Mostrar mensagens com a etiqueta Bélicas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Bélicas. Mostrar todas as mensagens

5 de junho de 2022

Do párodo dramático à parada bélica

Jarra de terracota com um coro de andadores de palafitas

DESFILE DE CORISTAS & TRIBUNA DE HERÓIS
Espaço aberto, amplo, plano, situado numa zona nobre da malha urbana. Uma tribuna a um dos lados do recinto, ocupado por um número limitado de ocupantes. Uma multidão em número indefinido, colocada na parte oposta do local de observação privilegiado. Olhar atento de uns e outros, virados todos eles para o centro fulcral das operações. Uma voz audível por todos anuncia o início do desfile ciclicamente preparado todos os anos.

As procissões e sacrifícios áticos feitos sobre os auspícios dionisíacos estavam marcados pelas deambulações dramáticas dos coreutas. Entravam e saíam na orquestra pelos dois PÁRODOS situados à direita e à esquerda da tribuna dos heróisPelo meio, circulam entre o público e os atores. Com a mediação incisiva do deus que nasceu duas vezes, trazem ao presente os factos gloriosos dum passado heroico e que se impunha eternizar.

Nas modernas PARADAS militares, os caminhantes armados não cantam, não dançam, não falam. Limitam-se a marchar em passo cadenciado, imponente, sincronizado. Junto ao palanque de honra profusamente engalanado, olham reverencialmente as autoridades destacadas para o evento e partem avenida fora como se nada fosse com eles, sempre em frente, impávidos e serenos, senhores do seu nariz e sem dizer água-vai.

ccd

Entre o coro teatral que cantava o párodo de entrada dos dramas helenos e os desfilantes bélicos que marcham ao som das fanfarras nas paradas militares, 2500 anos de devir histórico separam o mundo local antigo do global moderno. O propósito cerimonial de render honras aos heróis registados na memória coletiva é comum às duas exibições. Falta saber se umas e outras se limitam a apaziguar o passado ou a comprometer o futuro.

Cortejo Dionisíaco - Vaso Grego
[Stapleton Collection/Corbis]

9 de maio de 2022

Dia da Europa e de outros eventos cíclicos dignos de memória

Abraham Ortelius, Theatrum Orbis Terrarum, Antuérpia, 1570

Dizem os almanaques ser o dia 9 de maio o 129.º do calendário gregoriano e 130.º nos anos bissextos, faltando, portanto, 266 dias para o final do ano. Informações de pouca monta se logo de seguida se não elencasse um conjunto considerável de eventos cíclicos de caráter global dignos de memória e de celebração especial.

Neste mesmo dia de anos diferentes nasceu e morreu muita gente como aliás nos restantes dias do ano. Só os nomes das estrelas de primeira grandeza figuram nestas listagens de almanaque. Destaco Schiller ‒ falecido em 1805 ‒, por ter versificado a Ode da Alegria, o hino oficial da União Europeia musicado por Beethoven.

Todos os anos se festeja nesta data o Dia da Europa. Esquecemo-nos das terras e usos, rocas e fusos que nos caraterizam e abraçamos uma comunidade de 27 países unidos na diversidade. Deixámos de ocupar o centro do mundo ‒ como durante muito tempo se pensou ‒ e passámos a meros cidadãos do Theatrum Orbis Terrarum.

Fossem eles números redondos, assinalar-se-ia hoje o desembarque da Nona Cruzada em Acre (1271), a assinatura do Tratado de Windsor (1386) ou a adesão da Alemanha Ocidental à NATO (1955). Com toda a pompa e circunstância habituais, a Federação da Rússia comemora cada 9 de maio o Dia da Vitória na Guerra Patriótica (1945).

O regime do Kremlin não fugirá este ano aos desfiles bélicos tão ao agrado da defunta URSS no final da Segunda Guerra Mundial. se desconhece as surpresas que o atual senhor de Moscovo terá em mente para solenizar a efeméride vivida nesta data: gritar as vitórias sublimes do passado ou calar as derrotas clamorosas do presente.

