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23 de abril de 2025

Ditos dos livros no dia mundial dos livros


No hay libro tan malo que no tenga algo bueno...
Miguel de Cervantes, Don Quijote de la Mancha (2005, 2015; II, 3)

DIA  MUNDIAL  DO  LIVRO
Extratos em Contracorrente

Desvarío laborioso y empobrecedor el de componer vastos libros; el de explayar en quinientas páginas una idea cuya perfecta exposición oral cabe en pocos minutos. Mejor procedimiento es simular que esos libros ya existen y ofrecer un resumen, un comentario.

Jorge Luis Borges, El jardín de senderos que se bifurcan (1941)

What do the books say, he wonders. Oh, to scratch that itch, eh? Well, Montag, take my word for it, I've had to read a few in my time, to know what I was about, and the books say nothing! Nothing you can teach or believe. They're about non? existent people, figments of imagination, if they're fiction. And if they're non fiction, it's worse, one professor calling another an idiot, one philosopher screaming down another's gullet. All of them running about, putting out the stars and extinguishing the sun. You come away lost.
Ray Bradbury, Farenheit 45 (1953)

Spesso i libri parlano di altri libri. Spesso un libro innocuo è come un seme che fiorirà in un libro pericoloso o, all’inverso, è il frutto dolce di una radice amara. [...] Sino ad allora avevo pensato che ogni libro parlasse delle cose, umane o divine, che stanno fuori dai libri. Ora mi avvedo che non di rado i libri parlano di libri, ovvero è come si parlassero tra loro. [...] Il bene di un libro sta nell'essere letto. Un libro è fatto di segni che parlano di altri segni, i quali a loro volta parlano delle cose. Senza un occhio che lo legga, un libro reca segni che non producono concetti, e quindi è muto.

Umberto Eco, Il nome della rosa (1980)

L'écriture ne soulage guère. Elle retrace, elle délimite. Elle introduit un soupçon de cohérence, l'idée d'un réalisme. On patauge toujours dans un brouillard sanglant, mais il y a quelques repères. Le chaos n'est plus qu'à quelques mètres. Faible succès, en vérité.
Quel contraste avec le pouvoir absolu, miraculeux, de la lecture ! Une vie entière à lire aurait comblé mes vœux; je le savais déjà à sept ans. La texture du monde est douloureuse, inadéquate ; elle ne me paraît pas modifiable. Vraiment, je crois qu'une vie entière à lire m'aurait mieux convenu.

Michel Houellebecq, Extension du domaine de la lutte (1994)

As Luzes e a poesia salvaram-me, ao entornarem a doçura do mel do favo onde o fel e a raiva já haviam começado o seu trabalho devastador...

Habituei-me a ser criticada
por ler livros,
por falar de ciência, de política e de filosofia,
por saber inglês e latim,
por ter demasiadas Luzes para uma mulher. 
Alguns homens mais cultos chegaram a invocar Molière para me ridicularizarem.

Maria Teresa Horta, As luzes de Leonor (2011)

J. l. BORGES, R. BRADBURY, U. ECO, M. HOUELLEBECQ, M. T. HORTA

4 de fevereiro de 2025

Sinto a dor da tua falta...

Maria Teresa Horta
(20.05.1937 - 4.02.2025)

FALTA

Sinto a dor da tua falta
Agora que terminou
Esta aventura e tumulto

De travessia e viagem
Que a literatura entrançou

E se não sei demorar-te
Manter-te na pressa ávida
Nem pela fresta da faca
Espreitar-te nua ou vestida

Como vou continuar
A perseguir-te, a contar-te
A dar-te luz e fulgor
O resto da minha vida?

