16 de março de 2026

Lídia Jorge, tempos de resistência do homem-estátua no jardim sem limites

«Leonardo já tinha subido, já tinha o olho vidrado, já se tinha colocado junto à linha da sombra, já viajava entre as cabeças das pessoas e as cristas dos monumentos da Baixa, metido na sua bolha de ar, sustentado pela reprodução mental da música. “Hôôooop! Yeah! Aqui vai o Static Man, admiravelmente sozinho…” – dizia para si. Agora pouco se importava, fosse pelo que fosse. Iria estar lá, já estava lá, planando diante de todos, viajando por dentro como se fosse por fora, fazendo parte de um todo e desfazendo-se no todo, mostrando a sua habilidade, ganhando o seu dinheiro na rua Augusta, até ouvir sete ou então até ouvir oito badaladas, não mais.»
Lídia Jorge, O jardim sem limites (1995)

Em quatro décadas e meia já cumpridas de escrita, a minha autora preferida publicou uma boa trintena de títulos distribuídos pelo romance, conto, poesia, teatro, crónica e ensaio, que lhe valeram várias mãos-cheias de prémios literários aquém/além das nossas fronteiras. Continua a faltar-lhe, todavia, o mais significativo galardão concedido pela comunidade de países lusófonos, o Camões, há muito devido, para já não falar do Nobel outorgado pela Academia Sueca, muito pouco sensível à ficção produzida em português. Considerandos à parte, estou a referir-me a Lídia Jorge, motivado pela leitura num dos suas criações romanescas mais significativas, O jardim sem limites (1995), que retirei da estante de livros que lhe é dedicada. Estou a fazê-lo pela terceira ou quarta vez, enquanto espero com impaciência o lançamento de mais um conjunto de histórias impressas da sua lavra imaginativa.

Um dos rasgos mais relevantes da releitura da obra completa duma determinada entidade efabulativa assenta na possibilidade acrescida de confirmarmos as linhas mestras que a distinguem dos demais companheiros de percurso. Neste caso concreto, os microcosmos novelescos que emprestam a unidade necessária aos factos narrados poderão estar ancorados numa aldeia prodigiosa ou cidade silvestre, num hotel de férias ou de murmúrios, numa casa de família, de terceira idade ou de hóspedes. A tessitura narrativa desenvolve-se ao ritmo do dia a dia num cenário regional algarvio, no urbano lisboeta, no colonial africano ou no global migratório, ocupado este último pelos descendentes dum povo que depois de dar muitas terras ao mundo se encarregou de o ocupar por uma questão de sobrevivência.

Passando das generalidades para as particularidades deste jardim ilimitado plantado nas páginas dum livro, tudo gira em torno duma dúzia de jovens na faixa etária dos vinte anos alojada na Casa da Arara, um edifício setecentista devoluto, revestido de azulejos e transformado numa hospedaria alfacinha, sita na rua da Tabaqueira, em Marvila. A ação desloca-se depois para a Baixa Pombalina, nas imediações do Arco triunfal da rua Augusta, regido pela inscrição latina VIRTVTIBVS MAIORVM, talhada em pedra para honrar a memória dos mortos e antepassados. É aí que o Static Men, suspenso no centro duma «esfera», metido na sua maravilhosa «bolha de ar» e admiravelmente sozinho, executa as suas exibições de perfeita imobilidade voluntária, corria então o verão de 88.

No horizonte pairava a ideia de bater as 15 horas obtidas por um indonésio e registar o feito no Guinness Book of Records. As etapas de superação individual vão-se sucedendo ao longo dos dias e noites, sendo a meta anelada atingida a 17 de agosto, na 27.ª jornada. A satisfação estende-se a amigos, transeuntes e patronos, perante o júbilo do resistente individual da prova. Desiste da sua homologação e continua a acalentar o desejo de ser admirado por Paolo Buggiani na Manhattan nova-iorquina. Continua as sessões de imobilidade e acaba por sucumbir, sem honra nem glória na 34.ª jornada, decorria então o rescaldo do incêndio que assolara o Chiado a 25 de agosto. Tal como na story-board escrita por um dos inquilinos do casarão comunitário, Leonardo, o performer, caiu sem honra nem glória do plinto abaixo, inanimado, sem vida, imóvel. Ironia trágica perfeita, consubstanciada na morte do protagonista no momento de alcançar a vitória, morrer jovem como os heróis helénicos e ser lembrado para sempre como digno representante do mito da eterna juventude.

