29 de maio de 2026

Mário de Carvalho, passeio dum deus pela brisa da tarde no jardim duma cidade lusitana que nunca existiu...

«Inquietou-me, é verdade, o pequeno escravo que desenhava um peixe, na areia, outro dia. Hoje sinto-me tranquilo, de novo. Afinal, o rapaz não sabia que sinal era aquele. Nunca ouviu, nem ouvirá, decerto, mencionar o deus que passeava no jardim, pela brisa da tarde.»
Mário de Carvalho, Um deus passeando pela brisa da tarde (1994)

Nunca perfilhei a ideia peregrina que a leitura obrigatória dum livro promovesse a sua leitura. É que a consagração duma obra depende da faculdade de a escolher de livre vontade. Depois, o fruto proibido é sempre o mais apetecido. Dizem. Lembro-me de no meu tempo de estudante andar numa lufa-lufa à cata dos livros interditados, difíceis de achar e lidos de furtiva, não fosse o diabo tecê-las. Parece que o plano nacional de leitura para o ensino básico e secundário se prepara para retirar alguns e incluir outros. Felizmente que não participo nessas guerrilhas pedagógicas há um ror de anos e não sinto a menor nostalgia dessas lutas sem tréguas. Afinal, sou há muito um leitor fiel tanto do único Nobel da literatura portuguesa como daquele que por certo nunca o será, quanto nem sequer o Camões o visitou ainda. Resolvi pegar agora num dos mais singulares romances históricos compostos no nossos idioma, fruto da pena de Mário de Carvalho, com o título desde logo sugestivo de Um deus passeando pela brisa da tarde (1994). Assim o achei à data da primeira visita, assim o acho nos dias de hoje à distância de três décadas e picos.

É verdade que para o autor externo, a autobiografia do duúnviro Lúcio Valério Quíncio escapa à categoria genérica de romance histórico. Declara-o no aviso que precede a parte ficcionada da obra, esteado no facto de nem a urbe de Tarcis nem o município de Fortunata Ara Iulia Tarcisis terem existido. Escusado será dizer que nenhum dos atores centrais da efabulação escapa ao universo da imaginação, muito embora se refiram a entidades reais registadas nos anais oficiais até nós chegados. Tudo se passa na província da Lusitânia, no tempo dos imperadores Marco Aurélio Antonino (161-180) e Lúcio Aurélio Cómodo (180-192), centrando-se o testemunho pessoal do protagonista nos eventos havidos nessa segunda metade do Século II EC, aqueles que tiveram uma maior visibilidade no espaço cénico relatado, a invasão do território por si governado por uma horda de bárbaros mouros da Tingitânia e os conflitos provocados pela nova seita religiosa cristã designada de congregação do peixe.

A definição dum relato baseado em factos ocorridos num passado mais ou menos distante não assenta na sua precisão milimétrica nem na sua acumulação exaustiva, basta-lhe recriar a atmosfera efetiva em que tiveram lugar. Neste caso concreto, a tensão exercida pelas tradições nómadas africanas e práticas religiosas orientais sobre a romanitas, i.e., o conjunto de conceitos políticos, culturais e sociais definidor da identidade romana, premonitor também da sua derrocada iminente e irreversível. Essa queda, anunciada nas entrelinhas dum saber coletivo ancestral, levou ainda alguns anos a chegar, cerca de três séculos, para ser mais exato. A vitória do deus passeando pela brisa da tarde, referida no Génesis (3,8), com direito a título de livro, a uma epígrafe* e várias paráfrases, dar-se-ia, porém, um pouco antes. O Édito de Milão, promulgado por Constantino em 313, acabaria de vez com a perseguição aos cristãos, tornando o credo por si seguido totalmente legal em todo o espaço imperial, cuja neutralidade em matéria espiritual ficava também assegurada.

