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2 de abril de 2026

Mente sã em corpo são

Corrida de atletas gregos em Olímpia

[Vaso grego, 431-434 - gettyimages]

Orandum est ut sit mens sana in corpore sano.
Fortem posce animum mortis terrore carentem,
qui spatium vitæ extremum inter munera ponat
naturæ, qui ferre queat quoscumque labores,
nesciat irasci, cupiat nihil et potiores
Herculis ærumnas credat saevosque labores
et venere et cenis et pluma Sardanapalli. 
Monstro quod ipse tibi possis dare; semita certe 
tranquillæ per virtutem patet unica vitæ.
Juvenal, Sátiras ( Séc. II EC:  IV.10.356-364) 

Neste primeiro septenário de reformado, aposentado ou jubilado, tenho praticado a mente sã em corpo são a caminhar, a yogar, a cantar, a lecionar e a blogar. Faço-o regularmente todos os dias da semana de modo alternado, com breves intervalos nos meses mais quentes do estio meridional.

O intervalo este ano foi mais prolongado no dois primeiros itens da série. O município laranja da urbe findou as suas funções camarárias fechando as portas a todas as atividades desportivas inseridas no programa sénior, tendo sido retomadas nove meses escoados com a nova equipa camarária rosa.

Voltei ao equilíbrio lunar e solar das asanas, pranayamas, pratyharas e dharanas do Ioga, depois de ter passado em passo de corrida pelas práticas sem registo sânscrito do Pilatos. Hábitos antigos não se mudam do dia para a noite. Juntei as mãos e reavivei a ancestral saudação ritual hindu: Namastê!

As passeatas, marchas e corridas pelos trilhos, veredas e carreiros algarvios, por vales, campos e montes da região, a vencer riachos rurais, asfalto urbano ou terra batida, a andar é que se faz caminho. Sapatilhas nos pés, bastões nas mãos e a meta bem à vista no horizonte ou ao virar da esquina.

Leciono uma manhã por semana. Arejo os livros da biblioteca cá de casa, para lhes dar vida enquanto os abro, leio e comento. Garanto que os neurónios ainda continuam despertos e a funcionar em termos académicos, embora submetidos ao regime pro bono e dirigidos a um pública sénior, tal como eu.

Quem canta seus males espanta. Se for num coral ameniza a vida, se for em dois ainda melhorDepois vêm os concertos, participações, encontros dentro fora das divisas do quotidiano habitual. Plateias, anfiteatros, auditórios abrem-nos as portas e os acordes entoados a várias vozes ecoam em liberdade.

Palavra a palavra, frase a frase, ideia a ideia, as histórias vão surgindo dia a dia, mês a mês, ano a ano neste blogue composto em nome dum herói imaginário nado num romance medieval de cavalaria. E assim, o exercício semanal do corpo são em mente sã lá vai surgindo no fluir dos dias, dos meses e dos anos. 

EPÍGFRAFE 
Deve-se pedir em oração que a mente seja sã num corpo são. | Peça uma alma corajosa que careça do temor da morte, | que ponha a longevidade em último lugar entre as bênçãos | da natureza, que suporte qualquer tipo de labores, | que desconheça a ira, nada cobice e creia mais | nos labores selvagens de Hércules do que | nas satisfações, nos banquetes e camas de plumas de Sardanápalo. | Revelarei aquilo que podes dar a ti próprio; | certamente, o único caminho de uma vida tranquila passa pela virtude.
Juvenal, Sátiras ( Séc. II EC:  IV.10.356-364) 

22 de janeiro de 2026

Olhares maneiristas de Narciso olhados em claro-escuro por Caravaggio

Michelangelo Caravaggio, Narcissus (1597-1599)
[Roma, Galleria Nazionale di Arte Antica - Galleria Corsini - Roma]
«Havia uma fonte límpida com águas brilhantes e prateadas, que nem pastores, nem cabras, nem qualquer outro animal jamais se aproximara, que nenhuma ave, nenhuma fera selvagem, nenhum ramo caído de uma árvore jamais perturbara. Estava rodeada de erva que se mantinha fresca pela proximidade da água; e a floresta impedia que o sol aquecesse esses locais. Foi ali que Narciso, cansado do ardor da caçada e do calor, veio deitar-se, atraído pelo aspeto do local e pela fonte. Mas enquanto tentava matar a sede, outra sede crescia dentro dele. Enquanto bebia, seduzido pela imagem da sua beleza que vislumbrava, apaixonou-se por um reflexo sem substância, tomou por corpo o que era apenas uma sombra.»
Ovídio, Metamorfoses (8 EC)