 Maria Teresa Horta, Poemas para Leonor (2012)

17 de agosto de 2018

As luzes da marquesa


Leonor de Almeida Portugal de Lorena e Lencastre 

Condessa de Oeynhausen e Marquesa de Alorna
MEMÓRIA
Dessa época guardei a forte determinação que só agora, depois de velha e julgando-me acabada, há quem pareça apreciar enquanto traço do meu caráter e personalidade; sem se aperceber como o fogo se mantém aceso no meu peito, nem como continuo sufocando diante da mediocridade, negando-me a permanecer desmerecida num terreno devastado, onde nenhuma planta vinga, por entre cardos e espinhos. «Não acende um só suspiro. Chama que devo apagar: Siga-se à dor o silêncio. Vencer é saber calar.» 
Maria Teresa Horta, As luzes de Leonor (2011, 21-22)
Viajei com a sedutora de anjos, poetas e heróis na bagagem de férias. Trouxe-a para a praia, para reviver à beira-mar outras jornadas de exercício académico que trilhámos em conjunto. Escritos pequenos e longos, parcelares e de circunstância. Trago-a a banhos pela segunda vez e boa companhia nos fizemos então e agora. Liberta das apresentações formais em ambientes de erudição oficial. A marquesa voltou a partilhar as suas cartas, monólogos e poemas, a abrir os seus cadernos e a desfiar as suas memórias de mulher das luzes e talento poético. Confidências criadas-recriadas à distância de dois séculos pela fantasia alada da sua descendente em quinta geração. Fragmentos de vida vivida-revivida quando a mão invisível e sem peso de Leonor de Almeida Portugal aflorava uma e outra vez o cimo do ombro de Maria Teresa Horta. E quando uma se debruçava sobra a escrivaninha da outra, lhe roçava ao de leve o pulso e lhe submetia o perfume almiscarado da pele macia, o retrato idealizado da protagonista dum romance caleidoscópico foi paulatinamente surgindo, inventado do grão de luz ao bago da romã.

Viajei com a reconstituição-reconstrução biográfica da condessa de Oeynhausen e marquesa de Alorna, conhecida na intimidade conjugal por Nelly e nos círculos poéticos dos outeiros, academias e salões literários por Lídia, Lília, Lize, Laura ou Alcipe, um separar de águas convencional entre as práticas familiares do dia-a-dia e as ditadas pelas correntes pós-barrocas iluministas e pré-românticas liberais. Poemas declamados em serenins, serenatas e saraus. Aplaudidos nos palácios imperiais e reais das casas de Áustria, Bourbon e Bragança. Tão visionários para a sua época, tão exóticos para a nossa. Arte maior de poesia integral integrada num relato labiríntico de prosa poética. Lidas e relidas as histórias com história dentro, perdida a idealização que habita no imaginário literário, afastados os fantasmas do passado a assombrarem os devaneios do presente, fica-nos a verdadeira vida da retratada por pintar. Exercício puro por traçar da herdeira de Távoras, Alornas e Fronteiras. Jogos de poder, jogos de enganos, jogos de sedução em aberto. Nada que o engenho e arte não possa exercitar e executar.

6 de agosto de 2018

Leonor de Almeida & Lillias Fraser

«… Uma referência especial à escritora e amiga Hélia Correia, que me cedeu a sua maravilhosa personagem Lillias Fraser para acompanhar a “minha” Leonor ao longo dos anos esta sua história…»

Encontro no Convento das Inglesinhas 

Quando volto a cabeça vejo-a:
nimbada de luz a fitar-me imóvel à entrada da porta.
Vestido de linho de um tom de pérola recolhido, descendo liso e solto ao longo do corpo magro de ossos miúdos; saia cingindo a cintura estreita, mangas compridas que mal deixam a descoberto os pulsos frágeis. Tem olhos amarelos acusando a linhagem de bruxas e feiticeiras, a pele de uma palidez exaltada e os cabelos do recôndito tom do mel acrisolado.
Olhamo-nos devagarinho, como quem cuida do que vai encon-trar e, porque ela hesita, acabo por ser eu a dar o primeiro passo. Aproveitando a distração das freiras que trocam segredos de re-ceitas com a dama de companhia de minha Mãe, deslizo sem ruído pelas lajes da entrada e na tijoleira da copa, perseguindo-a no seu recuo, cada vez mais fora do meu alcance, a tentar apagar-se na sombra de pedra do corredor sombrio. No entanto, a claridade loura que emana sublinha-lhe o vulto esquivo e tímido, que agora se detém, parado e hirto, limitando-se a ver-me aproximar com receio, até ao momento em que também se entrega e corresponde, ambas de diferente altura, mãos a tatear o ar como se fôssemos cegas, mas apenas encandeadas pela aura uma da outra; e quando os nossos dedos se encontram o luzimento é tanto que nos obriga a franzir as pálpebras transparentes.

