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20 de fevereiro de 2024

Crónica das crónicas em pedra grés

«Numa das minhas tentativas de comer um hambúrguer no pão com elegância social, numa hamburgueria junto ao Campus da Penha da Universidade do Algarve, tive a companhia de um colega com o qual almoço regularmente. A nossa conversa fluía, enquanto elegantemente tragávamos os hambúrgueres, sobre a construção da personalidade e a existência de Deus. O meu amigo revelou como a Servidão humana de W. Somerset Maugham tinha sido essencial na sua rejeição de Deus. Relatou-me com emoção a cena em que o Philip Carey (figura central do romance) reza a Deus, com toda a sua fé, para acordar no dia seguinte curado da deficiência física com que nascera (com um pé boto). Ao confrontar-se com a eternidade das limitações impostas pelo seu corpo, o jovem descobre que a normalidade é a coisa mais rara do mundo e apaixona-se pela arte e pela literatura. Como referia o meu colega, os romances conseguem responder às nossas inquietações, às inquietações de juventude e de idade adulta.»

O meu amigo e colega António Guerreiro lançou este fim de semana na Fnac da Guia as suas Crónicas em pedra grés (2023), uma seleta de cem olhares diferentes do nosso olhar de todos os dias sobre o mundo, publicados no jornal Terra Ruiva de Silves nos últimos vinte anos. Assisti à apresentação acompanhado de um conjunto de companheiros das lides académicas que atualmente só revejo em situações muito especiais como esta. De todos esses reencontros ocasionais, destaco o da Teresa Maló Sequeira, a moderadora da sessão, também ela parceira de práticas letivas que já tivera como aluna duma licenciatura em educação. Faço-o pela forma dinâmica como conduziu a apresentação do autor-obra, como promoveu a partilha de diálogos entre todos os participantes e contribuiu para o sucesso da iniciativa.

Ainda não li com olhos de ler a totalidade de testemunhos de vida vividos aqui coligidos. Fá-lo-ei na devida altura, sem pressas nem sobressaltos. Uma leitura em diagonal pelo índice remeteu-me para alguns temas que na época da escrita havíamos comentado, regra geral à hora de almoço dum qualquer restaurante das imediações do local de trabalho. Não os vou comentar aqui. Ultrapassaria em muito a dimensão duma única folha A4, o tamanho adequado para um texto desta natureza. Abrirei uma excepção para aquela que transcrevi parcialmente na epígrafe, pelo simples facto de ser o protagonista do episódio relatado e trazido ao domínio público.

A «Servidão», assim se chama a tal crónica destacada nesta crónica de crónicas, está repartida por dois momentos tidos a curta distância de espaços e tempos. O primeiro ocorreu na Hamburgueria da Baixa, sito próximo do Campus da Penha. Lembro-me de ter então pedido um Escangalhado, cujo nome já anuncia as dificuldades acrescidas do seu manuseamento, sobretudo para quem alguma dificuldade para lidar com esta sandes super-recheadas de proteínas animais, alguns vegetais avinagrados e uma profusão de molhos coloridos servidos à vontade e apetite do freguês. Uma companheira de repasto elucidou-nos a esse propósito o modo expedito como resolvera o problema, ou seja, com o mero recurso à faca e garfo. Assim o fizemos também nós os dois e saiu-nos às mil maravilhas. Uma originalidade banal, mas elegante e eficiente.

A segunda parte foi representada a dois num café local que servia uns pratos simples à hora do almoço e cujo verdadeiro nome me escapou completamente. Conhecíamo-lo pelo Vermelhinho, a cor dominante naquele espaço simpático e ambiente familiar que a austeridade de memória da troika fechou e o confinamento imposto pelo covid-19 impediu de reabrir. A temática da personalidade e existência de deus ter-nos-á surgido por um qualquer motivo que agora me escapa. Em contrapartida, a alusão à Servidão humana de Somerset Maugham é fácil de apontar pela parte que me toca. Trata-se, aliás, dum dos livros da minha vida, como  referi várias vezes aqui neste espaço e me escuso de repetir. Sem me querer alongar muito no assunto, direi que passados os verdes anos e instalado na geração grisalha, mantenho as opiniões então proferidas. De facto, certos juízos que quando se traçam são difíceis de alterar ou impossíveis de afastar.     

