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18 de setembro de 2023

Aldous Huxley e o admirável mundo novo onde existem tais criaturas

«“Who’s Miranda?” But the young man had evidently not heard the question. “O wonder!” he was saying; and his eyes shone, his face was brightly flushed. “How many goodly creatures are there here! How beauteous mankind is!” The flush suddenly deepened; he was thinking of Lenina, of an angel in bottle-green viscose, lustrous with youth and skin food, plump, benevolently smiling. His voice faltered. “O brave new world,” he began, then suddenly interrupted himself; the blood had left his cheeks; he was as pale as paper. […] “O brave new world,” he repeated. “O brave new world that has such people in it.»

Umberto Eco deixou registado no I mondi della fantascienza versão reduzida duma comunicação de 1984, proferida em Roma num convénio sobre ciências e ficção científica*  a circunstância de toda a criação literária se basear na delineação de mundos estruturalmente possíveis, fixando uma linha nem sempre nítida entre as condições factuais do mundo real e as contrafactuais do mundo imaginado. Essa fronteira torna-se particularmente visível em todos os relatos situados em cenários diferentes do nosso universo de referências quotidianas. Por outras palavras, aceitar, v.g., a existência possível de mundos alternativos (alotopias), paralelos (utopias), modificados (ucronias) ou antecipados (metatopias e metraconias), como variantes teóricas dos domínios tradicionais do maravilhoso, o palco privilegiado de ilusões consentidas, aquele onde se podem representar histórias fingidas como se fossem verdadeiras. 

Aldous Huxley inscreve toda a tessitura narrativa do Admirável mundo novo (1932) na órbita genérica polifacetada proposta pelo semiólogo e romancista italiano supra considerado, máxime no desenho duma sociedade futura totalitária fixada num Estado Mundial, fadada a fruir uma felicidade plena, modelar e perfeita, sem passar pelas agruras duma infelicidade malfeita, penosa e imperfeita. A predestinação dos cidadãos é instituída desde o momento da conceção in vitro no Centro de Incubação e de Condicionamento e o livre-arbítrio abolido desde o nascimento até à morte confortável num Hospital para Moribundos. Tudo se passa no decorrer dum aparente paraíso eutópico de seres autónomos superiores para um autêntico inferno distópico de seres autómatos inferiores. A pertença a uma dada casta social baseada na inteligência (Alfas-Betas-Gamas-Deltas-Epsilões), aceite de modo incondicional por todos, representa a espinha dorsal reinante nesse vindouro ano de 632NF/2540EC, aquele em que a divisa estatal da Comunidade Identidade  Estabilidade da Era de Nosso Ford se faz sentir em toda a sua integridade absoluta e imutável.

William Shakespeare salta do âmbito do teatro isabelino para a esfera do modernismo britânico e torna-se, de supetão, no mentor maior dum dos romances mais emblemáticos compostos durante a Grande Depressão (1929-1939), também tido como num dos precursores do movimento cyberpunk ou de enfoque crítico à alta tecnologia e à baixa qualidade de vida. Este processo de transferência temática, pautado por mais de três séculos de devir estético e literário, ganha visibilidade logo no título adoptado pelo texto mais recente, o admirável mundo novo descrito na Tempestade (1610-1611), uma das derradeiras peças urdidas pelo dramaturgo, situada numa ilha remota envolta no espírito das criaturas extraordinárias ali residentes. Acresce serem todas elas feitas da mesma substância dos deuses e estarem sujeitos às maquinações manipuladoras dum mago senhor de amplos poderes encantatórios, com os quais os imensos avanços científicos espargidos na utópica civilização ultraestruturada não cessam de surpreender os leitores dos nossos dias, mormente a eugenia reprodutiva, a hipnopedia continuada, a persuasão química, psicológica e subconsciente ou o comportamento condicionado.

