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3 de fevereiro de 2026

À espera dum novo e desejado salvador

Espelhismos do Dom Sebastião de Cristóvão de Morais
«Felices los que eligen, los que aceptan ser elegidos, los hermosos héroes, los hermosos santos, los escapistas perfectos.»
Julio Cortazar, Rayuela (1963: 3)

Oitenta governantes, se as contas me não falham, à espera dum novo e desejado salvador. Mais um para juntar aos 22 condes, 38 reis e 20 presidentes, a tomar as rédeas do poder, por nascimento, nomeação, conquista, usurpação e eleição, em 1158 anos de devir histórico.

A escassos dias da votação final, o próximo inclino de Belém já está escolhido a apreciável distância do seu mais direto opositor. Dizem as sondagens diárias que às vezes até acertam, quando as contas lhes não trocam as voltas. Será o vigésimo primeiro da série republicana.

Saudoso duma monarquia idílica há muito extinta, andou perdido na campanha um pretendente à cadeira presidencial disfarçado de Dom Afonso Henriques, O Conquistador. Melhor fora tê-lo feito d'el-rei Dom Sebastião, O Encoberto, após o desastre de Alcácer-Quibir.

Para trás ficaram outros cavaleiros-messias, empenhados na cruzada patriótico-nacional de livrar o país dos mil-e-um perigos a que estaria votado sem a sua prestimosa ajuda. Abyssus abyssum invocat. Uma dúzia, nem mais nem menos, entre paladinos aceites e rejeitados.

E como na res publica o render da guarda se faz amiúde, dentro de cinco anos o circo mediático de vendedores da banha da cobra e da peculiar horda de comentadores de tudo e de nada voltará de novo à nossa companhia. É que, como se diz, the show must go on.

João Ribeiro, D. Afonso Henriques (2004)

4 de janeiro de 2026

Cíclicas

GLOBE TERRESTRE
Andreas Cellarius, Atlas cœlestis seu Harmonia Macrocosmica, 1708

Ano velho, ano novo e de meia idade...

Não há Ano Velho sem Ano Novo, nem ano de meia idade entre um e outro. Tudo começa no primeiro dia do ano e no segundo ninguém se lembra do que que disse na véspera, muito menos no terceiro e em todos aqueles que se lhe seguirem. Os dias, as semanas e os meses revezam-se uns aos outros sem pausas, iguais/diferentes a todos os demais que os precederam e sucederão. Ilusões de quem concentra num só ponto todos os pontos dum círculo, roda ou espiral cíclicos.

Este ano como nos já idos e por vir, o Carnaval será à terça, a Páscoa ao Domingo e o Natal em dezembro ou quando um homem quiser. Depois, não há dia de Ano Bom sem a difusão do concerto de Ano Novo executado pela Filarmónica de Viena de Áustria, nem a bênção papal urbi et orbi difundida da Basílica de São Pedro em Roma. Também se comerá uma fatia de bolo-rei/rainha no Dia de Reis, apesar de vivermos numa república há muito tempo assente.

Diz a sabedoria popular não haver sábado sem sol, nem domingo sem missa, nem segunda sem preguiça. Sem sol, se não houver nuvens e não chover; com missa, se houver fiéis e alguém para a celebrar; com/sem preguiça, se houver trabalho e a insónia não reinar. Nascem e morrem pessoas todos os dias do ano, seja ele novo, velho ou de meia idade. É que o sol quando nasce/põe é para todos em qualquer altura do ano. Comum, como o atual, que nem sequer é bissexto.

5 de outubro de 2025

Majestades fidelíssimas desconstruídas

Altezas reais & majestades fidelíssimas caídas

O cardeal Dom Henrique recusou o tratamento de Sua Majestade, quando imprevistamente subiu ao trono, por morte do sobrinho-neto em Alcácer-Quibir. A seu ver, o título era demasiado imponente para ser usado por um mero mortal. Manteve, assim, a designação de Sua Alteza Real no curto período de tempo em que pela Graça de Deus foi Rei de Portugal e dos Algarves (1578-1580).

