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7 de julho de 2020

James Joyce: fragmentos da vida dublinense

"There was no hope for him this time: it was the third stroke. Night after night I had passed the house (it was vacation time) and studied the lighted square of window: and night after night I had found it lighted in the same way, faintly and evenly. If he was dead, I thought, I would see the reflection of candles on the darkened blind for I knew that two candles must be set at the head of a corpse. He had often said to me: “I am not long for this world,” and I had thought his words idle. Now I knew they were true. Every night as I gazed up at the window I said softly to myself the word paralysis. It had always sounded strangely in my ears, like the word gnomon in the Euclid and the word simony in the Catechism. But now it sounded to me like the name of some maleficent and sinful being. It filled me with fear, and yet I longed to be nearer to it and to look upon its deadly work."
Acabei de fazer uma viagem muito especial pela cidade natal de James Joyce, através da leitura espaçada do Dublinenses (1914). Evitei fazê-lo dum jato, de modo a prolongar por mais tempo o prazer da descoberta da capital irlandesa e dos seus residentes, através das palavras escritas em cada um dos quinze contos reunidos em livro. No final do percurso pela malha urbana que lhes serve de cenário, de ter atravessado pontes e entrado nos espaços públicos e privados que os povoam, de ter acedido aos pequenos e grandes conflitos dos seus moradores, de ter ficado na expetativa de os ver resolvidos a contento de todos, a sensação de satisfação alcançado pela partilha é total. Algo bem diverso do experimentado no desfecho da visita guiada pelo restante corpus literário do autor, quer no Retrato do artista quando jovem, quer no Ulisses. Sobretudo neste último, fomentador de todas as polémicas interpretativas. Ao que dizem os entendidos, há ainda um livro praticamente intraduzível, o Finnegans Wake, por fundir vocábulos do inglês com o doutros idiomas. Mas sobre esse exercício experimental é muito duvidoso que alguma vez lhe chegue a pegar.

Dezena e meia de pequenos relatos levam-nos até aos primeiros anos do século passado de vida quotidiana da Gente de Dublin - título alternativo da tradução portuguesa -, na véspera de grandes convulsões geopolíticas que iriam transformar de modo radical a Europa e o mundo. De repente apercebemo-nos estar na presença de episódios citadinos centenários que a modernidade da escrita nos remete para uma intemporalidade que só é possível no horizonte criativo das obras pioneiras, aquelas que marcam o início revolucionário das novas eras do imaginário humano. O final dos impérios estava iminente mas a separação do país da tutela britânica ainda estava longe de ser alcançada. O reconhecimento da independência da República da Irlanda pelo Reino Unido, declarada unilateralmente em abril de 1916, ocorreria de facto em dezembro de 1922, mas os conflitos nacionalistas latentes desde sempre no seio do Eire estão bem presentes em bastas páginas da coletânea.

À exceção dos três fragmentos iniciais da vida dublinense revelados por um eu-narrativo, a dúzia restante é apresentada por uma voz omnisciente que tudo sabe, desde o pensamento dos intervenientes aos monólogos-diálogos por si travados. É como se o ponto de vista individual assumido pelo narrador-autor tivesse cedido a palavra à comunidade urbana, convertida numa heroína-coletiva, a verdadeira e legítima protagonista dos relatos. Este conhecimento absoluto não impede a instância narrativa de deixar com alguma frequência a trama em suspenso, transferindo para o leitor a árdua tarefa de tecer as respetivas ilações, se para aí estiver voltado, e de encontrar soluções de futuro viáveis ou desejáveis, como se em ficção o preenchimento do não-narrado fosse possível ou fizesse sentido em termos reais.

A captação instantânea de momentos específicos selecionados por James Joyce para contar a história moral do país, centrada na sua cidade mais importante, passa por episódios ligados à morte dum sacerdote católico, ao encontro de dois alunos faltistas com um ancião desconhecido, à paixão dum rapaz pela irmã dum amigo e do presente que gostaria de lhe dar, à desistência de fuga duma jovem com um marinheiro, ao esforço dum colegial pobre de se adaptar aos seus colegas mais abastados, ao esquema usado por dois galãs para enganar uma donzela, às manobras duma matrona para arranjar um casamento de interesse para a filha, a um jantar de dois amigos e se enfrentam os sonhos literários falhados de um deles e o sucesso reconhecido do outro, a um escriturário frustrado que se embriaga em diversos pubs, à celebração em família na véspera de Todos-os-Santos, a uma aventura extraconjugal interrompida com final trágico, a divergências num comité político de ativistas para fazer reviver a memória dum independentista histórico, ao esforço inglório duma mãe para organizar um recital perfeito de piano para a filha, à tentativa dos amigos dum beberrão de o fazer regressar ao seio do catolicismo, a um jantar de família onde se medita sobre o sem-sentido da vida.