29 de junho de 2020

José Saramago: o último caderno de Lanzarote ou o diário do ano do Nobel

«Duas razões me levaram, mais ou menos conscientemente, a escrever um diário: em primeiro lugar, a circunstância de ter saído do meu país para viver nesta ilha distante; em segundo lugar, a necessidade, que nunca experimentara antes, de “reter” o tempo, de o obrigar, por assim dizer, a deixar o maior número possível de sinais da sua passagem. Cadernos de Lanzarote é como uma longa carta enviada àqueles que ficaram no outro lado, mas é também um modo (vão, inútil, quem sabe mesmo se desesperado...) de fingir prolongar a vida por uma obstinada “escrituração” dos dias. Os Cadernos não são um laboratório, embora não faltem neles reflexões sobre o “fazer” literário; não são um registo dos casos do mundo, embora abundem os comentários sobre a atualidade; não são uma coleção de dados para uma futura biografia, embora vão dizendo o que faço e o que penso. Como todo o diário (como toda a escrita), os Cadernos de Lanzarote são um exercício narcisista, mas, contra o que geralmente se crê, Narciso nem sempre gosta do que vê no espelho em que se contempla...»
José Saramago, Último caderno de Lanzarote (2018)
No momento em que se cumpre uma década sobre a morte de José Saramago, procedi à leitura do Último caderno de Lanzarote (2018), deixado inédito pelo autor no disco rígido do seu computador e publicado postumamente vinte anos após a sua redação, aquele 1998 em que a Academia Sueca lhe conferiu o mais cobiçado prémio literário a que um criador da grande aldeia global pode aspirar. O «Diário do ano do Nobel», como também é designado, é precisamente o primeiro título que leio duma série constituída por seis tomos, composta por um dos meus escritores de eleição, sobretudo na sua faceta de romancista. A vontade de partir à descoberta dos restantes cinco que o antecederam instalou-se no final das quase três centenas de páginas que lhe dão corpo. Uma forma suplementar para me manter em contacto com um dos vultos maiores das letras portuguesas.

Graças às caraterísticas especiais ligadas à sua divulgação pública em livro, o Sexto Caderno abre com um fragmento do próprio José Saramago, extraído do epílogo duma edição espanhola dos Cader-nos de Lanzarote - Diário II, datado de 12 de outubro de 2001. Nesse excerto, é fornecida uma explicação sobre o facto de não ter sido dado à luz até então, apesar de se referir ao biénio de 1998/99, destacando as muitas obrigações e compromissos urgentes que a consagração literária internacional lhe dera nesse período. Os atrasos seguintes são clarificados por Pilar del Río em «O limbo e os discos rígidos do Tempo», implícitos, desde logo, no próprio título da nota editorial e associados às circunstâncias extraordinárias aludidas. A secção introdutória conta ainda com um pequeno apon-tamento de Eduardo Lourenço, em que este compara o «autor do Memorial» a Chateaubriand, no que à «ultima verba» se refere, i.e., as póstumas Mémoires d'outre-tombe.

O diário-caderno propriamente dito inicia-se no primeiro dia de 1998 e termina a 26 de setembro do ano seguinte. Entre uma entrada e a outra, contamos 212 mais de dimensão variada, que poderão oscilar duma palavra, linha ou parágrafo a um conjunto considerável de páginas que chega a aproximar-se das duas dezenas. Os assuntos abordados obedecem ao mesmo princípio da diversidade, podendo resumir-se a meros lembretes e anotações a desenvolver noutra altura, ao registo de pequenos-grandes eventos do dia-a-dia ou à transcrição dum ou doutro texto já publicado anteriormente e, ainda, dum discurso-conferência apresentado num qualquer encontro literário realizado nas mais díspares partes do mundo. Em qualquer dos casos ficamos a conhecer melhor a personalidade real do criador de universos alternativos centrados no imaginário puro. 

Em tempos que vão, descobri ocasionalmente José Saramago através da capa dum dos seus romances mais conhecidos. A história não se fica por aqui, mas já a contei com algum pormenor noutro local e dispenso-me assim de a reproduzir. Nos dias de hoje dificilmente voltaria a repetir esse impulso momentâneo. Não pela infantilidade cometida de escolher um livro pelo seu aspeto exterior, mas sobretudo pela diferença abissal de padrões estéticos seguidos pelas primitivas publicações da Editorial Caminho e as atuais da Porto Editora. Gostos à parte, fica a qualidade intrínseca da obra produzida, que é o que de facto conta no universo literário. É nesse horizonte de eventos, constituído por romances, contos, poemas, crónicas, ensaios, diários e dramas, que se encontram ainda alguns títulos à espera duma primeira leitura. Mais tarde ou mais cedo, terei de colmatar essa lacuna e encetar uma viagem de exploração por essa área desconhecida do mais internacional dos escritores portugueses. Creio que vou atirar-me à sua faceta teatral que conheço pela rama e depois logo direi de minha justiça. Pela experiência que tenho da sua escrita, estou certo que não ficarei desapontado no final do percurso.         