Henry Ford converte-se, por sua vez, na figura de fundo fulcral desta fábula premonitória do porvir, com o estatuto messiânico quase divino de fundador duma nova ordem mundial, por ter popularizado na velha em que vivia os princípios básicos da linha de montagem, i.e., a massificação, a homogeneidade, a previsibilidade e o consumismo. Como contraponto desta entidade factual pretérita, junte-se a dupla ficcional formada pelo Alfa-Mais Bernardo Marx e pelo Selvagem John, oriundos do paradisíaco Mundo Novo sediado em Londres e do infernal Malpaís mantido como reserva no Novo México. Ambos se opõem às normas do regime totalitário impostas a nível global. O primeiro, por ter sido decantado com uma dose errada de álcool no pseudossangue, geradora dum condicionamento social deficiente; o segundo, por se sentir um intruso tanto na civilização primitiva onde nascera, como na moderna que o acolhera. A resistência destes dois dissidentes à ditadura do mundo perfeito de inspiração populista é aproveitada magistralmente pelo autor, para reduzir ao absurdo o sonho quimérico das sociedades tidas como modelo das demais, obtendo como resultado final a obra magna do romance distópico. Assim o ajuízam muitos dos seus leitores em cujo número me incluo, tornando este texto decididamente um dos livros da minha vida.

NOTA
* Umberto ECO, «I mondi della fantascienza», IN Sugli specchi e altri saggi. Milano: Bompiani, 1985 | «Os mundos da ficção científica», in Sobre os Espelhos e outros ensaios. Lisboa: Difel, 1989.

31 de agosto de 2023

Somerset Maugham, o frágil significado da condição humana no fio da navalha

 

“I have never begun a novel with more misgiving. If I call it a novel it is only because I don't know what else to call it. I have little story to tell and I end nei-ther with a death nor a marriage. Death ends all things and so is the comprehen-sive conclusion of a story, but marriage finishes it very properly too and the so-phisticated are illadvised to sneer at what is by convention termed a happy en-ding. It is a sound instinct of the common people which persuades them that with this all that needs to be said is said. When male and female, after whatever vicissitudes you like, are at last brought together they have fulfilled their biolo-gical function and interest passes to the generation that is to come. But I leave my reader in the air. This book consists of my recollections of a man with whom I was thrown into close contact only at long intervals, and I have little knowled-ge of what happened to him in between. I suppose that by the exercise of inven-tion I could fill the gaps plausibly enough and so make my narrative more cohe-rent; but I have no wish to do that. I only want to set down what I know of my own knowledge.

Nos anos de aprendizagens académicas básicas recebidas na grande cidade, tinha o hábito de ampliar a minha biblioteca pessoal com um ou outro exemplar trazido da feira do livro, a imensa festa anual dos amantes da república das letras que então se realizava na avenida da Liberdade. A bolsa não dispunha de muitos fundos e a escolha foi sempre pacífica e fácil de satisfazer. Já levava os meus autores-títulos engatilhados e Somerset Maugham era um deles. Nesse distante mês de maio de 72, chegara o momento d'O fio da navalha (1944) entrar em cena. Mantém-se comigo desde então e acaba de ser revisitado mais uma vez, sempre com novas leituras a revelar.

A ação central decorre no período histórico compreendido entre as duas guerras mundiais nunca referidas com tal. A bem-dizer, a mais recente é aludida de raspão e a escassíssimos parágrafos do fim, muito embora a sintamos espreitar o horizonte com mais insistência após os efeitos devastadores provocados pela crise da bolsa de Nova York de 1929, sobretudo em algumas das personagens com maior visibilidade na tessitura narrativa sem ocuparem todavia o estatuto de protagonistas. Estes lograram escapar à grande depressão e avivar a atenção do narrador, também participante no relato como cronista ocasional e biógrafo parcelar de todos eles, com especial incidência no ex-aviador norte-americano Laurence Darrell, mergulhado numa vadiagem militante pelo mundo fora em busca dum significado para a existência humana. Este mesmo Larry, como era conhecido e tratado pelos amigos, partilha esse modo de vida errante com o snobismo ferino de Elliot Templeton e o cinismo mordaz de Somerset Maugham, formando com eles uma lídima estrutura triangular particularmente enriquecedora da urdidura efabulativa.

