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6 de abril de 2021

Albert Camus, histórias de ratos, gatos, cães, pulgas & pestes

 

« – Naturellement, vous savez ce que c'est, Rieux ?
– J'attends le résultat des analyses.
– Moi, je le sais. Et je n'ai pas besoin d'analyses. J'ai fait une partie de ma carrière en Chine, et j'ai vu quelques cas à Paris, il y a une vingtaine d'années. Seulement, on n'a pas osé leur donner un nom, sur le moment. L’opinion publique, c’est sacré : pas d’affolement, surtout pas d’affolement. Et puis, comme disait un confrère: " C'est impossible, tout le monde sait qu'elle a disparu de l'Occident ". Oui, tout le monde le savait, sauf les morts. Allons, Rieux, vous savez aussi bien que moi ce que c'est.
Rieux réfléchissait. Par la fenêtre de son bureau, il regardait l'épaule de la falaise pierreuse qui se refermait au loin sur la baie. Le ciel, quoique bleu, avait un éclat terne qui s'adoucissait à mesure que l'après-midi s'avançait.
– Oui, Castel, dit-il, c'est à peine croyable. Mais il semble bien que ce soit la peste. » 

Albert Camus, La Peste (1947)

Nas décadas de 70 e 80, o ensino do francês nos ensinos preparatório e secundário era ainda uma realidade plena bem visível, percorrendo um caminho bem delineado, que ia da iniciação à expressão literária. Coube-me em 1981-82 lecionar a disciplina aos 10.ºs e 11.ºs anos dos cursos complementares diurnos e noturnos, frequentados por futuros eletricistas, mecânicos e carpinteiros. Um real desafio realizado com alunos que tinham um conhecimento muito limitado da língua e um interesse ainda menor de o melhorar. O embate sofreu um impacto suplementar, quando nos deparámos com a leitura integral, dum dos títulos mais marcantes de Albert Camus, A peste (1947), que o terá ajudado a arrebatar o Prémio Nobel da Literatura em 1957. A páginas tantas, passaram a lê-la em português e, mesmo assim, com muita dificuldade. Resolvi organizar umas sessões livres, para melhor entenderem o contexto geral em que tinha sido composta e aproveitei para lhes dar umas luzes da corrente existencialista ainda presente na obra. Resolvemos minimamente os obstáculos encontrados, o que não me impediu de dar um suspiro de alívio no final das aulas. Nunca mais peguei no romance. Só agora, com a crise pandémica em curso, o voltei a reler e a reviver a enorme carga dramática que o envolve, apesar de se tratar duma simples epidemia ocorrida na cidade argelina de Oran, em data incerta do decénio de 1940, provavelmente logo após o término da II Guerra Mundial e muito próximo da sua publicação em livro.

Nessa época já distante, o formalismo russo ainda estava na moda entre nós, representado pelos seus herdeiros do Círculo Linguístico de Praga e da Escola de Paris. O estruturalismo não foi esquecido nos programas de língua, sendo chamado a atuar na análise literária das obras de leitura integral. E foi assim que me vi a abordar o modelo actancial de Greimas* para sintetizar eficazmente os eixos semióticos e princípios narratológicos seguidos por Camus, através da definição para cada actant dos respetivos acteurs. Tão simples como inferir que os habitantes de Oran (sujeito) foram obrigados a lutar contra a peste (objeto). Para tal, foram confrontados com a solidariedade coletiva da comunidade (adjuvante) a impor-se ao individualismo manifestado por alguns dos seus membros (oponente). No final, que todo este jogo de forças tivera origem no aparecimento da epidemia (destinador), tendo como resultado desejado a sobrevivência dos cidadãos (destinatário). A coisa até nem correu mal de todo. O mais complicado foi chegar a estas conclusões sem recorrer demasiado ao português.

Havia depois a obrigatoriedade de demonstrar erudição ao utilizar como ponte de honra a terminologia teórica de Genette** para caraterizar os produtores de discurso. Neste caso concreto, a afirmar que o narrador é um residente da cidade assolada e o narratário os restantes habitantes de Oran. Anónimo até ao derradeiro capítulo do relato, o docteur Bernard Rieux assume o papel de locutor principal do mesmo, trocando o papel de narrateur extratiégétique (1.º grau) pelo de narrateur intratiégétique (2.º grau), mantendo sempre o estatuto de narrateur homodiégétique (participante secundário na ação)Por outras palavras, o locutor de terceira pessoa confessa ter sido um testemunho objetivo dos factos ocorridos nesse ano de 194., transferindo o protagonismo da crise vivida pela a população que o conseguiu superar, convertendo-se assim no verdadeiro herói coletivo do drama.