O testemunho pessoal da magistrado máximo da cidade lê-se duma assentada, oferecendo sempre novas motivações convidativas duma leitura ininterrupta. Se o livro for mesmo adotado como obra opcional no básico e secundário, os seus utentes, docentes e discentes, terão muita matéria por onde pegar. A cultura literária nele contido remeterá para muitas áreas adicionais à ficção pura, associando à perfeição o tão almejado objetivo pedagógico do proveito e deleite. A ironia algo burlesca com que o autor reveste as palavras proferidas pelo narrador serão um dos elementos da mestria presentes não só neste texto, mas em todos aqueles que o precederam/sucederam. Essa a verve mais representativa do seu obreiro, aquela que me prendeu à sua escrita desde a sua descoberta até ao presente momento. Por vezes essa fusão de idiopatias acontece.

ἰχθύς - peixe

ησοῦς Χριστός, Θεοῦ ͑Υιός, Σωτήρ
[Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador]
EPÍGRAFE
«...Aperceberam-se de que o Senhor Deus percorria o jardim pela frescura do entardecer...»
(Génesis, 3, 8)

23 de maio de 2026

João Ramires: contos, amores e viagens do tio Sebastião e do sobrinho Gonçalo

A CAIXA DE CARTÃO
No dia dos meus anos, estávamos então em 1975, o meu Avô chamou-me a sua casa e recebeu-me na sala, o que significava que o assunto era sério; pegou numa mala que colocou numa mesa à sua frente e, com um ar solene, disse-me:
— Gonçalo, fazes hoje quinze anos. O teu tio Sebastião, que há dois tristes meses nos deixou, pediu-me, quando adoeceu, para te entregar esta mala onde irás encontrar uma parte da sua vida; nunca a abri, pois o que lá se encontra apenas diz respeito a ti e ao teu tio; vê tudo com muita atenção porque alguma razão de peso terá havido para que, de entre todos os parentes, fosses tu o escolhido; o teu tio não tomava as suas decisões de ânimo leve; tudo o que estiver aqui dentro, terá sido importante na sua vida e certamente também virá a ser para o teu futuro.
João Ramires, A saga de Sebastião Ramires Reis e seu sobrinho Gonçalo (2023)

A arte de dizer não é muito mais difícil de praticar do que a contrária de dizer sim. Desde que in illo tempore me afastei das lides académicas que me debato, sem grande sucesso, com o propósito firme de a levar a bom termo. Um dia destes ainda o concretizo. Duvido. É que aos amigos, um pedido feito é um pedido satisfeito. Edição de texto, notas de leitura, apresentação de livro. Assim me foi solicitado pelo João Ramires, a propósito d'A saga de Sebastião Ramires Reis e seu sobrinho Gonçalo (2023), uma trilogia de contos, amores e viagens entrecruzados em forma de romance. 

A etapa inaugural da série convida-nos a fazer Uma viagem no «Oriente Expresso», primeiro na companhia do tio Sebastião e a segunda na do seu sobrinho Gonçalo, efetuadas respetivamente em 1974 e 1997. Nessa dupla ligação de Paris e Istambul, separada por um hiato temporal de pouco menos dum quarto de século, os dois protagonistas terão ocasião de reviver, cada um à sua maneira, o ambiente exótico recriado por Sidney Lumet no Crime no Expresso do Oriente, numa adaptação à linguagem cinematográfica dum dos mais emblemáticos romances policiais traçados por Agatha Christie. O entrelaçar de histórias vividas/imaginadas por ambos remete-nos a cada passo para o universo do insólito, a roçar as fronteiras do estranho, do fantástico ou do maravilhoso narrativos. Os viajantes pelas suas páginas que decidam qual o caminho a seguir.

A jornada intermédia da saga leva os seus intervenientes centrais até à Índia, em busca d'O dente de Buda, o tio em 1954 e o sobrinho em 1994. Chegam à velha cidade de Goa, a colonial portuguesa e a já integrada na União Indiana, e adentram-se depois no vasto país para aclarar a intrincada teia de segredos, conspirações e intrigas que envolvem a valiosa relíquia budista. A atmosfera sentida pelos Ramires Reis toca de muito perto a tensão constante e trepidante dos thrillers clássicos, bem como a resolução dum conjunto de enigmas, mistérios e sectarismos políticos e religiosos com mais de 400 anos de existência. Os ecos históricos do domínio luso na antiga «Pérola do Oriente», no tempo do Vice-rei. Dom Constantino de Bragança, à sombra persecutória da Santa Inquisição, reverberam ao longo da investigação, cujos resultados são revelados no interior do livro.

