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19 de fevereiro de 2026

Histórias de Hospital

 Hospital Real de Todos os Santos antes do Terramoto de Lisboa de 1755
[Anónimo, 1.ª metade do séc. xviii]
"hospital": latim hospitale [domus], casa de hóspedes.

Faz hoje seis anos precisos que ingressei no CHUA de Faro para um internamento rápido de três dias, logo transformado num conjunto alternado de entradas e saídas distendidas até abril do ano seguinte. É da primeira e mais prolongada permanência de dois meses e meio que guardo mais recordações, mas que agora me escuso de relembrar. De certo modo, já deixei alguns testemunhos aqui por estas bandas na altura em que ocorreram. Por vezes pergunto-me o que terá acontecido a todos os meus companheiros de enfermaria e a resposta não me surge por nenhuma fonte. Ali os vi ao chegar, ali os deixei ao partir. Relações rápidas e fugazes que o fluir dos dias se encargou de apagar. O Zé Cocho, o Desenfiado, as Mulheres Barbeiras e a Princesa das Astúrias me perdoem, bem como as Bailarinas Flutuantes seguidoras de Florence Nightingale naquelas unidades de cuidados intensivos, intermédios e enfermarias cirúrgicas, me fizeram companhia assídua dia e noite, enquanto a recuperação tardava em chegar e o COVID-19 a partir. 

As minhas lembranças seletivas remontam agora aos derradeiros estertores dos tempos da outra senhora. Passei aquele verão de 73 no HME, a tentar livrar-me duma ida forçado para os campos de batalha africanos. A minha permanência ali à Estrela foi muito meteórica, porque os exames à minha bronquite asmática foram tratados no HU à Junqueira. Recordo-me muito fragmentariamente dalguns episódios ali vividos. Ter assistido às chegada de muitos estropiados de guerra, de ter visto morrer alguns ali à minha beira e de ter recebido a visita de duas militantes do MNF. Deixaram-me uma esferográfica, uma medalha não sei de que santo e muitas palavras de circunstância que me encarreguei de esquecer até hoje. A minha hospitalização na capital do império terminou no BC5, no antigo Colégio de Campolide, onde durante uma meia dúzia de semanas me mantive isolado até receber a ordem definitiva de soltura. Tive a companhia dum exemplas de bolso das As palavras de Jean-Paul Sartre que nunca mais voltei a abrir.

Recuo uma década até onde a minha vista chega e dou comigo na primeira quinzena de setembro no HTRDL, a casa de hóspedes criada pela Rainha Perfeitíssima que deu o nome ao local. Na década em que a frequentei, as bronquites eram curadas com parches de álcool canforado, papas de linhaça e aspirações de pó-pinheiro, mezinhas rematadas com uns dias na praia e outros nas termas. Para evitar a humidade estremenha, aconselhava-se um internamento preventivo das recaídas invernais. Foi o que me aconteceu durante dois ou três anos da minha pré-adolescência. Ali fui submetido a duas sessões diárias de inalações, pulverizações e nebulizações, permanência na nascente nas águas sulfurosas, associadas a um vigoroso duche de espadana matinal para relaxamento muscular completo. Muitas foram as aprendizagens colhidas na enfermaria, refeitório, salas de repouso e demais instalações do vasto complexo termal. Guardo-as no arquivo das minhas vivências longínquas, aquelas que só se podem visitar com a ajuda inigualável da memória.

SIGLAS
CHUA: Centro Hospitalar Universitário do Algarve; HME: Hospital Militar da Estrela; HU: Hospital do Ultramar; MNF: Movimento Nacional Feminino; BC5: Batalhão de Caçadores n.º 5.; HTRDL: Hospital Termal Rainha D. Leonor.

4 de julho de 2025

Memórias distantes de dejejuns infantis

«Com papas e bolos se enganam meninos e tolos.»

No arquivo das minhas memórias de menino e moço, lembro-me muito bem dos pequenos-almoços de farinha torrada preparados pela minha avó, mas absolutamente nada de alguma vez ter tido aos dejejuns um prato de corn flakes. Não é que na altura não existissem já esses flocos de milho, mas não entravam de certeza na mesas de toda a gente como primeira refeição do dia, sobretudo numa época em que a televisão começava a dar os primeiros passos entre nós, privando-nos assim da publicidade dos produtos importados transmitida do nascer ao pôr do sol.