Feita a apresentação sucinta destes flashes narrativos, fica-se com a ideia de se estar na presença dum vasto políptico constituído pelos painéis dum retábulo ou de vitrais duma grande catedral, de cromatismos e luminosidade diferente, ligados entre si por um tema comum, o dia-a-dia duma cidade-capital e das suas gentes nos alvores dos anos de 1900. Testemunho admirável de as revelar ao mundo e de inaugurar um percurso singular no universo das letras que à distância dum século e picos nos continua a fascinar e a motivar para a leitura de livros escritos com engenho e arte.     

16 de junho de 2019

Odisseia a pé pela Dublin do Bloomsday

               A Guide Map of Joyce's Dublin               

Na pista de James Joyce & de Leopold Bloom
Andei anos a fio atrás duma velha edição do Ulisses de James Joyce. Lia uma ou outra página, pulava de capítulo em capítulo, tentava cap-tar a lógica interna escondida em cada uma das suas partes e punha de lado o livro à espera de melhores dias. O meu conhecimento superficial da Odisseia de Homero explicou sempre essa inabilidade de mergulhar em profundidade no romance considerado pelos críticos como o suprassumo da modernidade literária europeia. À distância cavada pelo tempo, posso considerar esse pega e larga sem chegar a bom porto como uma fase pretérita de não-leitura.

Um percurso académico feito de andanças pelos trilhos das letras levou-me amiúde a deter-me nas comissuras traçadas pelas matrizes culturais greco-romana e judaico-cristã. Os universos da epopeia em verso antiga abriram-me caminhos seguros para cruzar os universos modernos da epopeia em prosa, vulgarmente designada de conto, novela e romance. Ulisses entrecruzou-se facilmente com Leopold Bloom, o primeiro a navegar pelos trilhos marítimos do Mediterrâneo, o segundo a trilhar as ruas e ruelas da capital da Irlanda. Os dois caminharam lado a lado e a interleitura cumpriu-se.

Aterrei em Dublin em 2006 no rasto das rotas homéricas que o herói joyciano ali fizera a 16 de junho de 1904, o Bloomsday. As placas lite-rárias semeadas a cada passo facilitaram-me a tarefa. Afinal estava no país com a maior taxa de leitores do mundo e uma livraria a cada esquina, na cidade-berço de poetas, novelistas, dramaturgos e filóso-fos. Jonathan Swift, William Butler Yeats, Oscar Wilde, Bernard Shaw e Samuel Beckett são alguns deles. Visitei o autor do Gulliver's Travels na St Patrick's Cathedral e estive com todos eles na Libray of the Trinity College. Parnaso de criadores divinos descidos à terra.

No ano em que andei pela cidade de James Joyce na pista de Leopold Bloom, foi também o ano em que John Boyne a vestiu como O rapaz do pijama às riscas. Os ecos helénicos do Pacto dos Heróis e da Guerra de Troia calaram-se nessa temporada no coração do país gaélico para ouvir os ecos germânicos da Solução Final e do Holocausto. Um Bloomsday épico transformado num Doomsday trágico. O real e o imaginário de mãos dadas através da literatura para questionarem a insanidade humana de todos os tempos. Os míticos de antanho e os históricos da hodiernidade.

27 de maio de 2019

James Joyce e as odisseias urbanas dum Ulisses irlandês

"Think you're escaping and run into yourself. Longest way round is the shortest way home." 
James Joyce, Ulysses (1922)
Lisboa e Dublin serão, porventura, as duas capitais europeias mais ligadas a Odisseu, o herói maior da Grécia antiga e rei lendário de Ítaca. A primeira ainda hoje diz dever o nome clássico de Olisipo, Ulissipolis ou Ulisseia ao seu fundador epónimo, a segunda por ter criado uma odisseia moderna na sua malha urbana, toda ela decal-cada na marítima empreendida pelo inventor helénico do Cavalo de Troia. Casos paradigmáticos da criatividade literária transmitidas nas diversas modalidades épicas em verso e em prosa.