O derradeiro lanço da trilogia trata agora do dúplice trajeto dos dois globetrotters tenazes até Macau, com acesso a outros locais exóticos do Império do Meio, tais como o Tibete e os Himalaias. Fazem-no à vez em 1964 e 1998, com o fino propósito de descobrir o paradeiro d'A Clepsidra de Su Sun, descrita e desenhada pelo jesuíta Ruggero Rizzetti, num manuscrito oitocentista, achado na Biblioteca da Ajuda. As peripécias vivenciadas por um e por outro no decurso da pesquisa são arduamente explanadas no relato, bem ao modo dos romances de aventuras peregrinas, detetivescas e policiais, num cotejo seguido de tempos históricos e culturas ancestrais, de usos, mitos e lendas, unidos todos eles às emoções fascinantes de amores inesperados e de resultados imperecíveis.

Lidos os livros que constituem as inquirições encetadas pelos dois Ramires Reis em tempos distintos, apercebemo-nos o quanto cada um deles rende um testemunho valioso à tradição milenar do romance à escala global. Aquele em que a epopeia em prosa malvista pelas poéticas clássicas antigas e modernas se converteu, passo a passo, no mais popular género literário atual. Nas suas sete centenas e meia de páginas, o seu artífice conjuga na tessitura narrativa por si gizada uma sucessão de roteiros de viagens, memórias históricas e relatos de amor, unidos por um par de membros da mesma família, o tio Sebastião e o sobrinho Gonçalo. A saga anunciada no título da tríade fica justificada, brindando os leitores com um percurso pleno de deleite e proveito, convocados pela ficção recreativa.   

17 de maio de 2026

Grande gabador, pequeno fazedor...

Sou tão incrível, sou tão incrível, e por perto há gemidos, tormentos, gritos...
Sergey V. (colagem)
Megalomanias                                                        

«O campo na cidade foi moda para durar, inspirada pela megalomania demencial de Nero Cláudio Eneobardo. Cópias contrafeitas e comparativamente diminutas da soberba mansão dourada ergueram-se outrora até aos confins do Império, mesmo depois de não restarem vestígios das edificações do matricida. Desmesurados jardins, pavilhões de fantasia, lagoas artificiais, ninfas de pedra a espreitar por detrás dos arbustos exóticos, assim fora a casa urbana de Máximo Cantaber erigida por um seu antepassado e muitas vezes remodelada depois...»

Mário de Carvalho, Um deus passeando pela brisa da tarde (1994)

Assim começa o Cap. VIII dum dos mais conseguidos romances dados à estampa entre nós nos finais do derradeiro século e milénio. A megalomania toma conta do relato para relatar a antiga mansão familiar dum dos interveniente centrais da ficção. Tudo se passa aos 213 anos da era de Augusto, 928 da fundação da Urbe, i.e., por volta de 175 EC, na imaginária cidade de Tarcisis, da muito real província romana da Lusitânia, imperava então Marco Aurélio Antonino, o Filósofo.

Muita água passou entretanto debaixo das pontes deste mundo, mas os delírios megalómanos de alguns senhores do mundo nunca deixaram de se manifestar e seria demasiado exaustivo arrolá-los um atrás doutro. Mansões desmedidas, palácios deslumbrantes, castelos descomunais, metrópoles colossais, impérios globais, verdadeiras feiras de vaidades a concorrerem em grandeza faraónica uns com os outros, a erigirem-se e a caírem, quais gigantes com cabeça de ouro e pés de barro.

O Führer nazi do bigode de piaçaba queria construir um império de 1000 anos que caiu ao fim de 12 antes de erigir uma mega cidade capital do mundo. A nova Germânia projetada não chegou a sair do papel e a velha Berlim teve de ser reerguida dos escombros no final da guerra. Desfez-se em fumo sem ter visto a cúpula do Salão do Povo, capaz de reter a respiração da multidão e criar nuvens e chuva no seu interior, nem ver o Arco do Triunfo a superar em altura o napoleónico de Paris.

