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23 de outubro de 2023

Regresso, Novilíngua & Coda

CIDADE-MUNDO
Jan Amos Komenský, Labyrint světa a ráj srdce (1623)
“Twenty-seven years later, in this third quarter of the twentieth century A.D., and long before the end of the first century A.F., I feel a good deal less opti-mistic than I did when I was writing Brave New World. The prophecies made in 1931 are coming true much sooner than I thought they would. The blessed interval between too little order and the nightmare of too much has not begun and shows no sign of beginning.”

“The purpose of Newspeak was not only to provide a medium of expression for the world-view and mental habits proper to the devotees of Ingsoc, but to make all other modes of thought impossible. It was intended that when Newspeak had been adopted once and for all and Oldspeak forgotten, a heretical thought -- that is, a thought diverging from the principles of Ingsoc -- should be literally unthinkable, at least so far as thought is dependent on words.”

“There is more than one way to burn a book. And the world is full of people running about with lit matches. Every minority [...] feels it has the will, the right, the duty to douse the kerosene, light the fuse. Every dimwit editor who sees himself as the source of all dreary blanc-mange plain-porridge unleavened literature licks his guillotine and eyes the neck of any author who dares to speak above a whisper or write above a nursery rhyme.”

O termo utopia entrou na linguagem comum dos falantes através de Platão (c. 428-348 AEC), registado na República com o sentido literal dum «não lugar» ou «não existente», mas possível de erigir num estado ideal futuro regido pelos princípios de Justiça dos Reis-Filósofos. Este conceito de ascensão do caos primitivo ao cosmos vindouro é retomado no Timeu e no Crítias, diálogos da maturidade do autor compostos como contraponto ao exemplo falhado da mítica/lendária Atlântica, perdida nos abismos oceânicos situados ao largo das Colunas de Hércules.

Este conceito é trazido por Thomas More dos tempos antigos para os modernos, adaptado na Utopia (1516) ao humanismo então vigente. O período áureo das navegações europeias permitem-lhe imaginar a existência dum mundo modelar paralelo ao nosso, mas de localização desconhecida. Chega-se e sai-se dali por mero acaso. O filão descrito nessa sociedade perfeita é aproveitado por outros criadores coevos, dando origem à eutopia filosófica de cariz renascentisto-barroca dum Tommaso Campanella n'A Cidade do Sol (1602) ou dum Francis Bacon na Nova Atlântida (1624).

A breve trecho, o locus amœnus não tardou a converter-se num locus horrendus. Os relatos edénicos centrados em comunidades felizes instaladas em ilhas perdidas dos mares do Sul perderam o caráter inovador inicial, atravessaram um longo percurso de normalização genérica e caíram na fase epigonal da banalização a anunciar a extinção ou a renovação. As formas superiores inacessíveis de organização política local saem de cena e cedem o palco à distopia global acessível num porvir predestinado ao bem-estar absoluto e poupado aos caprichos do livre-arbítrio.

A queda dos impérios centrais e a ascensão de regimes totalitários entre guerras (mundiais, civis e frias) propiciaram o surgimento dum novo modo de contar histórias. Aldous Huxley avança com o Admirável mundo novo (1932), George Orwell prossegue com o Mil novecentos e oitenta e quatro (1949) e Ray Bradbury culmina com o Fahrenheit 451 (1953), formando, assim, um triângulo de ouro da ficção científica ou de antecipação topocrónica, erigida nos domínios duma Cidade-Mundo de cariz autocrático, a prefigurar a vitória quimérica duma Cidade-Estado planetária.

As previsões de futuro arriscam-se sempre a falhar nas suas linhas gerais. A esta a conclusão chegou Aldous Huxley, registada no «Prefácio do Autor» (1946) à sua obra maior e no Regresso ao admirável mundo novo (1958). Em pouco mais de uma geração, grande parte dos avanços científicos e tecnológicos conseguidos no sétimo século de Our Ford começavam a ser alcançados em meados do vigésimo século de Our Lord. As lacunas flagrantes detetadas são também referidas, com um destaque muito especial para a ausência de alusões à cisão nuclear.