Regressei à companhia de Leopold Bloom, o pacato angariador de publicidade, o tal que James Joyce escolheu para protagonista do Ulisses (1922), uma das mais dissecadas ficções romanescas do século passado e cujas deambulações pela cidade no dia 16 de junho de 1904 dariam origem ao feriado do Bloomsday, celebrado anualmente na Irlanda e noutras partes do mundo. Fi-lo numa edição traduzida, prefaciada e anotada por João Palma-Ferreira, que me acompanha desde 2006, ano em que li pela primeira vez de fio a pavio as suas 844 páginas, distribuídas por três partes e 18 capítulos ou etapas literárias da peregrinação judaico-cristã da modernidade literária europeia. Tarefa árdua que me permitiu visitar nesse verão já longínquo o palco dos acontecimentos narrados com a bagagem recheada dos conhecimentos entretanto obtidos.

Apesar do título dado ao romance-epopeia, o antropónimo Ulisses só aparece registado quatro vezes em toda a malha discursiva, sem que haja mesmo assim uma relação direta detetável de causa-efeito entre essa figura temerária helénica e a desenhada no texto irlandês. Se quisermos encontrar similitudes estruturais concretas nos dois textos, teremos de exercer um esforço continuado e persistente para obter resultados satisfatórios que ultrapassem a mera coincidência da viagem. O melhor será recorrer ao quadro-esquema que James Joyce elaborou para chegarmos com algum sucesso às aventuras e desventuras desenvolvidas no poema homérico. Se nos apoiarmos nas palavras-chave ali apontadas como simples auxiliares de leitura, a aproximação anunciada à Odisseia lá se irá fazendo a pouco e pouco e sem percalços de maior.

Seguir as pisadas do ilustre caminhante joyciano pelas ruas e ruelas da sua cidade natal não é pera doce. Essa também a perceção do aedo moderno que lhe deu corpo, registada nos múltiplos escritos laterais que lhe dedicou. Considera esse complexo percurso labiríntico e sem rumo certo anunciado como a história dum dia que simboliza a própria vida, como um ciclo completo do corpo humano assente no epopeia de duas raças, a israelita e a irlandesa. Herói coletivo dum povo ou duma coletividade específica, com direito a ser cantada sem obedecer às regras restritas de metro e rima. Relato que depois duma visita atenta e integral se poderá sempre revisitar uma e outra vez em pequenas investidas parcelares. Não tenho nenhuma prevista para os próximos tempos, mas nunca é tarde para voltar aos locais já visitados uma ou outra ocasião, porque há sempre a possibilidade de nos depararmos com novas e surpreendentes descobertas.  

25 de fevereiro de 2016

James Joyce, a busca de identidade do jovem artista

«Once upon a time and a very good time it was there was a moocow coming down along the road and this moocow that was coming down along the road met a nicens little boy named baby tuckoo...»
James Joyce, A Portrait of the Artist as a Young Man (1916)
livros que antes de serem lidos ocupam um lugar privilegiado no nosso universo de referências bibliográficas. Vêm precedidos pelo carisma granjeado pelo autor ao longo dos tempos e pelos juízos de valor dos críticos de serviço. Aos simples mortais amantes da literatura, a tarefa da descoberta pessoal desses relatos compostos com engenho e arte torna-se particularmente difícil. E como de obras-últimas não rezam as sebentas escolares, toda a nossa atenção acaba por se centrar nas obras-primas impostas ex cathedra pelas diretivas oficiais do poder instituído. Tenho uma certa aversão à canonização incondicional de manual académico ou de contracapa de reedição especial. Encaro esse tipo de sacralização a contragosto. Pergunto-me onde fica afinal o livre-arbítrio de decidir sem a pressão exercida pela predestinação dogmática da intelligentzia dissemi-nadora de cultura à escala planetária.

Levei alguns anos a penetrar nos meandros diegéticos criados por James Joyce. Tive alguma dificuldade em percorrer os trilhos traçados no território por um romancista que estava condenado a demonstrar a sua genialidade inigualável em cada título publicado. Preferi viajar pelas nações, províncias e localidades dos restantes criadores a quem é consentido pisar o mesmo chão que eu piso sem ter necessidade de me pôr em pontas de pés ou dobrar-me de joelhos perante tanta genialidade. Alguém a quem omito o nome por pudor afirmou num ensaio necessariamente brilhante que só os estúpidos é que tinham dificuldade em entender a tessitura narrativa do Ulisses (1922). Achei a tirada impressionista de mau gosto e não me deixei impressionar com a provocação. Contive por algum tempo a curiosidade de seguir as errâncias de dezasseis horas de Leopoldo Bloom pelas dezanove ruas da cidade de Dublim, nesse dia 16 de junho de 1904, depois transformado nas festividades do Bloomsday. Uma viagem oportuna à Irlanda e um conhecimento mais consistente da Odisseia de Homero levou-me a entrar, finalmente, na intimidade do protagonista dum dos tais romances por excelência do século xx. A minha peregrinação pelos locais destacados na ficção ajudaram-me a compreender melhor alguns dos sentidos escondidos na escrita.

