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15 de agosto de 2025

Zapping

Sandra Palhares
g
zapping | záping
(nome masculino)
Prática do telespetador que muda frequentemente de canal por meio do telecomando.
Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

Numa noite normalíssima de verão, liguei a televisão para seguir as notícias do dia. Antes da designada hora certa, os canais privados tinham começado a despejar imagens de florestas a arder e de terras assoladas pelas chamas. Os vermelhos alaranjados com tonalidades amarelas esbranquiçadas a oscilarem com os cinzentos enegrecidos da terra queimada tentavam colar o público ao ecrã em detrimento das rivais de sinal aberto ou fechado, como se os relatos informativos selecionados diferissem muito uns dos outros. De facto, as danças e contradanças das labaredas, lumes e fogos transmitidos em direto invadiram outrossim o plasma televisivo de estação pública com uma grandeza trágica tão incendiária como a difundida pela concorrência.

Altura mais que indicada para mudar dos canais generalistas para os temáticos. Em menos dum ai, caí nas malhas do reality show mais longevo da rede televisiva portuguesa, o Big Brother, estreado entre nós um quarto de século. Aparentemente o formato continua a jogar com o mesmo agrado/desagrado dos espetadores, apesar das variantes ensaiadas ao longo dum número astronómico de edições batizadas de BB-qualquer-coisa de Secret Storys de pacotilha ou de Desafios Finais dos Famosos não se sabe bem de quê do reino do império minuto, à imagem das estrelas cintilantes das canções pop-swing descritas por Lídia Jorge n'A noite das mulheres cantoras, que aqui nenhuma celebridade canta duas notas musicais seguidas.

Deixei a casa mais vigiado do país do Grande Irmão ficcionado por George Orwell no Nineteen eighty-four e que nenhum dos inquilinos atuais alguma vez terá ouvido falar ou lido. Nos telejornais da noite, os incêndios continuavam a lavrar em todos eles com a mesma intensidade. Nessa meia hora já a Euronews tinha difundido duas séries completas de notícias de todo o mundo. Encetei uma nova tentativa pelas cadeias alternativas da Nos e deparei-me com tudo na mesma no Reino da Dinamarca. Passei à frente dos crimes atrás de crimes, como se os da CMTV não bastassem q.b., recusei as histórias natalícias e da carochinha do tempo da maria cachucha, transmitidos a toda a hora, num vira o disco e toca o mesmo atroz.

Zapping atrás de zapping, voltei à RTP, SIC e TVI. Três quartos de hora volvidos, travavam uma guerra pelas audiências, centrada no sobe-e-desce das tarifas do tresloucado americano, no chacina sem fim à vista das gentes de Gaza do genocida israelita, no assalto sem quartel à Ucrânia pelo tiranete do Kremlin. Um fartar vilanagem sem tréguas perpetradas pelo novo eixo do mal, apelidada de nova ordem internacional, neste Brave New Word despudorado que nem Aldous Huxley teve a coragem de descrever ou prever. Fartei-me do ruído das cantilenas da banha da cobra das instâncias populistas pró-nazis agora no poleiro, fechei a televisão, escolhi um vídeo no YouTube, abri um livro e viajei tranquilamente para outras paragens.

22 de setembro de 2023

Quartetos de cordas, rimas & luzes

Salvador Dalí,  La persistència de la memòria, 1931
[NY, Museum of Modern Art - MoMA ]
«O tempo presente e o tempo passado | Estão ambos talvez presentes no tempo futuro, | E o tempo futuro contido no tempo passado. | Se todo o tempo estiver eternamente presente | Todo o tempo é irredimível. | O que poderia ter sido é uma abstração | Permanecendo uma possibilidade perpétua | Somente num mundo de especulação. | O que poderia ter sido e o que foi | Apontam para um fim, que está sempre presente.»
T. S. Eliot, Quatro quartetos (1943: 1,1-11)

Tempo de ver, ouvir e sentir...

A televisão ainda nos pode surpreender quando menos se espera. Muito de tempos a tempos, tropeçamos inadvertidamente com um ou outro filme apetecível, perdido no meio de muitos outros de mediana ou nula qualidade que pululam nos mais de 300 canais postos à nossa disposição 24 horas por dia, em sinal aberto ou por cabo.

Num desses encontros imediatos dum qualquer grau indeterminado, deparei-me com um três em um como nos champôs em campanha de promoção, elaborado em torno de três quartetos com acordes filmados, declamados e tocados. Abençoada falta de sono que me permitiu insistir num zapping fortuito de resultado imprevisível.

Uma navegação rápida na Net lembrou-me ter sido a RTP a exibir A Late Quartet (2012) de Yaron Zilberman, apresentado como um quarteto único na página de divulgação da estação. A ideia de finitude temporal da história a ser assim anunciada ab initio aos potenciais telespetadores dos 105 minutos de duração da fita.

