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31 de julho de 2025

O homem a quem chamaram cavalo...

I'm not a horse, I'm not an animal, I'm a man...

 A L T E R I D A D E S                                                       

Anda por aí disponível na Net um filme que eu vi nos anos 70, já não me recordo muito bem onde, mas cuja memória me acompanhou até hoje, apesar de nunca mais o ter voltado a visionar desde então no grande ecrã. Revi-o agora em formato pequeno num canal da TV Cabo, o Star Movies 92 da NOS, no meu plasma caseiro. Espero que se mantenha disponível nos próximos tempos, sobretudo por tratar dum conjunto de tópicos tão atuais nos nossos dias, ligados ao embate de culturas oriundas de espaços geográficos diametralmente opostos e a aversão visceral duns e doutros aos distintos sistemas civilizacionais em confronto. Estou-me a referir a A Man Called Horse (1970), uma película estadunidense realizada por Elliot Silverstein, baseado no conto de Dorothy M. Johnson, Indian Country (1968).

Nas décadas anteriores, os westerns clássicos exibidos nos cinemas ou emitidos na televisão primavam pelas lutas ferozes entre índios e cowboys, quer dizer, entre os corajosos vaqueiros americanos e os ferozes indígenas emplumados. A completar esse estado bélico constante contado com imagens em movimento havia, ainda, toda uma gama de histórias aos quadradinhos, em que os colts certeiros dos bons derrotavam sem exceção os arcos e flechas dos maus. Ou seja, naquele mundo exótico do Far West mítico, os caras-pálidas levavam sempre a melhor sobre os peles-vermelhas. As aventuras infindas do Kansas Kid, do Roy Rogers, do Buffalo Bill contra o Touro Sentado, o Nuvem Vermelha, o Cavalo Louco preenchiam o nosso imaginário infantil a contaminar largamente o juvenil e até adulto.

O homem a quem chamaram cavalo veio dizer-nos que o ser-se diferente não nos faz, a priori, nem bons nem maus. Tudo depende  de se cumprirem ou não as regras estabelecidas por cada um dos grupos em presença. Neste caso concreto, entre um representante singular dos invasores ingleses e uma tribo inteira dos invadidos Sioux. O contacto abrupto e o convívio forçado dum europeu nunca até então visto leva a tribo americana que o arrestou a considerá-lo como um mero animal, sem o menor traço de humanidade claro à flor da pele. Tanto para o cativo como para os cativadores, a lei da alteridade considera o outro, individual/coletivo, como um selvagem, cruel e bárbaro. Estão todos errados, afinal. Os padrões é que variam, ou seja, os plasmados na tela e os visionados pelos espetadores.  

No ano em que este filme estreou, estavam ainda em cartaz dois outros de temática afim: The Royal Hunt of the Sun (1969) e o Soldier Blue (1970), de Irving Lerner e Ralph Nelson. Sobre o mais antigo, falei um pouco aqui, o que farei certamente acerca do mais recente, quando voltar a revê-lo numa qualquer estação televisiva. Com três idas ao cinema em menos dum ano, todos os mitos e contramito ligados à conquista do Novo Mundo pelo Velho partiram à desfilada para o país distante do nunca mais. Para tal terá contribuído também o desconforto de ter seguido todos os debates verbais travados na tribo ameríndia em sioux sem legendas auxiliares, pondo-me assim na pele das minorias que são confrontadas com uma língua estranha como se fosse de facto a sua. Tão simples e tão eficiente, em suma.

22 de setembro de 2023

Quartetos de cordas, rimas & luzes

Salvador Dalí,  La persistència de la memòria, 1931
[NY, Museum of Modern Art - MoMA ]
«O tempo presente e o tempo passado | Estão ambos talvez presentes no tempo futuro, | E o tempo futuro contido no tempo passado. | Se todo o tempo estiver eternamente presente | Todo o tempo é irredimível. | O que poderia ter sido é uma abstração | Permanecendo uma possibilidade perpétua | Somente num mundo de especulação. | O que poderia ter sido e o que foi | Apontam para um fim, que está sempre presente.»
T. S. Eliot, Quatro quartetos (1943: 1,1-11)

Tempo de ver, ouvir e sentir...