Acabo de encetar a minha segunda incursão nos domínios do mais consagrado inventor de histórias imaginadas com base em histórias acontecidas. Fi-lo pela mão de Stephen Dedalus, protagonista do Retrato do artista quando jovem (1916). Dizem os especialistas tratar-se dum verdadeiro autorretrato da infância, adolescência e juventude do autor. Relato pormenorizado dos mais significativos momentos existenciais do retratado e da sua passagem sucessiva pelo Clongowes Woods College de Kildare e pelos Irish Christian Brothers, Belvedere College e University College de Dublin. Romance de aprendizagem dum indivíduo que nunca se cansa de procurar a sua identidade de ser humano nos labirintos matriciais da cultura judaico-cristã de desenho católico-jesuítico. Percurso de formação feito, também, na intimidade familiar marcada por uma progressiva decadência económica a roçar a pobreza e no ambiente citadino povoado de tentações pecaminosas oferecidas a cada esquina. A procura da verdade leva-o, inexoravelmente, a uma rotura completa com a Igreja e à descoberta salvadora duma via artística alternativa. É assim que o vamos encontrar nos quatro capítulos iniciais da epopeia irlandesa dos nossos dias feita por Joyce à medida de Homero. O encontro do jovem Telémaco com o veterano Ulisses estava assegurada. Altura também de passar o testemunho duma personagem para a outra, dos verdes anos explanados num relato para os tempos de maturidade convocados num outro. E assim o processo de formação dum alter ego literário tomou forma e se transformou num modelo de referência obrigatória na república das letras.

Lidos os livros e superados os obstáculos de percurso, posso afirmar que o balanço resulta positivo. Estou também apto para declarar que a obra máxima da modernidade literária europeia não é a obra da minha vida. Mas, mesmo assim, teve o condão de pintar a minha existência com cores, matizes e tonalidades mais claras. Deu asas à minha imaginação. Permitiu-me voar mais alto. Como Ícaro e Dédalo dos mitos gregos ao libertarem-se do Labirinto de Creta. Ajudou-me a transformar o cinzento-abissal em azul-celestial e a preparar a mente para habilidades desconhecidas. Tal como regista Ovídio nas Metamorfoses e Joyce repete no Retrato. Epígrafe inicial prestimosa de amigo e aviso precioso de navegante. E assim se enriquecem os horizontes estéticos com que o mundo se pode vestir, e a prosa se faz poesia e a arte se faz caminho.

26 de março de 2015

Duas culturas, dois povos, dois textos



No ano de 1922, o escritor irlandês James A. Joyce publicou o seu Ulisses, hoje considerado um dos romances do século xx. O romance descreve as errâncias do pequeno-burguês irlandês Leopold Bloom em Dublin ao longo do dia 16 de junho de 1904. Este dia é celebrado pelos fãs de James Joyce como o Bloomsday (um jogo de palavras com Doomsday, o dia do Juízo Final). O herói do romance é judeu. Mas os episódios por ele vividos naquele dia seguem o padrão da Odisseia. Com isto, James Joyce quer recordar-nos de que a nossa cultura é uma Mesopotâmia banhada por dois rios. A fonte de um deles jorra em Israel, ao passo que a do outro nasce na Grécia. E os rios são dois textos centrais que abastecem todo o sistema de irrigação da cultura com histórias ricas em nutrientes.

É que: uma cultura é, não em último lugar, o património comum de histórias que mantém unida uma sociedade. Destas também fazem parte os relatos sobre as próprias origens, ou seja, a biografia (descrição da vida) de uma sociedade que diz à mesma quem ela é.

─  A Bíblia judaica;

O duplo poema épico grego sobre o cerco de Troia a Ilíada (Troia chamava-se em grego Ílion) e a Odisseia, a atribulada e errante viagem de regresso do astuto Ulisses da cidade de Troia destruída para casa e para junto da sua mulher Penélope.

O autor do poema épico grego foi Homero. O autor da Bíblia foi Deus. Ambos têm características de autores mitológicos: Homero não via; Deus não podia ser olhado era proibido fazer dele um retrato.

Dietrich Schwanitz, Cultura (1999 | 2004: 37)