26 de agosto de 2019

Fernando Pessoa: Lisboa - O que o turista deve ver | What the Tourist Should See

"Over seven hills, which are as many points of observation whence the most magnificent panoramas may be enjoyed, the vast irregular and many-coloured mass of houses that constitute Lisbon is scattered. For the traveler who comes in from the sea, Lisbon, even from afar, rises like a fair vision in a dream, clear-cut against a bright blue sky which the sun gladdens with its gold. And the domes, the monuments, the old castles jut up above the mass of houses, like far-off heralds of this delightful seat, of this blessed region. The tourist’s wonder begins when the ship approaches the bar, and, after passing the Bugio lighthouse – that little guardian-tower at the mouth of the river built three centuries ago on the plan of Friar João Turriano –, the castled Torre de Belém appears, a magnificent specimen of sixteenth century military architecture, in the Romantic-Gothic-Moorish style. As the ship moves forward the river grows narrower, soon to widen again, forming one of the largest natural harbours in the world with ample anchorage for the greatest of fleets. Then, on the left, the masses of houses cluster brightly over the hills. That is Lisbon."
Fernando Pessoa, Lisbon, what the tourist should see (1925; 2015)
Fernando Pessoa (1988-1935) é um dos grandes poetas da língua portuguesa. É também um dos vultos maiores das letras inglesas. Um nome incontornável da modernidade literária europeia à conquista doutros continentes. Em Lisboa viu a luz do dia. Em Durban, na África do Sul, fez a sua instrução primária e liceal. A Lisboa voltaria para passar o resto dos seus dias. Publicou em vida quatro obras, três em inglês e uma em português. A educação britânica bateu mais forte e marcou-o para sempre. Deixou um baú cheio de inéditos compostos nos dois idiomas e um ou outro em francêsO Alexander Search da juventude abre as portas da imaginação criativa a Bernardo Soares, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro da maturidade. Pseudónimos, semi-heterónimos, heterónimos e ortónimo unem esforços e a obra nasce, cresce e impõe-se.   

O original do Lisbon, what the tourist should see foi achado no final dos anos 80 e terá sido datilografado por volta de 1925. Foi traduzido e dado à estampa em 1992, a que se seguiram outras (re)edições bilingues ou vertidas para italiano, espanhol, francês e alemão. Se a pátria do emissor interno do Livro do desassossego era a língua portuguesa, a pátria do redator do guia da cidade construída sobre sete colinas é mesmo Lisboa, a tal que o turista deve ver, pese embora o facto de a ter descrito em língua inglesa. O cicerone inicia o percurso a bordo dum navio que se prepara para entrar na barra do Tejo e que após a passagem pelo Bugio se deixa deslumbrar por todos os zimbórios, monumentos e castelos antigos que se destacam por sobre o molhe de casas e ruelas desse sítio encantado e dessa região bendita que os olhos podem enxergar e admirar.

As dialéticas de lembrança e esquecimento cruzaram-se a 16 de julho passado, mediram forças entre si e o primeiro elemento da dicotomia ganhou aos pontos ao segundo. Nesse recontro de amigos tive ocasião de referir algumas questões de equilíbrio equacionadas por José Saramago n'O ano da morte de Ricardo Reis. Os meus colegas de três décadas quiseram gravar a memória desse dia com a oferta da mais recente edição do roteiro de Fernando Pessoa, efetuada em 2015 com a chancela do Centro Atlântico. O mundo académico tem por vezes destas coisas. Viajei pelo seu interior em tempo de férias. A tradução de Pedro Coutim ajudou-me a seguir de mais perto a versão original e as ilustrações de Mário Linhares a recrearem os cenários descritos. Facultaram-me a visão duma cidade iluminada por um sol radioso num céu azul e refrescada pela doce brisa do rio.

21 de agosto de 2019

José Saramago, do memorial do convento e do voo da passarola

«Tu és Sete-Sóis porque vês às claras, tu serás Sete-Luas porque vês às escuras, e, assim, Blimunda, que até aí só se chamava, como sua mãe, de Jesus, ficou sendo Sete-Luas, e bem batizada estava, que o batismo foi de padre, não alcunha de qualquer um. Dormiram nessa noite os sóis e as luas abraçados, enquanto as estrelas giravam devagar no céu, Lua onde estás, Sol aonde vais.»
José Saramago, Memorial do convento (1982)
No passado 10 de julho, quando o Real Edifício de Mafra passou a Património Mundial da UNESCO, senti um impulso imperioso de voltar à companhia do único Prémio Nobel da Literatura escrita em português que, de certo modo, lançara o grande empreendimento do Magnânimo para as bocas do mundo. Reli-o de cabo a rabo e em ambiente de férias na primeira semana de agosto, 310 anos depois do Voador ter ensaiado, com grande sucesso em Lisboa, entre 3 e 8 desse mesmo mês estival, as propriedades do seu aeróstato de balões aquecidos. O evento científico decorreu em 1709 no ambiente palatino da Corte. A ação do romance que o refere com grande destaque inicia-se em 1711 e irá até 1739. O factual transforma-se em ficção e o universo de realismo mágico toma conta do relato. 