«Como te chamas?», consigo perguntar-lhe, temendo vê-la desvanecer na própria ausência. «Lillias Fraser» ‒ responde-me muito baixo, ‒ numa voz rouca e intumescida, como se as palavras teimassem em não querer sair-lhe dos lábios descoloridos.
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Detive-me encostada ao umbral da portada grande cozinha do convento, onde ia buscar o chá de tília pedido por soror Theresa. Andar descuidado o meu, de quem não espera encontrar surpresa em coisa alguma, esgueirando-me das adivinhações e das alu-cinações por entre os interstícios do medo, tentando reparar naquilo em que seria óbvio reparar. Mas, sem aviso, o improvável surgiu à minha frente na figura de uma menina muito composta, capinha de fazenda cinzenta, mãos escondidas num regalo de arminho, cabelos claros e ondeantes debaixo do chapéu enfeitado com penas marfinadas de peito de pomba.
Estupefacta, parei sem saber se ela seria real ou imaginária, de tal maneira me parecia improvável estar ali à mistura com as irmãs cozinheiras, com as noviças estouvadas, com as velhas enre-geladas agachadas ao pé do fogo. Fascinada vi-a imóvel junto à mesa dos doces, olhar vidrado de gulodice, a língua rosada e húmida a passear ao leve ao longo do indeciso contorno dos lábios, enquanto ia tomando o gosto aos odores da encharcada, dos melindes, dos fios de ovos soltos, cheiros que se evolavam, encorpados de açúcar em ponto, das taças de vidro delicado, das tigelinhas de compota.
Senti-me estremecer diante de tamanha volúpia incontida, de tanto vacilo à beira do capricho que estranhei no desconhecimento do suspiro contido, da determinação em aceitar o desejo, do êxtase da entrega; enquanto eu me distancio das pessoas, temendo adi-vinhar-lhes a morte, a sombra, o seu descomposto interior, a vida de que vejo os limites, o fundo o lodo, as rachas, na voraz roedura do corpo. Dom maldito que arrasto em silêncio, conhecendo o peso da sua asfixia, da sua secura obsessiva que me afasta dos outros, atardando-me na perda, na falha; cheiro a ferrugem dos sangues ou a ferro agoirento: das espadas, das armaduras, das viseiras, a recordarem a crueldade de um campo de batalha.
Anseio pelo que é alvo e puro, sem nenhuma memória, condenada eu a adivinhar o futuro. Naquele instante, no entanto, conseguindo iludir o conhecimento do tempo que ainda há de vir, adiantado pelas alucinações que chegam de madrugada. Mas quando ela me viu recuei, consciente expectante diante da imagem do meu próprio avesso, entregue já à sua fraqueza dúctil e nela me reconhecendo: meu outro mesmo lado, sol da minha sombra, lua do meu negrume, rosa-do-mato ou flor de açucena. Criança delicada e suspeitosa com quem logo me senti irmanada sem nunca nos termos chegado a tocar, apesar do encontro da ponta dos nossos dedos.

Sem entender porquê retrocedi, cada passo para trás contado e medido sem pressa. Foi então que ela andou até onde eu estava, mãos alongadas na direção das minhas, estendidas em meu amparo, voz breve a perguntar-me: «Como te chamas?» E eu da minha antiga mudez atirei fora o susto e respondi-lhe de rouquidão na fala intumescida, a atropelar-se na garganta apertada: Lillias Fraser, e tu?» | Talvez ela tenha hesitado uns segundos, demorando um tudo-nada a resposta: «Leonor de Almeida.» E coisa alguma mais dissemos pois, sem outro motivo aparente que não fosse o destino, nos completávamos.

