivo a atingir assenta na resolução do mistério do fluxo do mar, do enigma da pluralidade dos mundos, do puzzle da doença de amor ou melancolia erótica, do segredo do ponto fixo e do cálculo das longitudes, entre muitos outros quesitos que lhe estão intimamente associados.     

O académico bolonhês, depois de ter andado em busca do livro desaparecido da Poética de Aristóteles, de ter encontrado/perdido esse tão desejado tratado sobre a «Comédia» n'O nome da rosa, voltou-se para o problema da rotação da terra, explanado n'O pêndulo de Foucault, entrando, assim, definitivamente nos labirintos literários do faz-de-conta ancorados nas meadas por desenlear da verdades por revelar do dia a dia. Não contente com os desafios colocados com a localização exata da Terra Incógnita Austral, dos meridianos e antimeridianos ou antípodas, bem como com a precisa identificação das Ilhas de Salomão, aquelas que separariam o dia anterior do dia seguinte avançados nest'A ilha do dia antes ‒, o ensaísta-ficcionista italiano ainda se envolveu a trilhar os percursos de Baudolino em demanda do Reino do Prestes João, em recuperar as memórias perdidas através dos livros aos quadradinhos referidos n'A misteriosa chama da rainha Loana, em penetrar nos meandros secretos dos Protocolos dos Sião à sombra d'O cemitério de Praga ou no poder incontornável da informação jornalística no Número zero, com que a lei da vida/morte o obrigou a encerrar a longa digressão pelos universos romanescos da escrita.

Assentando amarras no terceiro romance da série, sintetizemos que se trata duma obra aberta, com princípio, meio e ausência dum final decisivo, anomalia devidamente comentada pelo narrador exterior à história contada, num clarificador colophon autoral, convertido no derradeiro capítulo do relato. É esta entidade enunciadora externa que nos revela parte do destino do protagonista do drama por si vivido no já distante verão de 1643, trazendo à luz do dia os papéis de cariz autobiográfico então redigidos. O jovem fidalgo piemontês Roberto de la Grive, embarcado na nau Amarilli, naufragara nos mares do sul, tendo a jangada que o salvara embatido contra a proa do Daphne, encalhado numa baía entre duas ilhas, supostamente situadas na linha imaginária de mudança de data. É neste navio aparentemente abandonado, mas repleto dos mais extraordinários despojos, que se abriga e passará os restantes dias da sua existência conhecida, na fronteira fascinante que separava o hoje do ontem ou o ontem do seu amanhã. Nos tempos livres, que todos o eram um pouco, decide contar a sua história possível com roupagem de romance, não aquela que vivera, mas sobretudo a que poderia ter vivido, caso os fados nefastos assim o tivessem permitido. Recorre à práxis barroca então vigente da novela histórica, exemplar, cortesã, sentimental de amores e aventuras peregrinas, com alguns traços picarescos à mistura e até um ou outro de extração bizantina. A fantasia é contagiante sem nunca abandonar, todavia, as linhas estritas do verosímil.

A interrupção brusca dos escritos do náufrago solitário num galeão largado à sua sorte nos antípodas, deixados registados em cartas, reflexões, esboços fictícios e digressões discursivas de natureza científica, metafísica e cosmológica, levou o seu editor/divulgador moderno a tecer um par de hipóteses especulativas sobre o sua saída de cena daquele teatro de memórias. Fá-lo como remate da reconstituição por si encetada em quatro centenas e meia de páginas. Contenta-se com a solução simplista de considerar a história do Senhor de La Grive como a dum apaixonado infeliz, lembrando que na vida real as coisas acontecem porque acontecem e que só na Terra dos Romances é que parecem acontecer por uma qualquer finalidade ou providência. Que tudo fique em aberto e que os papéis deixados a bordo daquela embarcação fantasma seiscentista mais não sejam do que meros exercícios maneiristas, redigidos à maneira daquele século tão pródigo em gente sem alma. Eccolo!