A imobilidade voluntária praticada pelo homem-estátua contrasta com a imobilidade estagnada patente da cidade que o viu nascer, crescer e fenecer, o tal jardim sem limites que serve de título a uma história dos nossos dias. Move-se numa roda-viva aparente mas nunca sai do mesmo lugar. Os valores e princípios que a animam recusam-se a ceder o passo a uma realidade pautada pela mudança. O bando de filhos de boas famílias em deriva existencial representa uma geração pós-revolução em busca duma identidade que não chega a alcançar. A resistência individual ensaiada por cada um deles não logra varar as estremas do 1.º piso daquele casarão arruinado onde dia após dia planeiam uma visão pessoal do seu próprio destino fotográfico, artístico e literário. A voz da narradora sem nome martela na sua Remington o que vai observando. Fá-lo com fragmentos dispersos que a autora se incumbiu depois de completar e oferecer aos leitores. Começou a fazê-lo há trinta anos e continua a fazê-lo hoje, sempre que alguém como eu reabra o livro e as faz renascer para a vida.

9 de março de 2026

Dentro & Fora

Coroa Imperial Amarela
P.J Redouté - Fritillaire Imperiale 
var jaune
 Choix des plus belle fleurs (1827)

Toma lá dá cá, imperial e real

No tempo em que havia reis e rainhas a dar com um pau, havia também imperadores e imperatrizes igualmente em barda ali e acoli. Uns já nasciam com esse carma incrustado na pele. Outros eram importados e exportados a granel

À exceção da França, os impérios coloniais europeus nunca optaram por um imperador a reger os seus destinos em todos os territórios pertencentes aos seus domínios multicontinentais. Limitaram-se a um ou outro rei-imperador provisório. 

Entre nós, os Avis senhores de meio mundo, limitaram-se a exportar duas imperatrizes para o Sacro Império Romano-Germânico, Dona Leonor e Dona Isabel, filhas de Dom Duarte e Dom Manuel I. Todos de Portugal, como único apelido.

Os Braganças foram mais expeditos. Forneceram ao Brasil dois imperadores e garantia de mais, se a os ditames da história assim o determinassem. Dom João VI foi imperador titular por alguns meses, Dom Pedro IV por algum tempo mais.

Caídos os impérios globais, dentro e fora das fronteiras geopolíticas atuais, ficam os presidentes. Sem consortes a tiracolo, sem títulos a perder de vista, sem coroas reais e imperiais de aparato. Que assim seja agora e sempre. Viva a República!

D. Leonor & D. Isabel de Avis - D. João VI & D. Pedro IV de Bragança

3 de março de 2026

Trilogia épica lusitana

A epopeia e a tragédia concordam somente em serem, ambas, imitação de ho-mens superiores, em verso; mas difere a epopeia da tragédia, pelo seu metro único e a forma narrativa. E também na extensão, porque a tragédia procura, o mais que é possível, caber dentro dum período de sol, ou pouco excedê-lo, po-rém a epopeia não tem limite de tempo – e nisso diferem, ainda que a tragédia, ao princípio, igualmente fosse ilimitada no tempo, como os poemas épicos.
Aristóteles, Poética. Ed. Eudoro de Sousa. Lisboa: IN-CM, 1994.
[1449b 9-16; cap. v, §24, p. 10]

Uma Epopeia (gr. εποποιία) é, em termos etimológicos, um conjunto de Epos (gr. επος), i.e., uma sucessão de relatos orais mais ou menos autónomos e de origem lendária, ligados por um fio condutor comum. As poéticas deram-lhe depois outros sentidos, baseados todos em maior ou menor grau na visão que lhe foi conferida por Aristóteles. Com um conjunto de episódios protagonizados pelo 5.º rei da 1.ª dinastia suméria de Uruk, compuseram os acádios as 12 placas cuneiformes que até nós chegaram do Gilgameš. O mesmo fez Homero em grego com a Ilíada e a Odisseia e Virgílio em latim na Eneida, bem como muitos outros poetas-cantores em datas posteriores nos mais diversos idiomas.

