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11 de abril de 2026

Arthur's birthday parties

Team Arthur Lifetime Member
Happy birthday! - Tillykke til dig! - Buon compleanno!

Varreu-se-me da memória a minha primeira festa de aniversário. Provavelmente porque nessa época recuada a data se celebrasse duma forma mais tranquila, em família, sem magotes de convidados a cantar os parabéns a você e a bater palmas depois de apagadas as velas do bolo de anos. Lembro-me em contrapartida dos postais ilustrados que a minha avó Cristina então me enviava. Infelizmente, não guardo nenhum deles, deixados perdidos em caixas e gavetas há muito desaparecidas com a voragem dos tempos.

Os vislumbres mais nítidos apanharam-me crescidinho fora do país. Em 1995, as minhas meninas levaram-me a um rodízio de pizzas da Whitehall de Londres, tendo soprado a vela simbólica no President Hotel da Russel Square. Em 2015, ouvi cantar os parabéns no Parque Nacional dos Veados de Jægersborg, num piquenique com o meu núcleo familiar de Copenhaga. Em 2019, celebrei-o entre amigos, no Ristorante Il Bargello da Piazza della Signoria de Florença, à volta dum pizza napolitana mas sem velas a marcar o evento.

Todos as manhãs acordamos um dia e uma noite mais velhos. Cada dia de aniversário somamos ou diminuímos um ano à vida já vivida ou por viver. E continuamos a festejar indiferentes aos mais e menos quotidianos, a repetir o já dito e a dizer aqui ou algures. Em 2020 cantaram-me os parabéns na enfermaria dum hospital, em 2025 nos bastidores do Teatro das Figuras. Sem o canto e das palmas dos familiares, afastados pelas restrições do COVID e da arte de cena. Este ano será mais calmo. Quiçá sim, quiçá não...

24 de maio de 2023

O grande urso guardião da casa ribeirinha com espírito de guerra

Maury Hervé - Ours

[Carré d'Artistes - Dijon]
no·me |ô|
(latim nomen, -inis)
nome masculino
Palavra que designa pessoa, animal ou coisa (concreta ou abstrata).

Sempre senti um misto intrigante de fascínio e espanto pelos nomes dos índios dos livros de cowboys e dos westerns televisivos da minha meninice. O insólito dos antropónimos indígenas do farwest Touro Sentado, Águia Solitária, Rajada de Vento, Pata de Corvo ou Dança com Lobos só se aproximaria de Ricardo Coração de Leão e de João Sem Terra, os dois irmãos reais Plantagenetas das aventuras do Robin dos Bosques, ou d'O Rei de Boa Memória e d'O Príncipe Perfeito, os nossos Dom João I e Dom João II da casa de Avis. Mesmo assim, estes cognomes reais estão sempre associados a um prenome específico de sentido desconhecido.

De pesquisa em pesquisa, descobri que cada elemento do meu nome tinha uma origem diferente e significado específico. Segundo se julga saber, Artur terá derivado do celta artwa (< art: urso + ur: grande) e Henrique do saxónico heimirich (< heim: casa, lar + rik: senhor). Se lhe associarmos o Ribeiro latino (< ripariu: riacho) e o visigótico Gonçalves (< gunda: guerra + elf: espírito), a conjugação de todos estes étimos daria assim algo como: «senhor do lar», «governante da casa», «urso grande que governa a casa» ou, então, «grande urso guardião da casa ribeirinha com espírito de guerra». Tudo bem arrumado à vontade do freguês.

Olho para o urso virtual escondido no meu nome e vejo o ar de espanto estampado no seu rosto. Semblante pasmado de incrédulo, por rivalizar com os epítetos, apelidos e alcunhas concretas e/ou abstratas atribuídos a deuses e heróis, a reis e rainhas, a filhos de algo ou de coisa nenhuma. Pena que tão poucos de nós saibamos os sentidos ocultos nos nomes próprios e familiares que nos foram atribuídos na pia batismal e no registo civil sem nada termos feito para os merecer/desmerecer. Pessoalmente, até me sinto bem com essa etiqueta caprichosa de Urso Guerreiro com que a etimologia me brindou sem para tal ter sido perdido nem achado.

