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12 de fevereiro de 2025

Computadores: a mão luminosa de Deus na escrita do Decálogo no Monte Sinai

                 Left right human brain concept                 
«Nos dias que se seguiram ela quis que nos encontrássemos na Basic Sight. Fechámo-nos na sua sala e ela sentou-se ao computador, uma espécie de televisor com um teclado, muito diferente daquele que havia algum tempo mostrara a mim e às meninas. Carregou no botão de abertura, meteu retângulos escuros dentro de blocos cinzentos. Aguardei, perplexa. No ecrã apareceram soluços luminosos. Lila começou a bater no teclado, fiquei de boca aberta. Nada que se pudesse comparar a uma máquina de escrever, mesmo que fosse elétrica. Ela acariciava as teclas cinzentas, com as pontas dos dedos e o texto nascia no ecrã em silêncio, verde como erva acabadas de despontar. Aquilo que ela tinha na cabeça, agarrado a qualquer córtex do cérebro, parecia derramar-se para o exterior por milagre e fixar-se no nada do ecrã. Era potência  que apesar de passar pelo ato, continuava a ser potência, um estímulo eletroquímico que se transformava imediatamente em luz. Pareceu-me a escrita de Deus como ela devia ter sido no Sinai, no tempo dos mandamentos, impalpável e tremenda, mas com um efeito concreto de pureza.»
Elena Ferrante, História da menina perdida (2014) [Vol IV, cap. 101, pp.273-274]
No tempo em que os computadores se chamavam pomposamente cérebros eletrónicos e tinham o tamanho colossal duma casa, entrei pela primeira vez em contacto com o universo obscuro da cibernética. O meu batismo nesse universo inexplorado deu-se numa disciplina de informática que o antigo Instituto Comercial de Lisboa começara a ministrar nesses dias conturbados de vastas mudanças e eu ainda frequentava a contragosto. Viviam-se então os anos revolucionários dos cravos de abril, numa altura em que eu me preparava para trocar os números das contabilidades, economias e finanças pelas letras das línguas, literaturas e culturas clássicas e modernas.

Tudo nasceu numa mera sala de aulas do antigo edifício bizantino de traçado ortodoxo ali às Chagas, onde em tempos funcionara a embaixada russa dos czares. Era-nos proposto solver um problema de lana-caprina e esquematizar todas as fases da sua resolução através da representação gráfica num ordinograma devidamente submetido a um conjunto de símbolos normalizados, fornecidos pela linguagem Cobol. O diagrama esquemático explicativo da sequência de operações em curso era depois traduzida passo a passo em fórmulas matemáticas precisas, com recurso à numeração binária, em cartões perfurados confiados de seguida ao computador.

Quando me mudei de armas e bagagem para a Faculdade de Letras da Clássica, os personal computers ainda não estavam na moda. Bati todos os meus trabalhos académicos com o teclado HCESAR novinha em folha que nem sequer era elétrica. Outra realidade que a vindoura tornaria obsoleta. Só troquei o matraquear estrepitoso da máquina de escrever pelo processador silencioso de texto do meu primeiro comutador pessoal muito mais tarde, quando passei a frequentar a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Nova. Uma mutação épica indescritível, que me catapultou definitivamente da noite para o dia para o domínio eletrónico cósmico do luminoso digital.

O computador parecido com um televisor antigo, munido dum teclado como o das máquinas de escrever e dum apêndice de navegação chamado rato já desapareceram do meu horizonte de operações. Levaram consigo a enorme torre de armazenamento de dados e as disquetes de armazenamento de dados. me rendi à mobilidade dum portátil. Abençoadas ficções memorialistas mais ou menos autobiográficas postas ao dispor dos leitores, a ajudá-los a recordar as mudanças constantes do quotidiano que a anamnese real não regista. Reviver, v.gr., o esforço mental sentido em tempos para plasmar num fluxograma como fazer uma torrada ou fritar um ovo.

