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9 de setembro de 2021

Haruki Murakami, os meses de outubro a dezembro do ano de 1Q84-3

「天吾は座り心地の悪い椅子の上で、その画像を熱意もなく目で追いながら、『空気さなぎ』のことを考えた。その文章を実際に書いたのが自分であることを、安達クミは知らない。しかしそれはどうでもいい。問題は空気さなぎについて具体的に細密に描写しながら、天吾自身はその実体についてほとんど何も知らないということだ。空気さなぎとは何か、マザとドウタとは何を意味するのか、『空気さなぎ』を書いていたときにもそれはわからなかったし、今でもわからない。にもかかわらず、安達クミはその本を気に入って、三度も読み返している。どうしてそんなことが起こり得るのだろう?」
村上春樹, 「1Q84-3」(2010) 

A viagem do olhar pelo derradeiro painel do retábulo, esquissado por Haruki Murakami no livro 3 (outubro-dezembro) do 1Q84 (2010), chegou ao fim e, com ela, o tríptico verbal revelado nas 1450 páginas que lhe serviram de tela. Muitas das propostas genéricas sugeridas nas etapas anteriores confirmaram a sua presença estrutural efetiva e até agregaram outras hipóteses desenvolvidas neste enigmático mundo-com-um-ponto-de-interrogação. O insólito continua inalterado de cabo a rabo, num percurso gizado entre o universo natural do Estranho e o sobrenatural do Maravilhoso, reduzindo ao mínimo indispensável algumas das hesitações do Fantástico definidas por Tzvetan Todorov*. Para Umberto Eco**, em contrapartida, seria a exemplificação dum cenário alotópico perfeito, i.e., aquele em que se passam coisas inexplicáveis pela ciência mas perfeitamente possíveis pelo poder criativo da imaginação.

O desenho triangular das histórias da amor e aventuras peregrinas é tão antiga como a própria ficção helénica de feição novelesca. Assim o dão a entender os mais antigos fragmentos anónimos que até nós chegaram, conhecidos por Nino e Semíramis (séc AEC), em honra dos protagonistas histórico-lendários identificados, depois canonizados no Quéreas e Calírroe de Cáriton de Afrodísias. O encontro-desencontro-reencontro de Aomame e Tengo não fogem a este esquema matricial, podendo perfeitamente figurar no título da trilogia nipónica atual. Os ingredientes paulatinamente explanados em cada um dos livros/tábuas considerados, pautados pelo amor à primeira vista da infância, os obstáculos sentidos na adolescência e a reunião dos dois na maturidade, remate lógico simbolicamente situado num parque infantil de Tóquio.

O caráter compósito do texto afirma-se ainda mais na sua reta final. Quando julgávamos que o destino dos heróis estava traçado, surge a figura sinistra de Ushikaw - o detetive particular trazido da Crónica do pássaro de corda (1994-95) - a retardar o happy end esperado. A passagem de antagonista subalterno a anti-herói com direito a título de capítulo faz-se sem aviso prévio. O ambiente de thriller entra em cena, numa tentativa de encontrar o fio da meada perdido num labirinto de mistérios insondáveis. A menção aos sete tomos do Em busca do tempo perdido de Marcel Proust, à África minha de Isak Disen/Karen Blixen ou a A cidade dos gatos de Sakutarō Hagiwara, vêm demonstrar que a literatura pode ser tida com um grande rio onde afluem as águas oriundas de muitas fontes, a que podemos associar o poder unificador da música. Tal o caso da Sinfonietta de Janáček, mas também as composições de Mahler, Haydn, Bach, Vivaldi ou Sibelius, para só falar em alguns dos clássicos citados.

Mais do que as memórias dinesianas ou da recuperação proustiana dos vinte anos perdidos pelo casal murakamiano, a visão orwelliana atua como um mise en abyme, um romance dentro do romance,  i.e., do 1984 no 1Q84. O desconhecimento pessoal da realidade japonesa impede-me de me alargar muito a esse respeito, mas a violência doméstica, as seitas religioso-políticas, a intolerância ortodoxa, a solidão coletiva numa grande metrópole e os fundamentalismos de toda a espécie são temas universais nos nossos dias. A distopia inglesa remete para um avanço espácio-temporal de 1/4 de século sobre a data da sua publicação, a distopia nipónica procede a um recuo simétrico de 1/4 de século da sua mutação numa ucronia peculiar, que se pode arrastar até aos nossos dias, o da escrita do roman-fleuve e o da leitura do mesmo.