    Narcísicas                                                          

Contam os mitos helénicos ter o deus Cefiso e a ninfa Liríope gerado Narciso, um jovem muito belo insensível aos apelos do amor. A pedido dos pais, o adivinho Tirésias previu que a criança viveria até ser velho, se não olhasse para si mesmo. Já adulto, mostrou-se alheio a todas as paixões, incluindo a ninfa Eco. Esta definharia com a rejeição, até restar apenas a sua voz a ecoar nas montanhas. As pretendentes desdenhadas rogaram vingança aos céus, Némesis ouviu-as e num dia de grande calor, após uma caça, obrigou o efebo a refrescar-se numa fonte. Ao debruçar-se sobre a água, olhou para o rosto ali revelado e enamorou-se pela própria imagem.

O olhar maneirista de Caravaggio capta, precisamente, o momento crucial em que Narciso olha a sua imagem claro-escura refletida no espelho de águas cristalinas duma fonte nas imediações de Tebas. Segundo o olhar de Ovídio, fixado nas Metamorfoses (Liv. III), a semidivindade helénica teria sucumbido ao fascínio da sua beleza, brotando no local da sua morte uma flor a que foi dado nome de narciso. Ignoramos se o grande mestre milanês das artes pictóricas se terá rendido a esta versão latina da lenda ou se teria virado para outros finais alternativos, caso o seu olhar perscrutador tivesse ido um pouco mais longe do plasmado na tela.

Com o olhar letal reproduzido no olho-d'água beócio cumpriu-se o oráculo de Tirésias. A flor que recorda a beleza efémera de Narciso sobreviveu até hoje. Com ela espalhou-se também a memória dum narcisismo absoluto que os narcisos atuais tanto gostam de servir. À diferença dos mitos de antanho, os contramitos hodiernos não enviam ninguém para o reino das sombras com um simples olhar. Espelho, espelho meu, quem é o mais esplendoroso ser vivente do mundo? E sem ouvir a resposta do espelho: Sou eu, sou eu, o mais poderoso narciso de todos os tempos! Até quando, perguntamo-nos nós, a justiça de Némesis continuará inerte...

29 de maio de 2025

Original & Imitação

Um peixinho dourado com barbatana dorsal de tubarão

Não queiras sapateiro tocar rabecão…

Qualidade & Quantidade

Quando os complexos de inferioridade se transformam em complexos de superioridade, a mania das grandezas manifesta-se em toda a sua extensão. Desmesuradamente. A originalidade evapora-se e a imitação explode. Os exemplos não faltam. Pequenos e grandes, antigos e recentes, imprevisíveis e expectáveis. Deixemos os de menor calibre de fora e convoquemos alguns dos mais visíveis. Nascidos numa etapa civilizacional longínqua, desenvolvidos num fluxo civilizacional contínuo e prenúncio duma evolução civilizacional vigente, perdida num horizonte de eventos ignotos, mas cada vez mais próximos do nosso ângulo de visão.

Começando com os Sumérios, não se sabe ao certo de onde vieram nem para onde foram. Provavelmente, quando inventaram a escrita, já teriam esquecido a sua proveniência e acabaram por se diluir no seio dos Acádios semitas. Nem uns nem outros se encarregaram de registar em nenhuma placa cuneiforme estes dados que em nada lhes interessaria documentar. As lendas do rei sumério de Uruk uniram-se na epopeia acádia de Gilgamesh. Estes aproveitaram-se da matéria-prima original, ampliaram-na a seu belo prazer e criaram um género novo que muitos outros depois imitaram, com Homero, Virgílio e Camões à cabeça de todos eles.

Na Idade dos Heróis épicos, Troia foi tomada, saqueada e incendiada pelos Aqueus, após um cerco de dez anos. Eneias consegue fugir e protagonizar um sem número de aventuras por terra e por mar até chegar à anelada península italiana. Aí, estará na origem da fundação lendária de Roma, cidade imperial que posteriormente conquistará toda o Mare Nostrum mediterrânico, incluindo os antigos territórios gregos. Com esta anexação punitiva, a nova senhora incontestável do mundo conhecido tenta demonstrar a alegada superioridade bélica latina sobre a invejada superioridade cultural helénica. Exageros à parte, cá se fazem cá se pagam.

