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12 de novembro de 2025

O bicentenário discreto de Camilo Castelo Branco


O silêncio é uma confissão
Camilo Castelo Branco, O bem e o mal (1863)

Deixei passar em branco o bicentenário do nascimento de Camilo Castelo Branco. Não posso esperar pelo bicentenário da sua morte, porque nessa data já não terei possibilidade de o fazer.

Vasculhei nos escaparates das livrarias ainda abertas aqui do burgo e não encontrei quase nada da vasta obra que nos legou. Nem a diversidade de géneros cultivados ajudou nessa pesquisa.

Sacudido o das edições antigas e munido duma máscara sobrante da Covid-19, reinicio a tarefa de reler os títulos residentes nas minhas estantes pessoais. Já os tenho à minha beira. Mãos à obra.

Um dia destes ainda me vou pôr a falar dum deles. Até pode ser O bem e o mal que me emprestou o tema para retirar do silêncio um dos imortais da república das letras portuguesas. Veremos.

Obs.:
Camilo Castelo Branco  (Lisboa, 16 de março de 1825 – São Miguel de Seide, 1 de junho de 1890)

11 de fevereiro de 2022

Glóbulos coroados espalhados ao vento

Dente-de-leão  com  semente  vermelha  em  preto

Pandemia & Endemia

O SARS-CoV-2 causador da Covid-19 tem nome codificado de estrela distante numa galáxia perdida na infinidade do universo. Vá-se lá saber se por lá também haverá vírus com o aspeto dos existentes por estas bandas. Assemelha-se a outras formas globulares visíveis a olho nu, como a irregularidade dum pingo de tinta gravado numa superfície incolor, a intensidade do fogo de artifício numa noite festiva, a proliferação exponencial no meio ambiente como as bolas decorativas numa árvore de natal.

Esférico é também o dente-de-leão mas totalmente distinto das particularidades do SARS-CoV-2. É que enquanto o grânulo vegetal pode curar as mais diversas maleitas, o corpúsculo viral catalogado com nome de astro exótico não se coíbe em nada de matar em todas as frentes disponíveis. Razão teve a Larousse ao escolher como logótipo editorial o pissenlit, o taraxacum officinale da terminologia científica, imagem de marca associada  século e meio ao lema que o acompanha: Je sème à tout vent.

A fase pandémica já acabou em terras dinamarqueses e noutros países escandinavos. Por cá, a transição para a fase endémica far-se--á até à primavera. As partículas voadoras do SARS-CoV-2 continuam no ar mas passaram a comportar-se como um mero pompom de lã a provocar algumas alergias ligeiras no pico da estação fria e logo partem sem deixar marcas visíveis. Por via da vacinação massiva, a resistência duma bola de bilhar ter-se-á convertido na efemeridade duma bola de sabão. Nec plus, nec minus!

pingo — bilhar  pompom — covid - natal  sabão  artifício

1 de janeiro de 2022

Janeiro das portas e janelas

GIANO BIFRONTE
Rappresentazione pittorica del dio Ianus
« Je revins à la maison. Je venais de vivre le 1er janvier des hommes vieux qui diffèrent ce jour-là des jeunes, non parce qu'on ne leur donne plus d'étrennes, mais parce qu'ils ne croient plus au nouvel An. »
Marcel Proust, À l'ombre des jeunes filles en fleur (1918)
Jano, o deus latino das passagens...
Janeiro (latianŭārĭu-) é desde o reinado de Numa Pompílio (c713 AEC) o primeiro mês do ano, quando o ciclo solar substituiu o lunar na feitura do calendário. Nem sempre assim foi. Nas origens ocupava a penúltima posição, situado entre dezembro e fevereiro. Deve o seu nome a Jano (lat. Jānŭs), rei mítico do Lácio natural da Tessália, di-vinizado depois da morte por Roma como deus das portas (latianŭæ) e janelas (lat. ianŭellæ). Tutelava as entradas e saídas, as mudan-ças e transições, a passagem do ano velho para o ano novo, o começo de mais um ciclo temporal. Daí, ser retratado com duas faces, uma a olhar para trás, para o passado, para a infância perdida, outra para a frente, para o futuro, para a maturidade vindoura.