A fronteira do real/imaginário é cada vez mais ténue e difícil de limitar. «Os Princípios da Novilíngua» vigentes no macrocosmo ficcionado do Big Brother perdem o seu caráter virtual e entram  ante no nosso universo de referências tangíveis quando o confrontamos com os excessos dogmáticos prescritos por uma certa linguagem inclusiva agora posta em voga, regida pelos preceitos cabais do politicamente corretoGeorge Orwell ver-se-ia obrigado a reformular de ponta a rabo o «Apêndice» com que completa de totalitarismo instaurado nesse tão distante/próximo ano de 1984.

Os livros ainda não começaram a ser sistematicamente queimados a 451ºF como na efabulação distópica de Ray Bradbury. O mesmo se não pode dizer de algumas palavras ali registadas e eliminadas à revelia do autor, por si elencadas no «Coda» (1979), um posfácio a uma reedição da obra. A maior censura consiste, porém, na omissão voluntária das palavras proibidas, as tais que não chegam a ser ditas/escritas para não ferir os sentires dos leitores. Triste realidade esta que afasto do meu horizonte de linguajares quotidianos, livre de espartilhos de qualquer tipo ou feitio.

                    NOVOS GÉMEOS IDÊNTICOS BOKANOVSKIZADOS DO III.º MILÉNIO                     

18 de setembro de 2023

Aldous Huxley e o admirável mundo novo onde existem tais criaturas

«“Who’s Miranda?” But the young man had evidently not heard the question. “O wonder!” he was saying; and his eyes shone, his face was brightly flushed. “How many goodly creatures are there here! How beauteous mankind is!” The flush suddenly deepened; he was thinking of Lenina, of an angel in bottle-green viscose, lustrous with youth and skin food, plump, benevolently smiling. His voice faltered. “O brave new world,” he began, then suddenly interrupted himself; the blood had left his cheeks; he was as pale as paper. […] “O brave new world,” he repeated. “O brave new world that has such people in it.»

Umberto Eco deixou registado no I mondi della fantascienza versão reduzida duma comunicação de 1984, proferida em Roma num convénio sobre ciências e ficção científica*  a circunstância de toda a criação literária se basear na delineação de mundos estruturalmente possíveis, fixando uma linha nem sempre nítida entre as condições factuais do mundo real e as contrafactuais do mundo imaginado. Essa fronteira torna-se particularmente visível em todos os relatos situados em cenários diferentes do nosso universo de referências quotidianas. Por outras palavras, aceitar, v.g., a existência possível de mundos alternativos (alotopias), paralelos (utopias), modificados (ucronias) ou antecipados (metatopias e metraconias), como variantes teóricas dos domínios tradicionais do maravilhoso, o palco privilegiado de ilusões consentidas, aquele onde se podem representar histórias fingidas como se fossem verdadeiras. 

Aldous Huxley inscreve toda a tessitura narrativa do Admirável mundo novo (1932) na órbita genérica polifacetada proposta pelo semiólogo e romancista italiano supra considerado, máxime no desenho duma sociedade futura totalitária fixada num Estado Mundial, fadada a fruir uma felicidade plena, modelar e perfeita, sem passar pelas agruras duma infelicidade malfeita, penosa e imperfeita. A predestinação dos cidadãos é instituída desde o momento da conceção in vitro no Centro de Incubação e de Condicionamento e o livre-arbítrio abolido desde o nascimento até à morte confortável num Hospital para Moribundos. Tudo se passa no decorrer dum aparente paraíso eutópico de seres autónomos superiores para um autêntico inferno distópico de seres autómatos inferiores. A pertença a uma dada casta social baseada na inteligência (Alfas-Betas-Gamas-Deltas-Epsilões), aceite de modo incondicional por todos, representa a espinha dorsal reinante nesse vindouro ano de 632NF/2540EC, aquele em que a divisa estatal da Comunidade Identidade  Estabilidade da Era de Nosso Ford se faz sentir em toda a sua integridade absoluta e imutável.