A sintonia mantida pelos executantes do Streichquartettt Nr 14 (1826) de Beethoven ameaça ruir após um quarto de século de sucessos ininterruptos. A saúde do violoncelista, a rivalidade dos violinistas e a crise conjugal dum deles com a violetista põe em risco a realização daquele que poderá ser o derradeiro e tardio concerto do grupo.

As dificuldades da peça musical em sete tempos são vencidos pela qualidade das execuções registadas na película. Convite para a ouvir na íntegra num outro contexto e proceder à leitura atenta dos Four Quartets (1943) de T. S. Eliot. Depois, felicitar o canal público televiso por nos permitir fruir de modo tripartido a cultura que nos é devida.

    QUARTETOS FILMADOS, DECLAMADOS & TOCADOS 

30 de setembro de 2020

Juliette Gréco, je suis comme je suis...

« Je ne veux pas qu’on me touche quand je serais morte » 
Juliette Greco, Jujube (1982)

   Une histoire racontée en trois mouvements   

1èr GRAVE
Belphégor, le fantôme du Louvre
Por volta dos meus 12/13 anos de idade, passou no único canal da RTP então existente uma minissérie francesa em quatro episódios de 70 minutos cada, produzida a preto e branco pela ORTF-1. Criada, escrita e dirigida por Claude Barma em 1965, segundo uma adaptação de Jacques Armand do romance policial de Arthur Bernède de 1927, dava pelo título algo exótico de Belphégor. Pouco ou nada me lembro do enredo intricado de Le fantôme du Louvre, como foi rebatizado pela Télévision de Radio-Canada. Só retive na memória o cromatismo sombrio dos cenários das filmagens e o acinzentado predominante do guarda-fatos escolhido para vestir devidamente os intervenientes que dão corpo ao drama. De toda essa vasta panóplia de heróis/heroínas ou de contra-heróis/contra-heroínas do bas-fond parisiense, só fixei o nome duma intérprete, o de Juliette Gréco, intimamente associada a Belfegor, o tal fantasma que andava a assombrar o mais carismático museu da Cidade Luz.
         
2ème ANDANTE
Jujube devient Juliette Gréco
Quando eu entrei na casa dos 30 anos de idade, voltei a encontrar-me com o nome de Juliette Gréco, agora gravado a negrito na capa dum livro a encimar uma Jujube inscrita a vermelho, a autobiografia redigida numa terceira pessoa e publicada nas Éditions Stock em 1982. Recorreu ao seu petit nom d'enfance, que a acompanha ao longo das cerca de três centenas de páginas para se recontar à perfeição de fio a pavio e fez-se fotografar com olhar fixo no infinito com a torre romântica da igreja abacial de Sainte-Croix et Saint-Vincent em pano de fundo. O percurso fulgurante de la muse de l'existentialisme, la fleur vénéneuse de Saint-Germain-des-Prés, la liane noir de nos nuits blanches, é esmiuçado ao sabor da pena os êxitos e fracassos da sua vida de artista, das suas tournées através do mundo, das suas aparições no cinema, no teatro, na rádio, na televisão, na música, na sua existência boémia da rive gauche do seu protagonismo no Flore e Deux Magots, no Rose Rouge e no Tabou, no Bobino e no Montana. Cafés, caves, clubes, n'importe où.

3ème➖ VIVACE
L'icône de la chanson française
Já não me recordo que idade teria quando descobri pela primeira vez a voz grave de Juliette Gréco. Sou incapaz de dizer qual terá sido a primeira canção que a ouvi interpretar. Tenho dificuldade de indicar a minha preferida entre todas aquelas a que deu vida. Ma belle-mère française disait qu’elle était très vulgaire. Moi, par contre, je dis qu’elle est sublime. Le dernier icône de la chanson française n’entendrait ni l’un ni l’autre et dirait tout simplement, avec les mots de Jacques Prévert et la musique de Joseph Kosma : « Je suis comme je suis, je plais à qui je plais, je suis faite comme ça, qu'est-ce que ça peut vous faire ? »Gréco surnommée Jujube est partie vers d’autres endroits à la rencontre des poètes et des musiciens qu’elle a chanté et lui ont donné rendez-vous au Parnasse des immor-telsElle a quitté ce monde il y a une semaine à peine, mais elle y restera dans nos cœurs à plus jamais. En fait, comme elle écrivait au bout de son bouquin : « Un piano joue quelque part. Encore. »

26 de julho de 2019

Uma história cantada em três tempos...