Contam e recontam sem descanso as lendas da Idade de Ouro ter a deidade bifronte fundado a cidade de Janículo, quando chegara por mar a terras itálicas como exilado helénico. Fê-lo na vizinhança do Vaticano, numa alta colina defensiva da orla poente do rio Tibre, fora dos limites antigos da urbe romana. Segundo a tradição oral que os anais escritos passaram a registar, durante o conflito de Rómulo com os Sabinos, Jano terá feito brotar à vista dos assaltantes do Capitólio uma nascente de água quente, que os aterrorizou e pôs em fuga desenfreada. O templo que lhe foi erigido passou desde então a manter as portas abertas em tempo de guerra, para que o rei-deus pudesse prestar o seu auxílio sem grandes delongas.          

Costume perdido esse o de lançar pela janela fora na noite de São Silvestre a tralha velha acumulada ao longo do ano defunto e sem serventia no vindouro. Assim pudéssemos nós fazer reviver essa prática caída em desuso para nos livrarmos de vez do COVID-19 (também conhecido por SARS-CoV-2, nas variantes άλφα, βήτα, γάμμα, δέλτα [...] όμικρον)que nos tem atormentado a existência há já demasiado tempo. Bater tampas de tachos e panelas para dar as boas vindas ao ano-bom, fechar para sempre a porta de Jano e enviá-lo ao demo até nunca mais. Basta de tantos acrónimos, siglas e cifras pandémicas, criados pelo ano-velho e que o ano-novo dispense a partir de hoje in sæcula sæculorum amen.

JANUS
Moeda de cobre (211-208 AEC)
[Museu Nacional de Arqueologia]

6 de dezembro de 2021

O regresso das máscaras

Máscaras portuguesas da Madeira, Ílhavo e Grijó de Parada
Museus de Arte Popular e Nacional de Etnologia

más·ca·ra
(italiano maschera)
Objeto de cartão, pano, cera, madeira ou outros materiais, que repre-senta uma cara ou parte dela, destinado a cobrir o rosto, para disfar-çar as pessoas que o põem. = CARAÇA
Objeto ou equipamento, geralmente em material maleável, usado so-bre o rosto, em especial sobre o nariz e a boca, para filtrar o ar ou como barreira protetora. = CIRÚRGICA
Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

Durante toda a minha meninice, a máscara mais não era do que uma mera caraça que servia de disfarce maior nos três dias de carnaval. De cartão pintada com cores berrantes, emprestava-nos uma feição fugaz de fictícia personalidade, feita à medida exata da mais curta quadra festiva do ano.

Mais crescidinho, rendi-me à mascarilha nas brincadeiras infantis aos índios e cowboys, inspirado na série televisiva das tardes de domingo do Zorro e do cavalo Silver. A fantasia rematava com um chapéu de feltro, umas calças de ganga e uma pistola de fulminantes no coldre do cinturão de couro.

com um assente nas letras, aprendi que o uso da máscara pelos atores teria sido introduzido no teatro por Théspis, o inventor lendário do drama ático, aplicado primeiro na tragédia e depois na comédia. O rosto abatido/sorridente de quem finge ser aquilo que não é fazia a diferença.

Entrado na terceira idade, fui surpreendido com a máscara cirúrgica ou antimáscara, pois tapa tudo menos os olhos. Magoa as orelhas, dificulta a respiração, embacia os óculos, mas aquece o nariz dos frios invernais e afasta o SARS-CoV-2 - COVID-19, aquele que, tal como o Toyota, veio para ficar.

1 de dezembro de 2021

A disputa familiar das coroas ibéricas ou o dualexit dinástico à portuguesa

José da Cunha Taborda - Aclamação de Dom João Ⅳ (1823)
[Lisboa: Palácio Nacional da Ajuda]

No Primeiro de Dezembro de 1640, o risco da associação dinástica tolerada dos Avis-Beja com os Habsburgo-Áustria se converter numa anexação imperial imposta dos primeiros pelos segundos conduziu inevitavelmente ao dualexit, i.e., ao fim anunciado da Monarquia Dual, aquela que durante 60 anos unira os destinos de Portugal e Castela. A Guerra da Aclamação de 28 anos seguintes deitou por terra o projeto filipino de substituir a união pessoal das duas coroas peninsulares numa união real dirigida a partir de Madrid. A edificação duma Ibéria multinacional, à semelhança do Benelux de além-Pirenéus, tem soçobrado a todas as hipóteses entretanto levantadas em quase quatro séculos de devir histórico.