Durante muito tempo tenho resistido à tentação de compor uma top lista com os livros da minha vida. E já estou a considerar um número plural de textos, porque a eleição dum único deles seria uma tarefa perfeitamente impossível de concretizar para não dizer absurda. Ancorei-me sempre ao argumento do meu prazer de leitura continuar muito vivo no meu dia a dia e de acalentar a ideia de mais tarde ou mais cedo encontrar essa tal obra que supere todas aquelas que a haviam precedido. Prosseguindo o périplo pela estante guardiã das minhas viagens pelo universo dos livros efetuadas no início da década de 70, apercebi-me que alguns deles marcaram de facto a minha passagem da fase adolescente para a adulta de modo decisivo. As respostas dadas na Servidão humana, no Exame de consciência e n'O fio da navalha às questões que então me fazia seriam, só por si, suficientes para colocar estes títulos como os três mais significativos dos meus teenage years. Nunca mais, a partir de então, as noções de finito/infinito, de deus-eternidade-absoluto, ou mesmo de bem/mal me voltaram a incomodar do mesmo modo. Ultrapassei-os e com caráter definitivo até hoje. Razão mais do que suficiente para inaugurar essa listagem há tanto tempo adiada.

Lidos e relidos os livros muito depositados numa estante especial da biblioteca de casa, detenho-me na história de vida do andarilho retratado lacunarmente neste romance de seres reais com nomes de fantasia. Foi na Índia da Hatha Yoga que terá encontrado entre os swamis de Ramakrishna a chave que lhe abriria as portas para vislumbrar as três manifestações da Realidade Final, regidas por Brama, o Criador, Vixnu, o Conservador, e Xiva o Destruidor. É também nesse ambiente místico que o narrador-autor, ficionista e dramaturgo britânico se inspirou para dar um título adequado ao relato. Fá-lo a partir dum princípio registado no Katha-Upanisado livro sagrado do hinduísmo, que alerta para o quão difícil é andar sobre o aguçado fio duma navalha, o árduo caminho para atingir a Salvação. As caminhadas da figura maior da crónica chegou a bom porto. O mesmo se diga do cronista que lhe deu corpo e preservou voragem dos dias, meses e anos através da palavra escrita. Até o exemplar impresso que o trouxe até mim resistiu a esse desgaste. A efemeridade do suporte material a ser superada pela perenidade da obra gravada na memória das gentes.

23 de junho de 2023

Somerset Maugham, exame de consciência do real e da ficção

“This is not an autobiography nor is it a book of recollec-tions. In one way and another I have used in my writings whatever has happened to me in the course of my life. Sometimes an experience I have had has served as a theme and I have invented a series of incidents to illustrate it; more often I have taken persons with whom I have been slightly or intimately acquainted and used them as the foundation for characters of my invention. Fact and fiction are so intermin-gled in my work that now, looking back on it, I can hardly distinguish one from the other. It would not interest me to record the facts, even if I could remember them, of which I have already made a better use.”

Ao dobrar a casa dos 60 anos de idade, Somerset Maugham parou para fazer um breve balanço do seu percurso literário já traçado, pô-la por escrito, publicou-o em forma de livro e deu-lhe o nome de Exame de consciência (1938), tentando assim libertar a alma de certas noções que vinham pairando sobre ela com prejuízo do seu sossego pessoal, sem todavia se deixar cair nos escolhos lúbricos da autobiografia pura. Li-o duas únicas vezes ao longo do meu viajar pelo mundo das letras. A primeira nas vésperas de atingir a maioridade, a segunda passado justamente meio século de pleno amadurecimento. Entre o então e o agora, repousou tranquilamente numa estante da minha biblioteca caseira, à espera do momento mais adequado para voltar a fazer sentir o fascínio da sua presença.