Em meados do século passado, a Rádio continuava a ser a rainha da comunicação à distância. Os slogans repetidos a cada instante ficavam logo no ouvido de quem os ouvia. O «É trigo limpo, farinha Amparo» e o «Saiu-te na farinha Amparo» garantia-nos ser fácil e rápida de fazer, bastando para tal juntar um pouco de leite, mel e uma casca de limão a gosto. A Farinha Predileta criou com a popular «É para a avó e para a neta e também para o atleta», a que a Farinha 33 terá replicado também à sua maneira, mas que o tempo apagou de vez do meu registo mental.

Com o advento das pequenas, médias e grandes superfícies de livre-serviço, as papas matinais mais sofisticadas ganharam um lugar de destaque nas prateleiras desses novos hiper-e-supermercados multinacionais que pululam um pouco por todo o lado. O preto e branco mais ou menos cinzento rendeu-se ao colorido apelativo das embalagens da Nestlé, Kellogs & afins. Rendi-me por um período um tanto ou quanto longo às variedades oferecidas pela Nestum de cereais integrais, frutos secos e mel. Depois fartei-me, porque o sabor demasiado adocicado nunca me cativou.

Uma dieta rigorosa surta de supetão levou-me a mudar drasticamente de regime alimentar a todas os repastos. Durante uma temporada, rendi-me ao sabor peculiar da Maizena, logo substituído pelo cunho bem mais exótico da tapioca. Os sabores há muito esquecidos da infância voltaram a visitar-me logo pela manhã, repetidos por vezes a meio da tarde, por fim saídos de cena para dar lugar aos flocos de aveia. Partilho-os amiúde com o meu neto, que, tal como lá dizia o slogan da farinha acima referida, passou a ser o nosso dejejum ou pequeno-almoço predileto. Também rima e bate certo.

5 de junho de 2023

O rio de violências duma terra em guerra

          Avestruz com a cabeça na areia          
– Alguma coisa de ruim vai acontecer na terra. A televisão é um espelho dela e está em guerra [...] Alguém retira o som ao rio de violências que escorre do te-levisor, e sem som a violência assemelha-se a uma banda desenhada de mau gosto. A qualquer hora do dia, escorrem do televisor raparigas nuas, polícias, facadas [...] Esta manhã, achou que se eu não ligo a televisão, então o trambo-lho não tem nada que ficar a ocupar a mesa dificultando o acesso à janela e in-terferindo com o gravador. Melhor seria guardá-la. Salomé perguntou - «O que lhe parece, dona Alberti?» Eu precisava de pensar sobre se desejaria ainda vol-tar a ligá-la ou se, pelo contrário, a dispensaria de uma vez por todas. Salomé decidiu, pegou no aparelho ao colo e enfiou-o no armário da roupa. Fechou a porta, satisfeita, como se tivesse eliminado uma peça de entulho do seu cami-nho. Quando pude dizer que sim, que seria melhor desembaraçar-me daquele óculo que me falava do destino do mundo como um aterro sanitário, já ela tinha decidido por mim. Obrigada, Bosch, aprecio as pessoas assim. As fraquinhas podem chamar-se Indesit.
Lídia Jorge, Misericórdia (2022) 
[60; 14, 6.º: 93-94; 15: 98-99]

A leitura do mais recente romance de Lídia Jorge trouxe-me à memória os dias, semanas e meses que em 2020 e 2021 passei no CHUA de Faro. Desde as primeiras páginas do Misericórdia, revi-me no ambiente ali vivido, muito embora as dependências duma residência de terceira idade se tivessem transformado nas diversas dependências hospitalares que me foram dadas a conhecer.

Nesses tempos de amanhãs incertos, de pandemia desconhecida e de isolamento forçado, revi-me na sucessão interminável dos dias e das noites, na ausência obstinada dum sono sem sonhos, na solidão vivenciada entre quatro paredes, na dependência obsessiva das campainhas e dos telemóveis, na presença compulsiva da televisão, a tal caixinha mágica que alguns dizem ter mudado o mundo.

Numa primeira fase do internamente, usufrui do silêncio do televisor avariado da minha enfermaria. Foi uma paz dos anjos efémera. Tudo mudou quando uma alma caridosa se lembrou de lhe dar um fôlego renovado para voltar a vomitar do nascer ao pôr-do-sol os incêndios de verão e as inundações de inverno nos telejornais, as telenovelas dos canais privados e os concursos no canal público.

