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5 de maio de 2025

Del conclave del collegio cardinalizio e dalla fumata bianca all'habemus papam

L'Habemus Papam per l'elezione di Martino V, 1415
[Chronik des Ulrich Richental]
«... Pietro Spano, lo qual giù luce in dodici libelli...»
[Quarta Parte - Cielo del Sole: anime dei saggi, (XII, 45, 2-3)]

Rezam os anais vaticanos ter um dos diletos servos portugueses em Cristo ocupado o trono de São Pedro de 1276 e 1277, num total de 242 dias. Digamos que em 2000 anos de devir histórico se tratar dum número assaz parco. O 187.º Papa recebeu na pia batismal o nome de Pedro Julião, no mundo académico o de Pedro Hispano e no pontifício o de João XXI. Visitei o seu túmulo na catedral de São Lourenço em Viterbo, cidade que o elegera em conclave e o vira finar vítima dum desmoronamento no palácio apostólico onde então residia.

Vistas bem as coisas, se a um cidadão português nascido em Lisboa é dado o apelido de Hispano, o mesmo nos é lícito dizer dum Lusitano nascido em 305 na antiga Egitânia e atual Idanha-a-Velha. É verdade que, à época, a Civitas Igæditanorum ainda integrava a Província da Lusitânia do Império Romano, facto de modo algum impeditivo de considerarmos São Dâmaso como o mais antigo papa português, por ter vindo ao mundo num território nacional, aquele que exerceu as funções de 37.º Sumo Pontífice Católico de 364 a 384.

Um critério similar não podemos aplicar a Maurício Bourdin, eleito papa em 1118 pelos cardeais gibelinos afetos ao Sacro-Imperador Romano-Germânico Henrique V, com o nome de Gregório VIII, depois de ter exercido as funções de Bispo de Coimbra e Arcebispo de Braga, e sido o reorganizador do Condado Portucalense no tempo de Henrique de Borgonha. É que além de ser originário do Limousin, no Ducado da Aquitânia, acabou por ser destituído das suas funções pontifícias em 1121, sendo relegado para a categoria de antipapa.

Os 133 cardeais eleitores preparam-se para nomear em conclave o 269.º Papa da Igreja Católica, entre os quais se contam 4 portugueses aptos a ocupar a Sede Vacante. A chaminé mensageira do escrutínio já está colocada no telhado da Capela Sistina e os mirones habitais começam a colocar-se em lugares estratégicos para testemunhar a passagem da fumata nera para a bianca, conducente à proclamação solene do ritual habemus papam na varanda central da Basílica de São Pedro. A ver vamos, para que depois the show must go on.

EPÍGRAFE
«... Pedro Hispano, cujo espírito, na Terra, brilha nos seus doze livros...»
Dante Alighieri, Divina Comédia - Paraíso, 1321
[Quarta Parte - Céu do Sol: alma dos sábios. (XII, 45, 2-3)]

São Dâmaso I - Gregório VIII - João XXI | August Franzen, Breve História da Igreja

2 de janeiro de 2015

Descidas épicas aos infernos

SANDRO BOTTICELLI
La mappa dell'Inferno di Dante (c. 1480-1490)
[Bibllioteca Apostolica Vaticana]

No término da sua longa viagem de regresso a casa pelas águas mediterrânicas, Ulisses desce às profundezas subterrâneas do Hades, para consultar o adivinho Tirésias e visitar as sombras dos companheiros já embarcados na barca de Caronte (Homero, Odisseia: XI). A catábase helénica promove deste modo simbólico a ligação entre os tempos pretéritos e os vindouros, para assim enfrentar com maior clareza os desafios do dia-a-dia.

O troiano Eneias segue o exemplo heroico do seu inimigo aqueu e desce ao Infernum latino para visitar o pai Anquises, já recebido por Plutão no reino dos mortos, que lhe vaticina as glórias a realizar no porvir pela augusta família imperial romana (Virgílio, Eneida: VI). Faz-se acompanhar da sibila de Cumas, que o guia nesse labirinto soturno de tristeza plena e lhe permite uma saída segura desse espaço cavernoso normalmente sem retorno.

Uma das viragens poéticas do mundo antigo para o moderno é feita pela visão renascentista de Dante. Escolhe Virgílio para visitar o Inferno e o Purgatório e Beatriz para subir ao Paraíso. Nesta pere-grinação ao outro lado da existência humana, às esferas do trans-cendente católico do pós-morte e além-vida, o arquiteto da Divina Comédia arroga-se o direito de julgar o mundo que lhe era hostil, arrumar a casa e preparar-se para as batalhas ainda por travar.

Os fogos de artifício dedicados a Ianus, o deus latino das passagens, já se extinguiram como efémeros que eram. Iluminaram o mundo nos primeiros minutos do ano novo. Depois a noite voltou tão negra como havia sido no ano antigo. As premonições da taróloga Maya pairam indecisas no ar. A descida aos infernos da vida real regressa, enquanto a subida aos paraísos ilusórios dum ano bom esperam impacientes por mais uma final/início de ciclo redentor.