1980      -      1988      -      1994      -      2000     -      2004      -      2011      -      2015
EPÍGRAFE
«Por outro lado que, apesar das suas virtudes, os Romances têm os seus defeitos, Roberto já devia sabê-lo. Tal como a medicina ensina também os venenos, a metafísica perturba com importunas subtilezas os dogmas da religião, a ética recomenda a magnificência (que não convém a todos), a astrologia patrocina a superstição, a ótica engana, a música fomenta os amores, a geometria encoraja o injusto domínio, e a matemática avareza ‒ assim a Arte do Romance, embora advertindo-nos de que nos fornece ficções, arte uma porta no Palácio do Absurdo, que ao ser ultrapassada por ligeireza, se fecha atrás das nossas costas.»
Umberto Eco, A ilha do dia antes

9 de janeiro de 2025

Umberto Eco à maneira de Arcimboldo

ARCIMBOLDO
Pormenores da Primavera e de Rodolfo II de Habsburgo
[Paris, Musée du Louvre]

Este cálice pareceu-lhe a certa altura como que uma urna, e pensou que no meio daquelas rochas estaria inumado o cadáver do padre Gaspar. Já não visível, se a ação da água o havia primeiro revestido de macio coralino, mas os corais, absorvendo os humores terrestres daquele corpo, haviam tomado a forma de flores e frutos de jardim. Talvez dentro em pouco ele reconhecesse o pobre velho transformado numa criatura até então estrangeira ali em baixo, o globo da testa fabricado com um coco peluginoso, dois pomos passados a compor as bochechas, olhos e pálpebras tornados duas tâmaras amargas, o nariz de serralha verrugosa como o esterco dum animal; por baixo, no lugar de lábios, figos secos, uma beterraba com o seu ramo apical para o queixo, e um cardo rugoso em ofício de garganta; em ambas as têmperas duas casta-nhas com ouriço a fazer de farripas, e por orelhas as duas cascas duma noz aberta; com dedos, cenouras; de melancia o ventre; de marmelo os joelhos.

Umberto Eco, A ilha do dia antes (1994)

11 de março de 2022

Umberto Eco e a poética do riso achada e perdida nos labirintos do nome da rosa

« Spesso i libri parlano di altri libri. Spesso un libro innocuo è come un seme che fiorirà in un libro pericoloso o, all’inverso, è il frutto dolce di una radice amara. [...Sino ad allora avevo pensato che ogni libro parlasse delle cose, umane o divine, che stanno fuori dai libri. Ora mi avvedo che non di rado i libri parlano di libri, ovvero è come si parlassero tra loro. [...Il bene di un libro sta nell'essere letto. Un libro è fatto di segni che parlano di altri segni, i quali a loro volta parlano delle cose. Senza un occhio che lo legga, un libro reca segni che non producono concetti, e quindi è muto. »
Ouvi falar pela primeira vez da obra que catapultaria Umberto Eco para o universo criativo da ficção nas antevésperas da publicação d'O nome da rosa (1980), pela Bompiani de Milão. Acedi também, nessa altura, a alguns trechos ainda inéditos do romance do então reputado filósofo, semiólogo, linguista e bibliófilo italiano, trazidos de Bolonha por uma discípula sua. Essa incursão fragmentária levou-me a efetuar uma leitura integral do livro em 1983, após a sua edição portuguesa. Assisti à exibição da versão filmada de Jean-Jacques Annaud numa sala Gaumont de Rennes, pouco depois da sua estreia francesa no final de 1986, nas férias de verão do ano seguinte. Algumas visitas lidas e visionadas passadas, a RTP1 estreou a minissérie realizada por Giacomo Battiato em 2018 e produzida pela Rai Fiction e Tele München. Momento ideal para recordar no modo escrito-visual a história contada por Adso de Melk e protagonizada por Guglielmo da Baskerville nessa semana de novembro de 1327.

Adiantei-me à difusão dos oito episódios ítalo-germânicos e cheguei ao fim da crónica impressa ainda o percurso folhetinesco ia a meio. Mesmo assim, deu para me aperceber que o fio condutor seguido pelos roteiristas mediáticos respeitam grosso modo a voz narradora do manuscrito trecentista encontrado na abadia beneditina de Melk, tornando dispensável um destaque particular a exigir uma análise comparativa exaustiva dos desvios pontuais cometidos. Afinal, quem conta um conto acrescenta um ponto, sobretudo quando se trata duma obra de ficção com um entorno histórico preciso, elaborado de acordo com o gosto espectável do público-alvo a que se destina. Todavia, por detrás das variantes detetadas, as histórias de livros que muitas vezes falam doutros livros sobrepõem-se sempre na intriga central registada por escrito pelo monge que o preservou em forma de diário ou de memória futura dos eventos por si vividos na longínqua e ingénua adolescência numa abadia perdida ao longo dos Apeninos, na Itália setentrional, entre o Piemonte, a Ligúria e a França. 