Dean Crouser - Bear with Forest

11 de abril de 2023

O caderno de notas do Arthur

Deiz-ha-bloaz laouen, Arzhur
Nada como pôr os pés na Bretanha para me sentir uma pessoa importante. Encontro o nome Arthur um pouco por toda a parte: bols, coussins, jouets. Depois, pus os pés na terra e assenti que, de A a Z, todos os nomes têm direito a um minuto de fama fugidia nos domínios do rei Arthur. Todos os nomes podem ser registados a pedido do freguês. 

Na estante duma livraria, encontrei um carnet de notes ainda sem notas de um qualquer Arthur que o visse. Achei que me podia servir para registar as notas ainda por decidir dum tempo já do agora ou ainda do porvir. Anotar que mais um ano se cumpriu e outros se perfilem no além. Que me dê os parabéns então e que outros mos deem também aqui.

29 de março de 2023

Bretanha, o meu país do coração

Faïencerie de Pornic - Collection Bécassine

    Breizh, ma bro eo a galon    

Nasci em meados do século passado na Estremadura e renasci 20 anos depois na Bretanha. Mais ano menos ano nos dois casos tanto faz. Uma amizade com essa idade pelas ar c'hoarezed P* estará na origem dessa ligação tão persistente e incondicional. Logo de seguida vem o charme natural do pays breton.

As visitas periódicas aos territórios armoricanos continentais do Rei Artur tornou-se uma prática regular que só o Covid-19 rompeu. O regresso ao fim de meia dúzia de anos a Roazhon, a capital celta do meu país do coração, terra de magos, profetas, fadas, lendas e histórias dos cavaleiros da Távola Redonda.

Les fougères, les ajoncs et les bruyères des landes m'attendaient déjà à l'arrivée. Les genêts aussi, à cotê des chaumières bretonnes dans la campagne et des maisons à pans de bois en ville. Un vrai paradis en terre. J'ai donné les bonjours à tous les copains et copines et j'ai profité au maximum le séjour.

De regesso, apercebi-me que nunca participei num fest-noz, nunca dancei uma gavotte ao som dum bagad ou dum kevrenn de binious e bombardes. Boa razão para voltar ao bro armor hag bro argoat, comer une galette-saussice, um far breton ou um kouign-amann e beber uma bolée de cidre bem tirada. Ça y est !

   BOLÉE DE CIDRE
GLOSSÁRIO
Breizh, ma bro eo a galon: Bretanha, o meu país do coração; ar c'hoarezed: as irmãs; Roazhon: Rennes; fest-noz: festa de noite; gavotte: dança; bagad: banda; kevrenn: grupo; binious: gaitas-de-foles; bombardes: bombardas, oboé; bro armor hag bro argoat: país do mar e país dos bosques; galette-saussice: galette de de trigo sarraceno com uma salsicha;  far breton: bolo de farinha e ameixas bretão; kouign-amann: bolo de manteiga;  bolée de cidre: tijela de cidra.

LA BLANCHE HERMINE, L'EMBLÈME DE LA BRETAGNE

15 de novembro de 2021

Arturo, o guardião das ursas boreais

SIDNEY HALL
Urania's Mirror - Bootes, Canes Venatici, Coma Berenices, and Quadrans Muralis (1824)

Dizem que quando o Big Bang nasceu do tudo-nada, o universo inteiro cabia num único ponto, num átomo primordial, menor do que uma bola de bilhar, de ténis ou de ping-pong. Conjeturas teóricas para tentar explicar o início da grande expansão ocorrida há cerca de 13,8 mil milhões de anos, i.e., de quando o vazio se encheu de tudo aquilo que existe.

Dizem que há mais estrelas no céu do que grãos de areia na terra e haver mais partículas atómicas numa só molécula do que galáxias no universo visível. Dizem-se também coisas espantosas sobre o número total de neurónios no cérebro humano. Cifras tão desmedidas que a nossa mente finita de simples mortais tem dificuldade em contar ou assimilar.

Dizem as vozes que alimentam o senso comum ser mais fácil achar as estrelas duma constelação do que as restantes que a nossa vista alcança. São em número reduzido e constituem grupos perfeitamente localizáveis na imensidade luminosa da esfera sideral e costumam ter nomes próprios que escapam à simples listagem numerada das tabelas astrais.

Dizem os mitos, repetem as lendas e refazem as histórias contadas pela nossa imaginação criativa haver alguns corpos celestiais mais famosos do que outros. Dizem terem sido postos no firmamento por vontade das sucessivas gerações de deuses, titãs e numes cósmicos, como resultado das suas lutas sem tréguas pelo domínio das forças telúricas da natureza.

