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30 de julho de 2026

Naguib Mahfouz e a viela, beco ou ruela cairota dos milagres

"من الضروري أن يوجد في حياة الإنسان شيء تنعقد حوله آماله، شيء يقرر لحياته قيمة ولو وهمية أو سخيفة."
ننجيب محفوظزقاق المدق، ١٩٤٧

São incomensuráveis os caminhos que nos conduzem à presença dum livro. O mais espectável será entrar numa livraria e adquirir um ou encomendá-lo on-line sem sair de casa. Outras vezes tropeça-se por acaso com um na rua ou recebe-se um outro como presente dum amigo sem fazer anos ou coisa que o valha. Podia ampliar a lista, mas ficaria sempre uma travessa, vereda ou atalho mais ou menos surpreendente de acervos bibliográficos por revelar. Recebi há dias um exemplar já marcado pela patine dos anos contados em quase quatro décadas. Fazia parte da coleção particular dum amigo hispano de longa data que me quis fazer depositário duma história de histórias entrecruzadas que havia lido avidamente in illo tempore. Trouxe-o comigo como companheiro de percurso e o percorri com olhos de ver de fio a pavio. Foi criado pelo único autor árabe laureado com o Nobel da Literatura, Naguib Mahfouz, intitulado pela Alcor El callejón de los milagros e pela Caminho A viela de Midaq (1947), uma solução menos sugestiva mas mais próxima do original.

O relato abre com uma descrição minuciosa do palco onde a ação dramática irá decorrer e dos atores que lhe darão vida, ao longo de trinta e cinco capítulos, distribuídos por três centenas de páginas. Tudo se passa na tradicional ruela, beco ou impasse sem saída do bairro histórico de Gamaliyya, situado no centro islâmico da cidade do Cairo dos anos quarenta, a tal viela de Midaq ou dos milagres que empresta o nome ao romance. Através dos esboços minuciosamente traçados da malha urbana e dos seus residentes locais ou visitantes eventuais, adentramo-nos passo a passo do misterioso microcosmos formado pela sociedade egípcia dos tempos da guerra, tão estranho a um olhar ocidental comum, pouco afeito ao ambiente algo exótico da maior metrópole mediterrânica do mundo árabe e do continente africano, herdeiro de impérios faraónicos desfeitos e, porventura, doutros ainda por fazer ou por cumprir.

O recitador público de versos corânicos e o filho tocador de violino entram e saem rapidamente de cena, expulsos pelo proprietário do café de Kirsha, onde os demais intervenientes efabulados na epopeia coletiva de heróis obscuros se vão revezando ao longo dos dias, dos meses e dos anos. O protagonismo da crónica recai no próprio burgo, nos diversos espaços públicos e privados do aglomerado de casas erguidas nos dois lados do arruamento e habitados quotidianamente pelos vizinhos que lhe dão vida. O vendedor de caramelos, a padeira que espanca o marido, o feitor de falsos aleijados e lídimos mendigos, a alcoviteira pícara e casamenteira oficial, o dentista improvisado e roubador de dentes aos cadáveres, o barbeiro ingénuo apaixonado pela beldade local, o comerciante bem-sucedido dono dum bazar, o antigo funcionário e professor de inglês, senhorios e inquilinos, fumadores de haxixe e bebedores de chá, novos e velhos, ricos e pobres, conservadores enraizados e renovadores embrionários.

Quando ao abrir a narrativa os cantos do poeta levantino são trocados pelas vozes sem rosto dum aparelho de rádio, o seu obreiro estava a anunciar a chegada dos novos tempos àquele espaço pacato perdido no coração duma imensa pólis fervilhante feita de muitas gentes a sul do delta, nas margens e ilhas do Nilo. O conflito travado entre o apego à práxis ancestral e a atração pela modernidade vai-se instalando em grande crescendo na teia efabulativa retratada. O espaço fechado da Zuqaq al-Midaqq cairota abre-se para o mundo exterior, numa ânsia desmedida de substituir a pobreza secular reinante por uma riqueza material fácil de obter. O impacto da presença militar britânica terá ajudado os mais jovens a vencer a raia invisível entre as rotinas, desditas e reveses pretéritos e a visionar as novidades, alegrias e anseios futuros, mas o final anunciado desse conflito bélico global terá levado a reformular as estratégias de base até então seguidas e a efetivar daí para a frente. As entidades enunciadoras não o chegam a fazer, o que não impede os destinatários potenciais a presenciá-las.