A televisão ainda nos pode surpreender quando menos se espera. Muito de tempos a tempos, tropeçamos inadvertidamente com um ou outro filme apetecível, perdido no meio de muitos outros de mediana ou nula qualidade que pululam nos mais de 300 canais postos à nossa disposição 24 horas por dia, em sinal aberto ou por cabo.

Num desses encontros imediatos dum qualquer grau indeterminado, deparei-me com um três em um como nos champôs em campanha de promoção, elaborado em torno de três quartetos com acordes filmados, declamados e tocados. Abençoada falta de sono que me permitiu insistir num zapping fortuito de resultado imprevisível.

Uma navegação rápida na Net lembrou-me ter sido a RTP a exibir A Late Quartet (2012) de Yaron Zilberman, apresentado como um quarteto único na página de divulgação da estação. A ideia de finitude temporal da história a ser assim anunciada ab initio aos potenciais telespetadores dos 105 minutos de duração da fita.

A sintonia mantida pelos executantes do Streichquartettt Nr 14 (1826) de Beethoven ameaça ruir após um quarto de século de sucessos ininterruptos. A saúde do violoncelista, a rivalidade dos violinistas e a crise conjugal dum deles com a violetista põe em risco a realização daquele que poderá ser o derradeiro e tardio concerto do grupo.

As dificuldades da peça musical em sete tempos são vencidos pela qualidade das execuções registadas na película. Convite para a ouvir na íntegra num outro contexto e proceder à leitura atenta dos Four Quartets (1943) de T. S. Eliot. Depois, felicitar o canal público televiso por nos permitir fruir de modo tripartido a cultura que nos é devida.

    QUARTETOS FILMADOS, DECLAMADOS & TOCADOS 

24 de junho de 2022

Mamma'mia nei sogni di musica

POSTERS ORIGINAIS
[Musical, 1999 - Filme, 2008] 
I HAVE A DREAM
I have a dream, a song to sing | To help me cope, with anything | If you see the wonder, of a fairy tale | You can take the future, even if you fail || I believe in angels | Something good in everything I see | I believe in angels | When I know the time is right for me | I'll cross the stream, I have a dream || I have a dream, a fantasy | To help me through, reality | And my destination, makes it worth the while | Pushin' through the darkness, still another mile | I believe in angels.
Quando eu ainda assistia aos Festivais da Eurovisão, fiquei atónito quando um grupo sueco se apresentou a cantar em inglês e arrebatou o primeiro lugar nesse distante 4 de março de 1974. Mal eu adivinhava que nos nossos dias o espanto seria ouvir um qualquer ABBA cantar uma qualquer Watterloo em sueco ou as cantigas concorrentes nas línguas nacionais dos países admitidos à final, entre as quais estaria também o português. O monolinguismo anglófono parece ter vindo mesmo para ficar e contra factos não há argumentos. Indeed!

O estilo festivaleiro dos quatro caiu no goto de muitos e bons ouvidos dispersos no planeta e presença constante nos hit parade globais. Outros êxitos se seguiram nessa década e na seguinte, inseridos nos registos da disco music e pop rock, com recurso às técnicas wall of sound. O mediatismo alcançado pelo grupo nunca teve o condão de me conquistar como fã pleno ou fugaz. Definitivamente as cantiguinhas dos ABBA não fazem parte dos meus sonhos da música. Gostos não se discutem e raramente mudam de sentido.

Uma trintena de anos após a sua formação em Estocolmo, estreava no West End de Londres o Mamma Mia! (1999), um jukebox musical composto por alguns sucessos maiores da banda, unidos por um fio condutor de recorte banal feito à medida. Aos palcos de teatro seguiram-se os ecrãs de cinema em 2008. A Meryl Streep levou-me a visionar a película na supertela do Santo António de Faro. Gostei de a ouvir. Gostei de a ver. Era expectável. O mesmo gostaria de dizer da restante comédia musical. Mas isso já seria ir longe demais.

