20 de agosto de 2026

Chrétien de Troyes e os romances dos cavaleiros arturianos da távola redonda

« Le baron, selon la coutume, annonce qu'il va prendre le baiser du Blanc Cerf. Sitôt, par la cour on fait grand murmure. L'un l'autre les chevaliers se jurent que telle affaire n'ira sans défit d'épée ou de lance de frêne. Chacun veut par chevalerie faire reconnaître que son amie est la plus belle de l'assemblée. » [Érec et Énide (c. 1160-1164)]
« Je vous dirai que je n'irai point ainsi avec vous, car par le monde entier il serait de nous deux parlé comme d'Yseult et de Tristan. Quand nous nous en serions allés tous blâmeraient notre passion. Nul ne dirait, ne voudrait croire la chose comme elle est vraiment. [...] Je veux me faire passer pour morte, voilà l'idée que j'ai eu, D'abord je ferai la malade et vous penserez à pourvoir à ma sépulture. » [Cligès ou la fausse morte  (c. 1176)]

« Il passa outre à grande allure jusqu'à ce qu'il retrouve, par aventure, le chevalier, tout seul, à pied, tout armé, heaume lancé, l'écu au col, l'épée ceinte, près d'une charrette rencontrée. Les charrettes servaient alors à quoi servent les piloris [...] pour ceux qui ont commis meurtre et trahison, pour ceux qui sont tombés en duel de jugement, pour les larrons et les bandits de grand chemin. Qui était pris sur le fait était alors mis sur la charrette, mené par toutes les rues puis déclaré hors-de-loi, ne pouvant plus être ouï en justice, non plus honoré, ni fêté. » [Lancelot, le Chevalier de la charrette  (c. 1176-1181)]

« Messire Yvain cheminait pensif par une profonde forêt et soudain ouït un cri très fort et douloureux. Il se dirigea vers l'endroit d'où lui semblait parti le cri. Quand il parvint en ce lieu-là, il vit un lion dans un essart et un serpent qui l'enserrait dedans sa queu et lui brülait l'échine de cent flammes qu'il vomissait. Messire Yvain ne regarda longtemps cette merveille. En lui-même il se demanda lequel des deux il aiderait. Il se décida pour le lion, pensant qu'on ne doit faire du mal qu'à bête venimeuse et félonne. » [Yvain, le Chevalier au lion]
Chrétien de Troyes, Romans de la Table Ronde
(Paris: Gallimard, 1970. Ed. Jean-Pierre Foucher, pp. 42, 134, 159-60, 301)

Todos os mitos têm um fundo global e intemporal. Todas as lendas têm um fundo local e temporal. Todos os contos que lhes estão associados representam o eco distante duma realidade vivida e que a imaginação se incumbiu de moldar. Cada um destes relatos espelha também um compromisso estreito da ficção com a História. Os livros de aventuras amorosas e místicas arturianas não fogem a esta regra. Enviam-nos para factos acontecidos aquando das invasões saxónicas às ilhas britânicas (sécs. v-vi) e refeitos em plena medievalidade (sécs. ix-xii). Decorrem nas franjas resistentes dos antigos territórios celtas da Ibérnia, Gales, Cornualhas e Armórica. Os deuses e heróis épicos, dramáticos e diegéticos da matriz helénica cedem gradualmente o passo aos cavaleiros da corte de Artur de Pendragon, das florestas, fontes, pântanos, mares, praias e castelos encantados da Irlanda e das duas Bretanhas.

Chrétien de Troyes [c. 1135 c. 1190], poeta, romancista e trovador francês, escolheu algumas destas figuras provenientes das remotas tradições galesas e converteu-as em protagonistas de quatro dos seus romans courtois que até nós chegaram. Jean-Pierre Foucher reduziu a prosa os octossilábicos originais, verteu-os do francês antigo para o moderno e reuniu-os no volume Romans de la Table Ronde (1970). Li a seleta num exemplar de bolso adquirido durante umas férias em Sarlat, no Périgord, editado pela Folio Classique da Gallimard, que me forneceu, ainda, um longo Prefácio e Notas do tradutor, bem como um Dossier de contextualização literária. Voltei à sua companhia uma trintena de anos após a primeira visita e mais uma vez em tempo de pausa estival. Fi-lo com o olhar amadurecido pelo hiato intermédio das duas leituras e que só o tempo com a sua proverbial sagacidade nos decide oferecer.