EPÍGRAFE
É essencial que haja algo na vida de uma pessoa em torno do qual suas esperanças estejam depositadas, algo que dê valor à sua vida, mesmo que seja ilusório ou ridículo.
Naguib Mahfouz, A Viela de Midaq (1947)

13 de julho de 2026

Isabel Allende e as crónicas épicas de Inés Suárez del alma mía

«Soy Inés Suárez, vecina de la leal ciudad de Santiago de la Nueva Extremadura, en el Reino de Chile, en el año 1580 de Nuestro Señor. De la fecha exacta de mi nacimiento no estoy segura, pero, según mi madre, nací después de la hambruna y la tremenda pestilencia que asoló a España cuando murió Felipe el Hermoso. No creo que la muerte del rey provocara la peste, como decía la gente al ver pasar el cortejo fúnebre, que dejó flotando en el aire, durante días, un olor a almendras amargas, pero nunca se sabe. La reina Juana, aún joven y bella, recorrió Castilla durante más de dos años llevando de un lado a otro el catafalco, que abría de vez cuando para besar los labios de su marido, con la esperanza que resucitara. A pesar de los ungüentos del embalsamador, el Hermoso hedía. Cuando yo vine al mundo, ya la infortunada reina, loca de atar, estaba recluida en el palacio de Tordesillas con el cadáver de su consorte; eso significa que tengo por lo menos setenta inviernos entre pecho y espalda y que antes de la Navidad he de morir. Podría decir que una gitana a orillas del río Jerte adivinó la fecha de mi muerte, pero sería una de esas falsedades que suelen plasmarse en los libros y que por estar impresas parecen ciertas. La gitana sólo me auguró una larga vida, lo que siempre dicen por una moneda.»

Entrar numa livraria. folhear um livro à escolha entre muitos outros, num convite aos sentidos de tateá-lo página a página, cheirá-lo glifo a glifo, olhá-lo palavra a palavra, escutá-lo frase a frase, saboreá-lo linha a linha, de fio a pavio, da capa à contracapa, sem limites e sem pressas, torna-se num prazer sinestésico vedado às vendas online, que não conseguiram ainda eliminar por completo dos seus leitores potenciais. O encerramento gradual dos locais de oferta direta ao público tem limitado o contacto físico com os textos impressos acabados de lançar. As novidades são escamoteadas restando nos expositores as obras mais vocacionadas para chamar a atenção dos clientes. O recurso aos bestsellers costuma ser o chamariz mais utilizado. Um dia destes andei à procura dum título sugestivo em espanhol e só encontrei uma edição de bolso dum original de Isabel Allende, a sugerir-me uma tal Inés del alma mía (2006). À falta doutras alternativas, peguei nele e trouxe-o para casa.

As informações paratextuais contidas no exemplar trazido comigo debaixo do braço disseram-me, ato contínuo, tratar-se dum romance de base histórica, centrado na figura de Inés Suárez (1507-1580), uma espanhola original de Plasencia, que participou na conquista do Chile e na fundação de Santiago. Parte da tessitura narrativa já fica traçada, ficando a faltar o trajeto vital da protagonista, situado entre o nascimento e o óbito, lacuna suprida num ajuste assumido entre a realidade acontecida e a imaginada pela novelista bem conhecida no mundo globalizado das letras. Entre as hipóteses dispostas pelas percetivas poéticas, escolhe o modo autobiográfico, com todas as limitações inerentes, com um destaque especial para a referência verosímil à chegada da morte, sem a poder relatar de viva voz. A entidade enunciativa externa concede à interna a possibilidade de expressar a sua convicção de estar a chegar ao final da vida sem poder ir muito além na sua liberdade efabulativa.

