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11 de janeiro de 2018

Shūsaku Endō, do século cristão japonês à proibição e ao silêncio

『私は沈黙していたのではない。お前たちと共に苦しんでいたのだ. 弱いものが強いものよりも苦しまなかったと、誰が言えるのか?
遠藤 周作,沈黙(1966)
Uma história bem contada nas páginas dum livro costuma conduzir à sua transposição para os fotogramas duma película. Como se o sucesso editorial fosse o garante dum êxito de bilheteira. Às vezes a conjugação dessas duas componentes resulta em pleno. A leitura da obra escrita costuma também anteceder o visionamento da obra filmada. Por vezes a ordem dos fatores inverte-se. Foi a versão cinematográfica realizada pelo norte-americano Martin Scorsese do Silêncio (2016) que me levou à descoberta da versão escrita criada pelo japonês Shūsaku Endō do Silêncio (1966), meio século a separar estas duas representações complementares de factos históricos vividos na centúria de Seiscentos, já lá vão quatrocentos e tal anos.

A matéria selecionada pela reconstituição literária remonta aos primeiros tempos do Período Edo (1603-1868), aquele que isolou o Império do Sol Nascente do resto do mundo. A introdução do catolicismo no Oriente Nipónico, iniciada em 1549 pelo jesuíta basco Francisco Xavier, é posta em causa por Ieyasu Tokugawa (1543-1516), que em 1614 proclama o édito de expulsão dos missionários europeus e proíbe o Cristianismo em todo xongunato que havia fundado. A era das perseguições estava aberta. O martírio dos refratários e a apostasia dos resignados entram em cena. A veracidade desses casos de abjuração da fé evangélica e submissão às premissas da fé budista é questionada pelas autoridades eclesiásticas e os inquiridores oficiais da Igreja de Roma são enviados para o Japão. Ao padre Sebastião Rodrigues cumpriu precisamente o papel de averiguar, in loco, qual a atitude que o padre Cristóvão Ferreira havia tomado, quando fora obrigado a colocar-se ao lado dos resistentes ou dos renegados. Tarefa que nos será apresentada a várias vozes ao longo do relato, repartido por dez capítulos, completado na edição que tenho entre mãos por um Prefácio de William Johnston, da Universidade Sophia de Tóquio, e por um Apêndice final, extraído do «Diário de um funcionário da residência cristã». O fictício e o factual convocados pela fábula encarregam-se de nos dar uma resposta à verdade procurada pelas entidades narrativas envolvidas. 

Os anais históricos dizem-nos que os dois sacerdotes referidos tiveram uma existência real, tendo ambos apostatado e ficado retidos o resto dos seus dias naquele arquipélago longínquo do fim da terra, submetidos às leis civis e religiosas ali vigentes. Passaram a ser conhecidos como o apóstata Paulo e o apóstata Pedro. A nacionalidade portuguesa atribuída aos dois é que só pode ser imputada ao inquirido, visto o inquiridor ser afinal italiano de Palermo e chamar-se Giuseppe Chiara. A ficção vai um pouco mais longe e atribui-lhe ainda em vida o nome japonês de Okada San'emom e o budista de Muysen Joshim Shinshi já a título póstumo. O apostolado do último jesuíta chegava assim ao termo sem honra, nem glória. Ironia trágica a coroar um empreendimento que tinha tocado três continentes, a ligar Lisboa e Nagasaki, com passagem por Goa e Macau. O mensageiro da palavra de Cristo falha o seu propósito de converter os gentios e acaba convertido aos ditames de submissão que estes lhe impuseram. O terreno pantanoso visitado apresentou-se pouco propício à religiosidade europeia. É que nesse finisterra asiático nada transcende a natureza humana, tudo se resolve através do korobu, ou seja, na renúncia da fé pessoal que o ser humano tem de seguir para se tornar melhor.