Dom Sebastião foi o único membro da Casa de Avis a usufruir dessa honraria, que lhe foi outorgada por Filipe II de Castela. Fê-lo na entrevista de Guadalupe (1577), dado o sobrinho ter acalentado o desejo de juntar aos reinos, senhorios e domínios lusitanos a conquista de África. O resultado dessa aventura está bem à vista, com a perda da vida na Batalha dos Três Reis (1578).

Os Braganças seguiram o exemplo dos Áustrias e mantiveram a titularia, estilos e honras como fórmulas de endereçamento real já usuais por todo o lado. Não descansaram, porém, até terem um estatuto similar à Sa Majesté Très Chrétienne gaulesa e Su Majestad Católica hispânicaDom João V conseguiu-o finalmente da Santa Sé, ao obter o epíteto de Sua Majestade Fidelíssima (1748).

A grandiosidade, imponência e excelência majestática e fidelíssima há muito ruíram sem deixar saudade ou rasto visível.. Cavaram à sua volta uma realeza destituída, exilada, caída. Os ventos republicanos varreram-na de vez do nosso horizonte de eventos. A ostentação parasitária monárquica persiste na memória anquilosada de alguns à espera duma bastilha redentora que há muito tarda.

17 de maio de 2025

Habladuras quevedescas

Francisco de Quevedo. Medallón en la Plaza de España de Sevilla

Nadie ofrece tanto como el que no va a cumplir...

Procurei a origem da frase/sentença de Don Francisco de Quevedo y Villegas, mas não a encontrei na Poesia Completa, no Buscón ou nos Sueños. Terá sido registada num outro escrito menos conhecido ou formulado por outras palavras. É bem provável que assim seja ou que a minha pesquisa não tenha sido suficientemente eficaz para a achar.

Tendo em atenção o espírito satírico particularmente apurado d' El Juvenal Español, não ponho grandes reservas à sua autenticidade. Depois, como os ensinamentos que os dias de hoje nos vão dando, considero a pertinência do dito/anexim perfeitamente atual. Pena que assim seja, mas, como sói dizer-se em bom português, contra factos não há argumentos.

10 de outubro de 2024

Flagelos mediáticos secos e molhados

Ramón Castellano de Torres, Cataclismo (2007)

As secas estivais severas começaram a ceder, as primas borrascas outonais chegaram de mansinho. Os incêndios vão e as inundações estão a caminho. Entre rescaldos de flagelos pretéritos e presságios de desgraças vindouras, folgam as costas. Entre o fogo enraivecido e as chuvadas torrenciais, os mass media fazem tréguas passageiras que intercalam com os habituais conflitos, epidemias e cataclismos mil. A guerra das audiências não tem sossego e não de reality shows e telenovelas a toda a hora vive a gente. que puxar um pouco ao sentimento e à lagrimazinha no canto do olho.

As imagens seguintes poderão ferir a suscetibilidade das pessoas mais sensíveis, dizem os pivots de serviço com ar compungido, feito à medida, mas nem por isso desistem de transmiti-las em grandes, pequenos e médios planos. E nem merece a pena mudar de canal, que nos vizinhos o panorama é idêntico. O poder das imagens em movimento é muito forte. As televisões aproveitam-se dessa regalia sobre as rádios e jornais, incapazes de reproduzir com eficácia garantida o deflagrar das chamas de fogo e do desabar diluviano das bátegas de água vistos segundo a segundo no pequeno ecrã.

A caixinha mágica que mudou o mundo nem sempre o tem mostrado na sua melhor faceta. Rendeu-se ao efeito mórbido do catastrofismo, Ampliou o lado negro da vida e aligeirou as restantes tonalidades do espetro cromático criado. A atração sádica das televisões por cenários apocalípticos suscita um clima depressivo nos telespetadores, que parece gozarem dum prazer masoquista com os canais noticiosos especialistas na difusão reiterada das grandes hecatombes naturais e provocadas. Como sói dizer-se, são insondáveis os caminhos que levam à liderança, ou seja, albarde-se o burro à vontade o dono.