Mais sorte teve dona Alberti, a relatora do diário monologado no hotel Paraíso. Retirou o som ao rio de violências duma terra em guerra a escorrer do televisor a qualquer hora do dia. Desembaraçou-se do óculo que lhe falava do destino do mundo como um aterro sanitário. Enfiou a cabeça na areia como uma avestruz e livrou-se de vez daquele entulho no seu caminho. Solução radical mas eficiente.

21 de julho de 2022

História de livros malditos de amor, ódio e sonhos que vivem na sombra do vento

«Pues bien, esta es una historia de libros [...] De libros malditos, del hombre que los escribió, de un personaje que se escapó de las páginas de una novela para quemarla, de una traición y de una amistad perdida. Es una historia de amor, de odio y de los sueños que viven en la sombra del viento.»
Carlos Ruíz Zafón, La sombra del viento (2001: 21, 213)
  ... un montón de piedras que acaban en punta.   

Quando em fevereiro de 2020 ingressei no hospital para uma peque-na cirurgia de rotina, mal adivinhava o quanto as previsões otimistas muitas vezes se transformam em realidades de sinal diametralmente oposto. Os três dias de internamento previsto foram alargados a cerca de dois meses e meio.

Solicitei a companhia do Carlos Ruiz Zafón e de La sombra del viento, para preencher as horas que se adivinhavam longas. Rapidamente me apercebi que o peso físico do livro me impediam de o segurar devidamente. Pu-lo de lado e prometi retomar a sua leitura assim que as forças regressassem.

Fi-lo estas férias de verão. Muito lentamente para prolongar ao má-ximo a magia das palavras do fabuloso criador catalão de heróis da imaginação. O tal que há pouco mais de dois anos nos deixou para ir ao encontro dos seus iguais que o receberam de braços abertos no paraíso poético do Parnaso.

Apetecia-me resumir o livro que tanto me encantou a primeira vez que o li e todas as demais que o reli. Bastantes. Tantas que nem cabem nos dedos de uma mão. Mas depois ponho-me a repetir como um dos intervenientes da história a propósito de La casa roja, escrita por um imaginário Julian Cárax.

«Podría intentar contarte el argumento, pero sería como describir una catedral diciendo que es un montón de piedras que acaban en punta.»

18 de junho de 2021

Night & Day

    FEATHERS BLACK & WHITE    
« Dire que le pour-soi a à être ce qu'il est, dire qu'il est ce qu'il n'est pas en n'étant pas ce qu'il est, dire qu'en lui l'existence précède et conditionne l'essence ou inversement, selon la formule de Hegel, que pour lui "Wesen ist was gewesen ist", c'est dire une seule et même chose, à savoir que l'homme est libre. Du seul fait, en effet, que j’ai conscience des motifs qui sollicitent mon action, ces motifs sont déjà des objets transcendants pour ma conscience, ils sont dehors ; en vain chercherai-je à m’y raccrocher : j’y échappe par mon existence même. Je suis condamné à exister pour toujours par delà mon essence, par delà les mobiles et les motifs de mon acte : je suis condamné à être libre. Cela signifie qu'on ne saurait trouver à ma liberté d'autres limites qu'elle-même ou, si l'on préfère, que nous ne sommes pas libres de cesser d'être libres. »
Jean-Paul Sartre L’Être et le Néant, Paris: Gallimard, 1943

  ChiaroscuroSfumato Unione - Cangiante - Tenebrismo

Em fevereiro de 2020, dei entrada no CHUA com a esperança de poder sair dali a três dias, para resolver um pequeno problema de saúde. A coisa complicou-se e só tive alta ao fim de dois meses e meio de internamento. Pelo meio, ficaram quatro intervenções cirúrgicas, com passagens obrigatórias pelos cuidados intensivos e intermédios. O chiarescuro renascentista converteu-se logo num tenebrismo barroco indesejado.

Em março de 2021, regressei ao CHUA para concluir o processo iniciado no ano anterior. A quinta ida ao bloco operatório correu sem imprevistos e a recuperação há muito aguardada aconteceu sem incidentes inesperados. O longo período entretanto decorrido permitiu que o sfumato sombrio de permeio se transformasse pouco a pouco numa unione de cores vibrantes a fortalecer o cangiante canónico da arte pictórica quinhentista.