Na fase final da guerra civil espanhola e na vizinhança da mundial, o já famoso dramaturgo, romancista e contista, veste ao traje de ensaísta e resolve pôr a nu o seu sucesso estrondoso nas áreas do teatro e da ficção longa e curta, pretexto também para abordar os mais diversos assuntos associados a esses atos criativos que mais o haviam interessado ao longo da vida. Em setenta e sete capítulos de escrita breve e fluida, traça-nos um perfil preciso do seu pensamento crítico e das aprendizagens que entretanto fora acumulando em termos da sua vivência real e ficcionada. Confessa ter um horror visceral à obscuridade discursiva, tendo optado sempre pela clareza e simplicidade na hora de expor as ideias. Revela ter manifestado pouca apetência emocional pela lírica, tendo concentrando a sua preferência expressiva na prosa, muito embora não deixe de admitir que o sentido dramático que há em si teria sido mais bem sucedido se tivesse enveredado pelas formas versificadas.

Depois de ter procedido a uma autópsia à sua caminhada triunfal de contador de histórias representadas numa sala de espetáculos ou lidas nas páginas dum livro, de o ter feito com a minúcia expedita dum aprendiz de medicina que foi, o artista/artífice, o autor/ator, o encenador/fotógrafo de imagens reveladas com palavras ditas à boca de cena ou saídas impressa num prelo tipográfico, dedica os derradeiras parágrafos deste exame de consciência à filosofia, à religião e à significação e utilidade da vida. Confessa-se um agnóstico persistente, o que, a seu ver, é uma caraterística de todos aqueles que agem como se deus não existisse. A redução ao absurdo de todos os argumentos que têm tentado provar à exaustão a sua existência/inexistência e se têm revelado perfeitamente ineficazes e carentes de sentido. Conclusão drástica que marcou profundamente os meus quase 20 anos de idade e cuja acuidade continua a ecoar dentro de mim na sua máxima potência até aos dias de hoje.

No cotejo dos trechos, parágrafos e excertos sublinhados cinco décadas, sobressaem todos aqueles que dum modo direto/indireto se referem à génese e sentido da Servidão humana ou a todos os temas, tópicos ou pontos a ela relacionados. Por alguma razão, tenho vindo a considerá-la durante todo este tempo como uma das obras mais significativas da minha vida, aquela que dum modo mais visível me ajudaram a crescer. Os problemas metafísicos do bem e do mal, da verdade e da mentira, da vida e da morte, da bondade e da beleza, da crença/descrença-apatia na eternidade consciente/inconsciente do ser humano. Tal como o episódio do pé-boto/gaguez plasmado no romance/ensaio conduzira os seus protagonistas à perda de fé no poder curativo da oração, também eu ‒ enquanto jovem leitor que então era ‒ ganhei coragem para deitar para trás das costas todas as hesitações que até aí nutria face ao transcendente e me senti plenamente livre dos dogmas insanos da infância. Definitivamente. A realidade e a ficção deram-se as mãos e ofereceram-me a carta de alforria desses tempos de trevas supersticiosas que até à data habitavam em mim e a luz surgiu radiosa no horizonte.

30 de maio de 2023

Somerset Maugham: servidão humana, um relato de aprendizagem iniciática

“It is an illusion that youth is happy, an illusion of those who have lost it; but the young know they are wretched for they are full of the truthless ideal which have been instilled into them, and each time they come in contact with the real, they are bruised and wounded. It looks as if they were victims of a conspiracy; for the books they read, ideal by the necessity of selection, and the conversation of their elders, who look back upon the past through a rosy haze of forgetfulness, prepare them for an unreal life. They must discover for themselves that all they have read and all they have been told are lies, lies, lies; and each discovery is another nail driven into the body on the cross of life.”