Camões terá sido o mais fiel continuador da tradição épica antiga. Cavalga à sua maneira o modelo greco-romano e adapta-o à realidade lusitana. Ultrapassa o longo hiato medieval e renasce com todo o esplendor nos tempos modernos, que ajudou a moldar e perpetuar. Os descendentes míticos de Heleno são substituídos pelos de Luso, o Eneias troiano sai de cena e o Gama lusitano ocupa toda a ribalta n'Os Lusíadas. O obreiro do quarto império apaga-se no horizonte mediterrânico e o fundador do quinto império instala-se no grande mar oceano atlântico, índico e pacífico. Os barões assinalados da ocidental praia lusitana transformam-se em heróis coletivos triunfantes a nível global.

Os criadores das Epopeias em Verso abrem as portas às Epopeias em Prosa, a que passámos a chamar Novelas e Romances. A cultura helenística consagrou-as aos amores e aventuras dum jovem casal de protagonistas. Ao invés, Petrónio prefere converter esses heróis exemplares em verdadeiros anti-heróis acabados no Satíricon, numa crítica cerrada aos costumes e à política romana do seu tempo. As aventuras/desventuras vividas por Fernão Mendes Pinto no Oriente são arroladas na Peregrinação, substituindo os heróis com nome da epopeia clássica camoniana pela arraia-miúda anónima, sem a qual os nomeados pelo vate consagrado seriam  sequer lembrados pelos anais oficiais.

O rio da literatura tem sido pródigo em fazer sulcar nas suas águas os relatos épicos das grandes navegações realizadas pelos muitos nautas que as efetuaram e dos naufrágios que as acompanharam. Assim ocorreu no regresso de Ulisses a Ítaca ou nas tópicas viagens dos peregrinos centrais da ficção diegética greco-bizantina. Vitoriosos todos eles tiveram os fados mais a seu favor do que o sem-número de embarcados tragados pela fúria dos mares nos domínios imperiais da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia. Muitos deles são referidos nos doze relatos compilados por Bernardo Gomes de Brito na História Trágico-Marítima. E assim a trilogia épica lusitana se fez: heroica, peregrina e dramática.  

Luís de Camões, Os Lusíadas (1572) - Fernão Mendes Pinto, Peregrinação (1614)
Bernardo Gomes de Brito, História Trágico-Marítima (1735-1736)

25 de fevereiro de 2026

Olhar da Pietà de São Pedro em Roma olhada por Michelangelo Buonarroti

Michelangelo, Pietà, 1497-1499
[Basilica di San Pietro,Città del Vaticano]
OLHARES DA ARTE
«Não sabes tu ‒ dizia ele a Ascanio Condivo ‒ que as mulheres castas se conservam muito mais frescas que as que não são castas? Quanto mais, por conseguinte, uma virgem que jamais teve o menor desejo imodesto a perturbar--lhe o corpo. Não te espantes pois, ‒ concluiu Miguel Ângelo ‒ se por tais razões, representei a Santíssima Virgem, Mãe de Deus, muito mais jovem do que a sua idade exigia e deixei ficar o filho com a sua própria idade.»
Gilles Néret, Miguel Ângelo, Köln, Taschen, 2000

Entramos na Basílica de São Pedro na Cidade do Vaticano e o nosso olhar é logo conquistado pelo esplendor inebriante do classicismo moderno. A totalidade das manifestações renascentistas, maneiristas e barrocas está reunido no maior edifício religioso do cristianismo católico para quem a quiser olhar de frente, de lado e de trás, para cima e para baixo, em todas as direções que o nosso olhar abarque. Olhamos e somos olhados de todos os cantos e recantos postos ao dispor do nosso olhar.

Num desses recessos obstruído pelos olhares perscrutadores duma multidão de romeiros devotos e turistas curiosos, o nosso olhar coletivo vira-se para a Pietà que Miguel Ângelo Buonarroti esculpiu em mármore de Carrara para o Cardeal Jean Bilhères de Lagranlas nos finais do século XV. O grande mestre florentino tinha então 23 anos e mereceu desde logo o apodo de Il Divino. A sua obra-prima inaugural foi colocada inicialmente em Santa Petronila e transferida em 1519 para São Pedro. 