Muito fica por dizer sobre esta metáfora global da alienação urbana à procura duma utopia rural, da alucinação onírica a alternar com uma. lucidez real, da fantasia delirante ao factual quotidiano. Lacunas que deverão ser colmatadas com a leitura atenta das histórias contadas, a nuclear e as encaixadas, as próprias e as alheias, as começadas num in medias res estratégico e deixadas por terminar num open ending imaginárioA inclusão numa fábula pós-moderna d'A crisálida de ar - a composta por uma jovem disléxica de 17 anos e convertida num bestseller pela reescrita formal dum romancista praticante de 30 - ajuda-nos a decifrar a feição exotérica do oculto, convocada na sua totalidade pelo caráter alegórico da relato triádico. A cabra morta a simbolizar a passagem do povo pequeno das nina (filhas) e das (mães), do mundo paralelo e das duas luas, para o mundo concreto da lua solitária observável num céu sem nuvens. Lidos os livros, venham muitos mais a oferecer-nos viagens num universo sem fronteiras físicas, sem entradas/saídas bloqueadas a separar-nos uns dos outros, sem as barreiras visíveis/invisíveis a limitarem o sonho que comanda a vida.

NOTA
(*) Tzvetan Todorov, Introdução à literatura fantástica. Lisboa: Moraes Editores, 1977.
(**) Umberto Eco, «Os mundos da ficção científica», IN Sobre os espelhos e outros ensaios. Lisboa: Difel, 1989.
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EPÍGRAFE
«Sentado no assento pouco confortável, enquanto seguia as imagens sem deixar transparecer no seu olhar qualquer espécie de entusiasmo, Tengo deu por si a pensar n'A Crisálida de Ar. Kumi Adachi desconhecia até que ponto ele participara na redação do livro, mas isso não tinha importância. O problema era que ele mesmo, apesar de ter descrito a crisálida de ar com um pormenor considerável, não sabia quase nada acerca dela. Quando se pusera a reescrever o romance, não fazia a mínima ideia do que era a crisálida de ar, nem o que  significavam "mã" e "nina", e continuava sem saber. Ainda assim, Kumi Adachi gostara do livro e tinha-o lido três vezes. Como era possível?»
Haruki Murakami, 1Q84-3 (Lx, CdL: 9, 160)

20 de agosto de 2021

Haruki Murakami, os meses de julho a setembro do ano de 1Q84-2

「天吾はもう一度目を閉じ、深呼吸をし、頭の中に適切な言葉を並べた。言葉の順序を入れ替え、イメージをより明確なものにした。リズムをより的確なものにした。
 彼は真新しい八十八個の鍵盤を前にしたウラジミール?ホロヴィッツのように、十本の指を静かに空中に波打たせた。それから心を定め、ワードプロセッサーの画面に文字を打ち込み始めた。
 夕暮れの東の空に月が二個並んで浮かんだ世界の風景を、彼は描いた。そこに生きている人々のことを。そこに流れている時間のことを。」
村上春樹, 「1Q84-2」(2009)
O clima ameno e o desabrochar da flor de cerejeira, enquadradores do painel primaveril pintado por Haruki Murakami no 1Q84 (2009), dão lugar ao calor e à humidade da temporada estival das chuvas. Aos meses de abril-junho do livro 1 seguem-se os meses julho-setembro do livro 2, publicados a poucos dias um do outro e a 1/4 de século da ação nuclear narrada no romance. O início das aulas mantém o seu percurso natural até alcançar o período de férias e a saga continua a um ritmo cada vez mais rápido, mas sem nos dar grandes pistas sobre o desenlace a operar-se no derradeiro trimestre do retábulo. As expetativas são grandes, como previsto, a comprovar por a+b a arte encantatória do grande mestre das letras nipónicas.

Lidos os livros, o intento de detetar um género novelesco único resulta num ato falhado. À imagem do ecletismo nascido com a revolução romântica, as regras dogmáticas impostas pelas poéticas clássicas são sistematicamente questionadas e postas em causa. O estrito respeito a um paradigma histórico ou teórico inviolável é ignorado e a liberdade criadora de formas complexas abre caminho inevitável à diversidade compositiva. As múltiplas correntes, tendências e movimentos literários pós-modernos não fogem a esta predisposição pluralista, sobretudo as ideadas após a queda do Muro de Berlim (1990) e da falência das ideologias reguladoras das sociedades humanas de pendor mais ou menos utópico.

