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24 de outubro de 2022

Ildefonso Falcones e a crónica da rainha descalça

«"La Descalza." Ese fue el apodo con el que los mosqueteros del Coliseo del Príncipe terminaron bautizando a Milagros. La gitana se negó a vestir los mis-mos trajes que lucían Celeste y las demás damas de la compañía. [...Aceptó, sin embargo, sustituir sus sencillas prendas por las vestimentas de las manolas madrileñas: jubón amarillo ajustado al talle, sin ballenas, falda blanca con volantes verdes, larga casi hasta los tobillos, delantal, pañuelo verde anudado al cuello y cofia recogiendo su cabello. De lo que nadie logró convencerla fue de que se calzase. "Nací descalza y moriré descalza", afirmaba una y otra vez.»
Ildefonso Falcones, La reina descalza (2013: IV, 30,517)

Gosto de histórias que tenham um princípio, meio e fim bem limitado, sem grandes interrupções de permeio, a trocarem as voltas aos sentidos do texto e a perturbarem o prazer da leitura. Pouco importa que caiam no domínio do bestseller internacional. Assim eu goste da forma como contam os factos acontecidos, sejam eles verídicos, verosímeis ou visionários. Encontrei um hipotético candidato a este modo de relatar imitações de vida numa visita despreocupada ao Corte Inglês de Lisboa. Lá encontrei uma capa sugestiva a chamar por mim através da reprodução dum abanico com motivos barrocos, encimado pelo nome sonante dum autor conhecido de outras aventuras literárias e um título insinuante  acenar-me. Foi assim que peguei num exemplar volumoso de Ildefonso Falcones e trouxe para casa a crónica de duvidosa aristocracia d'A rainha descalça (2013).

A obra descoberta por acaso na secção dedicada às letras hispânicas atuais dum grande armazém citadino foi-se-me revelando pouco a pouco, à medida que percorria as suas quase sete centenas e meia de páginas bem contadas numa edição de bolso, i.e., como um megarretábulo de pequenas e grandes intrigas, tecidas em seis painéis maiores do políptico e enquadradas em cinquenta tábuas menores da representação pictórica urdida com palavras pintadas. A dar coesão à tessitura narrativa, encontramos a presença central de duas mulheres, cujo percurso de vida nos é traçado com todo o rigor exigido pela arte da escrita, fragmentos existenciais dum tempo pretérito escolhidos para serem lidos com todos os sentidos bem dispersos. São elas Milagros, a cigana de Triana que durante uma temporada reinou descalça no Coliseo del Príncipe de Madrid, e Caridad, a ex-escrava negra de La Habana desembarcada à aventura solitária no porto de Cádiz.

A receita seguida para garantir um sucesso editorial de vendas junto dos leitores é tão difícil de identificar como encontrar o paradeiro da pedra filosofal ou descobrir a fórmula alquímica do elixir da longa vida. Em termos literários, varia de autor para autor, de obra para obra ou da ação não programada do mero acaso. Neste caso preciso, parece ser fruto duma feliz estratégia seguida pelo advogado e escritor catalão de conjugar as técnicas discursivas do romance com as temáticas que lhe dão corpo. Para pôr a nu as rivalidades ancestrais dos Vegas e Garcías andaluzes, recorre à linear estrutura encadeada, distribuída de modo alternado pelas sequências centrais/laterais dos eventos narrados. Salta duns para outros a um ritmo constante, deixando em suspenso uma ou outra situação a exigir uma resposta imediata, com o intuito de aguçar no leitor uma expectativa que só será resolvida à boa maneira folhetinesca nos capítulos seguintes, depois de vencidos todos os encaixes episódicos surgidos no percurso.

Quando li A catedral do mar deste mesmo criador de relatos fingidos como se fossem reais, fiquei com vontade de regressar a Barcelona para entrar no templo que dava um título ao livro. Ainda não o fiz. Agora fiquei com vontade de regressar a Sevilha, atravessar a sucessora da Ponte das Barcas e penetrar de vez em Triana que mal conheço. Pisar com os meus pés calçados o chão que os pés descalços dos ciganos pisaram durante a Grand Redada de 1749, quando Fernando VI os tentou exterminar dos reinos de Espanha. Projeto inglório, porque essa gente malquista de ferreiros, oleiros, e artesãos lograram sobreviver a todas as pragmáticas genocidas que lhes foram movidas. Até hoje. Ficou-lhes a fama de contrabandistas, de libertinos, párias e brigões, de vadios sem eira nem beira ou atividade laboral definida, mas também a de exímios tocaores, cantaores e bailaores de flamenco, género musical que ajudaram a criar e a transformar numa das imagens de marca mais conhecidas da alma hispânica. Só por esse facto, terá merecido a pena viajar pelos muito fólios desta saga duma raça, através das figuras plasmadas numa tela pintada com palavras que nos remete para uma magnífica deusa, um canto de sangue, uma voz da liberdade, uma paixão contida, uma voz quebrada e uma queixa de galera.