Ali terá sido olhada um sem-número de vezes pelo obreiro entre 1546-1564, período em que continuou e/ou adaptou à sua maneira os planos arquitetónicos gizados por Donato Bramante, Giuliano da Sangallo e Filippo Brunelleschi para o complexo basilical maior da Santa Sé. Deu-lhe em grande parte, nesses derradeiros dezoito anos da sua longa e profícua vida o aspeto final com que a olhamos nos dias de hoje, tanto na sua magnificência da sua volumetria exterior como na do seu interior.

Olhamos para Cristo deitado nos joelhos da Virgem e notamos que nem um nem outro olha ou pode olhar para quem o está a olhar. Voltamos a olhar uma e outra vez e apercebemo-nos da extrema juventude da Mãe face ao ar envelhecido do Filho. A discrepância foi explicada pelo seu artífice, garantindo que só assim poderíamos olhar para a divindade de Maria perante o corpo humano de Jesus feito Deus. Voltamos a olhar e percebemos que a Arte tem, de facto, outras formas bem distintas de olhar. 

Michelagniolo - Michelangelo
[Grafia toscana antiga]

19 de fevereiro de 2026

Histórias de Hospital

 Hospital Real de Todos os Santos antes do Terramoto de Lisboa de 1755
[Anónimo, 1.ª metade do séc. xviii]
"hospital": latim hospitale [domus], casa de hóspedes.

Faz hoje seis anos precisos que ingressei no CHUA de Faro para um internamento rápido de três dias, logo transformado num conjunto alternado de entradas e saídas distendidas até abril do ano seguinte. É da primeira e mais prolongada permanência de dois meses e meio que guardo mais recordações, mas que agora me escuso de relembrar. De certo modo, já deixei alguns testemunhos aqui por estas bandas na altura em que ocorreram. Por vezes pergunto-me o que terá acontecido a todos os meus companheiros de enfermaria e a resposta não me surge por nenhuma fonte. Ali os vi ao chegar, ali os deixei ao partir. Relações rápidas e fugazes que o fluir dos dias se encargou de apagar. O Zé Cocho, o Desenfiado, as Mulheres Barbeiras e a Princesa das Astúrias me perdoem, bem como as Bailarinas Flutuantes seguidoras de Florence Nightingale naquelas unidades de cuidados intensivos, intermédios e enfermarias cirúrgicas, me fizeram companhia assídua dia e noite, enquanto a recuperação tardava em chegar e o COVID-19 a partir. 

As minhas lembranças seletivas remontam agora aos derradeiros estertores dos tempos da outra senhora. Passei aquele verão de 73 no HME, a tentar livrar-me duma ida forçado para os campos de batalha africanos. A minha permanência ali à Estrela foi muito meteórica, porque os exames à minha bronquite asmática foram tratados no HU à Junqueira. Recordo-me muito fragmentariamente dalguns episódios ali vividos. Ter assistido às chegada de muitos estropiados de guerra, de ter visto morrer alguns ali à minha beira e de ter recebido a visita de duas militantes do MNF. Deixaram-me uma esferográfica, uma medalha não sei de que santo e muitas palavras de circunstância que me encarreguei de esquecer até hoje. A minha hospitalização na capital do império terminou no BC5, no antigo Colégio de Campolide, onde durante uma meia dúzia de semanas me mantive isolado até receber a ordem definitiva de soltura. Tive a companhia dum exemplas de bolso das As palavras de Jean-Paul Sartre que nunca mais voltei a abrir.