A declaração do estado de emergência e o confinamento provocado pelo novo coronavírus SARS-COV-2 apanharam-me no CHUAAgora que se anuncia a quarta vaga da pandemia, vou iniciar hoje a vacinação contra a COVID-19, que me devia ter sido ministrada há cerca de meio ano. Mais vale tarde do que nunca. Depois do claro se ter feito escuro é a altura ideal de o ser e o nada fazerem as pazes e da noite se fazer dia.

27 de maio de 2021

Historietas de hospital

Vincent van Gogh
Afdeling in het ziekenhuis in Arles (1989)

Lembrando cenas de enfermaria de um mês...

As unhas do Zé Coxo
Durante a minha última passagem pelo CHUA fui vizinho contíguo de enfermaria do Zé Coxo, antigo pescador da Fuzeta com um palmarés impressionante por outros mares atlânticos da costa de Marrocos e Mauritânia. O apodo deve-se ao facto dum problema de diabetes o ter privado duma perna. Desta feita, a maleita obrigara-o à amputação dos dedos do pé restante. Com um sorriso nos lábios e indiferente às dores que sentia, o espírito otimista que o caraterizava levou-o a comentar: «Agora, pelo menos, já não tenho de cortar as unhas dos pés».

O Filho do Desenfiado
Mesmo em frente do Zé Coxo, ficava a cama dum outro pescador mais jovem a que chamei Desenfiado, por passar o dia em lugar incerto e só regressar para dormir. Gabava-se de não ter estudado nem precisar de o fazer. O filho mais velho ganhava 7000€ por mês num clube da 2.ª divisão sem precisar de ir à escola. Na véspera de ser operado a um braço que tinha superenfeixado, desapareceu sem dizer água-vai. Preferiu brindar-nos com aquelas palavras futeboleiras registadas com as peculiares metáforas visuais das histórias aos quadradinhos: «👾❓➕❗💀🔱👿».

A Princesa das Astúrias
No meu mais recente internamento hospitalar, voltei a encontrar-me com figuras conhecidas há cerca dum ano. Médicos e enfermeiros à parte, refiro aqui a mais alegre das auxiliares de serviço. Trata todos por Príncipes e guardou para si mesma o título de Princesa das Astúrias. Numa das suas conversas habituais, confidenciou-me o seu desgosto profundo por não ter podido seguir a carreira militar. Um cancro na tiroide impedira-a de concretizar o seu sonho. Sente-se todavia realizada: «Assim, substituí a guerra que visa a morte pela guerra que visa a vida».

A Mulher Barbeira
Na segunda quinzena de abril fui de novo visitado por uma das barbeiras do hospital. Reconheceu-me de imediato, decerto por ser dos poucos a aceitarem os seus serviços de rapadoura oficial dos pelos da cara. Repetiu um par de vezes a arte de me arrancar a barba como se estivesse a cortar relva com uma sachola. Aguentei estoicamente como se nada fosse, porque no final da faina fiquei sempre com uma sensação plena de leveza. É que depois da tempestade vem a bonança. Despedi-me até nunca mais. Limitou-se a responder: «Assim espero!».

15 de maio de 2020

A vaca espanhola, a ópera-bufa e a carta digital

     Clavier en pierre dans une rue de Bruxelles     

TUTA - TORTO - TORTELLINI - TUNHO
Se eu fosse francês e alguém me ouvisse quando rondava os meus três anos de idade diria que je parlais comme une vache espagnole. Como sou português de gema, limitavam-se a considerar que era muito espanhol a falar. Pobre Espanha com tais vizinhos dum lado e doutro da fronteira a testar as suas capacidades linguísticas. Foi com esta capacidade poliglota que batizei o meu irmão de Bé-Tó, de tal maneira que ainda hoje toda a gente o conhece como tal. Da mesma particularidade gozava a minha filha mais nova e goza agora também o meu neto, que, a uma distância de três décadas, me passaram a chamar Pai Tuta e Vô Tunho. Nem mais nem menos. O Artur anda um pouco escondido no todo obtido, mas deixa-se revelar nas sílabas iniciais dos dois petits noms infantis que me foram atribuídos e eu carrego com todo o prazer do mundo.