22 de novembro de 2017

Ildefonso Falcones e as gestas, sagas e crónicas dos herdeiros da terra

«—Pues eso es lo importante en esta vida: a ninguno nos complace la humillación o la sumisión; el problema es saber cómo escapar de ellas.»
Ildefonso Falcones, Los herederos de la tierra (2016)
Os recentes acontecimentos vividos na Catalunha apanharam-me a meio da leitura dum livro centrado na Barcelona medieval e nos problemas que o Principado teve de enfrentar após a morte de Martim I (1410) sem deixar um sucessor legítimo. Extraordinária coincidência esta, a de cair por acaso nos capítulos que tratam das deliberações do Compromisso de Caspe (1412), aquele que entregaria a Coroa de Aragão a Fernando de Antequera, um infante de Castela da Casa de Trastâmara, em detrimento dos restantes candidatos, os condes de Luna e de Urgel e os duques de Calábria e de Gândia. A recreação literária de factos acontecidos e fantasiados apareceu-me associada num evento registado pelas crónicas coevas do início do século XV com repercussões muita vivas no início do XXI. Uma independência que se começava então a perder e que se pretende agora recuperar. De modo involuntário, Ildefonso Falcones conseguiu elucidar-me da fisionomia histórica do país que o viu nascer e tão bem tem sabido descrever nas páginas dos romances que lhe tem dedicado, como será o caso deste que acabo de visitar, Os herdeiros da terra (2016).

As velhas usatges, ou costumes e normas de funcionamento próprios dos condados catalães, estabelecidos nos tempos da rainha Petronila de Aragão e do conde Ramon Berenguer IV de Barcelona, são frequentemente referidos ao longo das quase novecentas páginas que compõem a obra. Entre janeiro de 1387 e setembro de 1423, o cronista do relato põem-nos ao corrente dos percursos de vida chamados à liça pelos eixos centrais e laterais da trama narrativa. Cerca de quatro décadas de destinos cruzados na teia urbana medieval da Cidade Condal, tendo como cenários privilegiados as ruas e ruelas, praças e ramblas que a formam e conformam, em conventos e mosteiros, palácios e casebres, igrejas e capelas, hospitais e hospícios, caves e tabernas, masias e castells, em ambiente aristocrata e popular, em espaços públicos e privados, nas judiarias e no burgo cristão em geral, sempre à sombra das grandes instituições reais e principescas do Consell de Cents, das Corts Generals, do Consulat del Mar e da Generalitat.

O novo bestseller das letras hispânicas foi apresentado aos seus potenciais leitores como uma continuação da saga de Arnau Estanyol, o bastaix que ajudou a construir a basílica de Santa Maria, A catedral do mar. Essa notação editorial encontra-se registada na contracapa da obra, que pouco mais avança sobre o enredo, que nos será transmitidos à medida que a ação vai sendo revelada. Os episódios sucedem-se uns aos outros a um ritmo vertiginoso. Falam-nos do mar e da terra, da lealdade e da traição, da vingança e do amor, da dor e da justiça, arrumados aos pares, nas quatro partes da vida de Hugo Llor, o herói da fábula e representante por excelência d'Os herdeiros da terra. Escravos e libertos, mouros e judeus, camponeses e vilões, conversos e contumazes, arraia-miúda e pés-descalços. Nada mais. A nobreza aragonesa, valenciana e catalã, associada à maiorquina e siciliana, assume o papel ingrato de má-da-fita. A plebe sem nome de família destes mesmos reinos e principado acaba por assumir o papel devido de vencedora de todos os conflitos postos em jogo.