O testemunho do jovem noviço está repartido por sete dias, limitados por um prólogo justificativo e por um último fólio conclusivo. Recorre ainda à subdivisão de cada jornada da crónica autobiográfica pelo ritmo das horas litúrgicas medievais. O relato segue de muito perto a estrutura dos thrillers clássicos, desenhado ironicamente à maneira dum Sherlock Holmes e dum Dr. Watson de Conan Doyle. Chegado à abadia como escrivão e discípulo do mediador dum encontro de teólogos papais e imperiais, vê-se envolvido com o mestre e mentor numa série de sete mortes violentas ocorridas em série, cuja teia de mistérios e enigmas intricados acabam por desvendar. A breve trecho a questão sobre a pobreza evangélica de Cristo passa para segundo plano e entra-se no labirinto de segredos insondáveis guardados na biblioteca abacial, uma das mais ricas da cristandade. O segundo livro perdido da Poética de Aristóteles entra em cena e a Comédia achada na poeira das estantes interditas nos confins do finis Africæ, para logo se converter na chama infernal que alimenta a Tragédia da perda definitiva para a república das letras e da teoria da literatura.

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Assim começa o Evangelho segundo São João, assim começa o relato de Adso-Eco. À distância de dois milénios, a mensagem continua a mesma: a importância da linguagem divina feita humana desde o início dos tempos. Dois Prólogos a anunciarem o primado da palavra, de todas as palavras, as lícitas e as vedadas, sem distinção, as que fazem rir e as que fazem chorar, as que juntam o útil ao agradável, as que deleitam e as que ensinam, como os cadernos de anotações das aulas ministradas pelo fundador do Liceu ateniense. O maior paradoxo de todo o romance histórico-policial do semiólogo italiano passa a ser entendida como uma autêntica ironia trágica, quando, ao assistimos à destruição da obra muito perdida do filósofo grego, chegamos a levantar a hipótese de a poder salvar das chamas purificadoras. O horror ao vazio deixado pelo incêndio da Biblioteca de Alexandria invade-nos. De muitas grandes cidades antigas só restam os nomes. Assim com os livros também. A rosa antiga permanece no nome, nada resta para além dos nomes.* 

NOTA
* Cf. a última frase de Umberto Eco n'O nome da Rosa («... stat rosa pristina nomine, nomina nuda tenemus.») com monge beneditino Bernardo Morliacence ou de Cluny: «Stat Roma pristina nomine, nomina nuda tenemus.» IN De Contemptu mundi (séc. xii): , I, 952).

L'ABBAZIA

20 de fevereiro de 2016

Umberto Eco, o cemitério de Praga e os labirintos da história

«L'odio è la vera passione primordiale. È l'amore che è una situazione anomala. Per questo Cristo è stato ucciso: parlava contra natura. Non si ama qualcuno per tutta la vita, da questa speranza impossibile nascono adulterio, matricidio, tradimento dell'amico... Invece si pùo odiare qualcuno per tutta la vita. Purché sia sempre là a rinfocolare il nostro odio. L'odio riscalda il cuore.»
Umberto Eco, Il Cimitero di Praga (2010)
Recordo com alguma precisão os tempos que precederam o lançamento do romance inaugural de Umberto Eco entre nós. As notícias foram-me chegando a conta-gotas e via académica através duma amiga minha e discípula do conhecido semiólogo italiano, o tal que ousara aventurar-se nos difíceis sendeiros da ficção histórica de debuxo policial. O mais fascinante d’O nome da rosa (1980) residia no facto singular de se trazer à luz do dia a descoberta do segundo livro perdido da Poética de Aristóteles, aquele que falava da comédia e do riso, modalidade dramática e atitude humana pouco apreciadas pela matriz judaico-cristã ortodoxa então imperante, mais vocacionada para os efeitos penitenciais e catárticos da tragédia e do choro. Seguiram-se-lhe outros títulos sempre sugestivos, de êxito editorial abonado e leitura estimulante assegurada. As temáticas abordadas estarão na origem deste fenómeno inusitado de bestsellers produzidos em cadeia e a nível global. A polémica filosófica do nominalismo escolástico e religiosa da cabala templária, os mistérios herméticos do ponto fixo da terra e do cosmos, as lendas-mitos medievais do Santo Graal arturiano e do Reino do Prestes João das Índias…