10 de outubro de 2016

O buraco da fechadura

Há quem procure ver neste tipo de livros memorialistas oportunidades para vinganças ou ajustes de contas. Pelo meu lado, nunca o fiz, não o faço e não o farei. O objetivo deste livro é deixar contribuições para a História — e, se não o fizesse com verdade, mais tarde ou mais cedo assaltar- me- iam os remorsos. A vingança, como o crime, nunca compensa.
José António Saraiva. Eu e os políticos (2016)
Li de fio a pavio o livro proibido do antigo diretor do Expresso e do Sol e não encontrei nenhum contributo especialmente relevante para a história política portuguesa recente. Encontrei bisbilhotices de bastidor, intrigas de corredor, boatos de alcoviteira. O foco de todas as polémicas veio-me ter às mãos sem que eu lhe tivesse realmente pegado. Enxerguei-o em formato digital num PDF que me foi enviado por correio-e. Presente envenenado que aceitei, abri e esguardei com toda a atenção que o ofertante me merecia.

E assim acabei por ler pelo buraco da fechadura indiscreto os mexe-ricos que o cronista não quisera ou não pudera escrever até hoje. Fiquei a saber da existência dum governante que tem uma caligrafia de terceira classe mal tirada, duma jornalista que obtém notícias em primeira-mão com a arte muito feminina de se insinuar junto dos ministros, dum político que passa as noites a comer chocolate ou dum outro de corpo atarracado e mão sapuda que nunca aprendeu a conduzir porque foi governante muito cedo...

A listagem de tricas, cusquices e rumores dum diz-que-disse ou talvez-tivesse-dito, próprio de língua-de-palmo-e-meio, prossegue ao longo de duas centenas e meia de páginas bem contadas, repartidas por quarenta e duas figuras públicas ordenadas alfabeticamente. Uma devassa gratuita e continuada ad infinitum de confissões, desabafos e confidências mal guardadas. Escárnios e maldizeres pós-modernistas que deixariam de boca aberta o trovador mais ousado dos cancioneiros medievais galego-portugueses.

Acabada a leitura e arrumada a escrita só me resta borrifar o livro com as gotas do Lethes, o rio do esquecimento. Clicar na tecla Del. Enviá-lo para a reciclagem. Apagar com caráter definitivo da memó-ria - real e virtual - os ecos da tagarelice de trazer por casa ou à mesa de café, bar ou restaurante. Deixar os ajustes de conta por conta dos visados. Fala-se por aí duma providência cautelar em cur-so. Umas fotos de cariz sexual pairam no ar. Jogos de bastidor au-sentes das contas do meu rosário. Ponto final e ite, missa est.   

14 de abril de 2015

José Martins Garcia, crónicas e contos katafaraónicos de Nanfazcafalta

«Nanfazcafalta constatou que um erudito sentado nunca chegaria a interpretar um único símbolo katafaraónico. O mesmo se aplica aos sábios deitados, ajoelhados, acocorados ou de pé ‒ posições que vedam o acesso ao símbolo. Nanfazcafalta empreendeu a decifração de numerosos fragmentos, colocando-se naquela posição a que se dá o nome de pyno. O êxito de Nanfazcafalta que diz que as posições do texto e do leitor não são permutáveis.»
José Martins Garcia, Katafaraum é uma nação (1974) 
Lembro-me muito bem do último livro que li no tempo da outra senhora e das circunstâncias que o fez chegar às minhas mãos. Tenho-o aqui ao meu lado. A testemunhar a sua existência física para além da memória que guardasse dele. Faz ou fez agora 41 anos que o encontro ocasional se deu. Não sei precisar o dia exato de abril em que o adquiri na Compasso da Saraiva de Carvalho, a Campo de Ourique, a um quarteirão de distância da rua onde na altura morava. Teria saído do 28, agora tão na moda, e entrei no local de perdição, onde as novidades literárias imperavam com aquele chamamento impossível de resistir de papel impresso a cheirar a tinta. Chamou-me a atenção a orientação gráfica da capa vestida de vermelho e do título enigmático grafado a verde dum exemplar ali exposto, a que José Martins Garcia, um autor para mim desconhecido, dera à obra, Katafaraum é uma nação (1974). Folheei as quase duas centenas de páginas que o compunham e fiquei rendido à escrita registada nas entrelinhas, para descrever de modo embuçado um país que não tive dificuldade a identificar com o meu. Levei-o para casa e li-o numa assentada. Deliciado no exercício de decifrar as mensagens subliminares contidas no seu interior. Preparei-me a comentá-las com os meus amigos da época. Tão jovens como eu. Nunca cheguei a satisfazer esse meu desejo. A Revolução dos Cravos entrou em cena e tudo passou a ser encarado de modo diferente. Sou incapaz de identificar o primeiro livro que li em liberdade. Só sei que foi um entre muitos. Nenhum deles, todavia, terá exercido um efeito tão intenso como aquele que encontrei à minha espera numa pequena livraria de bairro alfacinha.

