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7 de fevereiro de 2018

Chá com Tê ou sem Tê...

Etimologias com Vista Alegre


CAMELLIA SINENSIS
plantacomestível árvore

É bem conhecida a história do five o'clock tea introduzido na corte inglesa pela infanta portuguesa Catarina de Bragança, quando se tornou a rainha de Sua Majestade Graciosa Carlos II Stuart. Já a contei aqui e aqui uma e outra vez. Só faltaria esclarecer como a camellia sinensis, conhecida entre nós por chá, se converteu no além-Mancha em tea. Mistério linguístico ou talvez não.

Conta uma versão mais apressada tratar-se duma leitura bastante evidente do sinograma chinês {茶}, onde o grafema latino {t} estaria de modo aparente inserido numa casa com telhado, chaminés e alpendres bem visíveis. Fantasia alimentada pela nossa ignorância quase absoluta da realidade cultural chinesa e de certo modo também da britânica. Chinesices exóticas no horizonte.

Afinal tudo se deve à realização fonética divergente dum mesmo logograma, que em cantonês e mandarim se pronuncia «chá» e em malaio «tê». O primeiro vocábulo terá sido ouvido pelos portugueses no Japão e o segundo pelos ingleses no sul da China, que assim o difundiram na parte oeste do continente europeu. Histórias antigas que a moderna filologia comparada tem ajudado a clarificar.

16 de junho de 2017

A aliança das rosas

ALIANÇA ANGLO-PORTUGUESA
[16 de junho de 1373]
Prato de porcelana da Vista Alegre comemorativo do 600.º aniversário

Ambas as coisas...

A Fábrica de Porcelana da Vista Alegre produziu em 1973 um prato comemorativo do 600.º aniversário da mais antiga aliança diplomáti-ca do mundo, assinada em 16 de junho de 1373, em Westminster, em nome de D. Fernando I de Portugal e de Eduardo III de Inglater-ra. Está decorado com as armas reais das casas de Borgonha e Plantageneta, e os atuais brasões da República Portuguesa e do Reino Unido, sobre fundo azul e ouro. Faz-se ainda acompanhar dum dístico elucidativo da efeméride e de duas rosas heráldicas identificativas dos dois soberanos, a branca do bisneto da Rainha Santa Isabel e a vermelha do avô da Rainha Filipa de Lencastre.

O tratado estabelecido pelas duas coroas frutificaria por séculos, para proveito mútuo das partes envolvidas. As rivalidades com Castela, pela soberania dos tronos peninsulares, ou com França, pela hegemonia dos impérios globais, levaria ao reforço desse acordo. Entre todos, destacam-se os tratados de Windsor (1386) e Methuen (1703). Pelo meio, ficaram os pactos acordados pelas casas de Bragança e Stuart, aquando da Guerra de Restauração (1640-1668). À luz das relações luso-britânicas, viver-se-á o Bloqueio Continental (1806-1814). À sua sombra, o Mapa Cor-de-Rosa desencadeará a humilhação portuguesa do Ultimato Inglês (1890).

Todas as rosas têm espinhos. As da paz e as da guerra. El-rei D. Fernando I, o Formoso ou o Inconstante, enquadra-se bem neste conceito. Tanto assinava tratados de amizade como os rasgava de seguida. Manteve a palavra com Inglaterra, quebrou-a com Castela. Esta caráter bipolar é confirmado na sentença que dá alma ao cor-po da divisa Cur non untrunque, pedida emprestada a Santo Agos-tinho (Confissões: xii, 32). «Por que não ambas as coisas?». Ser brando com uns e duro com outros. Estar bem com Deus e com o Diabo. Por um qualquer motivo, lembrei-me do Brexit. Sair da Euro-pa e ficar na Europa. Ubiquidade britânica que o tempo esclarecerá.

13 de março de 2017

Queques & Marmelada

JOSEFA DE ÓBIDOS

«Natureza morta - um marmelo»

Palavras vão, palavras vêm... 