Dizem as teogonias helénico-romanas ser Arcturo, Arcturus ou Arturo (gr. Arctorus,  «guardião do urso») o Pastor que ajuda com os seus dois cães a Ursa Maior e a Menor a circundar o polo boreal. É bom pensar que à falta dum santo de primeira grandeza a assinalar o meu nome, fico com a estrela mais brilhante da constelação do Boieiro a fazê-lo. Uau!

11 de abril de 2021

Foi neste dia há uma porção de anos

A FRAGILIDADE DOS RECÉM-NASCIDOS
O pintainho Artur não estava confortável dentro do seu ovo. Crescera tanto que aquele quarto se tornava pequeno... Dentro da casca Artur sentia-se a salvo, mas estava muito apertado. Já não cabia naquele quarto quente de paredes brancas, de forma que não teve outra solução a não ser sair dali. Descobriu então que habitava uma parte muito pequena de um mundo enorme e desconhecido que se abria perante os seus olhos pequenos e curiosos.
Oli & Marc Taeger, Artur, 2011 (contracapa)
A pedra e o urso das lendas celtas... 
Foi neste dia há uma porção de anos que vi pela primeira vez a luz do dia no velho Hospital de Santo Isidoro das Caldas da Rainha. Apesar de ter sido o protagonista do evento, não guardo a mínima memória dessa data. Segundo o que fui sabendo, nasci numa Sexta-feira Santa, também dedicada a Santo Estanislau. Felizmente que a tradição dos Artur na família me livraram de ter o mesmo nome do mártir de Cracóvia. Antes «pedra» e «urso» de origem celta que o «duradouro na glória» de base eslava.

Faz hoje quase meio século que atingi a maioridade, que então se fazia aos 21 anos, estava em Lisboa, era uma quarta-feira normal da semana, e só me apercebi que fazia anos quando regressei a casa e recebi alguns telefonemas a felicitar-me. Tive o dia ocupado com aulas e a efeméride passou-me completamente à parte, apesar da sua importância relativa. Não tive direito a nenhuma festa especial até ao fim de semana seguinte, quando o celebrei com toda a pompa circunstância usual dum Domingo de Páscoa.

A minha primeira internacionalização aniversariante ocorreu em meados de 90, eu tinha dobrada a casa dos 40 e apanhou-me em Londres. As minhas três meninas convidaram-me a almoçar num rodízio de pizzas nas imediações da Whitehall. À noite, soprei no quarto do President Hotel uma simbólica vela alusiva, substituída por um fósforo aceso, espetado numa espécie de queque comprado para esse efeito no food hall do Marks & Spencer. Também me cantaram os parabéns e bateram palmas como manda o figurino.   

Cumprem-se hoje 1/2 dúzia de anos que rumei a Copenhaga para celebrar com o núcleo familiar dinamarquês mais um aniversário. O ato teve lugar no Parque Nacional dos Veados de Jægersborg e assumiu o formato dum piquenique em plena natureza e primavera escandinavas. Como prenda de anos mais significativa, fomos brindados com um dia de sol esplendoroso, uma temperatura muito amena e sem pinga de chuva, algo pouco comum naquelas latitudes. Agradecemos, brindámos e petiscámos em corpo bem-feito.

No ano que antecedeu a pandemia que nos pôs todos de cara tapada, recebi como prenda de aniversário uma semana em Florença. Essa viagem fazia parte dos meus planos há muito tempo e tencionava efetuá-la assim que deixasse de trabalhar. Assim foi. Na cidade das flores e das artes, celebrámos a data no Ristorante Il Bargello, localizado na Piazza della Signoria. Escolhi uma pizza fiorentina na companhia de amizades de longa data vindas de surpresa da Bretanha pour fêter l'anniversaire de son vieux copain. Génial ! 

Faz hoje um ano que celebrei o nascimento numa cama do Hospital de Faro. Entrei para uma pequena cirurgia que se resolveria em três dias e acabei por ficar quase três meses. Imprevistos que dispenso no futuro. O confinamento que já estava em vigor impediu-me de ver a família, mas mesmo assim tive direito a uma fatia de bolo feito em casa. Toda a equipa médica e de enfermagem, pessoal auxiliar e restantes pacientes cantaram-me os parabéns e desejaram-me uma alta rápida, o que de facto aconteceu no dia da liberdade.