26 de abril de 2022

Impérios do Mundo

LA JÉRUSALEM CÉLESTE
Tapisserie de l'Apocalypse
[Château d'Angers, France, c. 1375]
Eternos moradores do luzente, | Estelífero Polo e claro Assento: | Se do grande valor da forte gente | De Luso não perdeis o pensamento, | Deveis de ter sabido claramente | Como é dos Fados grandes certo intento | Que por ela se esqueçam os humanos | De Assírios, Persas, Gregos e Romanos.
Luís de Camões, Os Lusíadas, 1572 (I, 24)
… depois dos três impérios dos Assírios, Persas e Gregos que já passaram, e depois do quarto, que ainda hoje dura, que é o Romano, há de haver um novo e melhor Império que há de ser o quinto e último.
Padre António Vieira, História do Futuro, 1653-1661 (I, i )
Grécia, Roma, Cristandade, | Europa – os quatro se vão | Para onde vai toda idade. | Quem vem viver a verdade | Que morreu D. Sebastião?
Fernando Pessoa, Mensagem, 1936 (III, i, 2.º, 5)

Da Terceira Roma à Nova Jerusalém...

Quando durante a Revolução Neolítica os caçadores-recoletores nómadas se tornaram agricultores-pastores sedentários, o processo embrionário de formação dos impérios começou a perfilar-se no horizonte. Se nos cingirmos à visão bíblica judaico-cristã, ter-se-iam sucedido quatro grandes entidades políticas de dimensão territorial crescente, identificadas com o Assírio-Babilónico, o Medo-Persa, o Greco-Macedónico e o Romano-Bizantino. Outros se lhe seguiram ao longo dos séculos, mas nenhum deles conseguiu conquistar o domínio almejado e inequívoco de Quinto Império do mundo.

A literatura épico-profético-lusitana de Luís de Camões, do P.e António Vieira e Fernando Pessoa olharam para os vastos domínios dos reinos e senhorios de Portugal e Algarves, de Aquém e Além-Mar em África, da Guiné, Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia como globais, sem abranger todavia os vinte e quatro fusos horários da esfera terrestre. Nem o império católico dos filipes hispânicos onde o sol nunca se punha, nem o napoleónico do imperador dos franceses, nem o império anglicano de sua majestade britânica lograram erigir nos seus tempos áureos de conquista eurocêntrica do mundo.   

Os impérios centrais eurasiáticos autocratas altamente belicistas dos alemães, dos austro-húngaros, dos otomanos turcos e dos ortodoxos russos ruíram durante a Grande Guerra, seguidos na geração imediata da queda do eixo imperial germano-italiano-nipónico no final da Segunda Guerra Mundial. O tempo dos impérios parecia ter desaparecido de vez do horizonte planetário global na passagem do segundo para o terceiro milénios, sobretudo a partir do derrube do Muro de Berlim e da subsequente implosão interna do império soviético e do universo da cintura-tampão de países-satélites.

Nos dias de hoje, o sonho delirante do ideado patriarca da alma russa, a real e a imaginária, o candidato presumido a senhor absoluto de toda a Rússia, grande, pequena e branca, empenhou-se na tarefa providencial de recuperar a grandeza imperial de superpotência muito perdida. O predador-vencedor/perdedor continua a sua cruzada de reunir as parcelas sumidas da miríade de entidades multinacionais anexadas pela força das armas no decurso dos séculos. Triste César este de pacotilha, ocupante de ruínas alçadas numa terra queimada, devastada mas nunca subtraída à vontade indomável dos povos.

O novo grão-duque de Moscóvia, o novo czar sem coroa do Kremlin, o novo soberano redentor da Rus eslava, ambiciona ativar a titularia imperial herdada do passado e tornar-se o potentado supremo da urbe humana globalizada, o messiânico conquistador do Quinto Império. Moscovo, já considerada a Terceira Roma terrestre, passaria a ser também uma legítima e merecida Nova Jerusalém celestial, a cabeça bicéfala do ambicionado Império do Mundo. Delírios do novo déspota enlouquecido que nos calhou na rifa. Cuidado com ele que anda por aí às claras a atazanar-nos o juízo.

Reuterswärd – Non-Violence – New York City (2012)

1 de abril de 2022

Abril do nascer e do renascer

AVRIL
Très riches heures du duc de Berry (séc. xv)

[Musée Condé - Château de Chantilly]

Abril, cron. O 4.º mês do nosso calendário. Do lat. Aprīle-, o 2.º mês do ant. ano roma-no, sem dúvida adj. substantivado; a origem do voc. no entanto, continua obscura. A re-lação entre o lat. Aprīle- e o v. aperīre, «abrir», não se justifica; não se esqueça que a existência de aperilis como der. do mesmo v. não se comprova, pois não passa de cria-ção de gramáticos, depois usada por outros autores, para explicar precisamente o nome do mês Aprilio...
 J. P. Machado, Dicionário onomástico etimológico da língua portuguesa 
 (Lisboa: Horizonte, 1984; Ⅰ, 34b.)