27 de maio de 2022

Sons da música no coração

POSTERS ORIGINAIS
[Musical, 1959 - Filme, 1965] 
CLIMB EV’RY MOUNTAIN
Climb ev’ry mountain | Search high and low | Follow ev’ry byway | Ev’ry path you know || Climb ev’ry mountain | Ford ev’ry stream | Follow ev’ry rainbow | Till you find your dream || A dream that will need | All the love you can give | Ev’ry day of your life | For as long as you live || Climb ev’ry mountain | Ford ev’ry stream | Follow ev’ry rainbow | Till you find your dream || A dream that will need | All the love you can give | Ev’ry day of your life | For as long as you live || Climb ev’ry mountain | Ford ev’ry stream | Follow ev’ry rainbow | Till you find your dream.
Oscar II Hammerstein / Richard Rodgers

Andava eu no início do ensino secundário quando o The sound of music (1965) se estreou entre nós e se tornou no maior êxito da permanência contínua num cinema de Lisboa. Registam as notícias da época sobreviventes à voragem do tempo que terá permanecido no cartaz do Tivoli 58 semanas com várias sessões diárias, tendo sido visto, só ali, por mais de 700 000 espetadores. Espantoso mesmo nos nossos dias um tal sucesso, sobretudo quando a projeção de longas e curtas metragens se transferiu em grande parte das salas tradicionais para os ecrãs maiores ou menores dos televisores domésticos. Tecnologias e práticas agora vulgares completamente desconhecidas na época.

Tive conhecimento dos primeiros ecos do sucesso do filme a partir da trilha sonora gravada em disco, que as rádios começaram a transmitir desde os primeiros instantes a qualquer hora do dia ou da noite. Ouvi-a depois vezes sem conta no gabinete de Religião e Moral, onde o P.e Naia tinha por hábito receber os alunos, mesmo aqueles que já não frequentavam a disciplina, como seria o meu caso. Falava-se um pouco de tudo, sem tabus, e até das temáticas mais cruciais que o bom senso permitia abordar. O ambiente dramático-musical levado ao grande ecrã por Robert Wise permitia abordar alguns assuntos que já tinham entrado no domínio público, apesar dos cortes cirúrgicos da censura.

Assisti à projeção do Música no Coração na plateia do Salão Ibéria do Parque da Rainha D. Leonor. Fi-lo numa matinée de fim de semana numa sala completamente esgotada, à semelhança das restantes sessões que ali se terão realizado. Por entre dentes trauteei as melodias compostas para um musical homónimo idealizado para os palcos americanos em 1959 e transposto seis anos depois para as telas de todo o mundo. Não terei sido o único a fazê-lo. Ainda hoje haja quem continue a dar vida às canções de Oscar II Hammerstein e Richard Rodgers e as interprete como pode e sabe sempre que se proporciona. A história d'A família Trapp continua a ter os seus fiéis intérpretes amadores e profissionais.

À distância de várias décadas, o Parque das Caldas da Rainha mudou de nome e chama-se agora de D. Carlos I, o velho cinema erigido junto aos Pavilhões do Hospital Termal ruiu e não foi substituído por coisa nenhuma, o livro passou de moda e caiu no mais completo esquecimento, o LP cessou de rodar nos velhos gira-discos e foi agora convertido em adaptações vídeo alojadas no YouTube, o  filme deixou de ser projetado pelas televisões na quadra de Natal e foi trocado pelo Sozinho em casa original e sequela(s). A história dos cantores da família von Trapp cedeu o por outras histórias contadas-cantadas doutras famílias. Venham elas para as podermos trautear, assobiar ou dramatizar.     

MARIA AUGUSTA TRAPP
The story of Trapp Family Singers (1949) | A família Trapp (1962)

27 de março de 2022

West Side Story, história cantada, dançada e filmada dum amor sem barreiras

PROLOGUE
Two households, both alike in dignity, | In fair Verona, where we lay our scene, | From ancient grudge break to new mutiny, | Where civil blood makes civil hands unclean. | From forth the fatal loins of these two foes | A pair of star-cross'd lovers take their life; | Whose misadventur’d piteous overthrows | Do with their death bury their parents' strife. | The fearful passage of their death-mark'd love, | And the continuance of their parents' rage, | Which, but their chil-dren's end, nought could remove, | Is now the two hours' traffic of our stage; | The which if you with patient ears attend, | What here shall miss, our toil shall strive to mend.
William Shakespeare, Romeo and Juliet (1597)

Em meados do século passado, Jerome Robbins levava à cena com grande sucesso na Broadway o West Side Story (1957), com música de Leonard Bernstein e letra de Stephen Sondhein, numa adaptação do livro de Arthur Laurents. À distância dum oceano e numa cidade estremenha, os meus cinco anos dificilmente se dariam conta do êxito alcançado por essa produção nos palcos da grande metrópole nova-iorquina já a sonhar com as telas de todo o mundo.