Duce fascista com pose de forcado de caras não se satisfez com um único arco triunfal. A cidade eterna já tinha um número q.b. dessas estruturas monumentais herdadas do período imperial. Ao invés, promoveu a construção do Palazzo della Civilità Italiana, ou Coliseu Quadrado, símbolo da nova Roma. Teria 54 arcos por fachada, 9 em linha e 6 em coluna, num total de 216. Ainda hoje pode ser visto, adaptado agora aos novos tempos que os antigos legaram aos recentes.   

O Trumpoleon yankee, o Sweet Potato Hitler e Mango Mussolini, não se fica por menos. Entre muitas minudências, mandou demolir parte da Casa Branca para construir o maior salão de baile jamais visto, pretende erguer em Washington um Arco do Triunfo digno da sua galática grandeza e juntar um busto seu no Monte Rushmore, o padrão evocativo dos fundadores da terra do Tio Sam. Megalomanias do T.A.C.O., o Trump Always Chickens Out, ou grande gabador, pequeno fazedor.

Na saga do Harry Potter, J. K. Rowling refere o abjeto Lord Voldemort, cujo nome não se pode dizer. No mundo real, o jeito a tomar com alguns figurões devia ser exatamente o mesmo, de modo a mitigar a visibilidade que os mass media lhes aferem dia a dia. Resta-nos esperar que a queda do atual manda-chuva global seja breve e eficaz, sem recorrer para tal ao suicídio, linchamento ou exílio dos seus modelos. A destituição seria suficiente para acenar com um bye-bye e um farewell sentidos.

11 de maio de 2026

Sinestesias datilográficas

1920’s Antique Underwood No. 5 Desktop Typewriter

Vejo-o entrar no auditório com uma máquina de escrever debaixo do braço. Pousa-a numa mesa colocada no centro do palco e senta-se. Atrás de si fica o maestro de batuta na mão e a orquestra prestes para entrar em funções. À frente da boca de cena encontra-se o público ávido de ouvir a melodia fluir em perfeita sintonia harmónica. As luzes da sala apagam-se e os primeiros acordes compostos por Leroy Anderson ecoam ao ritmo imposto pelo bater cadenciado das teclas numa folha de papel em branco e da campainha de mudança de linhas do processador de notas da peça musical instrumental The Typewriter (1950) aqui registada.

A sonoridade distante das aulas de datilografia vem-me à memória. O som sincronizado do batimento dos carateres móveis da máquina de escrever a da toada melódica emitida em pano fundo veio ao meu encontro. A aprendizagem fazia-se às cegas mas com um suporte musical de apoio. Cada uma das teclas estava tapada e a visão era movida para a ponta dos dedos. Cada um teria de saber de cor a posição das teclas a acionar. E assim o texto fluía ao ritmo da cantilena matraqueada e do cheiro da tinta de escrever, do verniz corretor e do papel químico utilizados. Uma sinestesia conjugada, que o tempo se encarregou de apagar.

Olho com olhar de ver para o solista do miniconcerto para orquestra e máquina de escrever e reparo que este só utiliza dois dedos para executar todos os compassos da partitura ou uma mão inteira na mudança dum sistema para outro. Neste sentido, um pouco menos hábil do que eu. Julgo. É que apesar de ter dado folga a muitos deles, ainda uso os dois indicadores no teclado do PC associado por vezes ao polegar direito e muito raramente ao esquerdo. Uma redução drástica vedada a um qualquer pianista mas perfeitamente viável a um mero datilógrafo musical, por muito mediano que seja, um grupo em cujo número talvez me pudesse inserir.