Cartão perfurado IBM não usado

3 de janeiro de 2025

Proveito & Deleite

TEATRO LETHES ‒ FARO
(Antigo Colégio de Santiago Maior)
Omne tulit punctum qui miscuit utile dulci, | lectorem delectando pariterque monendo...
[Recebe sempre os votos, o que soube misturar o útil ao agradável, pois deleita e ao mesmo tempo ensina o leitor]
Horati, De Arte Poetica Liber (343-344) || Horácio, Arte Poética (343-344) 

COLÉGIO ‒ TEATRO ‒ ACADEMIA

« Monet Oblectando »

Bem ao fundo da rua que leva o seu nome, ergue-se o Teatro Lethes, um edifício majestoso, feito ao gosto maneirista chão, que todos os locais reconhecem sem problemas, muito embora a sua identificação não esteja inscrita na fachada central ou em qualquer outro local imediatamente visível por quem ali passa. Em contrapartida, poderá ler na cartela do frontão duas palavras enigmáticas para muitos, numa língua apontada à boa como sendo o latim: Monet Oblectando. A curiosidade de alguns levá-los-á a consultar um dicionário, que as traduzirá, tout court, por «instruir divertindo». Um conhecimento histórico mais pormenorizado do imóvel inspirar-nos-á a adaptar a sentença para: «ensina divertindo-te» ou «diverte-te aprendendo».

Fundado em 1605 pelo então Bispo do Algarve, D. Fernando Martins Mascarenhas, como Colégio de Santiago Maior, a nova instituição tinha como principal função a educação. A instrução ministrada pela Companhia de Jesus estaria obrigatoriamente presente, o que, à data, não garantiria uma diversão por aí além, pelo menos à luz dos parâmetros atualmente vigentes. Como diria Camões, «mudam-se os tempos mudam-se as vontades». Cumpriu a sua missão formativa em Faro até 1759, ano em que os bens da ordem religiosa criada por Santo Inácio de Loyola foi banida do país e domínios ultramarinos e o estabelecimento de ensino não superior foi obrigado a fechar portas para nunca mais as voltar a abrir nos mesmos termos.

O antigo Colégio dos Jesuítas entra numa segunda fase da sua vida, quando o médico italiano Lázaro Doglioni o compra em hasta pública e converte numa teatro digno da capital do Reino dos Algarves. A inauguração dá-se no dia do aniversário da rainha D. Maria II, 4 de abril de 1845, batizando-o de Teatro Lethes, em memória do mítico rio do esquecimento sito no Hades helénico, cujas águas prodigiosas tinham o poder de obnubilar as agruras da vida. Neste caso, as vicissitudes infligidas pelas Invasões Francesas e Lutas Liberais, que haviam deixado o país em ruínas. A  inscrição latina significaria então que quem cruzasse as suas portas gozaria o duplo tópico horaciano do «Proveito & Deleite», i.e., da diversão e aprendizagem conjuntas.

Atualmente o teatro partilha as suas instalações de antigo colégio com outras instituições de interesse local, como será o caso da Academia Sénior Monet Oblectando. dias recebi o convite de me associar às suas atividades letivas na área que mais me agradasse. Aceitei com prazer a dinamização dum seminário inserido na esfera da Cultura Literária, aquela que ocupou grande parte da minha carreira docente. Iniciarei o meu regresso especial às lides académicas neste início de ano novo logo após os Reis. A ver vamos se o tal proveito e deleite do ensino e da diversão se volta a repetir, sete anos depois ter dado a minha última aula de bifurcações do tudo e do nada em final de linha. Vontade não falta se para tal houver engenho e arte.

16 de março de 2024

Mandachuvas & Paus-Mandados

Paula Rego, Salazar a vomitar a pátria (1960)

[Lisboa, Centro de Arte Moderna, Gulbenkian]

No tempo da outra senhora...

No tempo da outra senhora, os destinos do país eram sabiamente regidos por duas entidades magnas: um mandachuva absoluto e um pau-mandado submisso. O primeiro dava pelo nome pomposo de presidente do conselho e o segundo de chefe de estado, por horror inato às designações comuns de Primeiro Ministro e Presidente da República. Era ao herdeiro efetivo e incontestado da Ditadura Militar [1926-1928] que competia designar o suposto dirigente máximo do regime, a preceder o processo simulado da sua eleição/nomeação legal. Tudo a bem da nação como mandavam os figurinos.

Fui gerado numa fase intermédia de troca do consulado do primeiro pau-mandado do Estado Novo para o segundo. Reinava então no seu poder ilimitado o dinossauro excelentíssimo de Santa Comba, arvorado na categoria de mandachuva-mor interino, sem direito a um número de ordem na listagem oficial dos chefes de estado / presidentes da república, ocupando o lugar interposto entre o 11.º e o 12.º inquilino do Palácio de Belém. Fraca consolação para quem era de facto senhor disto tudo e preferia ditar as suas leis a partir do Palacete de São Bento, modesto como se fazia pintar.