O cemitério de Praga (2010) é a sexta obra da série e centra-se, como as anteriores, na recriação dum momento preciso de rutura do devir histórico da Europa em geral e da Itália em particular, concretizada no processo de unificação do país, promovido à revelia do Congresso de Viena (1814-1815) e sob os auspícios da Casa de Saboia. O espaço cénico, mazzimiano e garibaldista, republicano e maçónico, carbonário e revolucionário, está todo documentado nas páginas da efabulação, labirinto de fragmentos narrativos centrados no protagonista e única personagem inventada do enredo, ilustrados com imagens da época para dar uma maior visibilidade ao relato e instrução do leitor. A informação é-nos dada pelo próprio autor e nada nos leva a duvidar da sua veracidade, muito embora esteja ancorada num texto final de «inúteis explicações eruditas» e desenhada num contexto de incontornável traçado irónico. A forma literária selecionada para dispor os factos passa pelos excertos caóticos dum diário pessoal composto pelo herói/anti-herói convocado, que, movido por uma convencional dupla personalidade, o redige em nome ora do falsário Simone Simonini ora do abade Dalla Picolla. O verso e o reverso, em suma, duma mesma entidade romanesca, marcada ao longo de todo o discurso por uma alegada «euforia amnésica» e não menor «rememoração disfórica».

Gizada à boa feição romântica do folhetim jornalístico de recorte neogótico e assente num manancial de pseudodocumentos autênticos ou habilmente falsificados, parafraseados ou comentados à exaustão, a relação ficcionada do Risorgimento italiano é também um livro que fala doutros livros, populares todos eles no seu tempo mas mesmo assim caídos no mais profundo e talvez merecido esquecimento. Excetua-se o caso paradigmático d’Os protocolos dos sábios do Sião (1905), publicado em data posterior à cronologia interna do romance, mas cuja génese doutrinária se questiona ao longo de toda a sua conceção diarística. O antissemitismo primário das instâncias narrativas, fruto de preconceitos multisseculares, agudizados por nacionalismos oitocentistas ancorados nos meandros dicotómicos do amor e morte, que o politicamente correto não conseguiu mitigar nos nossos dias de forma adequada, é constante e militante. O desconforto toma conta do leitor, levando-o a confundir os sujeitos internos da enunciação com o próprio autor. Feito prodigioso de Umberto Eco que, só por si, seria suficiente para aconselhar uma incursão atenta à obra que equaciona a teoria da conspiração judaica tecida no cemitério da capital checa e que levaria à conquista hebraica do mundo.

À distância de trinta anos, tantos quantos os que separam a Rosa do Cemitério, com passagens cadenciadas pelo Pêndulo e Ilha, Baudolino e Loana, o universo imagético do romancista-ensaísta mantém-se intacto. A sensação de maravilhamento não será exatamente o mesmo, mas o encanto das palavras ditas com sentido continua inalterado sem sofrer a menor beliscadura. Razão mais do que suficiente para esperar atentamente a vinda dum sétimo grupo criativo de aventuras, enigmas e fantasias, para que um ciclo simbólico da totalidade humana se feche e abra caminho a outros mais.

NOTA
Soube hoje logo pela manhã da morte de Umberto Eco, o inventor nato de heróis da imaginação e de outras histórias feitas com palavras plenas de significados. Lembrei-me da minha descoberta dos universos de criação sempre em expansão da república das letras italianas e universais e de ter em tempos escrito umas linhas a esse propósito. Fi-lo no Pátio de Letras a propósito d' O cemitério de Praga e trago-o agora para aqui como testemunho da minha estima pessoal pelo autor e pela obra.