O núcleo fundador da série baseia-se num paradigma comum regido pela unidade e diversidade expositiva. Todos eles traçam em linhas gerais a biografia fictícia dum cavaleiro, oriundo dos mais elevados estratos sociais, senhores de muitos nomes, aventuras e virtudes. Audazes na liça e fiéis no amor, agem como lídimos paladinos dos fracos e oprimidos, representando os mais altos ideais da cavalaria andante e do amor cortês. Parceiros de armas do Rei Artur e membros da Távola Redonda, particularizam-se em cada um dos títulos do ciclo. No Érec et Énide, explora-se o equilíbrio entre os deveres da cavalaria e os quesitos do amor conjugal. Estes juízos são ampliados no Cligès ou la fausse morte, ao substituir-se a paixão fatal pelo enlace legal. Ao invés, no Lancelot, le Chevalier de la charrette surge o adultério apaixonado entre o Lancelot e Genebra, a consorte real. Finalmente, no Yvain, le Chevalier au lion exploram-se os princípios centrais do fin'amor, definidores em suma do género.

O caráter independente de cada um dos quatro títulos do grupo não inibe, porém, o encaixe regular de episódios vindos doutras narrativas similares, lineares e fantasiosas, protagonizadas por algum cavaleiro mais ou menos famoso da Ordem da Távola Redonda e devidamente listados no index final de heróis. O destaque centra-se naturalmente no Rei Artur e na Rainha Genebra, a par de Messire Gauvain e do Senescal Ké, bem como no triângulo amoroso formado pelo Rei Marc da Cornualha e por Tristão e Isolda. Subitamente, senti um impulso intenso de voltar à floresta encantada da Brocéliande, onde tantos eventos reais ou imaginados terão tido lugar. É verdade que a Dama do Lago e a Fada Viviane já não se deixam ver por essas paragens mágicas, mas a fonte de Barenton, o vale sem retorno, a árvore de ouro, o espelho das fadas ou o túmulo de Merlim continuam à vista de quem os quiser ver ou rever, como será justamente o meu caso.

14 de agosto de 2026

Eclipse total ou pouco mais ou menos

eclipse
(e·clip·se)
Ocultação temporária, parcial ou total, de um astro por interposição de outro.
Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

Vi há pouco o que à partida não se vê ou deixa ver. O Sol começou a esconder-se nas costas da Lua que, na ausência de luz e na mais profunda negridão, também deixou de ser vista. Chamam-lhe eclipse solar, uma ocultação total que de muito em muito longe se deixa observar num mesmo quadrante geográfico.

Observei o fenómeno no Parque Ribeirinho da Ria Formosa e no meio duma multidão de mirones munida tal como eu de óculos para eclipse certificados. E o jogo das escondidas entre os dois astros maiores visíveis na nossa esfera celeste foi correndo no período de tempo previsto por quem percebe do assunto.

Vistas bem as coisas e por assim dizer, ainda consegui vislumbrar uma fatia solar de 7% a espreitar por uma grande esfera plana de sombra, obscuridade ou trevas lunar, a imitar uma noite antecipada dum par de horas e duração duns breves 27 segundos. Faro, afinal, só nos eclipsou 93% de superfície do astro-rei.

Desisti de ver as Perseidas, anunciadas nos canais mediáticos como a melhor chuva de estrelas-cadentes do ano. A julgar pelo maior eclipse solar dos últimos 114 anos, o melhor é dedicar o tempo a outros entretenimentos, até porque a próxima dança de gato e rato astral só se verificará daqui a uns meros 118 anos.