Os textos reunidos no volume editado com a chancela da Assírio & Alvim, inserido na nova série dos cadernos peninsulares, estão repartidos por duas partes distintas: vinte e uma «Crónicas», dezasseis das quais publicadas no suplemento «Fim de Semana» do jornal República; e nove «Contos Katafaraónicos» autónomos, o inaugural da série já divulgado no mesmo meio de comunicação escrita e os restantes com caráter inédito. Tudo se passa no país katafaraónico (Portugal), nação onde reina uma cultura-pensamento hidrófila (< hidro- + -filo = que gosta de meter água), senhora duma escrita intrigante só decifrada através do esforço iluminado do sábio oriental Nanfazcafalta (< Não-faz-cá-falta = erudição inútil). Oportunidade para criticar de forma cifrada - a única possível na altura - essa nação vizinha de Ispahan (Espanha), aquela em que a estrutura piramidal ou da lei do funil, ditada pelo basileus (imperador = chefe de estado) e pedagogúnico (< pedagogo + único = presidente do conselho) para felicidade suprema do rebanho em permanente transumância (migrações internas e externas). Ultrapassando a escrita hieroglífica inventada pelos homens de guitarra e de gládio, satiriza-se com a secular habilidade do escárnio e maldizer, a censura e os censores, a pedagogia e os pedagogos, a arte e os artista, a política e os políticos. Significativamente, o compilador anónimo dos fragmentos identificadores duma nação adverte, logo no início da fábula, relato ou alegoria, que o mais célebre de todos os centros hidrófilos foi arrasado por um maremoto, no ano setenta da nossa era, no momento em que se executava uma viragem inexorável para a esterilidade. A tal passagem artificial do salazarismo de má memória para uma primavera marcelista que nunca deu frutos muito palpáveis.                 

Guardo uma memória menos nítida da impressão que os contos da segunda parte da compilação então exerceram em mim. Obedecem a um registo diferente das crónicas, mais facilmente identificados com a tal nação verde-rubra colorida com vista para o mar e para algumas ilhas a perder de vista no horizonte. Talvez volte ao seu convívio um dia destes e reaviva as mensagens cifradas nos três ciclos simbólicos documentados: o Diabo (o vivo e o dos grandes remédios), o Herói (o imperfeito, o mais-que-perfeito e o perfeito), a Linguagem (a da competência e a da performance). Talvez o faça se estiver para aí voltado, até porque o livro que os profissionais do lápis azul e da tesoura castradora da censura deixaram passar inadvertidamente sem exercer o seu poder purificador para que estavam mandatados pela moral e bons costumes. Falta então imperdoável aos farejadores encartados de subversivos ou opositores do regime, que é o que Katafaraum também poderá querer significar (< Kata(r) + far(o) + a + um = catadores de parasitas). Talvez o faça, de modo a resgatar dum ostracismo imerecido um livro sobre a opressão que a liberdade, ironicamente, recambiou em 74 para o tal cemitério dos livros esquecidos, de que falava um ficcionista sobejamente conhecido à escala global nos nossos dias, lugar sombrio onde todos os livros se arriscam a ir parar, se deixarem de ser percorridos pelos sentidos despertos dos leitores: respirar o perfume segredado das palavras estampadas a negro em fundo branco e saborear avidamente as histórias tateadas com o olhar ao longo das viagens de descoberta pelos universos infinitos da imaginação libertadora.