24 de julho de 2024

Castelos semeados em fundo vermelho

Tabardo e colar de Rei de Armas séc. xviii

Cumpriu-se no passado 27 de março o 775.º aniversário da conquista de Faro, a Santa Maria al-Harum dos mouros berberes do Califado dos Almóadas. Até ao final desse ano, seguir-se-ia a tomada de posse de Loulé, Aljezur, Porches e Albufeira, pequenos enclaves resistentes do Reino do Algarve. Diz-se por aí, à boca cheia e grande convicção triunfalista, pertencerem algumas destas praças ao elenco das representadas nos castelos do brasão de armas real e atual bandeira nacional. A escolha final da lista é difícil de fixar, porque qualquer que ela seja estará sempre a falsear a verdade. A História tem outras histórias bem diferentes para contar.

Rezam os anais que até nós chegaram ter o filho segundo de D. Afonso II inserido um número variável de flores-de-lis e castelos no seu brasão pessoal, por estar casado com Matilde de Bolonha e ser filho de Beatriz de Castela. A adoção deste distintivo heráldico (1238) significa que, muito antes da sua ascensão ao trono português (1248) e da posse efetiva do Algarve (1249), D. Afonso III já usava como insígnia distintiva própria de poder senhorial uma semeadura variável de castelos amarelos numa bordadura vermelha, depois agregada ao brasão real, como quebra ritual de escudos e diferença de armas, decorrente da deposição papal do irmão D. Sancho II.

Armas de D. Afonso III
Conde de Bolonha & Rei de Portugal e Algarve
 

Ao que se sabe, as antigas taifas de Silves, Tavira e Santa Maria nunca dispuseram de nenhum brasão próprio, enquanto entidades autónomas/unificadas do Gharb al-Andaluz do Califado de Córdoba e do Império Almorávida ou da Coroa do Portugal. Os castelos e cabeças de reis muçulmanos e cristãos que aparecem nos antigos armoriais nacionais mais não são do que meras fantasias por vezes seguidas como fidedignas nos nossos dias. Tradições que regra geral se esquecem da rutura causada pela troca de cetros d'O Capelo pel'O Bolonhês ou da natureza tão-somente nominal do designado Reino do Algarve/Algarves d'Aquém e d'Além Mar em África.

NOTA
Neste mesmo 24 de julho, mas de 1245, em que o Conde Bolonha assumiu o título de Dom Afonso de Portugal, Visitador, Curador e Defensor do Reino.

17 de maio de 2024

O status mata-frio do capote alentejano

capote alentejano castanho

Não, não é o capote que tive, usei e perdi nos anos 70, mas não desdenharia que fosse meu. Esta foto saquei-a na Net. Aquele que em tempos vesti novinho em folha foi-se de vez há uma eternidade. Gasto, coçado, puído.

Lembro-me com frequência daquele capote alentejano trazido por mão amiga diretamente de Elvas. Ter-me-á custado a módica quantia de 65$00, uns meros 0,32€ impensáveis nos dias que agora correm a grande velocidade.

Durante dois/três anos letivos, serviu-me de traje académico, numa altura em que a capa e batina estavam tacitamente vedadas em Lisboa. Adaptei-o consoante a necessidade do momento a cobertor, toalha e almofada.

Desisti de adotar um de novo igual ao de então. Nunca vi nenhum aqui por estas bandas meridionais. Pesados, quentes, incómodos. Os modelos das vestimentas atuais seguem outros padrões. Europeus, mundiais, globais.

O status mata-frio do capote afirma que a chuva forte molha o capote e quem anda de capote no verão ou é pobre ou ladrão, i.e, se quem tem capa sempre escapa, então com gabão escapa ou não e com capote escapa a galope.

10 de abril de 2024

Os pomos de ouro ou da discórdia

Lord Leighton, The Garden of the Hesperides (1892)

HELÉNICAS, LATINAS & LUSITANAS
maçãs laranjas tomates marmelos melões

Dizem os mitos dum tempo sem tempo, que os tempos com tempo transformaram em lendas, haver nas margens do rio Oceano, onde o Sol se põe, um horto pejado de pomos de ouro plantadas por Hera no Jardim das Hespérides, a morada das ninfas defendida por um dragão com corpo de serpente munido duma centena de cabeças vigilantes. Apesar da agrura da tarefa, Héracles logrou eliminar o feroz monstro guardião e apoderar-se do cobiçado fruto.  