6 de agosto de 2026

Os mal contados 900 Anos de Portugal

Acácio Lino, Batalha de São Mamede (1922)
[Lisboa, Sala Acácio Lino, Palácio de São Bento]
«O primeiro significado que à batalha de S. Mamede (1128) sempre foi atribuído e ainda hoje o é por muitos, senão pela maioria dos portugueses ‒ foi o de um confronto interno, doméstico, uma espécie de "guerra civil": o seu objeto era a posse e chefia do Condado Portucalense, os sujeitos eram D. Afonso Henriques e sua mãe, D. Teresa, bem como os partidários de uns e de outros. Este aspeto existiu, foi importante e teve efeitos políticos imediatos: a chefia do Condado Portucalense, atribuído ‒ como se sabe ‒ a D. Henrique e a D. Teresa hereditariamente, passou num ápice da filha do Imperador de Leão para o filho varão dos condes portucalenses. E este não tardou em, desde logo, extrair consequências da sua vitória ‒ por exemplo, nomeando certos companheiros seus para cargos importantes da administração do condado (chanceler-mor, alferes-mor, etc).»
Diogo Freitas do Amaral
Em que momento se tornou Portugal um país independente (2001)

Tem-se falado muito ultimamente nos 900 anos da fundação de Portugal, número redondo centrado na batalha de São Mamede, travada no dia 26 de junho de 1128, entre Dom Afonso Henriques e Dona Teresa de Leão. O vencedor transformou-se no novo Conde de Portucale, cargo até então desempenado pela vencida. Uma simples querela familiar entre mãe e filho teria levado ao ponto de partida duma nova entidade política soberana, cujo aniversário agora se celebra ou começa a celebrar.

Vistas bem as coisas, tudo ficou rigorosamente na mesma. Nada mudou. Condado era, condado ficou. Uma condessa-rainha, gerada por um rei-imperador, é trocada por um conde-infante, filho e neto de condes. O Condado Portucalense governado até então por uma Domina passa a ser governado por um Dominus. A linha dinástica condal iniciada em 1096 pelo Conde Dom Henrique de Borgonha manteve-se de pé pelos séculos fora até à queda da Monarquia e ao advento da República em 1910.

Se quisermos recuar alguns séculos, podemos assentar arraiais na Presúria do Porto, campanha militar liderada por Vímara Peres, que tomou em 868 a região de Entre-Douro-e-Minho e delimitou pela primeira vez a Terra Portucalense. Afonso III das Astúrias confia-lhe a administração do território como entidade distinta da Galiza, como primeiro Conde de Portucale, a que se seguiu uma dezena de descendentes por linha reta ou cognata. 

Episódio após episódio, a certidão de nascimento dum território, estado ou nação empurra-nos para balizas históricas cada vez mais distantes entre si. Um longo processo de formação dum país, reconhecido dentro e fora das fronteiras que o delimitam e projetam no mundo. E tudo isto há 1158 anos, cumpridos ou a cumprir nos dias de hoje, já que os ecos remotos que até nós chegaram do evento primevo não indicam uma data precisa para fazer um bolo, cantar os parabéns e soprar as velas.

 

30 de julho de 2026

Naguib Mahfouz e as vidas vividas na viela, beco ou ruela cairota dos milagres

"من الضروري أن يوجد في حياة الإنسان شيء تنعقد حوله آماله، شيء يقرر لحياته قيمة ولو وهمية أو سخيفة."
ننجيب محفوظزقاق المدق، ١٩٤٧