A passagem para o cinema do drama trágico quinhentista do Romeu e Julieta de Shakespeare, acomodado à realidade americana dos EUA e do Porto Rico recente foi quase imediata. Coube a Robert Wise dar corpo a esse West Side Story (1961) filmado, com todos os meios hollywoodescos então disponíveis. As melodias do musical e a notícia dos dez óscares arrecadados chegaram aos meus ouvidos de nove anos, insuficientes ainda para me dar acesso ao grande ecrã.

Uma década volvida, vi pela primeira vez ao West Side Story numa sessão clássica do Monumental/Império. Fi-lo com a minha turma do ICL e recordo que essa história da Zona Oeste de NY cantada e dançada nos anos 50 nos pareceu pouco credível na Lisboa dos anos 70. Essa ida ao cinema custou-me, porém, uma mudança brusca da Estrela-Lapa para Campo de Ourique. Desavenças com a minha senhoria da época que não tolerara o meu atraso à hora do jantar.

Passadas as imagens em movimento, ficaram as palavras cantadas. Primeiro pelos cantores líricos sem rosto visível no celuloide que deram voz aos atores cénicos com honras de cartaz e práticas de play back. Depois pelos nomes sonantes de José Carreras, Kiri Te Kanawa e Tatiana Troyanos (entre outros) que as registaram num álbum (1998). Conservo ainda o CD e não me canso de visionar as gravações que foram feitas em making-of  e disponibilizadas na Net.

Os ecos do musical representado nos palcos do teatro e projetado nas telas do cinema e da televisão voltou a interessar muito recentemente os amantes da 7.ª Arte. Deixei passar a versão que Steven Spielberg emprestou ao West Side Story (2021) nas salas de Faro, caso tenham estreado por aqui e o SARS-CoV-2 o tenha deixado. Enquanto as reposições tardam a chegar, limito-me a cantarolar con brio latino algumas das suas áreas mais conhecidas e a alegrar-me com o ato.

21 de maio de 2021

Fitas & Escritas

« Un jour, parlant à Florinde, appuyés tous deux sur une fenestre, lui tint tels propos : “ Madame, je vous prie me vouloir conseiller lequel vaut le mieux, ou parler ou mourir ? ” Florinde lui répondit promptement : « Je conseillerai tou-jours à mes amis de parler et non de mourir; car il y a peu de paroles qui ne se puissent amender, mais la vie perduë ne se peut recouvrer. — Vous me promettez doncques, dist Amadour, que non seulement vous ne serez marrie des propos que je vous veux dire, mais ny estonnée, jusqu'à ce qu'en entendiez la fin. ” Elle lui répondit : “ Dites ce qu'il vous plaira, car, si vous m'étonnez, nul autre m'assurera. ” »
Marguerite de Navarre, L'Heptaméron des nouvelles (1559)
[Premiere Journée, 10e nouvelle]
É melhor falar ou morrer?
filmes que se veem uma única vez e ficam gravados no nosso imaginário para toda a vida. Outros, pelo contrário, por mais que se vejam, nunca conseguem transmitir uma única ideia que mereça a pena recordar. Dos livros e doutras formas de criação artística pode dizer-se precisamente o mesmo. Neste momento, fico-me com as imagens em movimento associadas a uma coletânea de contos renascentista que a república das letras regista como uma obra de referência digna de ocupar um lugar de destaque no Parnaso, a residência de Apolo e das suas nove Musas.

Num habitual zapping rápido de exploração, deparei-me com um título que me despertou desde logo a atenção. Tratava-se do Call me by your name (2017), uma película de Luca Guadagnino, numa adaptação do romance homónimo de André Aciman. Não resisti à sua visualização integral e não me arrependo de o ter feito. Os especialistas integram a obra no universo de inspiração gay, o que não foge em muito à realidade, mas que pessoalmente prefiro considerar como uma abordagem à iniciação sexual-amorosa dum adolescente de 17 anos de origem judaica.

Com ação centrada na Lombardia, província de Cremona no norte da Itália, corria o ano de 1983, a história é-nos transmitida com diálogos travados em inglês, francês e italiano, com o recurso pontual a outros idiomas. Será o caso da leitura dum breve extrato d'O Heptaméron de Margarida de Navarra, versão alemã parafraseada livremente para a língua inglesa predominante e ponto de partida de todo o argumento cinematográfico. Fixei a pergunta que uma das personagens da 10.ª novela da coletânea coloca e que no português das legendas corresponde a algo como: É melhor falar ou morrer?