Dizem as lendas antigas, que os ditos recentes reduziram a histórias dum diz que diz sem fim à vista, referirem-se esses pomos dourados a lídimas MAÇÃS de ouro de poderes divinos prodigiosos. Associá-los, v.g., a Éris, à deusa grega da Discórdia. Esta, despeitada por não ter sido convidada para o casamento de Peleu e Tétis, encarregou Páris de entregar um desses frutos à mais bela das deusas, ponto de partida para a sangrenta Guerra de Troia.

Dizem as histórias atuais, com que o imaginário coletivo transfigurou os mitos e lendas ancestrais sobreviventes à voragem do tempo, serem as LARANJAS dadas como as maçãs douradas existentes nesse paraíso perdido à beira-mar plantado. O grego moderno até aponta para o nosso país, ao designar o citrino por πορτοκάλι [portokáli], imitado por uma diversidade doutros idiomas, pese embora o facto do cultivo ser relativamente recente entre nós.

Dizem por que o contramito da laranja mítica lusitana esbarra com a hipótese rival italiana de converter as maçãs douradas helénicas em TOMATES (pomodoros). Pomo da Discórdia nascido na antiguidade clássica, que se designa em latim uma «maçã doce» por melimellu, derivado grego de μελίμηλον [melimelon], para nomear o MARMELO, identificado à data com os seios divinos de Vénus/Afrodite, a deusa escolhida por Páris como a mais bela do Olimpo.

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Mitos e contramitos à parte, as histórias da História dizem-nos que urge achar os tais pomos de ouro sem discórdias à mistura. Maçãs, laranjas, tomates, marmelos. Tanto faz. Dadores do metal sonante amoedado com que se compram os MELÕES, amarelos por dentro e multicores por fora. Suculentos, saborosos, nutritivos. A provarem por a+b que nem tudo o que luz é ouro é como maçãs de ouro em salvas de prata enchem o olho e pouco mais.

15 de novembro de 2021

Arturo, o guardião das ursas boreais

SIDNEY HALL
Urania's Mirror - Bootes, Canes Venatici, Coma Berenices, and Quadrans Muralis (1824)

Dizem que quando o Big Bang nasceu do tudo-nada, o universo inteiro cabia num único ponto, num átomo primordial, menor do que uma bola de bilhar, de ténis ou de ping-pong. Conjeturas teóricas para tentar explicar o início da grande expansão ocorrida há cerca de 13,8 mil milhões de anos, i.e., de quando o vazio se encheu de tudo aquilo que existe.

Dizem que há mais estrelas no céu do que grãos de areia na terra e haver mais partículas atómicas numa só molécula do que galáxias no universo visível. Dizem-se também coisas espantosas sobre o número total de neurónios no cérebro humano. Cifras tão desmedidas que a nossa mente finita de simples mortais tem dificuldade em contar ou assimilar.

Dizem as vozes que alimentam o senso comum ser mais fácil achar as estrelas duma constelação do que as restantes que a nossa vista alcança. São em número reduzido e constituem grupos perfeitamente localizáveis na imensidade luminosa da esfera sideral e costumam ter nomes próprios que escapam à simples listagem numerada das tabelas astrais.

Dizem os mitos, repetem as lendas e refazem as histórias contadas pela nossa imaginação criativa haver alguns corpos celestiais mais famosos do que outros. Dizem terem sido postos no firmamento por vontade das sucessivas gerações de deuses, titãs e numes cósmicos, como resultado das suas lutas sem tréguas pelo domínio das forças telúricas da natureza.

Dizem as teogonias helénico-romanas ser Arcturo, Arcturus ou Arturo (gr. Arctorus,  «guardião do urso») o Pastor que ajuda com os seus dois cães a Ursa Maior e a Menor a circundar o polo boreal. É bom pensar que à falta dum santo de primeira grandeza a assinalar o meu nome, fico com a estrela mais brilhante da constelação do Boieiro a fazê-lo. Uau!

8 de março de 2021

As três rainhas

DAMAS DE AZUL

Τοιχογραφία με γυναίκες στο Ανάκτορο της Κνωσού
[Fresco do palácio de Knossos - Creta - Grécia (1700-1300 AEC)]

Princesas, Infantas, Rainhas & Cortesãs...