À beira dos 70, as fronteiras concelhias atuais têm-se tornado mais difíceis de vencer do que as internacionais de Londres, Copenhaga ou Florença do passado. Nestes tempos de pandemias infindáveis, não há passaporte, bilhete de identidade ou cartão de cidadão que nos valha. Apetecia-me andar por aí à procura dum local aprazível para passar mais um aniversário. Sevilha, Barcelona, Madrid já seriam destinos desejáveis, para não falar noutros mais distantes. Entretanto o melhor é ficar em casa. Para o ano logo se vê.

1 de setembro de 2020

Forêt de Brocéliande, le royaume des fées et des enchantements

    LA FORÊT DE BROCÉLIANDE    

       La légende du roi Arthur - L'esprit des lieux      

[Paris - Bibliothèque nacionale de France - Expositions virtuelles]

Breihz: Bro Armor hag Bro Argoat

Já perdi a noção das vezes que me deixei envolver pelos mistérios arturianos da floresta de Paimpont (Ille-et-Vilaine e Morbihan) e me entranhei por inteiro nas profundezas labirínticas da Brocéliande, na Pequena Bretanha Armoricana. Breihz para os nativos bretonantes, o Bro Armor hag Bro Argoat, que os francófonos convertem em Le pays de la mèr et des forêts, ou simplesmente o BZH duns e doutros.

A antiga Bréchéliant não chega hoje em dia até ao mar como nos tempos lendários e míticos do Roue Arzhur brezhon. Aquilo que as sucessivas gerações pouparam ao longo dum milénio e meio de devir histórico é hoje banhado exclusivamente pelas nascentes de água doce que brotam das fontes prodigiosas de Jouvence e de Barenton e correm pelo Val d'Aff até aos lagos encantados da floresta.

Quantos piqueniques fiz junto do Miroir aux Fées à entrada do Val sans Retour. Quantos trilhos sinuosos percorri em demanda do Palais de cristal de Viviane e do Tombeau de Merlin. Quantas aventuras vivi nos locais palmilhados pelos heróis e heroínas, deuses e gigantes, génios e monstros dos Romans de la Table Ronde du Roi Arthur. Sempre na boa companhia des copains-copines de toujours.

Há um bom par de anos que não passo por um dos locais mais embebidos de magia do país à beira-mar plantado e das florestas a perder de vista do interior bretão. Espero voltar em breve, assim que estes ares covídicos partam de vez para nunca mais volver. En fait, les fougères, les ajoncs, les genêts et les bruyères me manquent éperdument pour accomplir la metaphysique de l'amour courtois.
 

24 de agosto de 2020

Henry VIII, the Knight of the Loyal Heart

THOMAS WRIOTHESLEY
Henry VIII jousting in front of Catherine of Aragon in 1511

    Le Chevalier du Cœur Loyal    

«Não descobrirás a nudez da mulher do teu irmão: é a nudez do teu próprio irmão [...] Se um homem tomar a mulher do irmão, isso é uma impureza; porque descobriu a nudez do seu irmão, morrerão sem filhos.»
LEVÍTICO: 18, 16; 20, 21
Henrique VIII (1491-1547) gostava de colecionar de tudo um pouco: títulos, estilos, emblemas, brasões, divisas, amantes e mulheres, as suas e as alheias, católicas e luteranas, anglicanas e protestantes, casadas e solteiras. Só não conseguiu ter uma ranchada de filhos varões como desejava mas bem ensaiou. Sobreviveu-lhe um mas foi sol de pouca dura. A Eduardo VI, sucederam-lhe uma prima e duas filhas: Jane Grey, a Rainha dos Nove Dias; Maria I, a Sanguinária; e Isabel I, a Gloriana. Ironias dum destino indesejado com contornos trágicos ou dramáticos ou simplesmente tragicómicos.

Henrique Oitavo, pela Graça de Deus, Rei da Inglaterra, França e Ir-landa, Defensor da e Chefe Supremo na Terra das Igrejas da In-glaterra e Irlanda casou-se seis vezes mas só enviuvou legalmente uma. Anulou quatro casamentos e não sobreviveu à última. Para tal recorreu a uma separação litigiosa por questões religiosas e outra de mútuo acordo por antipatia sensual recíproca, mandou degolar duas delas na Torre de Londres por aludidos atos de traição, adultério e incesto, mas já não teve tempo de eliminar a última por uma qualquer desculpa esfarrapada arranjada à última hora.