Aos 70 anos, a relatora sente o fim aproximar-se e põe mãos à obra antes que as forças lhe faleçam e regista por escrito o seu percurso aventuroso por dois continentes, repartidos por seis etapas datadas e subintituladas. Entre 1500 e 1553, não deixa de fora as memórias salvas da voragem do tempo: Europa e América, Chile e Santiago, tragédias e guerras. Não omite os casamentos com Juan de Málaga e Rodrigo de Quiroga, a mediar a ligação com Pedro de Valdivia, o tomador e arquiteto dum extenso reino hispânico no Novo Mundo. As lutas tidas entre ocupantes e ocupados atravessam o testemunho das fabulistas, a subjetividade natural da narradora e a objetividade desejada da autora. Para todos os efeitos, quer queiramos ou não, a leitura à distância de meio milénio não pode enveredar pela análise anacrónica dos factos. Juízos de valor de épocas distintas terão de atender aos contextos diversos em que foram produzidos. A crueldade dos conquistadores quinhentistas à luz dos padrões atuais não podem ser encarados como uma realidade singular. Tal a norma que torna impossível refazer a História dentro ou fora dos manuais escolares ou nas recriações romanescas.  

Transpostos os dados autobiográficos, ficamos com uma larga série de feitos históricos ligados à expansão imperial castelhana contra astecas, maias, incas e mapuches, em busca dum El Dorado mítico nunca encontrado. Como se diz, não merece a pena chorar sobre o leite derramado. Por muito que se lamente a perda, não há forma de o recuperar. Os danos causados aos povos invadidos e submetidos ficarão para sempre arrolados de forma indelével nos anais que os retratam. O testemunho atribuído à jovem costureira estremenha e cronista da epopeia chilena converte-a de protagonista de sucessos vividos em deuteragonista de episódios observados ou escutados de terceiros. Desta oscilação efabulativa nasce no leitor a vontade de ler outros textos ilustrativos de eventos pretéritos atualizados pela obreira da ficção, numa árdua pesquisa de vários anos listados nas notas bibliográficas reveladas. A prova provada de como a cultura literária poderá conjugar de modo pleno o duplo objetivo do proveito e deleite. Saibamos nós aproveitá-lo.

29 de maio de 2026

Mário de Carvalho, passeio dum deus pela brisa da tarde no jardim duma cidade lusitana que nunca existiu...

«Inquietou-me, é verdade, o pequeno escravo que desenhava um peixe, na areia, outro dia. Hoje sinto-me tranquilo, de novo. Afinal, o rapaz não sabia que sinal era aquele. Nunca ouviu, nem ouvirá, decerto, mencionar o deus que passeava no jardim, pela brisa da tarde.»
Mário de Carvalho, Um deus passeando pela brisa da tarde (1994)

Nunca perfilhei a ideia peregrina que a leitura obrigatória dum livro promovesse a sua leitura. É que a consagração duma obra depende da faculdade de a escolher de livre vontade. Depois, o fruto proibido é sempre o mais apetecido. Dizem. Lembro-me de no meu tempo de estudante andar numa lufa-lufa à cata dos livros interditados, difíceis de achar e lidos de furtiva, não fosse o diabo tecê-las. Parece que o plano nacional de leitura para o ensino básico e secundário se prepara para retirar alguns e incluir outros. Felizmente que não participo nessas guerrilhas pedagógicas há um ror de anos e não sinto a menor nostalgia dessas lutas sem tréguas. Afinal, sou há muito um leitor fiel tanto do único Nobel da literatura portuguesa como daquele que por certo nunca o será, quanto nem sequer o Camões o visitou ainda. Resolvi pegar agora num dos mais singulares romances históricos compostos no nossos idioma, fruto da pena de Mário de Carvalho, com o título desde logo sugestivo de Um deus passeando pela brisa da tarde (1994). Assim o achei à data da primeira visita, assim o acho nos dias de hoje à distância de três décadas e picos.

É verdade que para o autor externo, a autobiografia do duúnviro Lúcio Valério Quíncio escapa à categoria genérica de romance histórico. Declara-o no aviso que precede a parte ficcionada da obra, esteado no facto de nem a urbe de Tarcis nem o município de Fortunata Ara Iulia Tarcisis terem existido. Escusado será dizer que nenhum dos atores centrais da efabulação escapa ao universo da imaginação, muito embora se refiram a entidades reais registadas nos anais oficiais até nós chegados. Tudo se passa na província da Lusitânia, no tempo dos imperadores Marco Aurélio Antonino (161-180) e Lúcio Aurélio Cómodo (180-192), centrando-se o testemunho pessoal do protagonista nos eventos havidos nessa segunda metade do Século II EC, aqueles que tiveram uma maior visibilidade no espaço cénico relatado, a invasão do território por si governado por uma horda de bárbaros mouros da Tingitânia e os conflitos provocados pela nova seita religiosa cristã designada de congregação do peixe.