Visto e revisto o filme, lido e relido o livro, sou incapaz de eleger uma versão em detrimento da outra. Completam-se. Cada uma à sua maneira remete-nos para dupla dimensão de sentir o silêncio, a que nos rodeia e a que vive dentro de nós. A  mensagem do romancista católico Paulo / Shūsaku Endō sugere-nos que o mais importante na comunicação não reside tanto no que dizemos em voz alta mas no que ouvimos em silêncio, sobretudo quando pretendemos estabelecer um contacto com o indizível, a que alguns identificam com Deus ou com a ideia que dele fazemos. Está em nós o poder de o aceitar ou de o recusar. De ouvir as respostas às perguntas que lhe fazemos mesmo quando se mantém calado. A fronteira entre os fortes e os fracos, os santos e os medíocres, os heróis e os cobardes desvanece-se. A inquisição japonesa de matriz budista pouca diferença faz da  inquisição portuguesa de matriz católica. São ambas iguais ainda que variem nos pormenores. Incapazes de sondar a verdade que habita no nosso silêncio. O ato de apostasia dos protagonistas torna-se irrelevante quando ao fazê-lo evitaram o sofrimento inútil dos seus seguidores. Perderam-se para a eclésia mas encontraram-se na paz da sua consciência. Ao pisaram em ato público o rosto de Cristo no fumie que o representava, abriram a possibilidade de contemplar a face daquele que fumie algum pode reproduzir, porque só se deixa ver com os olhos fechados. Se o silêncio de Deus é terrível, como alguns dizem, que dizer então do silêncio dos homens que o criaram à sua imagem e semelhança...

EPÍGRAFE
«Não estava em silêncio. Sofria a teu lado [...] Não há fortes nem fracos... Quem pode garantir que os fracos sofram menos do que os fortes?»
Shusaku Endo, Silêncio: Lx: D. Quixote, 2010 (Ⅹ, 261)

8 de dezembro de 2017

História exemplar das quatro concubinas de Takenobu Matsuura senhor de Hirado

   Toyohara Chikanobu - The shogun celebrating New Year's Day (1838 - 1912)   


A pergunta retórica do senhor de Chikugo...

Takenobu Matsuura, senhor de Hirado, tinha quatro concubinas que constante-mente se tomavam de ciúmes e brigavam entre si. Não as podendo suportar por mais tempo, Takenobu correu com elas do seu castelo. Mas talvez não seja esta uma história muito própria para padres celibatários...
– Acho que esse Matsuura não era nada parvo... – Como Inoue se mostrasse conciliador, o padre ganhara ânimo e desafogava deste modo a tensão.
– Diz isso a sério, padre? Que peso me tira dos ombros! É que acontece com o nosso Japão, e não apenas com Hirado, o que aconteceu a Matsuura. – Rodopiando a tigela nas mãos, o senhor de Chikugo prosseguiu: – As mulheres, neste caso, chamam-se Portugal, Espanha, Holanda e Inglaterra. Uma vez aqui chegadas, ciosas umas das outras, encheram de intrigas e mexericos os ouvidos do marido, o Japão. À medida que ouvia a tradução do intérprete, foi o padre compreendendo onde queria o governador chegar. Estava bem longe de ser um disparate o que Inoue dizia. Quantas vezes, estando ainda em Goa e Macau, ouvira dizer que países protestantes como a Inglaterra e a Holanda, e católicos como Portugal e Espanha, ávidos todos de sucesso neste país, se caluniavam reciprocamente na presença dos japoneses! Por seu lado, envolvidos na mesma rivalidade, os missionários recorriam a idêntica moeda, chegando a proibir severamente os seus convertidos japoneses de todo e qualquer contacto com ingleses e holandeses. – Padre, se tem por inteligente o procedimento de Matsuura, terá de admitir que os motivos que levaram o Japão a proscrever o cristianismo não são assim tão levianos e absurdos.
Enquanto falava, o magistrado exibia um amplo sorriso nas faces rosadas e nédias, ao mesmo tempo que fitava intensamente o padre. Para japonês, Inoue tinha uns olhos estranhamente castanhos e claros, e não se lhe via nas suíças, a menos que fossem tingidas, um só cabelo branco.
– Como a nossa Igreja prega a monogamia – observou o padre ironizando deliberadamente – ou seja, como só consente uma mulher para cada homem, tem o senhor carradas de razão quando entende que se devem despedir as concubinas. Sendo assim, que diria o senhor se o Japão escolhesse uma só dessas quatro mulheres para sua legítima esposa?
– E quem seria essa legítima esposa? Portugal?
– Nada disso! A Igreja católica.
Quando o intérprete, com a sua habitual impassibilidade estereotipada, passou a resposta a Inoue, este desfez o rosto de circunstância até aí afivelado e desatou a gargalhar desalmadamente. Dada a idade que tinha, era um riso demasiado estridente, mas nos olhos dominadores que fitavam o padre não havia a mais pequena emoção. Os olhos, esses não riam.
– Padre, não acha melhor que esse homem chamado Japão deixe de pensar nas mulheres de outros países e se volte unicamente para uma mulher da sua terra, uma mulher da sua plena confiança?
Shusaku Endo, Silêncio (1966)
[Lisboa: Dom Quixote, 2010, cap. 7, pp. 176-177]