Lidas as histórias de ratos, gatos, cães, pulgas e pestes, distribuídas por cinco partes e trinta capítulos não numerados, apercebemo-nos que os efeitos catastróficos do flagelo epidémico descritos à exaustão no romance não divergem muito dos sofridos nos nossos dias, a uma distância de 3/4 de século, pelo surto pandémico do Covid-19. A diferença está em que o local da ficção se transformou no global da realidade factual. No meio das vítimas diárias anunciadas nas rádios de então e nas televisões de agora, o panorama das dificuldades experimentadas por uns e por outros resulta idêntico, dispensando uma pormenorização minuciosa, por ser do conhecimento geral de todos. Quando chegamos à última página do livro, perguntamo-nos se, de facto, se trata da crónica dum evento efetivamente acontecido ou meramente imaginado. Ao que tudo indica, trata-se mesmo da segunda hipótese, a funcionar como uma alegoria do absurdo da existência humana, como uma tentativa de resistir aos horrores duma guerra pela qual tinha acabado de passar, uma praga devastadora, que havia espalhado a morte indiscriminadamente a nível mundial, uma verdadeira peste mais grave que a bubónica, porque causada pela cegueira humana, para a qual continua a não existir uma vacina eficaz que a possa evitar ou curar, a não ser uma racionalidade há muito perdida nas brumas dum tempo imemorial por quem a devia deter e exercer.

NOTAS
*   Algirdas Julien Greimas, Sémantique structurale : recherche de méthode, Paris: Larousse, 1966.
** Gerard Genette, Figures III, Paris: Le Seuil, 1972.

21 de maio de 2020

Albert Camus: o mito de Sísifo, um ensaio existencialista sobre o absurdo

« Il n'y a qu'un problème philosophique vraiment sérieux : c'est le suicide. Juger que la vie vaut ou ne vaut pas la peine d'être vécue, c'est répondre à la question fondamentale de la philosophie. Le reste, si le monde a trois dimensions, si l'esprit a neuf ou douze catégories, vient ensuite. Ce sont des jeux ; il faut d'abord répondre. Et s'il est vrai, comme le veut Nietzsche, qu'un philosophe, pour être estimable, doive prêcher d'exemple, on saisit l'importance de cette réponse puisqu'elle va précéder le geste définitif. Ce sont là des évidences sensibles au cœur, mais qu'il faut approfondir pour les rendre claires à l'esprit. »
Sísifo, primeiro rei de Éfira, depois chamada Corinto, era considerado o mais malicioso dos mortais e um dos mais mordazes críticos dos deuses imortais. Estes, como castigo exemplar dum tal desaforo e impiedade, condenaram-no a empurrar um enorme rochedo numa alta montanha do Tártaro, o mundo subterrâneo dos mortos regido por Hades. Ao chegar ao topo e ao resvalar para o chão, devia repetir incessantemente o processo. Albert Camus pega nesta punição cruel do malfadado penitente estar obrigado a realizar para todo o sempre um trabalho perfeitamente inútil e sem esperança de qualquer tipo de remissão, aproveitando-a para dar corpo a'O mito de Sísifo, ensaio sobre o absurdo (1942).

O plano programático seguido encontra-se inscrito no título completo do texto, reforçado nos cabeçalhos nas três secções que antecedem a história do malogrado rebelde da mitologia grega. A filosofia do absurdo é explanada através do raciocínio que lhe corpo, da forma como o homem a encara e dos modos como a criação lhe voz. A liberdade, o donjuanismo, a comédia, a conquista e o romance são alguns dos subtemas desenvolvidos a longo de toda a tessitura discursiva. O volume conclui com uma explanação enciclopédica, estudo organizado por Liselotte Richter.

Sísifo de Éfira, à semelhança do Rei Édipo de Tebas ou do Don Juan Tenorio de Sevilha, é um herói absurdo, porque consciente do seu destino trágico. O resultado estéril do trabalho a que foi votado pelos deuses aproxima-se da própria existência humana. Um ser solitário limitado no espaço e no tempo. Num universo incompreensível, desprovido de Deus e de eternidade. O futuro prémio Nobel da literatura questiona-se sobre o recurso ao suicídio como modo de resolver a sensação de náusea duma vida vã e sem esperança de alterar. Conclui que seria perfeitamente infrutuoso, dado que no mundo real não há uma experiência da morte. Só o que é vivido de modo consciente é experimentado.

No tempo em que ainda estava na moda como corrente filosófica, tive uma certa fixação doentia pelo existencialismo. Depois passou-me tão rapidamente como chegara. Volto agora ao seu seio com caráter pontual e por força das circunstâncias. A angústia individual de quem sente o abismo formado entre o ser e o nada perde toda a pertinência quando nos confrontamos com uma peste global que abarca toda a humanidade. O absurdo ganha uma nova dimensão. Tem de ser adaptado à nova realidade que agora nos rodeia. Preservar a vida que nos resta e afastar para além do horizonte visível todos os obstáculos que a tolham.