Maria Teresa Horta, As Luzes de Leonor (Lx: 2011, 1057, 30-32)

26 de março de 2017

Tabaco & Chocolate

La xocolatada

Painel de azulejos - 1710

[Museu del Disseny de Barcelona]

As tardes da sedutora de anjos, poetas e heróis...

Agora é na companhia de Catarina que Leonor amaina as angústias, expõe as dúvidas e, discutindo, reacende a criatividade. Em tardes demoradas com a amiga na pequena sala de trabalho tépida da casa desta na Luz, enquanto bebem licores ou chá de rosas-da-china, tocam saltério e recitam versos, a escutarem as confidências uma da outra, histórias contadas entre risos e palavras segredadas que lhes põem um brilho incendiado nos olhares. Leonor fala-lhe dos medos e dos sonhos entrelaçados, atados uns aos outros pelo mesmo laço de faltas, ausências e perplexidades, que num acinte lhe invadem as noites em claro.

Catarina fuma cigarros furtivos que faz com cuidado, a envolver, rolando e enrolando, o tabaco nas mortalhas quase transparentes. Às vezes passa-os a Leonor, que se os aceita, a quebrar hábitos e ditames da sua educação, logo se arrepende; não por ter infringido as regras ditadas pelo Marquês de Alorna seu pai, mas porque os cigarros lhe deixam a saliva grossa, e na boca um gosto toldado, um sabor a tédio e a equívoco que até então desconhecera.

Tenta amenizar a náusea, trincando amêndoas e chocolate, que tira dos pratos de cristal dispostos nas mesinhas de pau-santo, ao lado das taças por onde bebem o espumante. Às vezes leem poemas em voz alta, ou dormitam um tudo-nada. 

Muito ao de leve, como fazem os pássaros…

Maria Teresa Horta, As luzes de Leonor (Lx, 2011: 774-775)

12 de maio de 2015

Maria Teresa Horta, uma galeria de meninas desenhadas ao sabor da pena

«Quando as meninas | fitam o nada | de olhos vagos || Uma brisa cruel | vacila e sussurra | no seu peito || Estão a ver um anjo |  imagino || Mas as mães | desesperam»
Maria Teresa Horta, Meninas (2014) 
Quando soube que Maria Teresa Horta estava prestes a publicar uma coletânea de contos intitulado Meninas (2014), associei-o instantaneamente ao quadro homólogo de Diego Velázquez, Las meninas (1656), obra maior do barroco peninsular seiscentista, onde o pintor sevilhano de origem portuguesa representara, numa tela de grandes dimensões, a família de Filipe IV das Espanhas, já então despojado da coroa dos reinos e senhorios de Portugal. Aí capta, com o olhar atento de quem sabe ver e gosta de o mostrar, a visita informal dos monarcas hispânicos à oficina palatina do artista, centrada na figura radiosa da infanta Margarida de Áustria e das suas açafatas ou meninas. Uma mão cheia de figuras reais eternizadas a óleo e registadas todas elas nos anais oficiais da Casa de Áustria e das suas aliadas europeias.

Após o início da leitura-contemplação do painel desenhado com palavras, o déjà vu muda de rumo e instala-se nas páginas percorridas há trinta anos num texto de Maria Isabel Barreno, Célia e Celina (1985), protagonizado por duas mulheres-meninas que dão corpo e nome à obra. Nas etapas seguintes da viagem, já estou na companhia mais remota ainda de Maria Velho da Costa e das três habitantes das Casas pardas (1977), mulheres que em tempos também foram meninas e nos ajudam a traçar, como as restantes, uma vasta galeria de heroínas de todas as idades, marginalizadas no dia-a-dia e recuperadas para a vida pela arte de contar das «Três Marias». As tais que compuseram em conjunto e no feminino as Novas cartas portuguesas (1979), baseadas no testemunho epistolar seiscentista de sóror Mariana Alcoforado e de muitos outros percursos dramáticos dos nossos e de todos os tempos.