Quando as sondagens de opinião pululam e os resultados oscilam entre o real e o imaginário, o crédito que idealmente nos deveriam merecer é cada vez mais ténue. Independentemente dos dados percentuais obtidos de aceitação do pan-iberismo, o sentimento que ainda hoje se vive entre nós assenta na secular sabedoria popular quando afirma sem oscilar que De Espanha nem bom vento nem bom casamento. As notícias que de vez em quando vêm dos lados de lá da fronteira também não ajudam muito a alterar o secular preconceito contido no provérbio. O plano de Franco para invadir Portugal ou o mapa de Portugal anexado pelo Vox ao império espanhol. Faits divers sensacionalistas que o subconsciente retém.

Faz hoje três anos que celebrei em Sevilha a minha carta de alforria profissional. Não o repeti até hoje por razões alheias ao meu querer. Gosto muito da Ciudad del Nodo e da piel de toro española. Sem preconceitos. Não nego que gostaria de ver os dois países unidos e não ignoro tratar-se duma tarefa a roçar a utopia. Haveria que resolver o problema da república/monarquia que nos separa, do acordar o emprego paritário das línguas que nos identificam, optar por uma capital marítima/continental que nos represente e un montón más de quebra-cabeças que não cabe aqui elencar. Para o ano vou a Sevilha se o Covid deixar. Um quadriénio de autonomia laboral não é uma efeméride qualquer que se deixe passar facilmente em branco.

Os primos desavindos & de costas voltadas
Filipe  de Castela - Dom João 
 de Portugal

30 de julho de 2021

A volta dos velhos passaportes ou dos novos salvo-condutos de livre-trânsito

ALAIN CABOT
Série Passeporte : Voyage autour d'un visa (je)
(2016)

li·vre·-trân·si·to
nome masculino
Passe que permite a entrada livre em locais de acesso condicionado.

Tomei a segunda dose da vacina da Pfizer contra a Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2 (SARS-CoV-2)  precisamente duas semanas. Vou esperar até à próxima segunda-feira para perfazer, sem margem para dúvidas, os catorze dias exigidos pela DGS para obter a imunização completa da pandemia agora em curso e poder assim obter o Certificado Digital COVID da UE. Quando isso acontecer, já estarei de posse do tal passe pessoal a permitir a entrada em locais de acesso condicionado e a facilitar a liberdade de circulação dentro da União Europeia e dalguns países mais. A minha parte está feita. Alea jacta est.

Estes novos salvo-condutos de livre-trânsito fazem-me lembrar os velhos passaportes doutros tempos, como se por artes de berliques e berloques estivessem de volta. As guerras de fogo que então se travavam, ocorrem agora a nível planetário e envolvem-nos a todos. As licenças escritas pelas autoridades para viajar referem-se hoje à aldeia-global que nos aloja. A única que vemos, a única que temos, a única que nos tolera. O suporte físico do passaporte de papel foi substituído no Espaço Schengen pelo suporte virtual do certificado digital. Mudam-se os tempos, mudam-se as práticas de salvaguardar as vontades em segurança. Dura lex, sed lex.

Quero acreditar que os certificados sanitários atuais sejam extintos a breve trecho, tal como as licenças militares foram revogadas quando deixarem de fazer sentido. Situações excecionais exigem medidas excecionais. Assim como não gostaria de voltar a ser obrigado a ter de exibir um passe oficial para me deslocar ao estrangeiro, tampouco me agradaria continuar a exibir um visto interno de livre circulação para aceder a eventos culturais, desportivos, corporativos ou familiares, a frequentar complexos turísticos e de alojamento local, a restaurantes e hotéis. Que a normalidade pré-pandémica seja recuperada sem vacilações ou reservas. In sæcula sæculorum.