Abril não deve o nome a nenhuma divindade conhecida, imperador ou político de relevo. Tão pouco anda associado a um número de ordem especial. É o quarto dos doze meses existentes e é tudo. Tem uma origem obscura mas todos o ligamos ao ato de abrir (latapĕrīre). Não dum novo do ciclo anual, já dado pelo mais antigo antigo calendário romano a março e pelo mais recente a janeiro, mas à chegada triunfante da primavera e, com ela, da pureza e da renovação.

As hesitações etimológicas ora defendem que o mensis aprilis estaria associado à germinação das frutas e das flores, ao separar das águas e das terras, ao renascer da vida em geral; ora poderia referir-se a Aprodita etrusca ou à Afrodite helénica, a Vénus do panteão romano; ora à própria espuma do mar (gr. αφρός) da qual a deusa do amor e da beleza teria nascido. Aqui como em qualquer situação de dúvida, pode bem dizer-se que a cada cabeça sua sentença.

Se de facto o mês de abril não carrega ainda em si o sentido pleno de abertura, que passe a fazê-lo. Que abra de vez as mentes a quem teima em mantê-las fechadas para a vida e para o amor. Que o faça sob a égide de Άφροδίτη-Venus, a mediadora greco-itálica da oração, o génio protetor da vegetação e dos jardins. Que troque a guerra pela paz e promova a união na terra europeia, filha dileta dos deuses e dos homens, e nos traga a primavera cabal dos novos tempos.

Sandro Botticelli, Nascita di Venere (1485)
[Firenze, Le Gallerie degli Uffizi]

22 de março de 2022

Tchaikovsky e as nove musas de Apolo

Baldassare Peruzzi - Apollo e le Muse (1514-23)
[
Galleria Palatina - Palazzo Pitt - Firenze]

ταῦτ᾽ ἄρα Μοῦσαι ἄειδονὈλύμπια δώματ᾽ ἔχουσαι,
ἐννέα θυγατέρες μεγάλου Διὸς ἐκγεγαυῖαι,
Κλειώ τ᾽ Εὐτέρπη τε Θάλειά τε Μελπομέενη τε
Τερψιχόρη τ᾽ Ἐρατώ τε Πολύμνιά τ᾽ Οὐρανίη τε
Καλλιόπη θ᾽ δὲ προφερεστάτη ἐστὶν ἁπασέων.       

Ησίοδος, Θεογονία (c. séc. Ⅶ AEC, 76-79) 


Ecos do Templo das Musas...
No início dos anos 70, um colega ofereceu-me uma gravação do Concerto para piano e orquestra N.º 1 de Tchaikovsky, interpretado por Emil Gilels e pela Orquestra do Teatro Bolshoi de Moscovo, dirigida por Samuel Samosud. Comprara-o nas vésperas da sua partida para a frente guineense da guerra colonial, como prova de amizade e memória futura de contornos desconhecidos. Fizera-o na TÁLIA, uma papelaria, livraria e discoteca com nome da Musa da Comédia, o que o terá salvaguardado dos desígnios de MELPÓMENE, a Musa da Tragédia, e dos horrores causados pelo conflito africano.

Ainda hoje guardo esse 33 rotações por minuto, um LP vinil com qualidade hi-fi stereo garantida na capa, produzido nos estúdios da Musidisc, a documentar a simbiose perfeita criada pelo universo musical russo-soviético então no seu apogeu e que o salazarismo-caetanismo da época se limitava a tolerar. Há muito que o deixei de ouvir num gira-discos adequado que EUTERPE, a Musa da Música, se encarregou de substituir por outros meios mais apropriados de se fazer escutar. Nos dias que correm, a Net e o YouTube funcionam às mil maravilhas. Conquistas fulminantes de CLIO, a Musa da História.

Vemos, ouvimos e lemos, todos os dias e a toda a hora, nas televisões, nas rádios e nos jornais impressos ou divulgadas on-line pela Net as atualizações ao minuto da agressão russa à nação ucraniana. As sanções económicas do mundo ocidental à superpotência invasora não têm cessado de seguir as instruções possantes de CALÍOPE, a Musa da Epopeia. Ultimamente, a condenação internacional passou a virar-se para as sanções culturais, medidas que têm merecido a reprovação unânime de todas as companheiras de Apolo, expressa sobretudo de modo firme e relutante por ÉRATO, a Musa da Lírica.