Diz-se que a nobreza tinha o sangue azul porque não necessitava de se expor diariamente aos raios ultravioletas do Sol. Sobretudo as titulares de mais alto estatuto, que abrangia as princesas, infantas e rainhas nascidas em berço de ouro e lençóis de cetim, mas também as cortesãs deitadas nos leitos reais despidas das sedas e pedrarias que antes as cobriam. A pele dum branco imaculado dava a sensação das veias cerúleas serem percorridas por um líquido vital diferente do vermelho vivo da restante plebe. Tudo isto nos tempos áureos em que os banhos de mar e a obtenção dum bronzeado perfeito não estavam ainda na moda como acontece nos dias de hoje e o moreno efémero de verão é cobiçado por todos, pelos filhos de algo ou de quem quer que seja.

As cabeças coroadas ou a elas associadas também não terão fugido a esta regra nos 770 anos que a Monarquia Lusitana geriu os destinos dum Reino agora convertido em boa hora numa República. Entre 1140 e 1910, anos em que Dom Afonso Henriques se autointitula Rei dos Portugueses e Dom Manuel II foi destronado, sentaram-se junto do soberano 36 soberanas, se as contas me não falham, 33 rainhas estrangeiras provenientes duma dúzia de cortes europeias de aquém e além-Pirenéus, sobrando três únicas rainhas consorte nadas e criadas em território nacional, escassíssimo número para tão extensa lista de alianças matrimoniais de estado, que geraram tantos príncipes, infantes e reis, quase todos eles portugueses a meio gás.

Dona Leonor Teles de Menezes (c.1350-1386), a quem Fernão Lopes apelidou de Aleivosa na Crónica de El-Rei D. Fernando e na primeira parte da Crónica de El-Rei D. João I de Boa Memória, pelo seu comportamento leviano medido à luz dos padrões vigentes na época. Por motivos de ordem estritamente política, separou-se do primeiro marido de quem tinha um filho, para se matrimoniar em segredo com Dom Fernando. Quando enviuvou, foi governadora e regente do reino, em nome da filha menor, Dona Beatriz, casada com o rei Dom João I de Castela, e assumiu a sua ligação com o Conde Andeiro. Odiada por tudo e por todos, foi uma das principais causadoras da crise de 1383-85, que substituiria a dinastia de Borgonha pela de Avis.

Dona Isabel de Coimbra (1432-1455) é a menos conhecida das três rainhas mas simultaneamente aquela que mereceria ser designada de Desejada, pela paixão que despertou no consorte, o rei Dom Afonso V, seu primo direito, por serem ambos netos de Dom João I, o Mestre, de Avis e de Dona Filipa de Lencastre. Eram também filhos da Ínclita Geração, ele do rei Dom Duarte, o Eloquente, ela de Dom Pedro, o infante das Sete Partidas. A guerra fratricida instigada pelo duque de Bragança, levaria à morte do pai na batalha de Alfarrobeira, travada contra as forças reais. A sua fidelidade e amor ao marido permitiu-lhe reabilitar o bom nome do progenitor e a trasladação do seu corpo para o Mosteiro da Batalha, onde jaz na capela do fundador.

Dona Leonor de Lencastre (1458-1525), a Rainha Velha dos autos de Gil Vicente, mecenas e humanista, promotora do manuelino, fundadora da Misericórdia de Lisboa e do Hospital Termal das Caldas da Rainha, continua a ser a mais conhecida das três, merecendo o epíteto de Princesa Perfeitíssima. Prima e nora da anterior, a infanta casou-se com o futuro rei Dom João II, primo e neto como ela de Dom Duarte. A execução do irmão e do cunhado por motivos políticos, bem como a morte trágica do filho amarguraram-lhe o resto da vida, dificultando a relação com o marido. Dizem as más-línguas que o terá mandado envenenar. O Renascimento no seu melhor, a lembrar-nos por A+B que não há bela sem senão ou que no melhor pano cai a nódoa.

OLHARES DAS TRÊS RAINHAS 
 A Aleivosa (Em frente) – A Desejada (Para baixo) –A Perfeitíssima (para cima)