O real e o imaginário cruzam-se neste relato de relatos, individuais e coletivos, nesta crónica dum tempo pretérito cujos ecos longínquos lograram chegar aos nossos dias, cujo legado se concentra na demanda sem tréguas pela liberdade. Esse o sonho do protagonista, aquele que o fez desempenhar ao longo dos anos de infância, jovem e adulto os ofícios de moço de recados dos estaleiros militares e privados, moço de gateiro caçador de ratos, leiloeiro e corretor de vinhos, vinhateiro ganhão, adegueiro condal e real, jornaleiro e taberneiro, para além de cúmplice de corsário e espião de estado. Descreve um percurso existencial muito próximo do traçado pelos pícaros literários dos séculos de ouro peninsulares. Sobrevive a todas as dificuldades que o destino lhe oferece e logra sempre sair por cima. Exemplarmente. As guerrilhas de interesse entre Bernat Estanyol e Roger Puig chegam ao fim com a morte dos dois. Só o núcleo familiar de Hugo Llor sobrevive a ventos e marés da fortuna. Preparado para dar continuidade a uma nova sequela, a publicar, quiçá, dentro duma dezena de anos, para deleite dos leitores e proveito dos editores.

19 de setembro de 2016

Ildefonso Falcones, a catedral do povo e de Santa Maria do mar

«―Esto no es una catedral ―oyeron a sus espaldas. Arnau y Joanet se miraron y sonrieron. Se volvieron e interrogaron con la mirada a un hombre fuerte y sudoroso cargado con una norme piedra a sus espaldas. ¿Y qué es?, parecía decirle Joanet sonriendo―. La catedral la pagan los nobles y la ciudad; sin embargo esta iglesia, que será más importante y más bella que la catedral, la paga y la construye el pueblo.»
Ildefonso Falcones, La catedral del mar (2006)
livros que estão particularmente talhados para viajar debaixo do braço. O tamanho pouco importa. Em período de férias, levamo-los para onde e quando queremos sem ter de dar satisfações a ninguém. Depois, abrimo-los de par em par e passeamos descontraidamente pelas histórias depositadas no seu interior. Ildefonso Falcones facultou-me inadvertidamente essa oportunidade este verão. Cruzei-me com La catedral del mar (2006) a caminho de Madrid. Antes de chegar ao terminal de Atocha, já estava entregue aos fascínios de Barcelona revelados no bestseller que viera ter ao meu encontro na pequena livraria de gare de Santa Justa de Sevilha destinada aos passageiros em trânsito ou compasso de espera. Fizera-o no momento exato determinado pelo acaso, aquele em que os mais dados aos mistérios virtuais do transcendente apostrofam de fado, fortuna, sina ou sorte. Terei sido, com toda a certeza, um leitor mais a acrescentar aos seis milhões doutros já rendidos à obra de estreia dum autor na primeira década da sua apresentação ao público. Feito este tido como ímpar e por isso mesmo comemorado agora com toda a pompa e circunstância usadas em casos que tais.

As seis centenas e meia de páginas corridas em que se espraia o fluir dos eventos convocados respeitam a linha cronológica em que ocorreram. Tudo se inicia em 1320 e termina 1384, período de tempo que abarca a construção a expensas do povo chão da basílica gótica de Santa Maria del Mar (1329-1383), o maior templo à data da cidade condal e que empresta o nome ao romance. O Principado da Catalunha transforma-se no centro catalisador de todo o relato, com um predomínio avassalador da capital e sede de cortes. Ruas e ruelas, praças e pracetas, casas e casebres, palácios e mansões, alternam entre si como cenários dos dramas vividos pelos seus habitantes. Nobres, fidalgos e arraia-miúda, cristãos, mouros e judeus, genoveses, castelhanos e outros mais. O fio condutor segue, todavia, no encalço de Arnau Estanyol, filho dum Bernat e pai dum outro, concebido como uma saga familiar, enquadrada no contexto medieval de Jaime II, Afonso IV e Pedro IV de Aragão. O conjunto dos sucessos narrados repartem-se por quatro fases de servidão a outras tantas realidades distintas ou a atos da peça em curso: a gleba, a nobreza, a paixão, o destino. No final, todos os conflitos se resolvem e abrem caminho para uma primeira sequela, já disponibilizada aos espetadores ansiosos de mergulharem de novo nos meandros labirínticos da lealdade e vingança, traição e amor, guerra e peste, criados pelo encenador consagrado das letras hispânicas atuais. E assim a história se faz novela.