17 de julho de 2015

Umberto Eco, as ameaças jornalísticas dum número zero inventado

«Non lo nego, ma mio padre mi ha abituato a non prendere le notizie per oro colato. I giornali mentono, gli storici mentono, la televisione oggi mente.»
Umberto Eco, Numero zero (2015)
O sétimo romance de Umberto Eco já está à disposição do leitor nas livrarias da aldeia global e dá pelo nome de Número zero (2015). Tão polémico como os anteriores. Andar pelos labirintos duma biblioteca abacial à procura do mais cobiçado dos livros perdidos de Aristóteles, percorrer à sombra de Foucault os santuários exotéricos da cabala para desvendar os segredos dos templários, naufragar nas águas exóticas dos mares do sul na pista do ponto fixo onde os dias mudam de data, seguir o rasto do Prestes João das Índias para tomar posse dum reino de fantasia utópica prometido por uma epístola imaginária, vasculhar os baús da casa de campo da infância no encalço duma memória perdida, penetrar nos meandros da teoria da conspiração gizada pelos falsos protocolos sionistas de dominação do mundo ocidental, atravessar com uma lupa de inspetor de polícia os mistérios mais recônditos da nossa identidade europeia multissecular. Depois de tudo isto, não contente, o filósofo, medievalista e semiólogo italiano, ensaísta, académico e romancista fabricante de bestsellers garantidos envereda pelos universos atuais da informação manipulada, aquela que nos impede de diferenciar as histórias efetivamente acontecidas das inventadas ao sabor dos interesses mediáticos do momento.

O argumento encontra-se todo sintetizado na contracapa da obra, a toda a largura e comprimento, ocupando vinte e sete linhas bem contadas de texto quase corrido. Está lá tudo. Literalmente o branco no preto. Às vezes pergunto-me, na presença destas práticas editoriais para vender livros, se merece a pena, logo a seguir, ler o que ficou no interior, se já ficou tão pouco por dizer. Os tópicos arrolados remetem-nos para uma frágil história de amor protagonizada por um ghost writer falhado e uma gossip girl inquietante, para as sombras do Gladio, da P2 e da CIA, para o assassínio do Papa Luciani, para os massacres dos terroristas vermelhos e manobras dos serviços secretos, para as chantagens, intrigas e fantasias ignóbeis que fornecem os ingredientes indispensáveis num manual perfeito para promover a venda de jornais. Fiquemo-nos por aqui e entremos no episódio central que serve de pano de fundo à fábula, o fadário do fundador do fascismo após a queda do regime político por si fundado e da libertação subsequente do país.

O tema do sósia é aqui desenvolvido por Umberto Eco do mesmo modo como George Steiner o havia feito n’O transporte para San Cristóbal de A. H. (1979). Adolfo Hitler e Benedito Mussolini não teriam morrido no final da Segunda Guerra Mundial. Teriam sido substituídos por duplos treinados a criar a ilusão de que o führer germânico e o duce italiano continuavam vivos num qualquer local recôndito do mundo, à espera da ocasião adequada para regressarem ao palco das hostilidades e reconstruirem o reich-impero de braço estendido à maneira romana. Reminiscências desse velho mito arturiano do regresso do salvador da lei e da grei num momento de crise nacional profunda, o mesmo que entre nós se transformou no contramito messiânico do sebastianismo. Os pormenores discursivos seguidos por estes dois ficcionistas ficam a cargo dos eventuais interessados em desvendá-los nos originais, sem terem para tal de recorrer aos resumos desmotivantes de conveniência. Digamos que a técnica literária da ucronia* definida pelo obreiro do relato mais recente funciona às mil-maravilhas, permitindo-nos imaginar o hipotético destino do nosso mundo presente se aquilo que de facto aconteceu tivesse acontecido de maneira diferente.