Aproveitei o uso forçado da máscara social antivírus, peguei numa remanente desses tempos conturbados e folheei um dos romances mais marcantes da minha adolescência, um relato de aprendizagem iniciática, a Servidão humana (1915) de W. Somerset Maugham, com alguns toques autobiográficos facilmente detetáveis do autor. Reli-o numa assentada como o fizera na primeira vezAs palavras escritas há mais dum século por um dos mestres da ficção literária voltaram a apoderar-se de mimNão necessariamente pelas mesmas razões que então me terão prendido, mas pelo poder que nesses dois momentos tiveram de me despertar para a história do homem e do sentido da vida, sintetizada na fábula do rei oriental e inscrita num esfarrapado tapete persaFi-lo num volume resgatado da poeira dum alfarrabista, idêntico ao que um empréstimo malsucedido me fizera perder irremediavelmente há uma porção de anos. Aquele que eu havia lido nos meus verdes anos tinha-o adquirido, se a memória não me falha, na feira do livro de Lisboa. Este que agora tenho comigo foi-me oferecido pela minha filha mais velha, quando soube de tristeza que me havia causado a perda da edição sublinhada e anotada nos finais da década de 60.

A eleição do melhor livro da nossa vida depende da altura em que o fizermos, das perguntas que nessa altura nos colocarmos e das respostas então obtidas. O mesmo se poderá dizer para a arte, a música, o cinema. Paradoxalmente, é mais fácil fazê-lo aos 20 anos do que aos 70 muito mais à frente ainda para descobrir, mas muito pouco ainda para escrutinar. Dos inúmeros exemplares depositados na minha biblioteca pessoal e dos que passaram a ocupar outras estantes desconhecidas, resisti à vontade de os voltar a ler. Este Bildungsroman de Philip Carey continua a ser de longe uma das poucas exceções a essa recusa visceral. Alguma razão haverá. Provavelmente por continuar a ser o mais carregado de desafios significativos, de revelações feitas e a fazer, por estar ancorado no longo processo de formação do autor/narrador-protagonista, com o qual, mutatis mutandi, me continuo a identificar.

Recordo ter sentido como minha a desilusão vivida pelo jovem órfão retratado ao comprovar a ineficácia da misericórdia divina. Orara fervorosamente ao altíssimo para que o curasse do pé boto com que nascera e vira gorado esse seu desejo tão pungente, apesar de o ter feito com toda a credulidade exigida pelos textos sagrados. Ironicamente, o pedido que a fé genuína duma criança não obtivera de Deus, seria de certo modo alcançado pela ação da ciência cirúrgica no final do relato. A descrença no sobrenatural metafísico instala-se na história fingida contada como se fosse verdadeira e ajudou-me também a mim a acompanhar esse movimento irreversível de libertação do transcendente religioso até ao momento presente. O deleite e proveito da leitura manifesta-se muitas vezes com estas pequenas coisas, sempre com efeito duradouro.

De navegação em navegação pelas águas virtuais da Net, avistei a primeira versão filmada do texto impresso, dirigido em 1934 por John Cromwell, com Leslie Howard e Bette Davis nos principais papéis. Na presença do original contado em letras de forma, fui obrigado a considerar esta transposição duma narrativa emblemática para o grande ecrã como um fracasso completoRestringe-se ao amor/ódio representado pelos heróis/anti-heróis que dão corpo à sequência central do drama, omitindo todas as fases que a antecedem e transformando significativamente as seguintes. Privilegia a parte sórdida do romance e apaga todos os momentos que ajudaram o biografado a encontrar um equilíbrio emocional no final do seu processo de formação pessoal. A pintura, a filosofia, a literatura, o teatro, a religião. Os tais elementos que me sensibilizaram então como leitor sedento de seguir pistas modelares de aprendizagem e permitem agora fazer um balanço adequado. Aqueles que me permitem nos dias que correm afirmar que o livro de eleição dos meus verdes anos deixou de ser o mais significativo da minha curta vida para se tornar num dos mais importantes na idade madura, aquela em que a separação absoluta entre o real e o imaginário se inviabiliza definitivamente.