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17 de outubro de 2022

Os olhares de Marullo Tarcaniota olhados por Sandro Botticelli

Sandro Botticelli

Mal entramos numa das amplas salas do Museu de Belles Arts de València, somos surpreendidos pelo olhar altivo de Michele Marullo Tarcaniota (1453-1500), captado pelo olhar indiscreto de Sandro Botticelli. Olha-nos de revés, com cara de poucos amigos, como se quisesse perguntar a quem o olha o que é que o retrato dum poeta, militar e humanista italiano com raízes greco-bizantinas, como ele, ali está a fazer exposto naquele espaço aberto aos olhares estranhos de quem entra e sai, sem se interessar para quem de facto está a olhar. Vontade muda de gritar ter sido olhado em primeiros olhares em Constantinopla, durante o assédio otomano à cidade capital do Império Romano do Oriente e derradeiro bastião da Idade Média europeia. Lenda rebatida por um ou outro olhar de passagem por ali que o olharia em silêncio olhos nos olhos e corrigiria que, de facto, o soldado da fortuna quatrocentista teria olhado e sido olhado pelo mundo não muito longe da antiga Esparta helénica do Poloponeso.

Aquele que palmilhou ½ Itália enquanto ser vivente de corpo inteiro e ½ mundo após o trespasse reduzido a um busto pintado a ¾ numa tela de 49x36cm. Quantos olhares se terão cruzado com o olhar fechado com que agora nos olha. Difícil de contar. Olhares alheios olhados desde o centro daquela moldura dourada a iluminar o rosto sombrio e vestuário negro destacado sobre um fundo de céu azul acinzentado. O retrato desse vulto singular da cultura renascentista, aquele que mereceu a proteção dos Médici de Florença, é lembrado nos dias de hoje graças a um olhar enigmático de aristocrática sobranceria que a paleta inspirada de Sandro Botticelli lhe conferiu no apogeu da sua veia criativa. Olhar que deixou os Guardans Cambò de Barcelona totalmente rendidos, levando-os a integrá-lo na sua coleção, emprestada até 2024 à pinacoteca maior da Generalitat Valenciana. É aí que o seu olhar se questiona sobre as próximas etapas das suas peregrinações pelo universo museológico mundial.

1 de abril de 2022

Abril do nascer e do renascer

AVRIL
Très riches heures du duc de Berry (séc. xv)

[Musée Condé - Château de Chantilly]

Abril, cron. O 4.º mês do nosso calendário. Do lat. Aprīle-, o 2.º mês do ant. ano roma-no, sem dúvida adj. substantivado; a origem do voc. no entanto, continua obscura. A re-lação entre o lat. Aprīle- e o v. aperīre, «abrir», não se justifica; não se esqueça que a existência de aperilis como der. do mesmo v. não se comprova, pois não passa de cria-ção de gramáticos, depois usada por outros autores, para explicar precisamente o nome do mês Aprilio...
 J. P. Machado, Dicionário onomástico etimológico da língua portuguesa 
 (Lisboa: Horizonte, 1984; Ⅰ, 34b.)

Abril não deve o nome a nenhuma divindade conhecida, imperador ou político de relevo. Tão pouco anda associado a um número de ordem especial. É o quarto dos doze meses existentes e é tudo. Tem uma origem obscura mas todos o ligamos ao ato de abrir (latapĕrīre). Não dum novo do ciclo anual, já dado pelo mais antigo antigo calendário romano a março e pelo mais recente a janeiro, mas à chegada triunfante da primavera e, com ela, da pureza e da renovação.

As hesitações etimológicas ora defendem que o mensis aprilis estaria associado à germinação das frutas e das flores, ao separar das águas e das terras, ao renascer da vida em geral; ora poderia referir-se a Aprodita etrusca ou à Afrodite helénica, a Vénus do panteão romano; ora à própria espuma do mar (gr. αφρός) da qual a deusa do amor e da beleza teria nascido. Aqui como em qualquer situação de dúvida, pode bem dizer-se que a cada cabeça sua sentença.

Se de facto o mês de abril não carrega ainda em si o sentido pleno de abertura, que passe a fazê-lo. Que abra de vez as mentes a quem teima em mantê-las fechadas para a vida e para o amor. Que o faça sob a égide de Άφροδίτη-Venus, a mediadora greco-itálica da oração, o génio protetor da vegetação e dos jardins. Que troque a guerra pela paz e promova a união na terra europeia, filha dileta dos deuses e dos homens, e nos traga a primavera cabal dos novos tempos.

Sandro Botticelli, Nascita di Venere (1485)
[Firenze, Le Gallerie degli Uffizi]

20 de março de 2019

Primaveras em verso & tela

Sandro Botticelli - Primavera (1481 - 1482)

[Firenze, Le Gallerie degli Uffizi]

Quando tornar a vir a primavera
Quando tornar a vir a primavera
Talvez já não me encontre no mundo.
Gostava agora de poder julgar que a primavera é gente
Para poder supor que ela choraria,
Vendo que perdera o seu único amigo.
Mas a primavera nem sequer é uma coisa:
É uma maneira de dizer.
Nem mesmo as flores tornam, ou as folhas verdes.
Há novas flores, novas folhas verdes.
Há outros dias suaves.
Nada torna, nada se repete, porque tudo é real.

Fernando Pessoa | Poemas de Alberto Caeiro (1925)

2 de janeiro de 2015

Descidas épicas aos infernos

SANDRO BOTTICELLI
La mappa dell'Inferno di Dante (c. 1480-1490)
[Bibllioteca Apostolica Vaticana]

No término da sua longa viagem de regresso a casa pelas águas mediterrânicas, Ulisses desce às profundezas subterrâneas do Hades, para consultar o adivinho Tirésias e visitar as sombras dos companheiros já embarcados na barca de Caronte (Homero, Odisseia: XI). A catábase helénica promove deste modo simbólico a ligação entre os tempos pretéritos e os vindouros, para assim enfrentar com maior clareza os desafios do dia-a-dia.

O troiano Eneias segue o exemplo heroico do seu inimigo aqueu e desce ao Infernum latino para visitar o pai Anquises, já recebido por Plutão no reino dos mortos, que lhe vaticina as glórias a realizar no porvir pela augusta família imperial romana (Virgílio, Eneida: VI). Faz-se acompanhar da sibila de Cumas, que o guia nesse labirinto soturno de tristeza plena e lhe permite uma saída segura desse espaço cavernoso normalmente sem retorno.

Uma das viragens poéticas do mundo antigo para o moderno é feita pela visão renascentista de Dante. Escolhe Virgílio para visitar o Inferno e o Purgatório e Beatriz para subir ao Paraíso. Nesta pere-grinação ao outro lado da existência humana, às esferas do trans-cendente católico do pós-morte e além-vida, o arquiteto da Divina Comédia arroga-se o direito de julgar o mundo que lhe era hostil, arrumar a casa e preparar-se para as batalhas ainda por travar.

Os fogos de artifício dedicados a Ianus, o deus latino das passagens, já se extinguiram como efémeros que eram. Iluminaram o mundo nos primeiros minutos do ano novo. Depois a noite voltou tão negra como havia sido no ano antigo. As premonições da taróloga Maya pairam indecisas no ar. A descida aos infernos da vida real regressa, enquanto a subida aos paraísos ilusórios dum ano bom esperam impacientes por mais uma final/início de ciclo redentor.