Em entrevista dada recentemente ao Notícias Magazine, a contista revela-nos alguns segredos destas trinta e duas meninas desenhadas em prosa e uma delineada em verso, repartidas por duas secções ou galerias. Na primeira confessa haver posto muito de si mesma nos testemunhos de vidas reinventadas pela ficção e na segunda uma porção significativa da sua própria forma de ser e estar no mundo. Considera-se uma contadora de histórias a que deu inteira liberdade, depois de ter passado por dezassete anos de psicanálise intensiva para fazer a catarse da infância. Nesse período de tempo de purgação planificada, de reencontro com as mulheres tutelares da família, reservou treze desses anos para conversar, à distância de dois séculos e meio, com a Condessa de Oeynhausen, a Alcipe das arcádias literárias, mais conhecida por Marquesa de Alorna, a sedutora de anjos, poetas e heróis, a avó em quinto grau da prosadora-poetisa, que retratou em forma de romance n’As luzes de Leonor (2011). Ecos mais ou menos distantes, mais ou menos próximos duma figura iluminada das letras portuguesas e que, agora, voltamos a encontrar plasmada num ou noutro flash rápido deste conjunto de relatos curtos arrumados segundo os caprichos da memória.

Impossível identificar neste espaço restrito de notas soltas todos os fragmentos narrativos convocados pela colecionadora compulsiva de palavras. Todos eles representam uma situação concreta de amor/ódio, vida/morte, sonhos/pesadelos duma única artífice de coisas feitas com uma multiplicidade de nomes. Míticos, quase todos, distribuídos pelos dois rios matriciais da cultura greco-romana e judaico-cristã. Lilith, Lucinha, Matilde, Beatriz, Mónica, Raquel, Laura, Sara, Branca, Eurídice, Dulce, Cassandra, Carlota, Esther, Lívia, Íngride, Rute, Teresa e muitas mais. Meninas num universo de adultos, formado por homens e mulheres. Maridos, amantes, pais/padrastos, dum lado; irmãs, avós, mães/madrastas, do outro. Um percurso pela mundividências da condição humana nos seus mais íntimos pormenores, balizados entre o vir a ser e o deixar de estar, entre o nascer e o perecer, entre o tudo e o nada. Uma combinação caleidoscópica de imagens captadas ao sabor do momento por uma profusão de vozes gritadas/ciciadas pelos eus e tus do discurso, atualizadas sempre por uma ela/elas singular e plural. Interpretes, todas elas, de um ou outro caso de desobediência, assombro, transformação, resgate, fatalidade, perdição, solidão, abandono. De Inocência perdida e sem culpa. O abismo, a ilha, a cidade, o mar, o calor, o eclipse estão todos reunidos na infância destas meninas-mulheres à espera da companhia dos leitores, ouvintes atentos das histórias de vida que a autora tem para nos contar, com toda a mestria que lhe conhecemos e reconhecemos. Aquela que os artistas põem em tudo aquilo que criam e nos oferecem cada dia. Incondicionalmente.

19 de abril de 2015

Ecfrasis, uma imagem pintada com palavras

Sir Edward Burne-Jones, Portrait of Katie Lewis

KATIE LEWIS

Katie Lewis aprendera a ler sozinha, levada pelo rumorejar dos textos, pelo matiz das cores, uma por uma, ou dos arco-íris que se desprendem das histórias, que a empurram entontecida, uma após outra, na vontade ávida de saborear os livros...

Tinha quatro anos quando sir Edward Burne-Jones, pintor pré-rafaelita e amigo da família, começara a levar-lhe livros bem mais fascinantes do que aqueles que estavam nas estantes da biblioteca do pai, lugar que sempre lhe fora interdito, sem que ela alguma vez cumprisse essa proibição...