William Shakespeare salta do âmbito do teatro isabelino para a esfera do modernismo britânico e torna-se, de supetão, no mentor maior dum dos romances mais emblemáticos compostos durante a Grande Depressão (1929-1939), também tido como num dos precursores do movimento cyberpunk ou de enfoque crítico à alta tecnologia e à baixa qualidade de vida. Este processo de transferência temática, pautado por mais de três séculos de devir estético e literário, ganha visibilidade logo no título adoptado pelo texto mais recente, o admirável mundo novo descrito na Tempestade (1610-1611), uma das derradeiras peças urdidas pelo dramaturgo, situada numa ilha remota envolta no espírito das criaturas extraordinárias ali residentes. Acresce serem todas elas feitas da mesma substância dos deuses e estarem sujeitos às maquinações manipuladoras dum mago senhor de amplos poderes encantatórios, com os quais os imensos avanços científicos espargidos na utópica civilização ultraestruturada não cessam de surpreender os leitores dos nossos dias, mormente a eugenia reprodutiva, a hipnopedia continuada, a persuasão química, psicológica e subconsciente ou o comportamento condicionado.

Henry Ford converte-se, por sua vez, na figura de fundo fulcral desta fábula premonitória do porvir, com o estatuto messiânico quase divino de fundador duma nova ordem mundial, por ter popularizado na velha em que vivia os princípios básicos da linha de montagem, i.e., a massificação, a homogeneidade, a previsibilidade e o consumismo. Como contraponto desta entidade factual pretérita, junte-se a dupla ficcional formada pelo Alfa-Mais Bernardo Marx e pelo Selvagem John, oriundos do paradisíaco Mundo Novo sediado em Londres e do infernal Malpaís mantido como reserva no Novo México. Ambos se opõem às normas do regime totalitário impostas a nível global. O primeiro, por ter sido decantado com uma dose errada de álcool no pseudossangue, geradora dum condicionamento social deficiente; o segundo, por se sentir um intruso tanto na civilização primitiva onde nascera, como na moderna que o acolhera. A resistência destes dois dissidentes à ditadura do mundo perfeito de inspiração populista é aproveitada magistralmente pelo autor, para reduzir ao absurdo o sonho quimérico das sociedades tidas como modelo das demais, obtendo como resultado final a obra magna do romance distópico. Assim o ajuízam muitos dos seus leitores em cujo número me incluo, tornando este texto decididamente um dos livros da minha vida.

NOTA
* Umberto ECO, «I mondi della fantascienza», IN Sugli specchi e altri saggi. Milano: Bompiani, 1985 | «Os mundos da ficção científica», in Sobre os Espelhos e outros ensaios. Lisboa: Difel, 1989.

9 de agosto de 2023

Ray Bradbury, Fahrenheit 451, a temperatura a que o papel do livro se incendeia e arde...

"It was a pleasure to burn. It was a special pleasure to see things eaten, to see things blackened and changed. With the brass nozzle in his fists, with this great python spitting its venomous kerosene upon the world, the blood pounded in his head, and his hands were the hands of some amazing conductor playing all the symphonies of blazing and burning to bring down the tatters and charcoal ruins of history. With his symbolic helmet numbered 451 on his stolid head, and his eyes all orange flame with the thought of what came next, he flicked the igniter and the house jumped up in a gorging fire that burned the evening sky red and yellow and black. He strode in a swarm of fireflies. He wanted above all, like the old joke, to shove a marshmallow on a stick in the furnace, while the flapping pigeon-winged books died on the porch and lawn of the house. While the books went up in sparkling whirls and blew away on a wind turned dark with burning."

Num destes dias agitados da invasão dum país soberano disfarçada de intervenção militar especial, um iraniano tresloucado queimou um exemplar do Alcorão perto duma mesquita em Estocolmo. Este ato islamofóbico foi aproveitado pela Turquia para vetar durante algum tempo a entrada da Suécia na Nato. A notícia deste ato ritual de contestação duma ideologia tida como totalitária, cometida por uma outra de sinal identicamente extremista, apanhou-me a caminho das férias de verão longe dos holofotes televisivos. Aproveitei este fait divers da aldeia global atual para encetar uma releitura do mais lido relato de Ray Bradbury, o Faherenheit 451 (1953), uma distopia atemporal, cujo título nos remete para a temperatura a que o papel dum livro se incendeia e arde, i.e., 232,8ºC, pouco mais ou menos.