Os eixos do poder mudaram-se para o novo mundo, levando consigo a secular matriz do velho continente. Para a ereção da capital, os seus arquitetos associaram as colunas e pilastras gregas aos arcos e cúpulas romanas. A acumulação desregrada de originais alheios imitados à exaustão encontra o expoente máximo no Capitólio, um misto de templos helénicos e de basílica latina ou dum bolo de noiva com vários andares. A sujeição da qualidade à quantidade, feita à medida do atual inquilino da Casa Branca, a alimentara-lhe o ego e a transformá-lo num lídimo César global, a vencer aos pontos a loucura de Nero, Calígula ou Caracala.

WASHINGTON, THE CAPITOL. (US-D.C.(1891) 

31 de janeiro de 2025

Aventura na Escola Agrícola

«Beatus ille qui procul negotiis, | ut prisca gens mortalium | paterna rura bobus exercet suis, | solutus omni fæenore, | neque excitatur classico miles truci | neque horret iratum mare, | forumque vitat et superba civium | potentiorum limina.»
Horatius, Epodos, 2, 1 (30 aec)
«Carpe diem quam minimum credula postero.»
Horatius, Carmina, 1, 11.8 (23 aec)
«Sed fugit interea fugit irreparabile tempus.»
Vergilius, Georgicon, 3, 284 (30-37 aec)
Beatus ille...
Feliz aquele que desfruta a tranquilidade do campo sem se afastar demasiado do bulício da cidade. Horácio não diria melhor nos versos líricos cantados nos seus épodos juvenis. O bucolismo idealizado pela verve amena do poeta latino não permitia a associação então inconciliável do locus amœnus rural com o locus horrendus urbano. Contrariando as percetivas clássicas seguidas na passagem agitada da República Romana para a Imperial, posso-me gabar de ter tido o privilégio de ter o campo na cidade durante a totalidade dos meus tempos de menino e moço. Aproveitei ao máximo a estação agrária onde o meu pai trabalhava e eu brincava horas a fio com o meu irmão nos tempos livres depois das aulas.

Naquele espaço imenso de lazer da minha meninice, situado a meia dúzia de passos de casa, mesmo ali ao lado ao virar da esquina, não havia bois como no campo idílico horaciano. Nem cavalos, nem porcos, nem gado ovino e caprino de porte semelhante. A escola agrícola, como era conhecida, limitava-se a ter umas coelheiras bem fornecidas, uns galinheiros espalhados na paisagem e uma dúzia de peixes coloridos repartidos pelo lago do jardim e nos tanques de rega da quinta. Depois, havia também umas quantas parcelas de terreno cultivadas com uma vasta variedade de legumes, ladeadas com árvores de fruto da região e completado com uma pequena vinha com uvas de diversas castas.

Não guardo na memória nenhuma brincadeira especial tida nesse in illo tempore remoto. Lembro-me todavia de me terem contado uma aventura protagonizada por mim em meados dos anos 50. Deixei de ser visto em todo o recinto fechado do meu paraíso infantil. Procuraram-me por toda a parte, sobretudo nos reservatórios de água de rega extraída dum poço por um moinho de armação metálica. Nada. Lá deram comigo adormecido debaixo dum dos tomateiros ali plantados. Comera um desses frutos vermelhos e já tinha alguns mais de reserva ao meu lado. Não recordo se me terão dito qual o castigo que uma criança com três/quatro anos de idade terá tido. Quero crer que nenhuma.

O edénico El Dorado dos meus verdes anos já não existe. As antigas instalações da IX Região Agrícola mudaram de poiso. Deixaram os limites periféricos da cidade e instalaram-se de pedra e cal no campo. Terão criado um novo beatus ille erigido a uma distância considerável da sua anterior sede onde nunca pus os pés. Para trás ficaram os prazeres menineiros de quem nunca deixou de aproveitar o dia à maneira do carpe diem horaciano. Na altura não pensava muito no amanhã nem sentia real motivo para o fazer. O tempus fugit virgiliano tomou conta dos eventos sem pena nem remissão. Restam-nos as memórias. Sobretudo as boas, como a aventura pré-escolar dos tomateiros da extinta escola agrícola.