Quando os alunos ainda tinham alguma imaginação, apelidavam os professores com um ou outro epíteto mais ou menos contundente. A mim coube-me o de Torto. Nunca me senti minimamente melindrado com essa forma irreverente de me identificarem. Vi-a sempre como sinónimo de exigência pedagógica de exercer a docência. Deu-me até para alimentar a brincadeira e italianizá-lo para Arturo Tortellini, como nome artístico numa troupe residente de opera buffa de final das aulas, para pôr em revista as ocorrências mais relevantes do ano. Lembro-me muito bem da Tereza sin Verguenza, da Concepción non La Callas, do Don Giovanni Carrapatini, do Jorge Carrerini ou da Noemini Parvallotti. Um elenco lírico-dramático de luxo com sucesso cénico redundante assegurado em cada atuação. Estou certo que se passarem os olhos por aqui se reconhecerão de imediato.

Voltei a ser tratado por Tuta e Tunho bem pouco tempo numa carta digital muito especial. O isolamento absoluto verificado nos cuidados intensivos onde então me encontrava foi quebrado virtualmente nos dois últimos dias que ali passei. Foi possível graças à criação do projeto Amor Entrelinhas, baseado no lema «Combater a doença sem esquecer as pessoas». Terei sido o primeiro utente a usufruir da iniciativa dos profissionais de saúde do Hospital de Faro. Na altura tive dificuldade em expressar em poucas palavras as sensações então sentidasTal como me sinto neste momento ao tentar remediar essa lacuna procurando as tais palavras de reconhecimento que teimam em fugir-me. Fico-me com a carga afetiva que cabe num diminutivo familiar proferido por uma criança quando se dirige carinhosamente ao pai ou ao avô. Abreviam palavras e ampliam sentimentos.

21 de abril de 2020

As janelas do meu quarto


AMADEO DE SOUZA-CARDOSO


As janelas do meu quarto de enfermaria dão para um espaço urbano despejado de gentes. Foram substituídas pela passarada que em bailados frenéticos aproveitam uma liberdade até há bem pouco desconhecida. Aberturas privilegiadas para um exterior interdito, permitem-me assistir ao nascer e ao pôr do sol, à alternância cíclica entre a iluminação artificial da noite e a natural do dia. Por uma delas, consegui acenar à distância de dois andares à minha mulher e filha. Momento único e inesquecível. Chamámos-lhe janela dos namorados.

Entre paredes dum hospital, recordo-me das janelas lá de casa, amplas e abertas para a vida. Entre o mar e a montanha, avistamos a praia de Faro e da Ria Formosa, o farol meridional da ilha da Culatra e vislumbramos alguns cerros da serra do Caldeirão. No centro deste cenário, reina o bairro piscatório de São Pedro, constituído por açoteias dispostas em anfiteatro. Olhamos pelo jardim suspenso da varanda. Morangos, framboesas, mirtilos, pitangas, cunquates, fisálias, ervas aromáticas e tomates cherry. Paraíso perfeito onde é bom viver e dá vontade de regressar.

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As janelas do meu quarto não são coloridas como as janelas coloridas pelo Amadeo de Souza-Cardoso nas Casitas Claras de 1915/16. Não foram pintadas para ser penduradas numa parede especialFazem parte da própria estrutura que as sustém. Levam em si todas as possibilidades que o branco lhes dá, que é o conjunto de todas as cores dum arco-íris. Estão abertas de par em par para a luz solar que brota dia a dia do exterior. Atentas à estação do ano em que se esteja a recebê-la. As minhas janelas são a emanação da própria vida a superar as subtilezas criadas  pela arte.

19 de abril de 2020

Brexit com ingleses à vista

  Vizinhos  de  enfermaria... 

Quando o momento chegou, o Reino Unido abandonou a União Europeia e acantonou-se nas ilhas do além-Mancha, que lhes servem de morada há tempos ancestrais. Batizaram esse êxodo de Brexit. Alguns residentes de longa data resistiriam à partida e resolveram ficar. Regra geral, vivem em comunidades fechadas como se tratasse de verdadeiras colónias do antigo e extinto Império Britânico.

Desde que aqui cheguei já me cruzei com três desses cidadãos. Só um falava português com um forte sotaque inglês percetível. Mantivemos um bom relacionamento enquanto fomos vizinhos de quarto. Outro apreendeu a dizer quatro palavras em 22 anos: Olá, obrigada, boa tarde. Um papagaio não faria melhor. O restante estava impedido de falar mas só reagia quando se lhe dirigiam em inglês.