Tudo se passa num espaço e num tempo antecipados pouco precisos, a configurar as habituais metatopias-metacronias exigidas por este tipo especial de ficção científica. Se as referências singulares a Los Angeles, St. Louis e Chicago nos remetem para a Califórnia, Missouri e Illinois, nada nos garante que estejamos ainda numa entidade política soberana atualmente conhecida por EUA. Os eventos relatados projetam-nos para uma realidade vivencial ainda distante da nossa, mas pontualmente concretizada em momentos menos felizes da história. O visionamento há cinquenta anos de filmes do foguetão V-2 (1942) e a alusão à vigência do padrão intelectual seguido nos últimos cinco séculos ou mais do Hamlet (1599-1601), de Shakespeare, remetem-nos para localizar a ação entre finais do Séc. XX e inícios do XXI, para todos os efeitos após 1990, ano/década em que a sociedade retratada no romance terá vencido duas guerras atómicas e reformulado toda a sua forma de agir.

Os bombeiros daquele país sem nome conhecido e sem data precisa de nascimento têm por missão vital a queima sistemática de livros e das casas que os abrigassem. Absurdo ilusório, imediatamente desfeito, se nos lembrarmos da alegada purificação pelo fogo de todos os textos contrários às ideologias religiosas e políticas então dominantes. A Inquisição e o Nazismo são exemplos perfeitamente ilustrativos em termos históricos a par da eliminação das bibliotecas do Don Quixote ou do mosteiro d'O nome da rosa, imaginados por Cervantes e Umberto Eco na esfera literária. O autor aponta a intolerância racial como causa inicial da censura às obras impressas, a que depois se acrescentaram outras num crescendo infindável. Se não se gosta queima-se e resolve-se o problema. A partir de dado momento já restava muito pouco a preservar e não se perdia grande coisa. Afinal os livros não diziam nada e ninguém passou a sentir a sua falta. E, depois, havia sempre a possibilidade de substituir as humanidades pelo desporto.

uma larga mão-cheia bem contada de anos, ouvi num congresso internacional de países lusófonos uma comunicação que mudou radicalmente a minha forma de encarar a transmissão verbal de tradição oral. Soube então que os arquivos ancestrais destruídos durante a guerra civil moçambicana haviam sido reconstruídos através da memória atenta dos anciãos sobreviventes ao conflito. Espantoso. Nesse momento compreendi melhor o processo de preservação das palavras emprestadas por Homero à Ilíada e à Odisseia, por volta de 800AEC, as tais que andaram de boca em boca até serem compiladas por Pisístrato, entre 545-527AEC. Um exercício coletivo multigeracional que os resistentes do mundo alienado plasmado nas páginas duma epopeia em prosa moderna tomam como modelo e replicam. Na tentativa de ultrapassar a Idade das Trevas então vigente e de derrotar os cães-mecânicos programados para perseguir e eliminar os amantes da leitura, de banir de vez as salamandras, fénix e demais símbolos da barbárie instituída, cada um dos resistentes clandestinos transforma-se num homem-livro. Adota-o, memoriza-o, eterniza-o. Oferece-o às novas gerações, para assim fazerem ressurgir das cinzas a humanidade que lhes havia sido sonegada em nome de coisa nenhuma.

6 de fevereiro de 2023

Mário Vargas Llosa, as ventosidades intempestivas duma ruína humana

«Fui a la manifestación por la clausura de los cines Ideal, en la Plaza de Jacinto Benavente y, apenas acababa de comenzar, me sobrevino uno de esos vientos intempestivos que ahora me asaltan con frecuencia. Pero nadie se dio cuenta a mi alrededor. Lamenté haber ido porque éramos apenas cuatro gatos y casi todos unas ruinas humanas como yo. A ningún joven madrileño le importa que desaparezcan los últimos cines de Madrid; jamás ponían los pies en ellos, se habían acostumbrado desde niños a ver las películas que ordenaban –si se puede llamar películas a esas imágenes que divierten a las nuevas generaciones– en las pantallas de sus ordenadores, sus tabletas electrónicas y móviles.»