Pedi emprestado a um quadro atribuído a Josefa de Óbidos (c1634-1684) a imagem dum marmelo seiscentista, idêntico em tudo aos que então serviriam às religiosas do mosteiro de Odivelas para confeci-onar a mais reputada marmelada da doçaria conventual portuguesa. A fama alcançada no seu tempo chegou até aos nossos dias, pelo que terá a sua quota-parte de verdade assegurada.

É pouco provável que a infanta Catarina de Bragança (1638-1705) tenha levado consigo para a corte de Carlos II Stuart uma reserva desse fruto acabado de colher ou transformado em compota. Já terá bastado à nova rainha consorte da Inglaterra, Escócia e Irlanda (1662-1685) ter-se feito acompanhar do precioso chá de Ceilão com que inaugurou entre os britânicos a tradição do five o'clock tea.

O que parece ser uma certeza é que nas merendas reais haveria uma citrinada de laranja amarga e uns bolos em forma de coroa. A compota virara marmalade pelos súbditos britânicos nos tempos em que Henrique VIII recebera uns boiões de marmelada portuguesa. Palavra vai, palavra vem, a soberana lusitana converteria os cakes em queques. O equilíbrio vocabular ficava assim estabelecido.

QUEQUE

Um cake em forma de coroa...

7 de julho de 2015

The five o'clock tea ou chá das cinco

The World of Samuel Pepys
in Paper Dolls by David Claudon


RAINHA VEM, RAINHA VAI


Diz quem sabe que o Tratado de Aliança Anglo-Português, assinado em 1373 por Eduardo III de Inglaterra e D. Fernando de Portugal, com os seus 743 anos de existência, é o mais antigo do mundo. Como se tal não bastasse, foi renovado-formalizado por D. João I de Portugal e Ricardo II de Inglaterra, em 1386, e dá pelo nome de Tratado de Windsor. Desde então muito se tem dito sobre esta «perpétua amizade, sindicato [e] aliança». Fiquemo-nos pela troca de duas princesas em períodos de conflito armado aceso luso-castelhano, situados na passagem da dinastia de Borgonha para a de Avis (1383-1385) e na de Habsburgo para a de Bragança (1640). Fez-se através de dois casamentos reais muito em voga na altura e agora um pouco caídos em desuso.

D. Filipa de Lencastre (1360-1415) tornou-se rainha consorte de Portugal e Algarve em 1387, após o seu casamento no Porto com o rei D. João I de Avis. Trouxe consigo um modelo multicultural anglo-francês pouco comum no âmbito ibérico das monarquias hispânicas medievais. Foi nesse espírito de renovação de mentalidades que participou na educação dos filhos, a quem Camões designa de Ínclita Geração. O rei-filósofo D. Duarte, o infante-regente das sete-partidas D. Pedro, o infante-navegador D. Henrique, a duquesa de Borgonha D. Isabel, o condestável D. João e o infante-santo D. Fernando. À sua maneira, contribuiu decididamente para tornar o país que a recebera de braços abertos num dos mais prestigiados da Europa medieval a caminho da modernidade.

D. Catarina de Bragança (1638-1705) tornou-se rainha consorte de Inglaterra e Escócia em 1662, após o seu casamento em Portsmouth com o rei Carlos II Stuart. Levou consigo um dote de dois milhões de cruzados e as cidades de Tânger e Bombaim. Fez-se acompanhar ainda dum conjunto de práticas culturais lusitanas que se tornariam numa das mais conhecidas tradições britânicas, o five o'clock tea, o chá preparado em chávenas de porcelana acompanhado de bolos em forma de coroa que tomava pelas cinco da tarde. Aos cakes chamámos nós queques, à marmelada chamaram eles marmalade. Uma permuta de receitas que ainda hoje dão que falar, à margem dos tratados de amizade que, nos nossos dias, se fazem com outros ingredientes bem distintos.