Recuo uma década até onde a minha vista chega e dou comigo na primeira quinzena de setembro no HTRDL, a casa de hóspedes criada pela Rainha Perfeitíssima que deu o nome ao local. Na década em que a frequentei, as bronquites eram curadas com parches de álcool canforado, papas de linhaça e aspirações de pó-pinheiro, mezinhas rematadas com uns dias na praia e outros nas termas. Para evitar a humidade estremenha, aconselhava-se um internamento preventivo das recaídas invernais. Foi o que me aconteceu durante dois ou três anos da minha pré-adolescência. Ali fui submetido a duas sessões diárias de inalações, pulverizações e nebulizações, permanência na nascente nas águas sulfurosas, associadas a um vigoroso duche de espadana matinal para relaxamento muscular completo. Muitas foram as aprendizagens colhidas na enfermaria, refeitório, salas de repouso e demais instalações do vasto complexo termal. Guardo-as no arquivo das minhas vivências longínquas, aquelas que só se podem visitar com a ajuda inigualável da memória.

SIGLAS
CHUA: Centro Hospitalar Universitário do Algarve; HME: Hospital Militar da Estrela; HU: Hospital do Ultramar; MNF: Movimento Nacional Feminino; BC5: Batalhão de Caçadores n.º 5.; HTRDL: Hospital Termal Rainha D. Leonor.

11 de fevereiro de 2026

Fragmento entre fragmentos

Os jogos da macaca de Julio Cortazar

Morelliana.
¿Por qué escribo esto? No tengo ideas claras, ni siquiera tengo ideas. Hay jirones, impulsos, bloques, y todo busca una forma, entonces entra en juego el ritmo y yo escribo dentro de este ritmo, escribo por él, movido por él y no por eso que llaman el pensamiento y que hace la prosa literaria u otra. Hay primero una situación confusa, que sólo puede definirse en la palabra; de esa penumbra parto, y si lo que quiero decir (si lo que quiere decirse) tiene suficiente fuerza, inmediatamente se inicia el swing, un balanceo rítmico que me saca a la superficie, lo ilumina todo, conjuga esa materia confusa y el que la padece en una tercera instancia clara y como fatal: la frase, el párrafo, la página, el capítulo, el libro. Ese balanceo, ese swing en el que se va informando la materia confusa, es para mí la única certidumbre de su necesidad, porque apenas cesa comprendo que no tengo ya nada que decir. Y también es la única recompensa de mi trabajo: sentir que lo que he escrito es como un lomo de gato bajo la caricia, con chispas y un arquearse cadencioso. Así por la escritura bajo el volcán, me acerco a las Madres, me conecto con el Centro ‒sea lo que sea. Escribir es dibujar mi mandala y a la vez recorrerlo, inventar la purificación purificándose; tarea de pobre shamán blanco con calzoncillos de nylon.
Julio Cortázar. Rayuela (1963. cap. 82)

3 de fevereiro de 2026

À espera dum novo e desejado salvador

Espelhismos do Dom Sebastião de Cristóvão de Morais
«Felices los que eligen, los que aceptan ser elegidos, los hermosos héroes, los hermosos santos, los escapistas perfectos.»
Julio Cortazar, Rayuela (1963: 3)

Oitenta governantes, se as contas me não falham, à espera dum novo e desejado salvador. Mais um para juntar aos 22 condes, 38 reis e 20 presidentes, a tomar as rédeas do poder, por nascimento, nomeação, conquista, usurpação e eleição, em 1158 anos de devir histórico.

A escassos dias da votação final, o próximo inclino de Belém já está escolhido a apreciável distância do seu mais direto opositor. Dizem as sondagens diárias que às vezes até acertam, quando as contas lhes não trocam as voltas. Será o vigésimo primeiro da série republicana.

Saudoso duma monarquia idílica há muito extinta, andou perdido na campanha um pretendente à cadeira presidencial disfarçado de Dom Afonso Henriques, O Conquistador. Melhor fora tê-lo feito d'el-rei Dom Sebastião, O Encoberto, após o desastre de Alcácer-Quibir.

Para trás ficaram outros cavaleiros-messias, empenhados na cruzada patriótico-nacional de livrar o país dos mil-e-um perigos a que estaria votado sem a sua prestimosa ajuda. Abyssus abyssum invocat. Uma dúzia, nem mais nem menos, entre paladinos aceites e rejeitados.

E como na res publica o render da guarda se faz amiúde, dentro de cinco anos o circo mediático de vendedores da banha da cobra e da peculiar horda de comentadores de tudo e de nada voltará de novo à nossa companhia. É que, como se diz, the show must go on.

João Ribeiro, D. Afonso Henriques (2004)