São incomensuráveis os caminhos que nos conduzem à presença dum livro. O mais espectável será entrar numa livraria e adquirir um ou encomendá-lo on-line sem sair de casa. Outras vezes tropeça-se por acaso com um na rua ou recebe-se um outro como presente dum amigo sem fazer anos ou coisa que o valha. Podia ampliar a lista, mas ficaria sempre uma travessa, vereda ou atalho mais ou menos surpreendente de acervos bibliográficos por revelar. Recebi há dias um exemplar já marcado pela patine dos anos contados em quase quatro décadas. Fazia parte da coleção particular dum amigo hispano de longa data que me quis fazer depositário duma história de histórias entrecruzadas que havia lido avidamente in illo tempore. Trouxe-o comigo como companheiro de percurso e o percorri com olhos de ver de fio a pavio. Foi criado pelo único autor árabe laureado com o Nobel da Literatura, Naguib Mahfouz, intitulado pela Alcor El callejón de los milagros e pela Caminho A viela de Midaq (1947), uma solução menos sugestiva mas mais próxima do original.

O relato abre com uma descrição minuciosa do palco onde a ação dramática irá decorrer e dos atores que lhe darão vida, ao longo de trinta e cinco capítulos, distribuídos por três centenas de páginas. Tudo se passa na tradicional ruela, beco ou impasse sem saída do bairro histórico de Gamaliyya, situado no centro islâmico da cidade do Cairo dos anos quarenta, a tal viela de Midaq ou dos milagres que empresta o nome ao romance. Através dos esboços minuciosamente traçados da malha urbana e dos seus residentes locais ou visitantes eventuais, adentramo-nos passo a passo do misterioso microcosmos formado pela sociedade egípcia dos tempos da guerra, tão estranho a um olhar ocidental comum, pouco afeito ao ambiente algo exótico da maior metrópole mediterrânica do mundo árabe e do continente africano, herdeiro de impérios faraónicos desfeitos e, porventura, doutros ainda por fazer ou por cumprir.

O recitador público de versos corânicos e o filho tocador de violino entram e saem rapidamente de cena, expulsos pelo proprietário do café de Kirsha, onde os demais intervenientes efabulados na epopeia coletiva de heróis obscuros se vão revezando ao longo dos dias, dos meses e dos anos. O protagonismo da crónica recai no próprio burgo, nos diversos espaços públicos e privados do aglomerado de casas erguidas nos dois lados do arruamento e habitados quotidianamente pelos vizinhos que lhe dão vida. O vendedor de caramelos, a padeira que espanca o marido, o feitor de falsos aleijados e lídimos mendigos, a alcoviteira pícara e casamenteira oficial, o dentista improvisado e roubador de dentes aos cadáveres, o barbeiro ingénuo apaixonado pela beldade local, o comerciante bem-sucedido dono dum bazar, o antigo funcionário e professor de inglês, senhorios e inquilinos, fumadores de haxixe e bebedores de chá, novos e velhos, ricos e pobres, conservadores enraizados e renovadores embrionários.

Quando ao abrir a narrativa os cantos do poeta levantino são trocados pelas vozes sem rosto dum aparelho de rádio, o seu obreiro estava a anunciar a chegada dos novos tempos àquele espaço pacato perdido no coração duma imensa pólis fervilhante feita de muitas gentes a sul do delta, nas margens e ilhas do Nilo. O conflito travado entre o apego à práxis ancestral e a atração pela modernidade vai-se instalando em grande crescendo na teia efabulativa retratada. O espaço fechado da Zuqaq al-Midaqq cairota abre-se para o mundo exterior, numa ânsia desmedida de substituir a pobreza secular reinante por uma riqueza material fácil de obter. O impacto da presença militar britânica terá ajudado os mais jovens a vencer a raia invisível entre as rotinas, desditas e reveses pretéritos e a visionar as novidades, alegrias e anseios futuros, mas o final anunciado desse conflito bélico global terá levado a reformular as estratégias de base até então seguidas e a efetivar daí para a frente. As entidades enunciadoras não o chegam a fazer, o que não impede os destinatários potenciais a presenciá-las.