Leroy Anderson © Matt HerringLeroy Anderson © Matt Herring

5 de maio de 2026

Ormuz e o estreito de que tanto se fala

Georg Braun & Frans Hogenberg: Civitates Orbis Terrarum, 1572
[
Universitätsbibliothek Heidelberg]
«Ormuz, top. Ilha e estreito da Ásia. A mais ant. referência que por ora conheço a esta localidade é a de Fernão Brandão: "Yndia, Malaqua, Armuz / com a espera..." no C. Ger., III; quase contemporânea desta deve ser a de Barbosa (pp. 50 e 54). Na carta de Jerónimo de Santo Estêvão, anexa ao Livro de Marco Paulo (fl. 98 r), é Ormos, mas Aromuz em Bisnaga (p. 70). Ormuz é a forma de Déc. (II, cap. 2, p. 48) e Lus. (II, 49; X, 40, 53, 101). Creio que se trata de forma (persa?) ouvida pelo Portugueses quando chegaram àquelas bandas, não havendo qualquer relação directa entre ela e as antigas por vezes citadas por autores classificófilos. Refiro-me à Harmazaei (Harmozia e Armuzia noutras edições) de Plínio (Nat. Hist., VI, 110) ou à Harmozonte de Amiano Marcelino (23.º, VI, 10, p. 322).»
José Pedro Machado, Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa (1984)

ORMVS ÉPICO

E vereis o Mar Roxo, tão famoso,
Tornar-se-lhe amarelo, de infiado;
Vereis de Ormuz o Reino poderoso
Duas vezes tomado e sojugado.
Ali vereis o Mouro furioso
De suas mesmas setas traspassado:
Que quem vai contra os vossos, claro veja
Que, se resiste, contra si peleja.

Esta luz é do fogo e das luzentes
Armas com que Albuquerque irá amansando
De Ormuz os Párseos, por seu mal valentes,
Que refusam o jugo honroso e brando.
Ali verão as setas estridentes
Reciprocar-se, a ponta no ar virando
Contra quem as tirou; que Deus peleja
Por quem estende a Fé da Madre Igreja.

Virá despois Meneses, cujo ferro
Mais na África, que cá, terá provado;
Castigará de Ormuz soberba o erro,
Com lhe fazer tributo dar dobrado.
Também tu, Gama, em pago do desterro
Em que estás e serás inda tornado,
Cos títulos de Conde e d’honras nobres
Virás mandar a terra que descobres.

Olha Dófar, insigne porque manda
O mais cheiroso encenso pera as aras;
Mas atenta: já cá destoutra banda
De Roçalgate, e praias sempre avaras,
Começa o reino Ormuz, que todo se anda
Pelas ribeiras que inda serão claras
Quando as galés do Turco e fera armada
Virem de Castelbranco nua a espada.

Camões, Os Lusíadas (II , 49; X, 40, 53 e 101)

Vasco da Gama - Luís de Camões - Afonso de Albuquerque

29 de abril de 2026

Harriet Beecher Stowe, a cabana do Pai Tomás ou a vida entre os humildes

The cabin of Uncle Tom was a small log building, close adjoining to “the house,” as the negro par excellence designates his master’s dwelling. In front it had a neat garden-patch, where, every summer, strawberries, raspberries, and a variety of fruits and vegetables, flourished under careful tending. The whole front of it was covered by a large scarlet bignonia and a native multiflora rose, which, entwisting and interlacing, left scarce a vestige of the rough logs to be seen. Here, also, in summer, various brilliant annuals, such as marigolds, petunias, four-o’clocks, found an indulgent corner in which to unfold their splendors, and were the delight and pride of Aunt Chloe’s heart.

Em meados da década de 60, ajudei a criar uma biblioteca de turma e que terá subsistido algum tempo mais, apensa ao acervo bibliográfico da escola. Frequentava então os dois anos do ciclo preparatório e a compra das obras fazia-se através duma cotização mensal voluntária. Alguns colegas mais abonados duplicavam a sua parte, ajudando assim a equilíbrio das finanças. Como compensação, teriam o direito de escolher os novos títulos. Terá sido através desta modalidade que o mais famoso romance de Harriet Beecher Stowe, A cabana do Pai Tomás (1852), entrou na nossa coleção de leituras extra escolares. O padrão dos livros de capa azul/cor-de-rosa prescrito pelo regime saía um pouco defraudado, mas temática algo sensível do esclavagismo americano era torneada por uma adaptação juvenil assaz ilustrada resultava incólume à censura pedagógica então vigente.  