O Oitavo Henrique de nome na lista de monarcas britânicos usou como insígnias pessoais, desde os seus tempos de mero Duque de Iorque e de Príncipe de Gales, as três Flores-de-Lis gaulesas e os três Leopardos Normandos. Depois, foi-lhe acrescentando outros atributos reais à medida que foi assumindo as rédeas do poder: a Rosa e a Portcullis Coroadas dos Tudor, usadas desde o tempo do fundador da dinastia, ladeadas pelo Galgo de Richmond e o Dragão Vermelho de Cadwaladr, símbolos heráldicos clássicos da honra e legitimidade da casa reinante e da tradição lendária arturiana.

Henry VIII, the king, para além dos obrigatórios Dieu et mon Droit e do Honi soit qui mal y pense, motes retirados das ordens do Tosão de Ouro e da Jarreteira, e do Altera Securitas associado às grades da Porta Levadiça dos Beaufort, adotou ainda um emblema bordado a ouro nas roupas de aparato e armas de lide que levava para as justas de cavalaria, subordinado ao lema Cœur Loyal (= Coração Leal), o que dado o seu historial matrimonial não deixa de ser irónico, embora se diga que esta divisa se dedicasse em exclusivo a Catarina de Aragão, com quem viveu quase um quarto de século.

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Os escrúpulos sentidos de Henrique VIII por ter casado com a viúva do irmão Artur de Gales, não se manifestaram um só momento ao casar-se com Ana Bolena, depois de ter descoberto a nudez da irmã Maria Bolena. É que os preceitos do Levítico se aplicavam de modo estrito aos homens. Mais tolerante terá sido Dom Pedro II, ao desposar Dona Maria Francisca Isabel de Saboia, a viúva do irmão Dom Afonso VI. Neste ponto de incestos reais, parece que os Bragan-ças portugueses tinham uma leitura bíblica bem mais terra-a-terra do que os Tudors ingleses seus antepassados remotos.    
 
The procession with Henry at its heart

11 de abril de 2020

Arthur, c'est moi !

Fogões, Pijamas & Livros...
Il y avait une pub à la télévision française qui affirmait de façon fort tranchée : Arthur c'est extra ! J'ai trouvé ça vachemente super. C'est-à-dire : formidable, magnifique, génial. Je dirais même plus, comme Dupond et Dupont, les détectives fictifs des Aventures de Tintin créés par Hergé : Arthur c'est extra ! En fait, ce n'était plus qu'une simple cuisinière Arthur Martin, très populaire dans l'Hexagone. Tant pis ! J'ai apprécié quand même le slogan.

Quando o Forum Algarve abriu portas, chamou-me a atenção uma loja chamada Arthur. Imitei a Loulou dos perfumes e disse para mim mesmo: Arthur, c'est moi ! Num internamento feito a contragosto no Hospital de Faro, levei comigo um pijama com o logótipo Arthur estampado um pouco por todo o lado. Alguém que não conhecia a marca perguntou-me se tinha sido mandado fazer por mim. Olhei-o surpreendido, sorri-lhe e não disse nada.   

I have never read a book by Mark Brown, nor Arthur's Nose (1976), nor any of those that followed it. I would like to meet Arthur Read on the original albums or on the translated tv serie version. I only know him very superficially and in passing. I just know that at the beginning of the stories, he had a very big nose. Then he started to hide his nose in the books and he got prescription glasses to read better. C'est pas mal ! Quer dizer: Not bad indeed!


20 de julho de 2018

Xavier de Langlais e os romances do Rei Arthur, dos Cavaleiros da Távola Redonda e da Demanda do Santo Graal