EPÍGRAFE
É essencial que haja algo na vida de uma pessoa em torno do qual as suas esperanças estejam depositadas, algo que dê valor à sua vida, mesmo que seja ilusório ou ridículo.
Naguib Mahfouz, A Viela de Midaq (1947)

21 de julho de 2026

Amigos-fantasma, silenciosos e virtuais

Bagagem do Viajante
H C Andersens Hus - Odense  (Dk)
[Foto de capa da página pessoal fb]
«Oh! Viajar, viajar! É, na verdade, o destino mais feliz. E por isso viajamos todos nós. Tudo viaja em todo o Universo. Mesmo o mais pobre ser tem o cavalo alado do pensamento e quando fica fraco e velho, então toma-o a morte consigo na viagem, que todos fazemos. Viajamos todos, mesmo os mortos, nos seus túmulos silenciosos, voam com a terra à volta do Sol.»
Hans Christian Andersen, Uma visita a Portugal em 1866

É rara a vez que abro o Facebook e não sou avisado do aniversário de alguém. Sou instado a festejar a data do seu nascimento mesmo após o seu falecimento. O livro das caras tem destas singularidades. Boas/más, insólitas. Lembra-nos a data mais importante dos nossos amigos virtuais. Aquela em que entraram em cena neste palco real de gente vivente, mesmo quando já terão ido desta para melhor. Anuncia-se o início da viagem e omite-se o termo da mesma. Entra-se muito discretamente nos meandros desconhecidos da eternidade sem bagagem de mão, sem dizer água-vai e sem regresso à vista.

Tenho o meu ciberespaço repleto de amigos-fantasma, silenciosos e virtuais. O mundo está mais pobre para mim. Os emojis no meu FB são cada vez mais escassos. Os meus contactos em-linha cresceram, estabilizaram e definharam. Ainda me resta uma meia dúzia de nomes mais ou menos conhecidos dentro e fora da rede com quem interajo esporadicamente quando o rei faz anos e até sou republicano. Em dezassete anos de navegações solitárias sem rumo certo e terra à vista, a apetência pela comunicação à distância entrou num período comatoso, como as reações a esta mensagem poderão comprovar.

13 de julho de 2026

Isabel Allende e as crónicas épicas de Inés Suárez del alma mía

«Soy Inés Suárez, vecina de la leal ciudad de Santiago de la Nueva Extremadura, en el Reino de Chile, en el año 1580 de Nuestro Señor. De la fecha exacta de mi nacimiento no estoy segura, pero, según mi madre, nací después de la hambruna y la tremenda pestilencia que asoló a España cuando murió Felipe el Hermoso. No creo que la muerte del rey provocara la peste, como decía la gente al ver pasar el cortejo fúnebre, que dejó flotando en el aire, durante días, un olor a almendras amargas, pero nunca se sabe. La reina Juana, aún joven y bella, recorrió Castilla durante más de dos años llevando de un lado a otro el catafalco, que abría de vez cuando para besar los labios de su marido, con la esperanza que resucitara. A pesar de los ungüentos del embalsamador, el Hermoso hedía. Cuando yo vine al mundo, ya la infortunada reina, loca de atar, estaba recluida en el palacio de Tordesillas con el cadáver de su consorte; eso significa que tengo por lo menos setenta inviernos entre pecho y espalda y que antes de la Navidad he de morir. Podría decir que una gitana a orillas del río Jerte adivinó la fecha de mi muerte, pero sería una de esas falsedades que suelen plasmarse en los libros y que por estar impresas parecen ciertas. La gitana sólo me auguró una larga vida, lo que siempre dicen por una moneda.»