Vivos ou mortos tanto faz. O papel efetivo de mover destinos no eixo europeu duma nova ordem mundial findou nos derradeiros dias de abril de 1945. A memória dos seus líderes foi sendo apagado pelos sobreviventes. Compulsivamente. A catarse à tragédia representada nesses anos está ainda por fazer. As feridas então abertas estão ainda por sarar. A ameaça de futuras catástrofes paira no ar nos dias que correm. As histórias contadas pelos criadores da palavra escrita tentam a todo o custo proceder a essa purificação exigida por todos como necessária. As histórias contadas pelas pessoas sem direito a protagonismo literário recusam-na. Um dia a ablução acontecerá e o sol voltará a brilhar no horizonte com todo o fulgor há tanto tempo almejada pelas gentes. Miragem dum ver para crer que um porvir incerto mais tarde ou mais cedo materializará.

NOTA
* Umberto ECO, «Os mundos da ficção científica», in Sobre os Espelhos e outros ensaios. [1985]. Lisboa: Difel, 1989, p. 202. 

3 de março de 2015

O labirinto de letras das bibliotecas

Maria Helena Vieira da Silva, Biblioteca 
[óleo sobre tela, 1949]
También sabemos de otra superstición de aquel tiempo: la del Hombre del Libro. En algún anaquel de algún hexágono (razonaron los hombres) debe existir un libro que sea la cifra y el compendio perfecto de todos los demás: algún bibliotecario lo ha recorrido y es análogo a un diós.
Jorge Luis Borges, La biblioteca de Babel (1941)
Os mass media da aldeia global alimentaram avidamente os noticiários impressos, radiofónicos e televisivos com a informação à la une de que o pretenso Estado Islâmico incendiara a biblioteca pública de Mossul, no Iraque, queimando milhares de livros, entre os quais se contavam oito mil manuscritos raros e obras antigas de valor inestimável. A ação extremista estendeu-se ainda à biblioteca universitária, a uma igreja e ao teatro locais. Barafustou-se muito nesse dia sobre esse atentado à cultura, enquanto o cheiro a papel queimado se foi adivinhando no ar. Depois o assunto caiu no silêncio dos deuses.

O episódio mediático de barbárie fundamentalista fez-me recordar outros momentos da história, em que a força destruidora das chamas reduzira irremediavelmente a cinzas grande parte da criação poética dos povos. O incêndio da antiga biblioteca de Alexandria terá sido, porventura, o mais calamitoso de todos aqueles que a memória dos homens regista nos seus anais. Quantos testemunhos únicos da antiguidade, registados em cerca de setecentos mil rolos de papiro e pergaminho preciosos, se terão perdido para sempre nesse ano fatídico de 48 AEC é a questão que fica no ar sem resposta satisfatória a dar.

A perda então sofrida foi de tal grandeza, que ainda hoje procuramos recuperar algumas migalhas desse imenso património drasticamente desaparecido, por todos os meios postos à nossa disposição. décadas que tentamos decifrar, com os mais sofisticados meios tecnológicos postos à nossa disposição, os segredos guardados nos volumes calcinados pelas lavas vulcânicas do Vesúvio das bibliotecas privadas dos patrícios romanos das cidades de Pompeia e Herculano, varridas do mapa em 79 da EC e mantidas sepultadas da curiosidade dos leitores por mais de 1600 anos feitos da poeira dos dias que passam.

Umberto Eco impacientou-se com a espera e imaginou uma biblio-teca de fantasia perdida no coração duma abadia medieval italiana, minuciosamente descrita nas páginas d'O nome da rosa (1980). Por instantes, chegamos a acreditar que o segundo livro da Poética de Aristóteles se encontrava preservado naquele refúgio labiríntico idealizado pelo espírito religioso da época. A ilusão é de curta duração. Quem leu o romance ou viu o filme sabe bem que, no final da fábula, todo o edifício é engolido pelas labaredas providenciais dum incêndio purificador, levando consigo a mais chorada obra perdida da literatura ocidental.

nos resta confiar na de Jorge Luis Borges ficcionada nas pági-nas visionárias de La biblioteca de Babel (1941). Admitir a existência no universo dum livro total que é a cifra perfeita de todos os demais. A arte combinatória dos números aceita como provável essa arte combinatória das letras. O guardião dessa biblioteca recuperada dá pelo nome de Homem do Livro. Vive em qualquer lugar remoto do nosso mundo possível a que chamamos imaginação. É através da utopia que em nós habita que a centelha divina da criação se manifesta a cada momento que passa, depois de termos absorvido as imagens e as semelhança de deus.