Elio resolve falar e dizer a Oliver o que sentia e o caso entre os dois aconteceu. Passaram a assumir o nome um do outro, a demonstrar que enquanto a sua história durasse eram um e um só para o que desse e para o que viesse. Demonstra também que a lição colhida num roman courtois pode influenciar o desencadear duma paixão contada com as técnicas muito particulares emprestadas às fitas e às escritas a uma distância de quase cinco séculos de devir histórico e literário. Se a imortalidade duma obra tivesse de ser comprovada este seria sem dúvida um bom exemplo.

29 de dezembro de 2020

Catequese & Cinema

Codex Manesse / Große Heidelberger Liederhandschrift
„Der Schulmeister von Eßlingen“
Meister des Codex Manesse (c. 1305-1340)

Espaços perdidos da cidade da rainha...

Quem me conhece minimamente nos dias de hoje, sem qualquer tipo de crença no além, duvidará de ter eu andado quatro anos inteiros na catequese, de ter sido batizado com um mês de idade, de me ter confessado, comungado e crismado de livre e espontânea vontade, com toda a pompa e cerimónia usada nessas ocasiões. O meu processo de afastamento das práticas transcendentes exigidas pela religiosidade foi lento e espinhoso mas não vem agora aqui para o caso. Apercebi-me há muito tempo ser a eternidade uma ilusão bem-intencionada da vida para anular os efeitos devastadores da morte, não existe em termos absolutos e só sobrevive numa imortalidade relativa na memória guardada por cada um de nós dentro de si. As nossas boas ou más ações só são premiadas ou castigadas – quando o são – neste nosso mundo do aquém.

A passagem há dias num canal de filmes da TV Cabo de algumas películas a preto e branco do Abbott & Costello fez-me vir à ideia esses tempos inocentes das lições de catecismo, que decorriam no arruinado Hotel da Copa, no antigo Casino do Parque, num prédio devoluto do topo norte da praça da fruta e no coro alto da igreja do Pópulo. Os encontros de doutrinandos realizavam-se nos sábados à tarde e a associação com a dupla cómica estado-unidense advém das matinés que se realizavam no desaparecido Cinema Ibéria, a premiar os aprendizes das coisas divinas que soubessem as preces de cor. Ainda as sei todas na ponta da língua. Só a Salve-Rainha me deu um pouco mais de trabalho, com tanto palavreado junto de sentido obscuro, problema agora resolvido, pois há muito me deixei de rezas a um deus desconhecido e respetiva corte celestial.

Os filmes projetados num miniecrã colocado a meio da sala incluíam ainda algumas curta-metragens do Charlot e Pamplinas, para além dum ou doutro desenho animado do Pica-Pau, do Tom & Jerry ou do Popeye. Vistas bem as coisas e à distância de quase seis décadas, algo ficou dessa catequização primária, completada uma vez por ano com uma excursão pela região. Mosteiros, abadias, conventos igrejas e santuários foram todos visitados sem exceção. A aprendizagem foi depois continuada e aprofundada no Ciclo Preparatório com as aulas de Religião Moral, mas aí já não havia nenhuma compensação extracurricular para quem soubesse de carreirinha as orações de palavras fixas aprendidas na catequese e recitadas na missa de domingo. O tempo da infância começava a ficar para trás e a adolescência a espreitar no horizonte.