Uma leitura ingénua ou ligeira dos factos poder-nos-ia levar a considerar o percurso existencial do protagonista como a dum genuíno pícaro pré-renascentista, composto no processador de texto pós-modernista por um advogado com alma de escritor nos tempos livres que a atividade forense lhe foi dando ao longo de quase cinco anos. Filho duma prostituta com fama de bruxa e dum assassino enforcado pela justiça, vê-se obrigado a trabalhar, desde muito jovem, como palafreneiro, estivador, soldado, cambista, cônsul e comerciante. Conhece a fome, os maus tratos físicos, um casamento infeliz. Para se tornar num Lazarillo de Tormes completo, só lhe faltaria trilhar os sendeiros da represália sistemática aos sucessivos volte-faces da Fortuna. Dir-se-ia estarmos na presença dum frequentador exemplar da hampa que os Séculos de Ouro peninsulares nunca reconheceriam como verosímil ou credível. A intolerância religiosa, a ambição material e a segregação social são incapazes de contagiar o herói da efabulação que, deste modo, lhe garante o estatuto inabalável de antipícaro exemplar. A sua fidelidade a Santa Maria do Mar, a cuja proteção se entregou toda a vida, garantem-lhe um final feliz, a ventura de se voltar a casar e a garantir a descendência exigida numa gesta imaginária de gente anónima a ombrear com as gestas reais de filhos-de-algo com direito a registo nas crónicas oficiais para memória futura. Em literatura como em historiografia, as linhas paralelas são as únicas que as tecem e lhes dão sentido. Estão sempre a olhar-se e nunca se tocam. Só na linha do horizonte é que se fundem. Ilusão própria dos pontos de vista de quem as observa.

22 de agosto de 2016

Zafón & Falcones: sagas e sequelas da cidade condal

Portal da Basílica de Santa Maria del Mar de Barcelona


«Hay um libro que nunca olvidarás» y «la historia se hace novela»
(Zafón & Falcones)

O diário de bordo que guardo na memória regista uma visita ocasional de alguns dias à capital da Catalunha em junho de 2009. Um encontro académico levou-me a revelar ali a minha interpretação das metamor-foses portuguesas dum pícaro andaluz famoso. Em trânsito pelo aeroporto da Portela, descobri no escaparate da Relay um Guia da Barcelona de Carlos Ruiz Zafón (2008)preparado por Sergio Doria com prólogo de Sergio Vila-Sanjuán. Logo por baixo do título, os editores da Planeta informavam destinar-se a desvendar os segredos da cidade feiticeira através dos olhos do escritor e dos cenários dos seus romances Marina, La sombra del viento e o Juego del Ánjel. Achei a proposta interessante para ocupar as pausas previstas entre conferências e adicionei o roteiro literário à bagagem de mão. Explorei-o in loco até às últimas sugestões facultadas.

Em meados deste mês de agosto, a exposição de 5.º centenário de Bosch organizada pelo museu do Prado chamou-me a Madrid. Enquanto aguardava a ligação Ave ao meu destino final, respondi ao apelo que mais uma vez a Relay me fazia agora dum dos extremos da estação ferroviária de Santa Justa em Sevilha. Depois de ter folheado as revistas geralmente solicitadas por quem passa por estes compassos de espera e de ter recusado liminarmente as propostas de livros de consumo imediato expostas, deparei-me com um título familiar dum texto desconhecido. Lembrei-me de o ter visto de relance na Casa del Libro do Passeig de Gràcia em Barcelona. Tratava-se de La catedral del mar (2006), de Ildefonso Falcones. Na altura resisti ao seu chamamento. O impulso agora foi mais forte e agarrei-me com ambas as mãos à versão de bolso do romance.

Êxitos mundiais à escala global, os dois autores catalães têm sabido fazer render a fruta e criado nos leitores a dependência pelas histórias contadas em forma de saga, logo seguidas dum número crescente de sequelasCarlos Ruiz Zafón já compôs três painéis d' El cementerio de los libros olvidados, a que juntará em breve um quarto ainda no segredo dos deuses. Ildefonso Falcones só agora passou à primeira continuação da série. Sairá no final do mês com a designação promissora de Los herederos de la tierraOs milhões de exemplares vendidos pelos dois fabricantes de bestsellers não me deixaram indiferente. Fiquei rendido à obra inaugural do primeiro e estou entregue à do segundo. Tudo leva a crer que me manterei fiel tanto a um como a outro. ¿Por que no?. Assim me levem de novo às ruelas da cidade condal que os inspirou. A ver vamos...