17 de julho de 2021

La vache qui guérit

The Cow-Pock—or—the Wonderful Effects of the New Inoculation !
[National Library of Medicine History of Medicine Collection (1802)]

Vacina, s. Do fr. vaccine, este do lat. vaccīna, f. do adj. vaccīnu-, «da vaca, relativo à  vaca»;  trata-
-se de pústulas provocadas na vaca (ou no vitelo) e que inoculadas no homem, produzem a imunidade à varíola; daí, por generalização, substância destinada a inoculação preven-tiva, por formação de anticorpos.
José Pedro Machado, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa (1952)

No início do século passado, consta que um médico americano curava alguns dos seus enfermos dando-lhes a comer camembert, um queijo francês de pasta mole e casca aveludada, feito na Normandia com leite cru de vaca. A razão desse resultado devia-se ao Penicillium candidum, um bolor branco que a partir de então se acrescentou ao laticínio original, supostamente criado por Marie Harel por volta da década de 1790, nos tempos conturbados da Revolução Francesa. Essa inovação de fabrico coincide com a descoberta por Sir Alexander Fleming, em 1912, da penicilina no Penicillium notatum.

A 14 de maio de 1796, agora do outro lado do Canal da Mancha, o médico rural inglês Edward Jenner descobriu a primeira vacina capaz de vencer uma das infeções virais mais mortíferas à data. Após ter verificado que os ordenhadores que lidavam com a cowpox, infeção viral causadora de pústulas na ubre das vacas, resistiam à varíola, inoculou uma criança com o pus dum animal contaminado, curando-o ao fim dalgum tempo. Apesar do sucesso então obtido, o resultado foi incapaz de evitar uma resistência generalizada na população e na imprensa coetâneas de desenvolver um plano geral de vacinação.

Então como agora, a oposição às inovações da ciência não se alterou assim tanto. Segue a visão negativista de encarar a realidade, numa tendência insana de recusar a todo o custo as ideias, propostas e solicitações que ameacem o seu ceticismo atávico. Felizmente nunca me identifiquei com essa postura extremada. Acabei de tomar a segunda dose da vacina contra o COVID-19 e as vacas em miniatura ainda não começaram a sair pelos poros mais recônditos do meu corpo. É que, neste megaprocesso de inoculação global, até apetece sorrir ao dizer: La vache qui rit c'est, de même, la vache qui guérit...

Parce que c'est meilleur de rire...

18 de junho de 2021

Night & Day

    FEATHERS BLACK & WHITE    
« Dire que le pour-soi a à être ce qu'il est, dire qu'il est ce qu'il n'est pas en n'étant pas ce qu'il est, dire qu'en lui l'existence précède et conditionne l'essence ou inversement, selon la formule de Hegel, que pour lui "Wesen ist was gewesen ist", c'est dire une seule et même chose, à savoir que l'homme est libre. Du seul fait, en effet, que j’ai conscience des motifs qui sollicitent mon action, ces motifs sont déjà des objets transcendants pour ma conscience, ils sont dehors ; en vain chercherai-je à m’y raccrocher : j’y échappe par mon existence même. Je suis condamné à exister pour toujours par delà mon essence, par delà les mobiles et les motifs de mon acte : je suis condamné à être libre. Cela signifie qu'on ne saurait trouver à ma liberté d'autres limites qu'elle-même ou, si l'on préfère, que nous ne sommes pas libres de cesser d'être libres. »
Jean-Paul Sartre L’Être et le Néant, Paris: Gallimard, 1943

  ChiaroscuroSfumato Unione - Cangiante - Tenebrismo

Em fevereiro de 2020, dei entrada no CHUA com a esperança de poder sair dali a três dias, para resolver um pequeno problema de saúde. A coisa complicou-se e só tive alta ao fim de dois meses e meio de internamento. Pelo meio, ficaram quatro intervenções cirúrgicas, com passagens obrigatórias pelos cuidados intensivos e intermédios. O chiarescuro renascentista converteu-se logo num tenebrismo barroco indesejado.