Felizes criaturas estas que continuam a julgar-se os senhores do mundo, a quem todos devem uma vassalagem medieval. Culpa de quem lhes dá cobertura como se fosse um dever feudal obrigatório e inquestionável. Lamentável atitude anglófona de alguns dos seus membros. Instalarem-se anos a fio no estrangeiro, tomá-lo como seu e não falarem uma única palavra na língua do país que os recebeu.

15 de abril de 2020

Jogos ilusórios do real e do imaginário

Giuseppe Arcimboldo

Testa reversibili com canestro di fruta (1590)
French & Company NY
Anjos-da-Guarda & Fadas-Madrinhas
Os cuidados intensivos dum hospital são um mundo à parte. Há sempre alguém disponível para nos dar aquele conforto necessário quando os momentos de maior ansiedade chegam. Também conheci alguns. Num deles, mereci a visita duma enfermeira. Sentou-se ao meu lado e encetámos uma longa conversa. Incentivou-me a confiar no meu anjo-da-guarda protetor, sempre pronto a velar por mim quando dele necessitasse. Ao confessar-lhe a minha descrença  no transcendente e nas religiões, avançou haver sempre algo a que nos prendêssemos e nos desse ânimo para superar as dificuldades. Concordámos ser a família uma óbvia solução para mentes agnósticas.

Os jogos do real e do imaginário trouxeram-me à memória a primeira noite que ali passara. Aquele em que vi deslizar até mim com passos de sílfide sem asas a minha filha, preparada para me prestar os cuidados noturnos. Julguei ouvi-la tratar-me por paizão logo mudado para senhor com frases enigmáticas proferidas na terceira pessoa. Estranhei, mas deixei-me embalar pela presença apaziguadora. Dormi tranquilo a sonhar com a minha fada-madrinha, a quem o tubo do ventilador me impedira de falar. Posteriormente percebi que tudo não passara duma ilusão ótica associada à audição de algumas palavras que o subconsciente queria ouvir. Partidas dos sentidos com sentidos ambíguos.

Giuseppe Arcimboldo (1527-1593), o grande mestre do maneirismo italiano, é que era exímio na criação de imagens de percepção dupla, tal como representar uma cabeça reversível em cesto de frutas. A bata branca, o formato dos óculos, a cor do cabelo apanhado em rabo de  cavalo e a máscara cirúrgica ajudaram ao equívoco, semelhante aos efeitos pictóricos criados nas telas quinhentistas do criador milanês de cenários manipulados. Todos os rostos tapados são idênticos porque impessoais. Assim a jovem enfermeira desconhecida trouxe até mim a minha filha, tratando de mim como um verdadeiro anjo-da-guarda real sem qualquer vestígio duma ilusão imaginária.

11 de abril de 2020

Arthur, c'est moi !

Fogões, Pijamas & Livros...
Il y avait une pub à la télévision française qui affirmait de façon fort tranchée : Arthur c'est extra ! J'ai trouvé ça vachemente super. C'est-à-dire : formidable, magnifique, génial. Je dirais même plus, comme Dupond et Dupont, les détectives fictifs des Aventures de Tintin créés par Hergé : Arthur c'est extra ! En fait, ce n'était plus qu'une simple cuisinière Arthur Martin, très populaire dans l'Hexagone. Tant pis ! J'ai apprécié quand même le slogan.

Quando o Forum Algarve abriu portas, chamou-me a atenção uma loja chamada Arthur. Imitei a Loulou dos perfumes e disse para mim mesmo: Arthur, c'est moi ! Num internamento feito a contragosto no Hospital de Faro, levei comigo um pijama com o logótipo Arthur estampado um pouco por todo o lado. Alguém que não conhecia a marca perguntou-me se tinha sido mandado fazer por mim. Olhei-o surpreendido, sorri-lhe e não disse nada.   

I have never read a book by Mark Brown, nor Arthur's Nose (1976), nor any of those that followed it. I would like to meet Arthur Read on the original albums or on the translated tv serie version. I only know him very superficially and in passing. I just know that at the beginning of the stories, he had a very big nose. Then he started to hide his nose in the books and he got prescription glasses to read better. C'est pas mal ! Quer dizer: Not bad indeed!