« Déjà il se réjouissait du plaisir de son aîné, car jamais on ne vit adolescent plus aimable et plus prompt à rendre service ; mais une déception l’attendait à Car-duel : la salle Keu avait laissé son épée était fermée à clef, l’écuyer qui en avait la garde s’étant lui-même rendu sur les remparts pour voir la mêlée. Arthur n’avait plus qu’à en prendre son parti... Keu ne se battrait pas ce jour-là. || Comme il repassait par la place de l’église, ses regards furent attirés par l’enclume qui étincelait sous les rayons du soleil couchant. Se souvenant qu’il n’avait pas encore tenté l’épreuve, il s’en approcha puis, par jeu, sans même mettre pied à terre, se pencha vers l’épée merveilleuse pour la saisir. Miracle ! à peine l’a-t-il touchée que, d’elle-même, l’épée jaillit tout entière hors du bloc d’acier et vient se placer dans sa main. || Ayant caché l’arme sous un pan de son manteau, Arthur regagna en hâte le lieu où il avait laissé son frère : " Je n’ai pas pu ramener ton épée mais je t’apporte celle de l’enclume ", lui dit-il en toute innocence. »
O mundo que nos rodeia está povoado de mistérios que as sucessivas gerações de homens têm vindo a explicar de modo parcelar através dos mitos. O desconhecido passou a ter sentidos sistematizados nos livros sagrados das religiões. Essas pequenas histórias globais foram depois associadas às lendas locais. Dizem que foi assim que nasceu a literatura. As grandes epopeias antigas e modernas são um exemplo acabado desta realidade. Assim aconteceu com Gilgamesh, o antigo rei de Uruk que os inventores sumério-acadianos de heróis divinos descreveram, em placas de argila com trinta e cinco séculos de existência, como o grande homem que não queria morrer e encetou uma longa viagem de aventuras para descobrir os segredos da vida eterna.

Os ecos distantes da Guerra de Troia (c. 1250 AEC) travada junto ao Helesponto chegaram aos ouvidos de Homero e Virgílio, que se limitaram a transformar os factos reais ocorridos num passado remoto nas peripécias imaginadas nas rapsódias helénicas da Ilíada-Odisseia (séc. VIII AEC) e nos cantos latinos da Eneida (séc. I AEC). Xavier de Langlais seguiu os mesmos trilhos dos seus ilustres antecessores greco-romanos para compor O romance do Rei Artur (1965-1971), tendo resgatado para a linguagem dos nossos dias a memória das sagas e gestas celtas ainda pagãs de resistência às invasões saxónicas (450-510) das duas Bretanhas, a insular e a armoricana, que antecederam a queda de Roma (476) e marcaram os alvores da cristianização europeia.

Os contos medievais de cavaleiros andantes e amor cortês foram revisitados, as redundâncias discursivas expurgadas, as lacunas entre episódios colmatadas e as contradições existentes entre as diversas versões escritas em verso e prosa resolvidas. As fontes literárias primitivas foram respeitadas na refundição-edição do novo conteor, quer a composta em latim pelo clérigo galo-bretão Geoffrey de Monmouth na Historia Regnum Britaniæ (1130-1136), quer a traduzida para francês antigo pelo poeta anglo-normando Wace no Roman de Brut (1150-1155). Acrescentaram-se alguns lances complementares produzidos sobretudo por Chréstien de Troyes na série de Romans de la Table Ronde (1170-1182/1190) e que dariam corpo à Vulgata e pós-Vulgata do ciclo arturiano.

A tarefa monumental de compilação de toda a matéria canónica foi efetuada em cinco etapas estando agora reunida em dois únicos volumes em tamanho de bolso. O primeiro remete-nos basicamente para as aventuras terrestres (Merlim e a juventude de Artur, os companheiros da Távola Redonda, os primeiros amores de Lancelot e da rainha Genebra e os feitos de Perceval e de Galaad) e o segundo para as aventuras celestiais (a demanda do Graal e o fim dos tempos aventurosos). As duas etapas fundamentais, em suma, da grande epopeia celta que perfazem, em suma, a primeira grande epopeia produzida pela matriz cultural judaico-cristã, aquela que abriria um caminho à vitória decisiva da modalidade romanesca nas letras europeias hodiernas.

Lidos os livros do livro, perguntamo-nos quem seria esse tal Rei Artur dos relatos que ouvimos contar desde a nossa mais tenra infância. O que significa a espada Excalibur, o vaso do Santo Graal, o castelo de Camelot ou a ilha de Avalon. Qual a importância de se ser o melhor cavaleiro do mundo. As respostas são variadas. Verosímeis umas, fantasiosas outras. Os especialistas têm revelado as mais díspares hipóteses interpretativas. As registadas nos anais da História e as gizadas para dar sentido à fábula. As tradições de galeses, córnicos, escoceses, logrenses, islandeses e bretões mantiveram no ar as suas memórias seculares, que os bardos antigos e modernos moldaram ao sabor do momento. E assim os mitos se fizeram lendas. E assim das lendas pariram a literatura.
1965         -         1967        -         1969       -         1971        -      1971