A definição dum relato baseado em factos ocorridos num passado mais ou menos distante não assenta na sua precisão milimétrica nem na sua acumulação exaustiva, basta-lhe recriar a atmosfera efetiva em que tiveram lugar. Neste caso concreto, a tensão exercida pelas tradições nómadas africanas e práticas religiosas orientais sobre a romanitas, i.e., o conjunto de conceitos políticos, culturais e sociais definidor da identidade romana, premonitor também da sua derrocada iminente e irreversível. Essa queda, anunciada nas entrelinhas dum saber coletivo ancestral, levou ainda alguns anos a chegar, cerca de três séculos, para ser mais exato. A vitória do deus passeando pela brisa da tarde, referida no Génesis (3,8), com direito a título de livro, a uma epígrafe* e várias paráfrases, dar-se-ia, porém, um pouco antes. O Édito de Milão, promulgado por Constantino em 313, acabaria de vez com a perseguição aos cristãos, tornando o credo por si seguido totalmente legal em todo o espaço imperial, cuja neutralidade em matéria espiritual ficava também assegurada.

O testemunho pessoal da magistrado máximo da cidade lê-se duma assentada, oferecendo sempre novas motivações convidativas duma leitura ininterrupta. Se o livro for mesmo adotado como obra opcional no básico e secundário, os seus utentes, docentes e discentes, terão muita matéria por onde pegar. A cultura literária nele contido remeterá para muitas áreas adicionais à ficção pura, associando à perfeição o tão almejado objetivo pedagógico do proveito e deleite. A ironia algo burlesca com que o autor reveste as palavras proferidas pelo narrador serão um dos elementos da mestria presentes não só neste texto, mas em todos aqueles que o precederam/sucederam. Essa a verve mais representativa do seu obreiro, aquela que me prendeu à sua escrita desde a sua descoberta até ao presente momento. Por vezes essa fusão de idiopatias acontece.

ἰχθύς - peixe

ησοῦς Χριστός, Θεοῦ ͑Υιός, Σωτήρ
[Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador]
EPÍGRAFE
«...Aperceberam-se de que o Senhor Deus percorria o jardim pela frescura do entardecer...»
(Génesis, 3, 8)

23 de maio de 2026

João Ramires: contos, amores e viagens do tio Sebastião e do sobrinho Gonçalo

A CAIXA DE CARTÃO
No dia dos meus anos, estávamos então em 1975, o meu Avô chamou-me a sua casa e recebeu-me na sala, o que significava que o assunto era sério; pegou numa mala que colocou numa mesa à sua frente e, com um ar solene, disse-me:
— Gonçalo, fazes hoje quinze anos. O teu tio Sebastião, que há dois tristes meses nos deixou, pediu-me, quando adoeceu, para te entregar esta mala onde irás encontrar uma parte da sua vida; nunca a abri, pois o que lá se encontra apenas diz respeito a ti e ao teu tio; vê tudo com muita atenção porque alguma razão de peso terá havido para que, de entre todos os parentes, fosses tu o escolhido; o teu tio não tomava as suas decisões de ânimo leve; tudo o que estiver aqui dentro, terá sido importante na sua vida e certamente também virá a ser para o teu futuro.
João Ramires, A saga de Sebastião Ramires Reis e seu sobrinho Gonçalo (2023)

A arte de dizer não é muito mais difícil de praticar do que a contrária de dizer sim. Desde que in illo tempore me afastei das lides académicas que me debato, sem grande sucesso, com o propósito firme de a levar a bom termo. Um dia destes ainda o concretizo. Duvido. É que aos amigos, um pedido feito é um pedido satisfeito. Edição de texto, notas de leitura, apresentação de livro. Assim me foi solicitado pelo João Ramires, a propósito d'A saga de Sebastião Ramires Reis e seu sobrinho Gonçalo (2023), uma trilogia de contos, amores e viagens entrecruzados em forma de romance. 