Em março de 2021, regressei ao CHUA para concluir o processo iniciado no ano anterior. A quinta ida ao bloco operatório correu sem imprevistos e a recuperação há muito aguardada aconteceu sem incidentes inesperados. O longo período entretanto decorrido permitiu que o sfumato sombrio de permeio se transformasse pouco a pouco numa unione de cores vibrantes a fortalecer o cangiante canónico da arte pictórica quinhentista.

A declaração do estado de emergência e o confinamento provocado pelo novo coronavírus SARS-COV-2 apanharam-me no CHUAAgora que se anuncia a quarta vaga da pandemia, vou iniciar hoje a vacinação contra a COVID-19, que me devia ter sido ministrada há cerca de meio ano. Mais vale tarde do que nunca. Depois do claro se ter feito escuro é a altura ideal de o ser e o nada fazerem as pazes e da noite se fazer dia.

5 de dezembro de 2020

Fronteira, estrema, divisa, orla, raia, termo, marca, linde, limite & confim

La terre habitée : fleuves et rivières

Barthélemy l'Anglais, Le livre des propriétés des choses. 1479-1480
[Paris - BNF, Manuscrits - Fr 9140 f° 243v°]
«A questão da fronteira tem uma dupla dimensão, que se traduz na definição de um limite de vizinhança entre entidades diferenciadas e a que salvaguarda um espaço de intervenção autónoma de cada entidade em relação aos interesses próprios.»
Adriano Moreira, «Prefácio» a Maria Regina Marchueta, 
O conceito de fronteira na época da mundialização (2002)

Há mil e uma maneiras de designar a noção de fronteira. É verdade que só arrolei uma dezena no título desta história, mas cada uma delas tem a capacidade de nos remeter para muitas outras de contagem final difícil de determinar. Para além das estruturais que limitam a longo prazo as estremas civilizacionais e culturais, teremos ainda de identificar as conjunturais mais instáveis a marcar quer as orlas políticas, marítimas, ideológicas, económicas, demográficas, cooperativos, quer as raias da cooperação, pobreza, conhecimento, espaço e tempo. Ultimamente, tem-se recorrido ao termo algo inquietante das lindes de segurança, divisas impostas pelo estado de emergência nacional à crise pandémica do COVID-19, causada pelo coronavírus SARS-CoV-2, ou de isolamento do país, que passa a estar circunscrito aos confins da sua área de residência.

O confinamento concelhio, quando se vive num município 0,7 maior do que Malta e 12,8 menor que o Luxemburgo, é como se vivesse entre dois dos mais pequenos estados em área da UE, sem me poder deslocar para mais parte nenhuma, como se vivesse num país cercado de inimigos da pior espécie ou insular em dia de tempestade. Em termos portugueses, é como estar situado no centro dum círculo cujo raio nunca ultrapassa em média a 1/2 dúzia de quilómetros, a separar a minha residência dos três conselhos limítrofes que a rodeiam. Estas restrições severas aconteceram entre as 23h00 de 27 de outubro e as 5h00 de 2 de dezembro, período de clausura que se está a repetir com o mesmo horário agora mesmo, de 4 a 9 deste derradeiro mês do ano. Dois fins de semana, duas pontes e dois feriados totalmente desperdiçados.

Fazendo o balanço da situação atual, sabemos que os restaurantes estão às moscas ou não chegam sequer a abrir, que os hotéis perderam clientes ou viram as reservas canceladas, que o comércio de proximidade ou das grandes superfícies sofreram prejuízos inéditos. Têm-se multiplicado as greves, falências, despedimentos, manifestações e mortes inglórias. O vírus por aí continua a andar. Imune a todos os confinamentos, ao distanciamento social e a toneladas de máscaras usadas no dia-a-dia. Resistem a tudo, quando a vacinação em massa está longe de acontecer e ninguém sabe muito bem a sua real eficácia. O Natal e o Ano Novo estão a chegar. Quem sabe se o Menino Jesus, o Pai Natal ou os Reis Magos nos trarão a cura milagrosa há tanto esperada. Só falta saber se nos temos portado à altura para merecemos tal benesse. Duvido.