Katie, na verdade, nunca consegue saciar a sua sede de menina viciada pela leitura, corpo frágil a abandonar-se ao longo do comprido sofá dourado onde passa os dias, perto do qual Edward Burne-Jones, diante do cavalete que já ali ganhara o seu lugar, vai misturando com demora os óleos, as cores e as resinas, para a ir retratando na sua inquietude ambígua...

... a maçã vermelha esquecida, em risco de cair do sofá, afastada de uma das suas pernas cobertas pela saia marron, o cão branco-chumbo adormecido a seus pés, que ela cruza calçados de negro, meio encobertos e apoiados na grande almofada cor de fogo, quase idêntica àquela outra de chama mordida onde, de bruços, Katie mal roça a testa coberta pelos cabelos que se soltaram dos ganchos e das travessas de tartaruga... 
Maria Teresa Horta,  Meninas (2014)

3 de novembro de 2014

Maria Teresa Horta, As luzes de Leonor, uma sedutora de anjos, poetas & heróis

«Habituei-me a ser criticada | por ler livros, | por falar de ciência, de política e de filosofia, | por saber inglês e latim, | por ter demasiadas Luzes para uma mulher. | Alguns homens mais cultos chegaram a invocar Molière para me ridicularizarem...»
Maria Teresa Horta, As luzes de Leonor (2011)
Quando no início da década de 70, Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa publicaram as Novas cartas portuguesas (1972), a polémica instalou-se no reino cadaveroso ou oásis de mediocridade consentida em que o país dos brandos costumes e jardim à beira-mar plantado se havia transformado. As autoras foram levadas à barra dos tribunais, o livro foi proibido pela censura e o processo das Três-Marias foi convertido num caso singular de mediatismo nacional e internacional. As traduções nos mais diversos idiomas proliferaram e as escassas reedições efetuadas após a queda do regime ditatorial têm teimado em manter a obra sistematicamente esgotada. A questão da condição feminina, equacionada nesse texto composto de fragmentos narrativos, parece continuar a amedrontar a política editorial seguida entre nós, afastando o público leitor dum contacto mais estreito com essa réplica coetânea dos amores marginais revelados nas cinco Lettres portugaises (1669). As tais que Mariana Alcoforado, a religiosa do convento da Conceição de Beja, terá composto e endereçado ao Chevalier de Chamilly, o amante francês que a seduzira e abandonara.

O efeito caleidoscópico de testemunhos convocados pela arte de efabular o universo feminino da criação estética volta à ribalta da república das letras, cerca de quarenta anos volvidos, pelas mãos de Maria Teresa Horta em As luzes de Leonor (2011), longo mosaico ficcionado de prosa poética e poesia integral, em que cada frase é um verso e cada parágrafo uma estrofe. A quinta neta da marquesa de Alorna esboça, neste relato polifónico, uma viagem de revisitação à mulher, poetisa, política, sábia e sonhadora que também foi sua avó, personagem multifacetada, imaginada em forma de papel e tinta, para dar corpo a uma personalidade controversa, recriada através de depoimentos autênticos pronunciados a muitas vozes e sentires. As Marianas epistolares, moldadas pelo barroquismo seiscentista vigente durante as guerras de restauração da monarquia lusitana, saem de cena e dão lugar às Leonores novelescas, forjadas por um iluminismo combativo ainda em construção nas antevésperas das guerras peninsulares movidas pelo império napoleónico. 

Os diálogos | monólogos travados à distância de sete gerações são gizados com o recurso constante a documentos oficiais e particulares, feitos e refeitos, repartidos por mil e tantas páginas bem contadas, vinte e cinco capítulos enquadrados por um prólogo e um epílogo, contextualizados por meio século de histórias dentro da história portuguesa e europeia, a promover a passagem do despotismo aristocrático para o liberalismo constitucional. As cartas, diários, cadernos, citações e poemas entrelaçados no romance outorgam um protagonismo estrutural às Raízes | Memórias discursivas, evocadoras de Leonor de Távora, a marquesa executada por ordem do Marquês de Pombal em Belém, ministro plenipotenciário do rei D. José, e de Leonor de Almeida, a condessa expulsa do país por ordem de Pina Manique, intendente-geral da polícia do príncipe-regente D. João. Pelo meio desta escrita neorromântica, tecida de subjetividades dispersas, ficam os lamentos líricos dum misterioso Angelus, ser alado seduzido pela luminosidade etérea de Alcipe, a sedutora de anjos, poetas e heróis. 

