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8 de abril de 2018

Antonio Tabucchi, um requiem italiano entoado em português

«…hoje é um dia muito estranho para mim, estou a sonhar mas parece-me ser realidade e tenho de encontrar umas pessoas que só existem na minha lembrança.»
Antonio Tabucchi, Requiem – uma alucinação (1991)
Comprei o Requiem – uma alucinação (1991) de Antonio Tabucchi mal foi publicado, com o firme propósito de o ler mal chegasse a casa. A circunstância de ter sido escrito diretamente em português por um italiano abrira-me ato contínuo o apetite de entrar no seu interior e de desvendar os seus mistérios mais secretos, aqueles que todas as obras de arte carregam consigo, à espera que os visitantes mais audazes tenham tanta habilidade para os deslindar quanta os seus arquitetos tiveram para os idear. Só cumpri este intento passados 21 anos. A marcha imparável do tempo e os caprichos imponderáveis do dia a dia impediram-me de cumprir esse desejo de imediato. A morte do autor anunciada nos mass media recordou-me que já estava em dívida para com ele há uma eternidade. O romance, composto em forma de missa de defuntos e ilustrado com um fragmento d’As tentações de Santo Antão de Hyeronimus Bosch, saiu enfim da prateleira dos livros esquecidos e das leituras adiadas e começou a desfiar o seu rosário de preces encomendadas às almas dos entes convocados pela fábula, em nove etapas, tantas quantas as partes eclesiásticas consagradas pelo género litúrgico que o enforma e inspira.

A obra até seria difícil de integrar satisfatoriamente numa categoria literária precisa e regularizada pelos cânones tradicionais, se não se desse o caso providencial de a instância narrativa, prevendo as dificuldades sentidas pelos leitores mais inexperientes nestas lides das letras, a ter colocado na órbita imediata do insólito, na fronteira dicotómica do real/imaginário, espaço psíquico em que o desvario caótico da alucinação e a fantasia episódica do sonho tomam conta do discurso e o transformam numa sonata de palavras pensadas com cadência musical e entoadas com precisão poética. A plausibilidade factual do relato fica garantida, dado que dentro e fora das páginas que o abrigam nada de sobrenatural aconteceu, apesar da sensação de estranheza com que ficamos ao percorrer a romaria do protagonista pelos trilhos das lembranças perdidas. Tudo se explica através da capacidade inata que todos nós temos de forjar mundos alternativos do faz-de-conta. Assim a saibamos alimentar e acarinhar.

A ação decorre num escaldante domingo de verão, o último do mês de julho dum qualquer ano do final da década de 80, quando Mário Soares presidia de maneira peculiar aos destinos da república. O Eu narrador e alter ego do autor achava-se numa quinta de Azeitão a ler à sombra duma amoreira O livro do desassossego de Bernardo Soares, quando é atacado pelos fantasmas da memória e se vê levado, por artes de berliques e berloques, para o centro de Lisboa. A tranquilidade bucólica é substituída pelo bulício urbano e a aventura dos diálogos da vida e da morte entra em palco, para as necessárias permutas de tempo e inadiáveis ajustes de contas com a história. Segue-se uma acabada galeria de tipos disposta à boa maneira vicentina da trilogia das barcas. A ribalta dos encontros fortuitos e dos planeados desloca-se, ao sabor da maré, para os cenários do cemitério dos Prazeres, de vários restaurantes citadinos, uma pensão de bairro, o museu das Janelas Verdes e um comboio da linha de Cascais, espaçados pelas calçadas, ruas, praças, largos e avenidas que os estreitam entre si.

A última etapa da peregrinação onírica dá-se em Alcântara com Fernando Pessoa. Os ecos d’O ano da Morte de Ricardo Reis (1984) de José Saramago são audíveis desde o início deste requiem novelesco. Só muda o relevo dado aos heterónimos evocados e a frequência dos encontros relatados. A conversa toma a forma dum simpósio e é travada em português e inglês, os dois idiomas que acompanharam o poeta ao longo da sua existência. Os assuntos abordados são medianamente banais e centram-se nos desassossegos verdadeiros e fingidos vividos pelos dois no ato da criação literária. Intersecionismos, futurismos e saudosismos são aflorados mas esbarram com as vanguardas pós-modernas desconhecidas pelo inventor da primeira modernidade. O jantar chega ao fim e com ele a matéria que alimentara até então o relato. Cada um dos convivas parte para o seu mundo sem direito a despedidas. O sonho-alucinação chegara ao fim. Lisboa fica para trás e Azeitão volta a perfilar-se no horizonte do sonhador-alucinado. Entre um espaço e outro, fica a homenagem de Tabucchi à cultura portuguesa e à língua que lhe dá voz e sentido. Prestemos-lhe nós também o preito que merece e mergulhemos nas águas profundas dos seus escritos, na dádiva dos silêncios partilhados e dos afetos confessados.

NOTA
Publiquei este texto no Pátio de Letras faz hoje há precisamente 6 anos. Trago-o agora para este espaço com algumas pequenas alterações de pormenor. Faço-o como forma pessoal de me associar à homenagem que em boa hora a Fundação Calouste Gulbenkian vai dedicar a Antonio Tabucchi, a fim de assinalar a morte do homem da cultura italiana que um dia se apaixonou pela cultura portuguesa e nela passou também a viver.

16 de outubro de 2015

Perversidades, tempestades e delírios

AS TENTAÇÕES DE SANTO ANTÃO (1500)
Hieronymus Bosch
[Museu Nacional de Arte Antiga - Lisboa] 


LIVROS & TELAS

O Pintor Copiador abriu uma garrafinha de terebentina e começou a limpar as mãos com cuidado. O Bosch tinha uma imaginação perversa, disse, ele atribui essa imaginação ao pobre do Santo Antão, mas a imaginação é do pintor, era ele quem pensava todas essas coisas feias, é evidente, acho que o pobre Santo Antão nunca teria imaginado coisas dessas, o Santo Antão era uma pessoa simples. Mas foi tentado, objetei eu, é o diabo que insinua essas coisas perversas na imaginação dele, Bosch pintou a tempestade que se está a passar na alma do santo, pintou um delírio.
Antonio Tabucchi, Requiem (1991: 78-79)