O vocábulo estranho continua a ser um dos mais usados no relato, mas a originar hesitações frequentes no deslinde das singularidades descritas. O equilíbrio fantástico do natural/sobrenatural sofre uma grande instabilidade explicativa, até exigir a presença de novas leis desconhecidas da ciência para lograr uma compreensão total dos fenómenos observados, inserindo-se assim no universo maravilhoso da imaginação. O insólito deixa de ser visto como fruto dum enigma ocorrido no passado (causa) e passa a ser encarado como o ponto de partida dum mundo futuro distinto (efeito), com as duas luas a iluminarem o céu de amarelo e verde, com o povo pequeno a ocupar os nossos sonhos e pesadelos, com as crisálidas de ar a criarem as ninas como substitutas das mãs. O ano ordinário de 1994 perde a unicidade espácio-temporal e abre as portas de par em par ao ano extraordinário de 1Q84. Os protagonistas aceitam-no com reservas, os deuteragonistas olham-no sem pestanejar e penetramos no Realismo Mágico, em cujo seio a realidade é apenas uma

A técnica da narrativa alternada, comum à matriz romanesca antiga greco-bizantina, mantém-se inalterada, sequenciando os amores e aventuras de Aomame (capsímpares) e Tengo (capspares) de modo pendular e encadeado. As sínteses periódicas dos percursos de vida dos dois jovens recordam-nos o seu encontro fortuito aos dez anos de idade, logo seguido duma longa separação de duas décadas provocada pela força das circunstâncias, de se terem apercebido já adultos estarem apaixonados um pelo outro e de precisarem dum reencontro final para garantirem uma trajetória existencial comum. Os obstáculos/provas exigidas pelo modelo helénico referido terão o seu apogeu espectável no livro 3 da trilogia, para que o canónico happy end marque também ele a sua presença, tal como desejamos. As condições estão criadas, as dificuldades a superar avolumam-se, a vontade de vencer é incomensurável. As expetativas de leitura são mais fortes do que nunca. As funções catártica, estética e cognitiva da literatura está cumprida.

EPÍGRAFE
«Tengo voltou a fechar os olhos, respirou fundo e ordenou na sua cabeça as palavras que lhe faziam falta. Trocou-lhes a ordem  para que a imagem ganhasse mais nitidez e uma outra precisão. Por fim, afinou o ritmo.
À medida de Vladimir Horowitz diante das oitenta e oito teclas de um piano acabado de estrear, arqueou lentamente os dez dedos no ar. Assim que se sentiu pronto, desatou a teclar com determinação os carateres, até encher o ecrã do computador.
Descreveu um mundo onde, ao cair da noite, a oriente, duas luas apareciam suspensas no céu. As gentes que ali viviam. A passagem do tempo.»
Haruki Murakami, 1Q84-2 (Lx, CdL: 4, 92)

26 de julho de 2021

Haruki Murakami, os meses de abril a junho do ano de 1Q84-1

 
青豆はそのあとたまたま「渚にて」という映画をテレビの深夜放送で見た。一九六〇年前後につくられたアメリカ映画だ。アメリカとソビエトとのあいだで全面戦争が勃発し、大量の核ミサイルがトビウオの群れのように大陸間を盛大に飛び交い、地球があっけなく壊滅し、世界のほとんどの部分で人類が死に絶えてしまう。しかし風向きかなにかのせいで、南半球のオーストラリアだけにはまだ死の灰が到達していない。とはいえそれがやってくるのは時間の問題である。人類の消滅は何をもってしても避けられない。生き残った人々はその地で、来るべき終末をなすすべもなく待っている。それぞれのやり方で人生の最後の日々を生きている。そんな筋だった。救いのない暗い映画だった(しかし、それにもかかわらず、誰もが心の奥底では世の終末の到来を待ち受けているものだと、青豆はその映画を見ながらあらためて確信した)。
村上春樹, 1Q84-1(2009)

Uma trilogia, terceto ou tríptico é um grupo de três obras que guardam algo de comum entre si, formando uma unidade temática. Já li o livro 1 (abril-junho) concebido por Haruki Murakami no 1Q84 (2009) e tenho também à minha frente os demais tomos da série romanesco, ciclo heroico ou drama utópico. Estou ansioso por saber o que têm para me dizer, a fim de concluir o que os meses desse misterioso mundo-com-um-ponto-de-interrogação me revelaram até agora nesta fábula orwelliana dos nossos dias. É que se atendermos no facto do número nove e da letra Q se pronunciarem em japonês do mesmo modo, kyū, então o 1984, várias vezes referido no texto, surge-nos logo na mente. É o que as tradutoras da edição portuguesa da Casa das Letras anotam em pé-de-página. Por outro lado, o quê de nove maiúsculo poderá ainda representar, como afirma a criadora interna do termo, o Q inicial da expressão Question mark [Q/q>?], o diacrítico usado para pontuar uma realidade carregada de enigmas, à imagem deste roman-fleuve, cujo caudal flui por três correntes, braços ou afluentes narrativos de longo curso, desde a nascente até à foz.