Sobre José Saramago e o Memorial do convento (1982), já se disse quase tudo ou está ainda tudo por dizer. É que se a cada cabeça sua sentença, a cada leitor seu palpite. Até eu disse algumas coisas sem ter necessariamente adiantado grande coisa. Fi-lo em diversas ocasiões e arrisco-me a estar de novo aqui a dizer banalidades sem ultrapassar o domínio da trivialidade. A viagem do olhar sobre os livros é incapaz de resistir à passagem implacável do tempo. Quando a uma leitura inicial dum texto se sucedem compulsivamente outras, é natural que as visões acumuladas ao longo do processo nos nos forneçam novas pistas e despertem para perspetivas alternativas de captação das mensagens transmitidas pelo seu obreiro.

O prazer sentido no primeiro contacto com a crónica romanceada da consecução do projeto megalómano de Dom João V manteve-se nesta incursão mais recente sem grandes mutações na apreciação geral. Senti-me porém menos atraído pelos episódios memorialistas referentes ao Convento anunciados no título do que aos reservados à Passarola. É que os ecos audíveis dum neorrealismo militante ainda predominante no núcleo épico da edificação dum monumento de pedra nos remetem para estéticas literárias de sonoridades pretéri-tas, a espontaneidade e liberdade de expressão imprimida a ideali-zação alegórica duma máquina voadora nos remete ato contínuo para as estéticas duma pós-modernidade vindoura.

O percurso existencial de Blimunda Sete-Luas cruzou-se com o de Baltasar Sete-Sóis num auto-de-. O impulso que os atraiu foi ime-diatoO tal coup de foudre das poéticas narrativas. O padre Bartolo-meu de Gusmão legitima a união dos dois e incube-os de dar vida à geringonça voadora. Os três BBB elevar-se-ão do chão ao som do cravo de Domenico Scarlatti e da vontade das gentes. Um dia o solda-do maneta das guerras ibéricas perdeu-se no sem-termo dos ares. Aquela que via a alma das pessoas quando estava em jejum partiu à sua procura. Achou-o após nove anos de buscas infrutíferas pelo mundo. Vislumbrou-o a arder numa fogueira da Inquisição. Então a vidente peregrina chamou a si a nuvem fechada que se encontrava no interior do corpo do supliciado e impediu-a de subir para as estrelas pois à terra pertencia e a si que o libertara. E assim termina a fábula. E assim termina o comentário. E assim termina esta leitura à espera da próxima, que nisto da ficção nunca há um fim à vista.

13 de agosto de 2019

Lillias Fraser & Blimunda Sete-Luas

BLIMUNDA SETE-LUAS
José Santa-Bárbara
[Dicionário de Personagens da Ficção Portuguesa]
‒ Vejo dentro do corpo das pessoas quando estou em jejum ‒ explicou Blimunda.
‒ Eu vejo a morte ‒ disse Lillias.

Encontro em Lisboa 

A mulher riu. Tinha um tão claro riso que Lillias julgou, por um mo-mento, achar-se rodeada de crianças. No entanto, apesar do seu ca-belo, ainda muito escuro, e do seu rosto, liso e moreno, onde brilhava a leve sugestão de emulsões orientais, vinha dela uma excelente ve-lhice. Atravessara o tempo e convencera-o a separar-se dela para sempre. Olhava para Lillias com firmeza, como quem dá o último retoque numa obra que honrou a expectativa.
O quarto era pequeno e abafado, de tetos muito baixos, em abóbada. A luz esvoaçava entre as paredes, desenhando arabescos com asas. Alguém tirara a sua roupa e lhe vestira uma camisa esfiapada das lavagens.
A mulher disse:
‒ Comes e descansas, porque essa fuga não acaba aqui. E le-vantou-se. Usava trapos grossos e sobrepostos. Isso não lhe dava o ar de uma mendiga. Olhava o lume. Lillias viu o sinal manchar-lhe a face direita, a do poder.
‒ Como te chamas?
‒ Lillias Fraser, madam.
A mulher acercou-se novamente. A sua voz cantada enchia o ar como se ressoasse na igreja. «Perdeste muito sangue. Amanhã vejo se a criança está viva na barriga.»
Lillias extinguia dentro de si mesma a vigilância de que precisara para fazer o caminho até ali. E aquela fraqueza que a tomava, em vez de a assustar, trazia o embalo da sua infância ao colo de Margareth.
 Que nome tem vossemecê?
‒ Blimunda ‒ disse a mulher. ‒ Blimunda Sete-Luas.
‒ É um bonito nome ‒ disse Lillias.
Quis pegar-lhe na mão, porém Blimunda já não estava a seu lado. O próprio fogo se tornava invisível, devagar.
Hélia Correia, Lillias Fraser (Lx. 2001; 2003: 251-252)