O primeiro delfim do antigo seminarista de Viseu e lente de Coimbra aqueceu o lugar pouco tempo. Quando cheguei à  primária, o retrato do segundo pau-mandado de serviço já dera lugar ao do terceiro. É desse que me lembro pendurado na parede da sala de aulas, ao lado do do manda-chuva vitalício e com um crucifixo de permeio. Ótima companhia para as três filas de meninos que olhavam a santíssima trindade com o respeito que lhe era devido, a dos que nunca andavam descalços, a dos que nunca andavam calçados e a dos medianos como eu que alternavam o pé calçado e o descalço.

No preparatório e secundário não havia fotos de mandachuvas e paus-mandados pendurados nas paredes. Lembro-me de ter visto o marinheiro almirante na inauguração solene da escola nova que substituíra de vez a improvisada escola velha há muito a gritar um tirem-me daqui urgente. Nunca vi ao vivo os dois caciques maiores que entretanto se haviam sucedido no poder. É que o quase eterno Manholas das Botas caíra entretanto da cadeira e sido trocado pelo promotor das soporíferas conversas de família televisivas. Tardou décadas mas nada acrescentou ou arrecadou o render da guarda.

O levantamento militar das Caldas de há 50 anos apanhou-me já em Lisboa. Para trás haviam ficado as brincadeiras infantis com os meninos da rua junto ao chafariz d'el-Rei em tempo duma Segunda República envergonhada ou dos colegas de escola no recreio das aulas e nos trilhos e clareiras secretas da mata real da cidade. O prelúdio para o movimento dos capitães de abril e da revolução dos cravos estava dadoAssim as novas aragens que pairam no horizonte nos permitam celebrar dentro de dias a queda definitiva e em paz dos mandachuvas e paus-mandados recentes de tão má memória.

4 de novembro de 2022

Adiantados & Atrasados

Albert Samuel Anker
Die Dorfschule von 1848
«Quando fui para a escola do Largo do Leão, a professora da segunda classe, que ignorava até onde o recém-chegado teria acedido no aproveitamento das matérias dadas e sem qualquer motivo para esperar da minha pessoa quaisquer assinaláveis sabedorias (reconheça-se que não tinha obrigação de pensar outra coisa), mandou-me sentar entre os mais atrasados, os quais, por virtude da disposição da sala, ficavam numa espécie de limbo, à direita da professora e de frente para os adiantados que deviam servir-lhes de exemplo.»
José Saramago, As pequenas memórias (2006)

Quando entrei na escola primária do Bairro da Ponte, a disposição da sala já apresentava um aspeto mais moderno do que o pintado por Albert Samuel Anker, num quadro de época de meados de oitocentos, ou do que o descrito por José Saramago n'As pequenas memórias (2006), ocorridas no primeiro quartel de novecentos. Em vez da ocupação algo desordenada da sala de aulas suíça, ou da repartição portuguesa dos alunos nos grupos dos adiantados e dos atrasados, o espaço pedagógico que me foi dado frequentar já considerava a existência duma categoria intermédia, a fila dos assim-assim, colocada como fronteira natural intransponível entre a fila dos bons e a fila dos burros.

Sentei-me sempre na primeira carteira da fila dos meninos que não eram nem muito bons nem muito maus. Vestiam-se com o conforto que a estação exigia. Sandálias no tempo quente e botas no tempo frio. Não tinham de engraxar os sapatos todos os dias como os colegas que se sentavam junto às janelas, mesmo em frente da secretária do professor, ou de andarem descalços o ano inteiro, como os encostados à parede da parte mais escura da sala. À frente dos remediados, só se via o quadro negro, apagador e giz, um crucifixo com uma jarra de flores aos pés e os retratos muito bem alinhados do Senhor Presidente de Conselho de Ministros e de Sua Excelência o Chefe de Estado.