EPÍGRAFES
«Feliz é aquele que, longe dos negócios, | Como a antiga raça dos homens, | Ele passa o tempo trabalhando nos campos de seu pai com seus próprios bois, | livre de todas as dívidas, | e não acorda, como o soldado, ao ouvir a trombeta sangrenta da guerra, nem ele tem medo da ira do mar, | ficando longe do fórum e dos limiares arrogantes | de cidadãos poderosos.» [HorácioÉpodos, 2.2 (30 aec)]
«Aproveita o dia e confia o menos possível no amanhã.» [Horácio. Odes, 1, 11.8 (23 aec)]
«Mas o tempo foge e nunca mais regressará.» [Vergílio, Geórgicas, 3, 284 (30-37 aec)]

10 de abril de 2024

Os pomos de ouro ou da discórdia

Lord Leighton, The Garden of the Hesperides (1892)

HELÉNICAS, LATINAS & LUSITANAS
maçãs laranjas tomates marmelos melões

Dizem os mitos dum tempo sem tempo, que os tempos com tempo transformaram em lendas, haver nas margens do rio Oceano, onde o Sol se põe, um horto pejado de pomos de ouro plantadas por Hera no Jardim das Hespérides, a morada das ninfas defendida por um dragão com corpo de serpente munido duma centena de cabeças vigilantes. Apesar da agrura da tarefa, Héracles logrou eliminar o feroz monstro guardião e apoderar-se do cobiçado fruto.  

Dizem as lendas antigas, que os ditos recentes reduziram a histórias dum diz que diz sem fim à vista, referirem-se esses pomos dourados a lídimas MAÇÃS de ouro de poderes divinos prodigiosos. Associá-los, v.g., a Éris, à deusa grega da Discórdia. Esta, despeitada por não ter sido convidada para o casamento de Peleu e Tétis, encarregou Páris de entregar um desses frutos à mais bela das deusas, ponto de partida para a sangrenta Guerra de Troia.

Dizem as histórias atuais, com que o imaginário coletivo transfigurou os mitos e lendas ancestrais sobreviventes à voragem do tempo, serem as LARANJAS dadas como as maçãs douradas existentes nesse paraíso perdido à beira-mar plantado. O grego moderno até aponta para o nosso país, ao designar o citrino por πορτοκάλι [portokáli], imitado por uma diversidade doutros idiomas, pese embora o facto do cultivo ser relativamente recente entre nós.

Dizem por que o contramito da laranja mítica lusitana esbarra com a hipótese rival italiana de converter as maçãs douradas helénicas em TOMATES (pomodoros). Pomo da Discórdia nascido na antiguidade clássica, que se designa em latim uma «maçã doce» por melimellu, derivado grego de μελίμηλον [melimelon], para nomear o MARMELO, identificado à data com os seios divinos de Vénus/Afrodite, a deusa escolhida por Páris como a mais bela do Olimpo.

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Mitos e contramitos à parte, as histórias da História dizem-nos que urge achar os tais pomos de ouro sem discórdias à mistura. Maçãs, laranjas, tomates, marmelos. Tanto faz. Dadores do metal sonante amoedado com que se compram os MELÕES, amarelos por dentro e multicores por fora. Suculentos, saborosos, nutritivos. A provarem por a+b que nem tudo o que luz é ouro é como maçãs de ouro em salvas de prata enchem o olho e pouco mais.

1 de agosto de 2022

Agosto dos feitos do divino Augusto

MENSIS AVGVSTVS
[Alegoria dos meses - Anónimo, c. 1650]
Augusto, m. Do lat. Augustus, epíteto atribuído em 27 a.C. pelo Senado Romano a Octávio (63 a.C-14 d.C.); do adj. augustus, «santo, consagrado; majestoso, venerável; depois título dos imperadores».
J. P. Machado, Dicionário etimológico da língua portuguesa
(Lisboa: Horizonte, 1977; Ⅰ, 186b.)
[Augusto] (R)estabeleceu, no calendário, a ordem que o divino Júlio nele introduzira, e que se achava subvertida graças à negligência dos pontífices; aproveitou a ocasião para dar o seu próprio nome ao mês de Sextilis, e não ao de Setembro, mês em que nascera, porque em Sextilis obtivera o seu primeiro consulado e as suas grandes vitórias.*
Suetónio, Os doze Césares (121EC, Ⅱ, ⅹⅹⅹⅰ)
(Lisboa: Presença, 1979; 70-71)

Agosto deve o seu nome ao divino Caio Otávio Augusto, fundador do Império Romano e Primeiro Cidadão do Estado, o Princeps Civitates ou Imperator Caesar Divi Filius. Dizem as más línguas que quando em 8 AEC o Senado confirmou essa distinção para solenizar os feitos vitoriosos que obtivera nesse mês, terá garantido que o mensis Augustus tivesse os mesmos 31 dias do Iulius mensis do seu tio-avó e pai adotivo Júlio César. Diz que diz infundado, dado que à data da mudança o até então designado mensis Sextilis já dispunha desse número de dias desde a reforma do calendário juliano.