A etapa inaugural da série convida-nos a fazer Uma viagem no «Oriente Expresso», primeiro na companhia do tio Sebastião e a segunda na do seu sobrinho Gonçalo, efetuadas respetivamente em 1974 e 1997. Nessa dupla ligação de Paris e Istambul, separada por um hiato temporal de pouco menos dum quarto de século, os dois protagonistas terão ocasião de reviver, cada um à sua maneira, o ambiente exótico recriado por Sidney Lumet no Crime no Expresso do Oriente, numa adaptação à linguagem cinematográfica dum dos mais emblemáticos romances policiais traçados por Agatha Christie. O entrelaçar de histórias vividas/imaginadas por ambos remete-nos a cada passo para o universo do insólito, a roçar as fronteiras do estranho, do fantástico ou do maravilhoso narrativos. Os viajantes pelas suas páginas que decidam qual o caminho a seguir.

A jornada intermédia da saga leva os seus intervenientes centrais até à Índia, em busca d'O dente de Buda, o tio em 1954 e o sobrinho em 1994. Chegam à velha cidade de Goa, a colonial portuguesa e a já integrada na União Indiana, e adentram-se depois no vasto país para aclarar a intrincada teia de segredos, conspirações e intrigas que envolvem a valiosa relíquia budista. A atmosfera sentida pelos Ramires Reis toca de muito perto a tensão constante e trepidante dos thrillers clássicos, bem como a resolução dum conjunto de enigmas, mistérios e sectarismos políticos e religiosos com mais de 400 anos de existência. Os ecos históricos do domínio luso na antiga «Pérola do Oriente», no tempo do Vice-rei. Dom Constantino de Bragança, à sombra persecutória da Santa Inquisição, reverberam ao longo da investigação, cujos resultados são revelados no interior do livro.

O derradeiro lanço da trilogia trata agora do dúplice trajeto dos dois globetrotters tenazes até Macau, com acesso a outros locais exóticos do Império do Meio, tais como o Tibete e os Himalaias. Fazem-no à vez em 1964 e 1998, com o fino propósito de descobrir o paradeiro d'A Clepsidra de Su Sun, descrita e desenhada pelo jesuíta Ruggero Rizzetti, num manuscrito oitocentista, achado na Biblioteca da Ajuda. As peripécias vivenciadas por um e por outro no decurso da pesquisa são arduamente explanadas no relato, bem ao modo dos romances de aventuras peregrinas, detetivescas e policiais, num cotejo seguido de tempos históricos e culturas ancestrais, de usos, mitos e lendas, unidos todos eles às emoções fascinantes de amores inesperados e de resultados imperecíveis.

Lidos os livros que constituem as inquirições encetadas pelos dois Ramires Reis em tempos distintos, apercebemo-nos o quanto cada um deles rende um testemunho valioso à tradição milenar do romance à escala global. Aquele em que a epopeia em prosa malvista pelas poéticas clássicas antigas e modernas se converteu, passo a passo, no mais popular género literário atual. Nas suas sete centenas e meia de páginas, o seu artífice conjuga na tessitura narrativa por si gizada uma sucessão de roteiros de viagens, memórias históricas e relatos de amor, unidos por um par de membros da mesma família, o tio Sebastião e o sobrinho Gonçalo. A saga anunciada no título da tríade fica justificada, brindando os leitores com um percurso pleno de deleite e proveito, convocados pela ficção recreativa.   

29 de abril de 2026

Harriet Beecher Stowe, a cabana do Pai Tomás ou a vida entre os humildes

The cabin of Uncle Tom was a small log building, close adjoining to “the house,” as the negro par excellence designates his master’s dwelling. In front it had a neat garden-patch, where, every summer, strawberries, raspberries, and a variety of fruits and vegetables, flourished under careful tending. The whole front of it was covered by a large scarlet bignonia and a native multiflora rose, which, entwisting and interlacing, left scarce a vestige of the rough logs to be seen. Here, also, in summer, various brilliant annuals, such as marigolds, petunias, four-o’clocks, found an indulgent corner in which to unfold their splendors, and were the delight and pride of Aunt Chloe’s heart.

Em meados da década de 60, ajudei a criar uma biblioteca de turma e que terá subsistido algum tempo mais, apensa ao acervo bibliográfico da escola. Frequentava então os dois anos do ciclo preparatório e a compra das obras fazia-se através duma cotização mensal voluntária. Alguns colegas mais abonados duplicavam a sua parte, ajudando assim a equilíbrio das finanças. Como compensação, teriam o direito de escolher os novos títulos. Terá sido através desta modalidade que o mais famoso romance de Harriet Beecher Stowe, A cabana do Pai Tomás (1852), entrou na nossa coleção de leituras extra escolares. O padrão dos livros de capa azul/cor-de-rosa prescrito pelo regime saía um pouco defraudado, mas temática algo sensível do esclavagismo americano era torneada por uma adaptação juvenil assaz ilustrada resultava incólume à censura pedagógica então vigente.  