No dia em que não identifiquei os retratados da parede pelos nomes completos que lhes eram devidos, apanhei o primeiro par de reguadas punitivas do percurso escolar. Só mais tarde percebi a razão do castigo. Salazar e Thomaz foram dois nomes que nunca mais deixaram de ocupar os meus pensamentos mais sombrios. Ainda hoje evito pronunciá-los sem uma razão muito concreta para o fazer. Aprendi então que nem sempre se devem chamar os bois pelos nomes próprios. Há sempre um ou outro apelido à disposição para os substituir. Tarde demais. Na altura aprendi também o verdadeiro significado do provérbio popular que reza à gerações ser a palavra de prata e o silêncio de ouro. 

Soube há pouco que o professor que me acompanhou nas quatro classes da primária morrera num acidente de viação, não sei se há muito se há pouco tempo. Não voltarei a vê-lo numa das minhas cada vez mais raras visitas às Caldas da Rainha. Durante algum tempo ainda pensei poder reencontrá-lo num qualquer recanto do velho burgo estremenho. Rever aquele a quem as más línguas apelidavam de Manequim Inglês que tanto dava umas reguadas e ponteiradas a preceito quando para aí estava voltado como dava dava aos intervalos uns toques na bola com os sapatos engraxados de ir à missa, sem despir o fato completo príncipe de gales ou tirar a gravata de seda de estampado colorido.

27 de setembro de 2021

Aniversários de Auschwitz

Felix Nussbaum
Triumph des Todes - Die Gerippe spielen zum Tanz (1944)
[Felix Nussbaum Haus ‒ Osnabrück ‒ Deutschland]

Todos os anos se celebra mais um ano da libertação de Auschwitz, todos os anos se editam livros sobre Auschwitz, todos os anos nos afastamos dos horrores de Auschwitz e, todavia, todos os anos nos aproximamos mais dos totalitarismos inspirados em Auschwitz.

Há oito anos cumpridos hoje, estive à beira de visitar Auschwitz e acabei por me contentar com uma ida rápida ao Bairro Judeu de Cracóvia, o Kazimierz. Faltaram-me as forças anímicas para percorrer os 80km que me separavam do antigo campo de extermínio nazi.

Numa pausa do Congresso de Lusitanistas Polacos realizado na cidade do Vístula*, nem sequer atravessei o rio para visitar o gueto de Podgórze ou até a fábrica de Oskar Schindler, lembrada em 1993 num filme de Steven Spielberg.  Hoje lamento não o ter feito então.

Entre 1940 e 1945, Auschwitz eliminou cerca de três milhões de seres humanos indesejados pelo Terceiro Reich alemão. Passados oitenta anos, o complexo de Auschwitz continua a representar o símbolo mais sinistro do holocausto e da solução final da questão judaica.

Ignoro se voltarei às proximidades de Auschwitz. As viagens são difíceis de planear em tempos de pandemia. Só sei que perderei os pruridos e entrarei a homenagear todos os que por lá passaram. A sua memória exige-o para que atos semelhantes se não repitam.

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NOTA
(*) - Na Universidade Jagellónica de Cracóvia, em setembro de 2013.

5 de agosto de 2021

As lições dos mestres carismáticos

Accademia di Platone ad Atene
Mosaico da villa di T. Siminius Stephanus a Pompei 
(c. séc. )
[MuseoNazionale Archeologico di Napoli]

«A profissão de professor [...] compreende numerosas tipologias que vão desde a do pedagogo destruidor de espíritos à do Mestre carismático.»
George Steiner, As lições dos mestres (2003)

1. Letras & Números
Soube dias que o Prof. Dinis morrera, ao que me foi dado saber num acidente de viação, desconheço exatamente quando. Rondaria agora os noventa e picos. Durante muito tempo, tive vontade de rever o meu mestre-escola da Primária. Nunca calhou. Não voltei a saber nada dele. Nem sequer me lembro do apelido. Difícil de o encontrar na Net. Iniciou-me nas Letras e nos Números e demais artes do trívio e do quadrívio. Recordo-o vestido a rigor de príncipe de gales, sempre de gravata e sapatos superengraxados. Por alguma razão era conhecido por Manequim Inglês. Podia ser pior.

2. Língua & História
tempos, dizia eu a um amigo, num diário em rede que quando estava a ler pela enésima vez As lições dos mestres de George Steiner, me lembrara do Dr. Bento Monteiro, meu professor no Secundário de Língua e de HistóriaNa altura perguntei-me porquê, depois percebi ter sido o meu primeiro mestre carismático, aquele que me iniciara no universo do canto lírico e da paideia grega e me motivara a escrever e a ler ainda mais. Através da blogosfera soube ter falecido em 2008. Mais um que não voltei a ver como desejava, o Aristóteles Bigodaça, como alguns lhe chamavam.  