Marc Chagall, Le paysage bleu, 1949
Encosta a tua cabecinha no meu ombro e chora | E conta logo a tua mágoa toda para mim | Quem chora no meu ombro eu juro que não vai embora, | Que não vai embora | Porque gosta de mim. || Amor, eu quero o teu carinho, | porque eu vivo tão sozinho | Não sei se a saudade fica ou se ela vai embora, | Se ela vai embora, se ela vai embora | Não sei se a saudade fica ou se ela vai embora, | Se ela vai embora, porque gosta de mim...
Paulo Jorge, Cabecinha no ombro (1958)
1. Cantores da Rádio
Nos meus verdes anos de menino e moço extrovertido, não me impor-tava de cantar em público, à capela e a solo. Fi-lo várias vezes na sala de aula da primeira classe nos dias de canto coral. Numa delas enveredei pela Cabecinha no ombro, o sucesso musical que a rádio passava então de manhã à noite sem parar. A melodia e as palavras escolhidas por Paulo Jorge entravam facilmente no ouvido e convi-davam a ser repetidas por quem as ouvia. O Duo Guarujá deu-lhe voz em 1958 num primeiro registo em disco, a que se seguiram muitas outras até hoje. Parece que desde essa altura ninguém se cansa de entoar no momento adequado o convidativo encosta a tua cabecinha no meu ombro e chora...       

2. Novelas da Televisão
As modas vão e vêm ao sabor dos dias que se sucedem uns aos outros sem olhar para trás. Voltei a ouvir a velha guarânia da minha infância decorridas quatro décadas. Os folhetins radiofónicos da RR e do RCP foram substituídos pelas telenovelas da Rede Globo, transmitidas pela RTP e SIC. Desta feita, a interpretação esteve a cargo de Almir Sater e Sérgio Reis, que formavam o duo Pirilampo e Saracusa  n'O rei do gado de Benedito Ruy Barbosa, corria então o ano de 1997. O êxito televisivo foi imediato. A organização dos serões sertanejos começaram a repetir-se insistentemente episódio após episódio, findando sempre com a inevitável encosta a tua cabecinha no meu ombro e chora...

3. Vídeos da Internet
As mágoas e choros, as saudades e carinhos, as juras e amores contados em forma de canto silenciaram-se pouco a pouco, quando os ecos novelescos se calaram e foram substituídos por outros de maior ou menor sucesso mediático. Voltei a entoar a cantiga vinte anos depois, como nos romances mosqueteiros publicados aos domingos nos jornais ou distribuídos em fascículos debaixo da porta. Inspirei-me nos muitos vídeos disponibilizados no universo internético do YouTube. O meu público resume-se agora ao meu neto de dois anos. Agarra-se-me ao pescoço, aconchega-se-me ao colo e trauteia comigo a melodia apaziguadora do encosta a tua cabecinha no meu ombro e chora...

21 de setembro de 2017

Espelhismos reais a cores e a preto e branco

Pompeo Batoni,  D. João V de Portugal e Algarves (séc. xviii)
[Palácio Nacional da Ajuda - Lisboa]
Nem sempre rainha, nem sempre galinha
A RTP1 tem vindo a transmitir nas noites de quarta-feira uma série de pendor histórico com um número contado de episódios e fim à vista, baseada na figura de Madre Paula de Odivelas (1701-1768), mãe de um dos três Meninos da Palhavã e amante mais conhecida de Sua Majestade Fidelíssima D. João V, pela Graça de Deus Rei de Portugal e dos Algarves (1689-1750; rei: 1706), cognominado o Grande ou o Magnânimo.

O mesmo canal de televisão pública portuguesa já fizera outro tanto com as duas primeiras temporadas das três já realizadas de Versailles, produzida pela BBC Two e centrada na história do mais famoso palácio real europeu da era barroca, residência e sede do poder político de Sa Majesté Très Chrétienne, Louis XIV, par la Grâce de Dieu, Roi de France et de Navarre (1638-1715; roi: 1643), dit le Grand ou le Roi-Soleil.

Muitas simetrias se têm apontado a estes monarcas absolutos, acusando-se o Bragança de ter imitado a magnificência efetiva ou de aparato do Bourbon. Miragens coloridas à parte, onde mais se espelharam foi nos affaires d'amour com monjas conventuais e cortesãs palacianas. Por algum motivo, o Rei-Sol Português ficou conhecido entre os seus súbitos pelos epítetos despetivos a preto e branco de Freirático e Mulherengo.

Ao que parece, faltava à rainha consorte austríaca a beleza que sobrava ao real consorte lusitano. Vendo-se preterida pelo marido, queixou-se ao confessor, que chamou o pecador à razão. O soberano ouviu-o e incumbiu o cozinheiro-mor de só servir galinha ao prelado. A repetição da dieta levou o capelão real a lamentar-se ao monarca. Este ter-lhe-á então dito: Pois é, senhor padre, nem sempre galinha, nem sempre rainha.