Era uma vez um jovem periodista peruano que escrevinhava histórias acontecidas como se fossem imaginadas. O real e o virtual perderam a noção das fronteiras entre o fictício e o factual e começaram a surgir no fluir dos dias contos, dramas e romances que lhe abririam as portas aos mais diversos prémios internacionais, como o Príncipe de Astúrias e das Letras, o Cervantes e o Nobel da Literatura. Agora até vai ser admitido na Academia Francesa dos imortais sem nunca ter escrito uma linha na língua de Molière. É obra. 

Entrei no universo criativo de Mario Vargas Llosa em meados da década de oitenta, vão quase quarenta anos. Descobri-o no expositor duma livraria do centro histórico de Sevilha. O título gravado na capa colorida e o descritivo inscrito na contracapa daquela novela publicada na biblioteca de bolsillo da Seix Barral abriram-me o apetite para lhe pegar e trazê-la para casa. Não me arrependi de o ter feito e até teci algumas notas sobre La tía Julia y el escribidorpelo que me dispenso de as repetir aqui neste espaço.

O Marito dos primeiros escritos cresceu e tornou-se no don Mario conhecido em todo o mundo que gosta de ler histórias bem urdidas. Nas imitações de vida feitos de factos vividos, até o podemos encontrar disfarçado numa ou noutra figura novelesca impressa em letra de forma. Mesmo quando se tenha abstido de dizer o nome, acabamos sempre por suspeitar de quem se trata sem grande margem para dúvidas. É o que se passa com o último texto que até mim chegou, Los vientos (2021), um conto inédito publicado nas páginas da revista Letras Libres e disponibilizado em linha na Net em formato de arquivo para quem o quiser visionar.

A nota de apresentação da entidade editora do texto avança tratar-se do esboço distópico de Madrid facilmente imaginável num tempo não muito distante do atual, crepuscular e escatológico, melancólico e humorístico, traçado por um ser solitário entrado na idade e que não custa muito igualar aos 85 anos que o político falhado e novelista de sucesso tinha quando o compôs e deu à luz. No mundo antecipado plasmado no fluxo de pensamento daquela ruína humana propensa a ventosidades intempestivas, não se entrevê a sombra dum qualquer Big Brother opressivo ou Porco Triunfante formatados nos anos 40 por George Orwell no Nineteen eighty-four e no Animal farm, autor e obras aludidos de fugida no relato. O cenário dum totalitarismo universal não tomou conta ainda do destino das populações, mas presente-se a entrada irreversível numa era digital sem precedentes. A guerra ao papel impresso, a criação duma paper free society, levará o ancião que nos conduz por essa cronotopia antecipada a considerar que a vida sem livrarias, sem bibliotecas e sem cinemas é uma vida sem alma. Somos obrigados em dar-lhe inteira razão.

O conto fica um pouco à deriva com a autópsia que lhe têm sido feita à procura de traços autobiográficos do grande representante vivo do boom literário latino-americano, o ex-marido duma tia por afinidade e duma prima de sangue, que, na reta final da sua já longa existência, resolveu estabelecer uma união de facto com a rainha dos corações, também conhecida por pérola de Manila. O idílio oficial terá durado oito anos (2015-2022) e tem vindo a deliciar a imprensa cor-de-rosa do país vizinho. A dar no protagonista anónimo do relato metatópico e metacrónico q.b., o equívoco entre o amor de pichula e corazón terá estado na origem da falhada relação do primeiro marquês de Vargas Llosa e da ex-marquesa de Griñón e Castel-Moncavo. As supostas marcas de toxidade criadas pela parelha mediática procuram-se agora com grande afã nas 18 pp. duma história fictícia com ares de factual. Nada que a pena do novelista peruano naturalizado espanhol não conheça de ginjeira. Fiquemo-nos por aqui e fruamos a fábula.

Ilustración de Nerea Pérez