Após a morte dos dois primeiros Césares, nenhum dos seus herdeiros dinásticos mereceu a honra de nomear os restantes meses do ano. Os oito iniciais mantiveram as suas designações olímpicas ou divinizadas. Os quatro restantes limitaram-se a indicar a sua ordem numérica arcaica no já desfasado sistema de divisão do tempo romano. Dá para perguntar que feitos teriam sido exigidos a Tibério, Calígula, Cláudio, Nero, Galba, Otão, Vitélio, Vespasiano, Tito e Domiciano para igualarem os seus antepassados imperiais. A resposta é fácil de dar, muito embora fique por concretizar.

DIVUS AUGUSTUS PATER
[Curia del foro de Ituci - Baena]
NOTA
* Annum a Divo Iulio ordinatum, sed postea neglegentia conturbatum atque confusum, rursus ad pristinam ra-tionem redegit; in cuius ordinatione Sextilem mensem e suo cognomine nuncupavit magis quam Septembrem quo erat natus, quod hoc sibi et primus consulatus et insignes victoriae optigissent.
Suetonius, De Vita Cæsarum, 121; II, xxxi

1 de julho de 2022

Julho, o mês natal do divino Júlio

Julius Caesar

Workshop of Colin Nouailher (c. 1541)
IULO. (Iulus.) Iulo (em latim Iulus) é outro nome do filho de Eneias, Ascânio. É a ele que se vai buscar a origem do nome da família dos Iulii, à qual pertenciam César e, por adoção, Augusto. Iulo fundou no Lácio a cidade de Alba, a metrópole de Roma.
Pierre Grimal, Dicionário da mitologia grega e romana (Lx: Difel, 1992, 255b)

Tal como el-rei D. Dinis, Caio Júlio César (100-44AEC) fez tudo quanto quis. Tudo ou quase tudo. Nasceu patrício, foi militar e morreu político. Fez-se general, ditador e cônsul. Conquistou, governou, subornou. Foi tribuno militar, pontífice máximo e primeiro triúnviro. Contribuiu para converter a República em Império. Só lhe escapou ‒ como desejaria ‒ a coroa real e a imperial. Foi impedido de as usar por um grupo de senadores que o assassinaram nos idos de março, na cúria pompeia do Campo de Marte. A César o que é de César a Roma o que é de Roma.

O membro da Gens Júlia, alegado descendente de Vénus, Eneias e Ascânio, esposo de Cornélia Cinila e amante de Cleópatra Filopátor, tio-avô e pai adotivo de Otávio Augusto, obteve após a morte o título de Divino Júlio com direito a um templo no fórum romano. Fundador da dinastia Júlio-Claudiana ou dos Doze Césares, influenciou ainda os senhores absolutos dos impérios europeus modernos, pretensos herdeiros legítimos do antigo Império Romano que tentaram imitar, tais como o Kaiser germânico e o Czar russo, evoluções fonéticas claras do Cæsare latino.

As vitórias bélicas alcançadas na Gália e na Britânia estenderam-se a outros campos de batalha. Apoiou a reforma do calendário romano tradicional organizada pelo astrónomo Sosígenes de Alexandria e usou depois o seu próprio nome para o batizar de calendário juliano. NaturalmenteTambém aqui veio, viu e venceu. O Qvintilis Mensis lunissolar transformou-se no Iulius Mensis de 365 dias e seis horas do ciclo anual solar. Julho passou a ser o sétimo mês do ano, aquele em que o senhor absoluto de Roma viera ao mundo para o dominar a seu belo prazer.


DICT PERPETVO CÆSAR
[Antiqua Roma Denarius, c. 44 AEC]

1 de junho de 2022

Junho das romãzeiras, dos lírios, das perpétuas e do olhar atento do pavão

                  PENA  DE  PAVÃO                  
[O olhar vigilante de Argos]
«O atributo vulgar de Hera é o pavão cuja plumagem se dizia ser a imagem dos olhos de Argos, o "vigilante" que a deusa colocara junto de Io. As suas plantas eram o helicriso, a romãzeira, o lírio. | Em Roma foi identificada com Juno.»
Pierre Grimal, Dicionário da mitologia grega e romana (Lx: Difel, 1992, 205a)

O quarto mês do calendário romano primitivo pré-juliano estava dedicado a Juno, a nem sempre bem-amada irmã e mulher de Júpiter. As aventuras extraconjugais continuadas do rei dos deuses e dos homens levaram-na a ser conhecida como a mais ciumenta, violenta e vingativa moradora celestial do Monte Olimpo. Por essa razão também, a majestosa e solene filha de Crono e Reia converteu-se na todo-poderosa protetora das casadas, símbolo mítico da fecundidade e patrona da fidelidade conjugal.