8 de agosto de 2019

Era uma vez um padre que queria voar...

PASSAROLA

Figure de la Barque inventée en 1709 par Barthélemi Laurent de Gusman,
Chapelain du Roi à Lisbonne Pour s'élever et Cheminer à travers les Airs  (1784?)
 
[Bibliothèque national de France]
BARCA VOADORA
«Então é isto, e o padre Bartolomeu Lourenço respondeu, Há de ser isto, e, abrindo uma arca, tirou um papel que desenrolou, onde se via o desenho de uma ave, a passarola seria, isso era Baltasar capaz de reconhecer, e porque à vista era o desenho um pássaro, acreditou que todos aqueles materiais, juntos e ordenados nos lugares competentes, seriam capazes de voar. Mais para si próprio do que para Sete-Sóis, que do desenho não via mais que a semelhança da ave, e ela lhe bastava, o padre explicou, em tom primeiramente sereno, depois animando-se, Isto que aqui vês são as velas que servem para cortar o vento e que se movem segundo as necessidades, e aqui é o leme com que se dirigirá a barca, não ao acaso, mas por mão e ciência do piloto, e este é o corpo do navio dos ares, à proa e à popa em forma de concha marinha, onde se dispõem os tubos do fole para o caso de faltar o vento, como tantas vezes sucede no mar, e estas são as asas, sem elas como se haveria de equilibrar a barca voadora, e destas esferas não te falarei, que são segredo meu, bastará que te diga que sem o que elas levarão dentro não voará a barca, mas sobre este ponto ainda não estou seguro, e neste teto de arames penduraremos umas bolas de âmbar, porque o âmbar responde muito bem ao calor dos raios do sol para o efeito que quero, e isto é a bússola, sem ela não se vai a parte alguma, e isto são roldanas, servem para largar ou recolher as velas, como nos navios do mar. Calou-se alguns momentos, e acrescentou, E quando tudo estiver armado e concordante entre si, voarei.»

José Saramago, Memorial do Convento (1982: 67-68)
Foi a 3 de agosto de 1709 que o Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão (1685-1724) testou pela primeira vez na Casa do Forte de Lisboa o seu balão aquecido. Pretendia elevá-lo nos ares e assim provar que o homem também podia voar, se a tanto o ajudasse o engenho e arte. Ao que contam as crónicas da época, o protótipo ter-se-á incendiado antes de se libertar da força gravitacional da terra, pelo que a exibição se repetiu no dia 5, agora na Casa Real, tendo subido uns 4 metros até ser devorado pelo fogo. A terceira tentativa voltou à Casa do Forte, tendo o voo curto desse dia 6 resistido às chamas até à aterragem. Entusiasmado com o sucesso relativo alcançado, o seu criador resolveu realizar no dia 7 a experiência no Terreiro do Paço, onde o aeróstato ascendeu a grande altura e aí se manteve por longos minutos até pousar tranquilamente no chão. A Corte de Dom João V reunida no Paço Real da Ribeira teve ocasião de assistir à consagração definitiva do pequeno globo voador, que no dia 8 subiu por momentos até ao teto da Sala de Audiências, para depois descer suavemente no solo como se se tratasse duma verdadeira Passarola.
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Cumprem-se agora 310 anos que a barca voadora de Bartolomeu de Gusmão se elevou nos ares pela primeira vez. A releitura do Memorial do Convento em tempo de férias convidou-me a erigir aqui neste espaço de histórias contadas um Memorial à Passarola que em agosto de 1709 levantou voo em Lisboa. Acontecimento singular que José Saramago tão bem soube retratar nas páginas dum romance fantasiado segundo a cartilha poética do realismo mágico. Blimunda Sete-Luas & Baltasar Sete-Sóis foram os timoneiros de papel e tinta a inaugurar pela força conjunta da vontade as viagens aéreas e que inventiva humana um dia confiaria a homens e mulheres de carne e osso. O real e o imaginário a darem as mãos e a oferecerem assim um outro sentido à vida...