Lidos os livros mais emblemáticos do autor nipónico, tropeçamos a cada passo com muitos traços estruturais e temáticos comuns, unidos quase todos pelo insólito dos cenários reportados numa prosa poética única. O Estranho predomina no primeiro painel do retábulo pintado com palavras nas duas histórias cruzadas que partilham entre si a trama, a revelar um Fantástico sugerido pelas hesitações sentidas pelas personagens e a apontar para um Maravilhoso ainda incipiente. O universo teórico de Tzvetan Todorov* volta à ribalta em grande estilo. O sumiço súbito duma figura fulcral do Sputnik, meu amor fica por clarificar até ao final do relato, deixando-nos na fronteira do natural/sobrenatural, gizando a tese do refúgio num espaço paralelo ao nosso. A possibilidade dum mundo análogo à chuva de peixes e sanguessugas ou à comunicação oral com gatos ou mental com um cão e uma pedra no Kafka à beira-mar está ausente, mas as alusões a uma cabra cega, a um Povo Pequeno, a uma crisálida de ar ou as duas luas no céu prometem algumas singularidades futuras.

Os diálogos travados pelos interlocutores saltam do cinema para a música, da literatura para a matemática, da história para a ciência, da política para a religião, da economia de mercado para a planificada. A referência a carros, roupas, bebidas, tabacos, perfumes de marca pulula sem parar. Os monólogos interiores a itálico dos protagonistas com direito a título de capítulo convivem com o registo a negrito de frases-chave dos deuteragonistas ditas em momentos especiais da ação. Referem-se a atos de bullying, violação, maus-tratos, abusos sexuais e violência doméstica, crimes hediondos contra as mulheres em geral e as meninas em particular, a merecerem um castigo exemplar. Alude-se ainda num ritmo crescente ao poder totalitário e repressivo duma Vanguarda e dum Amanhecer, comunas secretas, alegadamente rurais, que parecem ligar de modo indelével todos os fios da meada usada na urdidura discursiva. Como se insinua no texto, o mundo distópico liderado pelo Big Brother no 1994 de George Orwell a ser atualizado em 1994 no mundo alotópico povoado pelo Little People do 1Q84 e imaginado à maneira de Umberto Eco**.

Este romance pós-moderno, que nos fala doutros romances ideados em épocas distintas, remete-nos grosso modo para o âmbito tripartido do romance antigo greco-bizantino de amores e aventurasAomame e Tengo encontram-se aos dez anos, perdem-se de vista nas duas décadas seguintes e continuam à espera dum reencontro final ainda por efetivar que sele a paixão sentida secretamente um pelo outro. A dar crédito no San Francisco Chronicle, como eu dou, a escrita do eterno candidato japonês ao Nobel da Literatura cria dependência. Vejamos se a leitura do segundo volume me desperta tanta vontade de pegar no terceiro, como o final deste primeiro me aguçou o apetite de degustar os episódios seguintes da saga peregrina do professor de matemática com aspirações a romancista e escritor-fantasma d'A Crisálida de Ar e da professora de artes marciais e assassina em série nas horas vagas.    

NOTA
(*) Tzvetan Todorov, Introdução à literatura fantástica. Lisboa: Moraes Editores, 1977.
(**) Umberto Eco, «Os mundos da ficção científica», IN Sobre os espelhos e outros ensaios. Lisboa: Difel, 1989.
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EPÍGRAFE
«Depois daquela conversa, calhara Aomame ter visto na televisão A Hora Final, numa emissão durante a noite. Tratava-se de um filme norte-americano produzido e realizado por volta de 1960. Estalara a guerra global entre os Estados Unidos e a União Soviética, o planeta assistia à troca de numerosos mísseis nucleares que se cruzam entre ambos os continentes como um bando de peixes voadores no céu. A Terra estava à beira da destruição e os seres humanos iam desaparecendo em quase todas as partes do mundo. Por qualquer razão desconhecida, talvez devido à direção do vento, quem sabe?, as cinzas radioativas da morte não chegam à Austrália, no hemisfério sul, razão pela qual aí ninguém morre disso. No entanto trata-se apenas de uma questão de tempo. A extinção da raça humana é inevitável. É impossível travá-la. Os sobreviventes aguardam o fim que os espera, sem que nada possam fazer. Cada um passa os últimos dias de vida como pode. O argumento era mais ou menos assim. Um filme negro e triste em que não se vislumbra salvação. (Apesar de tudo, ao vê-lo, Aomame convenceu-se de que, no fundo, todos esperamos, com o coração nas mãos, a chegada do fim do mundo).»
Haruki Murakami, 1Q84-I (Lx, CdL: 11, 213-214)