Uma edição recente com capa bem colorida e versão integral do texto chegou-me agora às mãos. Num impulso vindo não sei de onde, apeteceu-me rever as peripécias atribuladas de vida do Pai Tomás, a que a tradutora resolveu devolver à designação onomástica original de Tio Tom. As explicações são bastamente esplanadas na extensa introdução, não conseguindo, todavia, apagar os ecos muito audíveis proferidos por uma tradição portuguesa quase bicentenária que me ficou gravada na memória. Minudências à parte, é o momento de regressar a uma história que tanto me marcou nos verdes anos, a tal que segundo Abraham Lincolm terá estado no germe da Guerra Civil Americana (1861-1865). Tudo começa com a perseguição a uma jovem escrava fugitiva, para salvar o filho de tenra idade que acabara de ser vendido pelo amo, logo seguido dum longo rol de eventos esclavagistas/abolicionistas, distribuídos por dois volumes, quarenta e cinco capítulos e cinco centenas de páginas.

Muitas são as figuras cénicas de primeira e segunda linhas retratadas alternadamente nesta saga de histórias ficcionadas duma realidade recente, todas elas dignas da abordagem atenta da narradora-autora, centrando-se paulatinamente no percurso dramático do protagonista, aquele que empresta o nome ao título ao painel efabulativo, o pai/tio Tomás/Tom como quisermos. O seu percurso pela trama reparte-se por três atos, cada um deles regido por um amo distinto e uns quantos traficantes de permeio. Arthur Shelby é obrigado a vendê-lo, para saldar dívidas que pendiam sobre a sua propriedade do Kentucky. Passa depois para a posse de Augustine St. Clare de Nova Orleães, até que o trespasse súbito deste o transfere para as mãos de Simon Legree na Luisiana profunda. Os bons tratos recebidos dos primeiros é drasticamente substituído pelo tratamento desumano do restante, que o manda chicotear até à morte, por se recusar a denunciar outros escravos fugitivos e a renunciar à sua  inabalável no cristianismo.

Passa-se a passo de corrida da pré-adolescência para a maturidade plena da vida e o nosso modo de ver o mundo altera-se por completo, como se pulássemos do dia para a noite. Decorrido mais de século e meio sobre a abolição da escravatura nos EUA, apercebemo-nos que a questão racial está longe de ter sido sanada. A exploração atual dos mais fracos pelos mais fortes assumiu formas renovadas de segregação do homem pelo homem. Assenta presentemente na exploração da força de trabalho dos imigrantes oriundos da grande aldeia global, as novas peças, mercadorias e coisas como os pretos de então eram chamados. As emoções que senti na fase infantil do meu existir mantêm-se intocáveis agora que atingi a fase adulta, mas acrescidas das emoções entretanto sentidas. Felizmente que para os intervenientes martirizados da fábula a crença na justiça divina lhes dava a esperança da salvação eterna prometida na Bíblia. Esse não é porém o credo que rege os meus passos terrestres sem a expetativa duma recompensa celestial. Se o inferno são os outros é que todos nós vivemos o nosso dia a dia. E assim vai o mundo e, ao que parece, de mal a pior.

EPÍGRAFE
«A cabana do Pai Tomás era uma pequena construção de troncos, mesmo ao lado da “casa-grande”, como o negro par excellence designava a habitação do seu senhor. Em frente, havia uma pequena horta bem cuidada, que no verão dava, morangos, framboesas e outras espécies de fruta e legumes. A fachada estava coberta por uma grande begónia escarlate e uma rosa autóctone, cujos ramos entrelaçados não deixavam à vista qualquer vestígio dos toros de aspeto grosseiro. Também aqui, no verão, uma profusão de flores anuais, como calêndulas, petúnias e boninas encontravam um recanto acolhedor para ostentar em toda a sua beleza, para orgulho e deleite da Mãe Chloe.»
Harriet Beecher Stowe, A cabana do Pai Tomás (1852)