A reconstituição-reconstrução da vida de Leonor de Almeida Portugal de Lorena e Lencastre, encetada ao longo de treze anos de escrita por Maria Teresa Horta está incompleta. A moldura escolhida para pintar o retrato impressionista da defensora das Luzes está balizada pelos tempos conturbados que marcaram o Processo dos Távoras e antecederam o Bloqueio Continental. Efemérides datadas com repercussões duradouras dentro e fora das fronteiras nacionais. Desconhecemos se a neta da Condessa de Oeynhausen-Granvensburgo, valida da rainha-louca D. Maria e dama de honor da princesa-regente D. Carlota Joaquina, frequentadora das cortes de Maria Antonieta de França e Maria Teresa de Áustria, animadora dos salões cultos de Viena, Paris, Madrid e Lisboa, retomará a tarefa hercúlea de traçar os passos da avó nos derradeiros tempos da sua existência de exílio forçado em terras estranhas e de retiro escolhido na terra natal. Nada nos impede porém de acreditar que a mão sem peso da poetisa iluminista aflore de novo o cimo do ombro da poetisa iluminada e que as confidências das duas se voltem a ouvir apesar dos dois séculos de silêncios que as separam.

NOTA
Publiquei este texto no Pátio de Letras em março de 2013, depois de me ter feito companhia de leituras durante quase um ano. Dou-lhe uma nova visibilidade neste espaço de histórias com histórias dentro porque nunca é de mais falar-se do que se gosta. Lidos os livros, fiquem os roteiros da viagem à espera de novas etapas de percurso.

1 de novembro de 2014

Os arrepios da terra

João Glama Stroberle, Alegoria ao Terramoto de 1755

Bruxas & terramotos

A bruxa tem os cristais guardados nos bolsos fundos da saia, deles sentindo na carne a brasa gelada e a cintilação cega, que lhe chameja o corpo. Inspira com precaução o ar, toma-lhe o gosto a salitre, fareja-o, nele detetando o enxofre, o húmus contaminado pelo revolvimento que em breve há de vir das entranhas das terras, das águas sulfurosas e das pedras que ali já fez secar as fontes.

Depois de se ter debatido noites seguidas com os próprios poderes e presságios, delirando com a febre alta que provoca convulsões e lhe repuxa as feições, a bruxa nas suas alucinações viu ruir Lisboa, escutou o urro imenso subida das entranhas da terra, os gritos aterrados das pessoas em fuga pelas ruas em chamas, ouviu os estertores das que ficaram estendidas, esmagadas debaixo do estuque e das lajes, dos mármores dos palácios, dos altares e santos das igrejas, deu conta do pavor daqueles que eram tragados pelas fendas enormes que se abriam no chão a engolir tudo, casas e carros, e também aqueles que tombavam, tropeçando nos escombros.

Sentiu o estômago revoltado pelo intenso cheiro a vulcão recolhido que andava no ar espesso de fumo acre, a fundo lodoso de rio, a chuva envenenada, ao sal ácidos das ondas de um mar revoltoso. Procurou em vão defender-se das queimaduras das cinzas que tombavam do alto, como se fossem neve parda, escaldante. E quando finalmente voltou a si, aterrada, reuniu os poucos haveres numa trouxa, guardou dentro dela, também, as cartas de adivinhar futuros, os cristais nos bolsos da saia imunda, embrulhou-se na manta de lã cardada, abandonou a cabana de terra batida e saiu da cidade, entregando-se ao destino que a guiou, ainda cambaleante, pelos caminhos do Campo Pequeno…

Maria Teresa Horta, As luzes de Leonor (2011: 32-33)