A Filarmónica de Cardiff removeu peças de Tchaikovsky do seu reportório. TERPSÍCORE, a Musa da Dança, tremeu de espanto, temendo que depois da Abertura 1812, a censura se voltasse a breve trecho para O Quebra-Nozes, O Lago dos Cisnes ou A Bela Adormecida. Foi acompanhada neste movimento de indignação por POLÍMNIA, a Musa dos Hinos Sagrados, já que a purga começou a sentir-se noutros quadrantes geográficos situados nos dois lados da fronteira bélica instalada em terras europeias e nas restantes áreas da expressão artística e literária representativos de todo o mundo.

Com os fones postos, oiço os três andamentos do Concerto para piano e orquestra N.º 1 de Tchaikovsky  Allegro ma no troppo, Andante semplice, Allegro con fuoco  e pergunto a URÂNIA, a Musa da Astronomia-Astrologia, se esta Opus 23 em si bemol menor do grande criador russo do século ⅩⅨ se voltará a executar em todo o mundo livre de guerras e em paz. É que de todas as divindades veneradas no Mouseion, o Templo das Musas, parece ser a mais capaz para ler as mensagens emanadas dos astros e fazer descer a harmonia celestial sobre a terra. Continuo à espera duma resposta. Sentado.

EPÍGRAFE
Isso cantavam, naturalmente, as Musas que ocuparam as moradias olímpicas, as nove filhas do grande Zeus, Clio, Euterpe, Tália, Melpómene, Terpsícore, Érato, Polímnia, Urânia e Calíope. Esta é a mais destacada de todas, pois acompanha os veneráveis reis. 
Hesíodo, Teogonia (76-79)

16 de março de 2022

Jogos de tabuleiro a preto e branco

Maria Helena Vieira da Silva
La partie d'echecs | A partida de xadrez
[Paris - Centre Pompidou - 1943]
«Um bom jogador de xadrez está sinceramente convencido de que a sua derrota decorre dum erro seu e então procura esse erro no início do jogo, mas esque-ce que a cada etapa, ao longo de toda a partida, houve erros semelhantes e que nenhum dos seus lances foi perfeito. O erro ao qual o jogador dirige a sua aten-ção lhe parece mais saliente porque o adversário tirou proveito dele. Bem mais complexo que isso é o jogo da guerra, que se passa em condições de tempo determinadas e onde não uma vontade única que governa mecanismos inani-mados, mas, ao contrário, tudo decorre de um conflito incalculável de vontades distintas
Leão Tolstói, Guerra e Paz (1865)
 Jogos de Xadrez  Guerra Paz 

Quem invade um país rival acaba sempre derrotado. Mais tarde ou mais cedo, duma maneira ou de outra. Às vezes uma reviravolta geoestratégica nos jogos de guerra e paz dura menos tempo do que uma partida de xadrez. Os ditadores acabam muitas vezes por ter um final bem mais dramático do que o sofrido pelo rei adversário após o xeque-mate num jogo de tabuleiro pintado a preto e branco.

Napoleão foi derrotado pelo General Inverno na Rússia czarista e acabou exilado em Santa Helena, ao que parece envenenado. Hitler foi derrotado em Estalinegrado na Rússia soviética e acabou por se suicidar num bunker duma Berlim arrasada pelos exércitos aliados. As invasões dos exércitos francês e germânico aos países vizinhos acabaram mal haviam começado. Só deixaram a morte atrás de si.

As lições da História deveriam calar fundo nos países que alguma vez se viram invadidos, impedindo-os de cometer os mesmos erros. A derrota dos exércitos invasores da URSS ao Afeganistão deveriam ter servido de exemplo às agora forças invasoras da Federação Russa à Ucrânia. Parece que as megalomanias napoleónicas e hitlerianas passadas de pouco terão servido às putinadas atualmente em curso.

Nos duelos de David e Golias os anões podem vencer os gigantes. A funda certeira do futuro rei de Israel lançou por terra o soldado filisteu. Uns cocktail molotov bem direcionados pela resistência finlandesa acabou numa centena de dias com as forças invasoras de Stalin no inverno de 1939-1940. As hordas invasoras do novo inquilino do Kremlin que se cuidem. A resistência dos povos move montanhas.