3. Filosofia & Dialética
E nada digo a propósito de epítetos, porque a partir do Médio os discípulos deixavam de alcunhar os mestres. Se o Prof. Barrilaro Ruas algum tivesse, seria com certeza o de Sofista Maiêutico, dado o modo como referia o método pedagógico de Sócrates, o grande mestre da Filosofia e da Dialética, nas aulas que eu frequentava no Instituto Comercial de Lisboa. Perdi-o de vista, apesar de tal como eu se ter mudado para a Faculdade de Letras. Vi-o algumas vezes na RTP, enquanto deputado do PPM, até que em 2003 os mass media anunciaram o seu passamento aos 82 anos de idade.   
 
4. Filologia & Linguística
Encontrei o Prof. Lindley Cintra já no final de vida, aquele que foi o meu Mestre de Mestres na Universidade de Lisboa, onde me iniciou no seio da Filologia e da Linguística, o estudo da linguagem nas fontes históricas antigas dos textos literários e registos escritos das diversas variantes do português e das suas congéneres românicas. Com ele aprendi que sem um conhecimento mínimo do latim e do grego, dificilmente entenderia a génese, avanço e triunfo da realidade cultural portuguesa. É que quem descura as suas origens ancestrais, empenha seriamente a sua razão de existir e dos seus.    

5. Literatura & Cultura 
Nunca perdi de vista a Prof.ª Ana Hatherly desde que a vi pela primeira vez no Príncipe Real, numa dependência da Universidade Nova de Lisboa. Sobre a minha orientadora de Mestrado e Doutoramento em Literatura e Cultura contei aqui algumas histórias que não vou repetir. Limito-me a reforçar a ideia de ser uma Mestre Prodigiosa de muitas artes e saberes, que me ajudou a olhar com olhos de ver para o Barroco. Convivemos como mestre e discípulo um quarto de século. E mais houvera se não tivesse entretanto partido para o Parnaso, o único lugar mítico que lhe pertence de direito*.

NOTAS
* No dia em que há seis anos Ana Hatherly partiu para junto de Apolo e das nove Musas, as entidades míticas inspiradoras da criação artística e científica.

19 de julho de 2020

Viagem literária por Barcelona com Carlos Ruíz Zafón na bagageira...

EL CEMENTÉRIO DE LOS LIBROS OVIDADOS

Mapa de los lugares más emblemáticos de las novelas de Carlos Ruiz Zafón

Na pista da Sombra do Vento & do Jogo do Anjo

Em junho de 2009 voei para a capital da Catalunha para participar no «Col·loqui internacional sobre les relacions entre les literatures ibèriques», organizado pela Universitat Pompeu Fabra e Universitat de Barcelona. Levava preparada a comunicação «Terceira parte portuguesa do Guzmán de Alfarache. As metamorfoses do pícaro na visão do 1.º Marquês de Montebelo». Mas mais do que desenvolver aqui o contributo novelesco de Félix Machado de Silva e Castro e Vasconcelos, um grande de Portugal e de Espanha, que preferiu manter-se fiel a Filipe IV de Castela do que aderir à causa de D. João IV de Portugal, centrar-me-ei num vulto mais recente das letras hispânicas, com dimensão global, cujas tiragens (dizem os media) só são ultrapassadas pelo Don Quijote de Cervantes.

Tudo começou no aeroporto de Lisboa, quando deparei na estante da Relay local um Guia da Barcelona de Carlos Ruiz Zafón (2008), de Sergi Doria com um prólogo de Sergio Vila-Sanjuán. O título despertou-me de imediato a atenção, não só por se referir à ciutat condal que me esperava no final da viagem, mas, sobretudo, por destacar um autor que eu tinha descoberto recentemente e me enchera as medidas de forma inusitada. Adquiri de imediato o livro, deixei a zona dos duty & tax free shops, dirigi-me a um local tranquilo da sala de trânsito e comecei logo ali a leitura, que continuei a debitar enquanto sobrevoava os ares da Península Ibérica. Ao chegar ao meu destino já tinha traçado um plano de gestão dos tempos livres que o encontro académico me deixasse.