Uma edição recente com capa bem colorida e versão integral do texto chegou-me agora às mãos. Num impulso vindo não sei de onde, apeteceu-me rever as peripécias atribuladas de vida do Pai Tomás, a que a tradutora resolveu devolver à designação onomástica original de Tio Tom. As explicações são bastamente esplanadas na extensa introdução, não conseguindo, todavia, apagar os ecos muito audíveis proferidos por uma tradição portuguesa quase bicentenária que me ficou gravada na memória. Minudências à parte, é o momento de regressar a uma história que tanto me marcou nos verdes anos, a tal que segundo Abraham Lincolm terá estado no germe da Guerra Civil Americana (1861-1865). Tudo começa com a perseguição a uma jovem escrava fugitiva, para salvar o filho de tenra idade que acabara de ser vendido pelo amo, logo seguido dum longo rol de eventos esclavagistas/abolicionistas, distribuídos por dois volumes, quarenta e cinco capítulos e cinco centenas de páginas.

Muitas são as figuras cénicas de primeira e segunda linhas retratadas alternadamente nesta saga de histórias ficcionadas duma realidade recente, todas elas dignas da abordagem atenta da narradora-autora, centrando-se paulatinamente no percurso dramático do protagonista, aquele que empresta o nome ao título ao painel efabulativo, o pai/tio Tomás/Tom como quisermos. O seu percurso pela trama reparte-se por três atos, cada um deles regido por um amo distinto e uns quantos traficantes de permeio. Arthur Shelby é obrigado a vendê-lo, para saldar dívidas que pendiam sobre a sua propriedade do Kentucky. Passa depois para a posse de Augustine St. Clare de Nova Orleães, até que o trespasse súbito deste o transfere para as mãos de Simon Legree na Luisiana profunda. Os bons tratos recebidos dos primeiros é drasticamente substituído pelo tratamento desumano do restante, que o manda chicotear até à morte, por se recusar a denunciar outros escravos fugitivos e a renunciar à sua  inabalável no cristianismo.

Passa-se a passo de corrida da pré-adolescência para a maturidade plena da vida e o nosso modo de ver o mundo altera-se por completo, como se pulássemos do dia para a noite. Decorrido mais de século e meio sobre a abolição da escravatura nos EUA, apercebemo-nos que a questão racial está longe de ter sido sanada. A exploração atual dos mais fracos pelos mais fortes assumiu formas renovadas de segregação do homem pelo homem. Assenta presentemente na exploração da força de trabalho dos imigrantes oriundos da grande aldeia global, as novas peças, mercadorias e coisas como os pretos de então eram chamados. As emoções que senti na fase infantil do meu existir mantêm-se intocáveis agora que atingi a fase adulta, mas acrescidas das emoções entretanto sentidas. Felizmente que para os intervenientes martirizados da fábula a crença na justiça divina lhes dava a esperança da salvação eterna prometida na Bíblia. Esse não é porém o credo que rege os meus passos terrestres sem a expetativa duma recompensa celestial. Se o inferno são os outros é que todos nós vivemos o nosso dia a dia. E assim vai o mundo e, ao que parece, de mal a pior.

EPÍGRAFE
«A cabana do Pai Tomás era uma pequena construção de troncos, mesmo ao lado da “casa-grande”, como o negro par excellence designava a habitação do seu senhor. Em frente, havia uma pequena horta bem cuidada, que no verão dava, morangos, framboesas e outras espécies de fruta e legumes. A fachada estava coberta por uma grande begónia escarlate e uma rosa autóctone, cujos ramos entrelaçados não deixavam à vista qualquer vestígio dos toros de aspeto grosseiro. Também aqui, no verão, uma profusão de flores anuais, como calêndulas, petúnias e boninas encontravam um recanto acolhedor para ostentar em toda a sua beleza, para orgulho e deleite da Mãe Chloe.»
Harriet Beecher Stowe, A cabana do Pai Tomás (1852)