Para idear esses atributos divinos da Iuno Lucia, aquela que preside desde o Esquilino ao nascimento das crianças, passou a estar associada à fertilidade das bagas vermelhas da romãzeira, à pureza imaculada do lírio branco e à perenidade dourada do helicriso solar. A Iuno Moneta, aquela que a partir das alturas do Quirinal e do Capitólio nos adverte e faz lembrar dos perigos latentes, socorria-se ainda do olhar atento e penetrante de Argos-o-Vigilante, espelhado na plumagem luxuriante do pavão.

Nestes dias tão cheios de surtos pandémicos e conflitos bélicos, não seria pedir muito a Iuno Deæ Diæ Virtus o mediar junto das mais altas esferas celestiais o retorno da ordem aos seus domínios terrestres. Depois lembramo-nos ser a esposa do Senhor dos Raios e Trovões a mãe de Marte, Éris e Vulcano, os deuses da Guerra, Discórdia e Fogo e pensamos que o melhor é deixar deuses entretidos entre si e obrigar os homens a resolverem por si sós as suas querelas multisseculares. Sic fiat semper!

Ana Hatherly, Romã (1971); Sydenham Edwards, Iris florentina (1803);
Antonio Šiber, Helichrysum italicum (2017)

1 de maio de 2022

Maio dos Maios e das Maias

Maia & Flora
em formato sorvete
Não hâ para que me detenha no modo de vestirse; vistase conforme sua idade, mudese com ella. Temse nisto respeito aos filhos, á saude, ao gosto, à presença, ou ausencia do marido, e tambem a idade delle. Se o ouvessemos de regular parece que atè os tres filhos, e atè os vinte e cinco annos se permite toda a gala. E ainda nesse mesmo tẽpo tenha suas crecentes, e minguantes; que nos mesmos altares de Deos se mudão as cores, e adornos, e vez em que se mostraõ tristes. Avorrecẽme hũas maias muito enfeitadas, sempre de bordados, e joias, que parecem Fama de procissão, ou Raìnha Moura de comedias. Seja mais confiada em sì a fermosura, se saõ fermosas; e mais reportada a fealdade, se saõ feas.
Dizem os mitos e lendas helénicas de tempos perdidos na memória das gentes ser Maia filha de Atlas e Plêione, amante de Zeus, mãe de Hermes e ama de Árcade após a morte de Calisto. Diz-se ainda, sem grande convicção, ter sido gerada por Estérope. E pouco mais se acrescenta ao perfil biográfico algo escasso da ninfa do monte Cilene, na Arcádia, uma das sete irmãs divinizadas e convertidas na constelação das  Plêiades.

Os mitos e lendas itálicas diluídas na espuma dos dias imaginaram outrossim uma divindade chamada Maia Maiestas. Associaram-na à fecundidade e energia vital, ao despertar da natureza na passagem do período das chuvas para o da calidez juvenil. Teria sido mentora de Vulcano, o deus do fogo, e genitora de Mercúrio, o arauto de Júpiter e servidor da deidade maior do panteão romano nas suas muitas aventuras amorosas.

Com a chegada do helenismo, os mitos e as lendas greco-latinas confundiram-se umas com as outras, e as Maias das duas culturas-civilizações mediterrânicas passaram a simbolizar com um único nome o renascer cíclico anual das flores, o despertar do primeiro verão a anunciar a vinda do estio pleno. A mãe de Hefesto-Mercúrio uniu-se à deusa Flora celebrada em abril e deu origem ao mês de maio que lhe foi consagrado.

Quem atravessa a EN 125 no concelho de Olhão pode observar os Maios e Maias de flores silvestres rejuvenescidas cada primavera. A lembrança distante do poder da deusa da terra e das plantas em crescimento continua viva nesta tradição popular de matriz rural. Ecos audíveis ainda hoje de numes sem idade registada nos anais históricos, com um sabor regional adaptado aos usos e costumes ainda em vigor nos nossos dias.

MAÏA ET MERCURE
Trésor de Berthouville, séc. Ⅱ EC
[Cabinet des médailles - BnF - Paris]