Ocupei o primeiro dia na grande metrópole catalã a estudar o trajeto que me levaria desde o Eixample até ao campus universitário da Estació de França. O encontro com a malha urbana descrita nas páginas da Sombra do Vento e do Jogo do Anjo iniciava-se também nesta caminhada inaugural, na catedral de ferro, lugar de partida e chegada das personagens mais emblemáticas da saga. Depois, nas pausas das sessões de trabalho, segui alguns percursos pedestres do roteiro literário. Achar a livraria dos Semper, espreitar o Ateneu Barcelonès, refrescar-me na fonte Canaletas, petiscar na taberna Els Quatre Gats, beber um chocolate no Cafè de l'Òpera, passar pela Carreter de l'Arc del Teatre no encalço do Cementiri dels Libres Oblidats. Tudo um faz de conta consentido de verdades mentirosas.

Nesse 19 de junho, uma sexta-feira, entrei na Casa dell Llibre do Passeig de Gracia e adquiri o romance Marina, o primeiro centrado em Barcelona. Neste 19 de junho, uma sexta-feira, o autor morria em Los Angeles. Há coincidências difíceis de entender, especialmente quando se referem a eventos separados por mais duma década. Foi a última vez que passeei pelas ramblas da ciutat dels misteris gòtics. Tenho de lá voltar um dia destes para rever os cenários das restantes partes da tetralogia entretanto concluída, O prisioneiro do céu e O labirinto dos espíritosDar um pulo depois a Madrid, partir do Urso da Puerta del Sol, passar pela Plaza Mayor, rever os gatos e gatas que a habitam e seguir os caminhos tortuosos da ciudad reina da Meseta Ibérica, trilhados pelos Sempere & C.ª. Ya veremos...

1 de dezembro de 2019

Autonomia & Reforma

            O Jet Set do Lau            

Cartas de alforria do primeiro de dezembro...
Há precisamente um ano fui passar o dia a Sevilha. Longe de mim estava a ideia de celebrar a data em que a Casa de Bragança pôs fim à mal-sucedida Monarquia Dual, que durante seis décadas unira os destinos dinásticos de Portugal e Castela. Também não foi para gozar o feriado, dado ter caído num sábado idêntico aos demais sábados do ano. Atravessei a fronteira para festejar o meu primeiro dia de liberdade, autonomia e independência, na pele de aposentado, jubilado ou reformado. Nunca percebi muito bem o que distingue cada um destes vocábulos, mas para o caso tanto faz.

Este ano dispenso-me de comemorar o meu primeiro de dezembro no outro lado da raia. A efeméride recai agora num domingo e iria encontrar todas as livrarias fechadas, já que o prazer de encontrar um comércio local verdadeiramente diferente aberto fora do país há muito se desvaneceu em toda a União Europeia, uma federação mais alargada e pacífica de viver de facto a desejada união ibérica. Prefiro fazê-lo em casa, na tranquilidade dum dia de aniversário muito especial, sem velas a soprar, sem parabéns a cantar, sem palmas a bater, sem prendas a abrir e sem palavras a agradecer.

À distância dos anos, muitos seriam os episódios dignos de registo escrito para memória futura. Fico-me com a lembrança dum projeto singular sintetizado na sigla GADES, i.e.Graças a Deus é Sexta. Realizava-se invariavelmente na cervejaria Palhacinho, destinava-se a celebrar o início do fim de semana e constituía o único momento autorizado para cortar na casaca dos colegas ausentes. Uma tarde fartámo-nos de dizer mal sempre dos mesmos e adiámos sine die as sessões académicas informais da saudável catarse grupal. Foi pena, porque o riso partilhado nunca fez mal a ninguém.

Num tempo em que a investigação se resume em grande parte à pro-dução a quilo, metro e litro de papers mal-alinhavados que todos se sentem obrigados a escrever e poucos se sentem motivados a ler, é bom virar-lhes as costas e dirigir o olhar para outros desafios mais in-teressantes de concretizar. Resolvi vir de vez em quando a este espa-ço de histórias e voltar-me para o dia-a-dia do Lau. Assumir o papel de avô em full time ou perto disso. Embarcar no jet set da imaginação e voar por aí fora. A viagem é de longo curso e já ruma a um destino que se perde para além na linha visível do horizonte.