16 de dezembro de 2019

Oscar Wilde e as verdades escondidas no retrato de Dorian Gray

‘How sad it is!’ murmured Dorian Gray, with his eyes still fixed upon his own portrait. ‘How sad it is! I shall grow old, and horrid, and dreadful. But this picture will remain always young. It will never be older than this particular day of June…. If it was only the other way! If it was I who were to be always young, and the picture that were to grow old! For this—for this—I would give everything! Yes, there is nothing in the whole world I would not give!’
O mistério do movimento aparente do olhar na pintura sempre me fascinou e deixou intrigado na presença desse efeito visual algo paradoxal captado numa imagem estática a duas dimensões. Tê-la-ei observado pela primeira vez numa diversidade de quadros expostos no Museu José Malhoa das Caldas da Rainha. A associação das estéticas naturalistas aplicadas às artes plásticas e literárias foi-me transmitida numa visita de estudo preparada pelo meu professor de Português a esse espaço no início da década de 60. A atenção centrou-se na feição estética que Henrique Medina (1901-1988) dera a uma Rapariga da Galiza que pela forma de trajar bem podia ser oriunda da antiga província do Minho. Estávamos a estudar nessa altura as novelas campesinas de Júlio Dinis e a interpretação costumbrista de cariz romântica vinha mesmo a calhar. Palavra puxa-palavra, ficámos a saber ser esse pintor considerado à época o mais famoso retratista português vivo, o tal que tinha criado um óleo a cores de Hurd Hatfield, o ator que personificara o anti-herói desenhado por Óscar Wilde em The Picture of Dorian Gray (1890) e adaptado ao cinema em 1945 por Albert Lewin para a Metro-Goldwyn-Mayer num filme a preto e branco.

Possuo uma velha edição do livro que acabei de visitar coisa de dias, mas só agora visualizei o trailler oficial da película no admirável mundo novo da Net. Foi também que encontrei uma reprodução da tela, magnífica na técnica utilizada para lhe dar corpo, apesar de se situar a anos-luz da realidade desenhada nas páginas dum romance gótico oitocentista, composto em inglês por um autor irlandês. A culpa talvez resida na estrela hollywoodesca escolhida pelos estúdios americanos, incapaz como modelo de traduzir o secreto encanto angelical descrito na versão escrita do protagonista da fábula. Agregue-se a dificuldade de plasmar na tela filmada as contínuas alterações que a tela pintada vai revelando em primeira instância ao retratado na ficção por Basil Hallward e em segunda mão aos leitores pela entidade narrativa, sem recorrer a efeitos especiais que a cinematografia da época não tivesse ainda desenvolvido.

A história é conhecida e dispensa uma explanação alongada. O leitmotiv assenta no pacto proferido pela figura fulcral do relato, ao confrontar-se com a beleza ideal da sua juventude, espelhada para sempre no óleo que o representava na sua máxima pujança, enquanto o processo de envelhecimento imposto pela natureza se abateria inexoravelmente sobre si. Horrorizado com a crueldade do destino, manifesta aos amigos estar disposto a dar tudo o que tinha e alguma vez viesse a ter, a vender a própria alma ao diabo se tal fosse necessário, para inverter por completo a ordem dos factos. Manter-se perpetuamente jovem e transferir a deterioração do corpo que o fluir implacável do tempo lhe traria para a superfície pintada do quadro. Assim foi. O percurso dos eventos narrados confirmá-lo-á à exaustão. Os termos do acordo ajustado sem se saber muito bem a quem se desfaz quando o retratado tenta eliminar as marcas inde-léveis da sua degradação física e psíquica registada traço-a-traço, ponto-a-ponto, mancha-a-mancha no retrato e o insólito desfaz-se por magia como se nunca tivesse existido.

O mito da eterna juventude está na moda. Se calhar esteve sempre. O recurso a plásticas, implantes, dietas, infiltrações, ginásios e o diabo a sete para manter o primado da beleza a vida inteira são recorrentes. O narcisismo, a superficialidade, a vaidade, o egotismo e o vale-tudo pululam nas redes sociais e revistas cor-de-rosa das celebridades do momento. O ator central do drama limita-se a formular um desejo imediatamente satisfeito à revelia de todas as forças conhecidas da razão. A singularidade resolve-se através dos poderes transcenden-tes do maravilhoso instrumental. O quadro passa a funcionar como um espelho mágico capaz de revelar a cada instante as sucessivas metamorfoses da alma, fruto da crueldade, insensibilidade, frieza, amoralidade e hipocrisia, que a falta de caráter e o culto desenfreado por um hedonismo filosófico mal-assimilado podem conduzir sem o conseguir obliterar. Os atores descartáveis das novelas televisivas reduzidos a estrelas-cadentes da vida real que se cuidem. É que o universo das mezinhas prodigiosas do sucesso imediato e perene existe nas utopias delirantes do faz-de-conta, posta ao nosso dispor como imagens invertidas de locais distantes, miragens inacessíveis dum ser-e-parecer sempre presente e inexoravelmente ausente.

HENRIQUE MEDINA
Retrado de Hurd Hatfield no papel de Dorian Gray