Entrar numa livraria. folhear um livro à escolha entre muitos outros, num convite aos sentidos de tateá-lo página a página, cheirá-lo glifo a glifo, olhá-lo palavra a palavra, escutá-lo frase a frase, saboreá-lo linha a linha, de fio a pavio, da capa à contracapa, sem limites e sem pressas, torna-se num prazer sinestésico vedado às vendas online, que não conseguiram ainda eliminar por completo dos seus leitores potenciais. O encerramento gradual dos locais de oferta direta ao público tem limitado o contacto físico com os textos impressos acabados de lançar. As novidades são escamoteadas restando nos expositores as obras mais vocacionadas para chamar a atenção dos clientes. O recurso aos bestsellers costuma ser o chamariz mais utilizado. Um dia destes andei à procura dum título sugestivo em espanhol e só encontrei uma edição de bolso dum original de Isabel Allende, a sugerir-me uma tal Inés del alma mía (2006). À falta doutras alternativas, peguei nele e trouxe-o para casa.

As informações paratextuais contidas no exemplar trazido comigo debaixo do braço disseram-me, ato contínuo, tratar-se dum romance de base histórica, centrado na figura de Inés Suárez (1507-1580), uma espanhola original de Plasencia, que participou na conquista do Chile e na fundação de Santiago. Parte da tessitura narrativa já fica traçada, ficando a faltar o trajeto vital da protagonista, situado entre o nascimento e o óbito, lacuna suprida num ajuste assumido entre a realidade acontecida e a imaginada pela novelista bem conhecida no mundo globalizado das letras. Entre as hipóteses dispostas pelas percetivas poéticas, escolhe o modo autobiográfico, com todas as limitações inerentes, com um destaque especial para a referência verosímil à chegada da morte, sem a poder relatar de viva voz. A entidade enunciativa externa concede à interna a possibilidade de expressar a sua convicção de estar a chegar ao final da vida sem poder ir muito além na sua liberdade efabulativa.

Aos 70 anos, a relatora sente o fim aproximar-se e põe mãos à obra antes que as forças lhe faleçam e regista por escrito o seu percurso aventuroso por dois continentes, repartidos por seis etapas datadas e subintituladas. Entre 1500 e 1553, não deixa de fora as memórias salvas da voragem do tempo: Europa e América, Chile e Santiago, tragédias e guerras. Não omite os casamentos com Juan de Málaga e Rodrigo de Quiroga, a mediar a ligação com Pedro de Valdivia, o tomador e arquiteto dum extenso reino hispânico no Novo Mundo. As lutas tidas entre ocupantes e ocupados atravessam o testemunho das fabulistas, a subjetividade natural da narradora e a objetividade desejada da autora. Para todos os efeitos, quer queiramos ou não, a leitura à distância de meio milénio não pode enveredar pela análise anacrónica dos factos. Juízos de valor de épocas distintas terão de atender aos contextos diversos em que foram produzidos. A crueldade dos conquistadores quinhentistas à luz dos padrões atuais não podem ser encarados como uma realidade singular. Tal a norma que torna impossível refazer a História dentro ou fora dos manuais escolares ou nas recriações romanescas.  

Transpostos os dados autobiográficos, ficamos com uma larga série de feitos históricos ligados à expansão imperial castelhana contra astecas, maias, incas e mapuches, em busca dum El Dorado mítico nunca encontrado. Como se diz, não merece a pena chorar sobre o leite derramado. Por muito que se lamente a perda, não há forma de o recuperar. Os danos causados aos povos invadidos e submetidos ficarão para sempre arrolados de forma indelével nos anais que os retratam. O testemunho atribuído à jovem costureira estremenha e cronista da epopeia chilena converte-a de protagonista de sucessos vividos em deuteragonista de episódios observados ou escutados de terceiros. Desta oscilação efabulativa nasce no leitor a vontade de ler outros textos ilustrativos de eventos pretéritos atualizados pela obreira da ficção, numa árdua pesquisa de vários anos listados nas notas bibliográficas reveladas. A prova provada de como a cultura literária poderá conjugar de modo pleno o duplo objetivo do proveito e deleite. Saibamos nós aproveitá-lo.

7 de julho de 2026

Fronteiras de Conil de la Frontera

CONIL DE LA FRONTERA
[Archivo de la Fundación Casa Medina Sidonia]
frontera
(De fronte y -era.)
f. Confín de un Estado.  
aduana, confín, demarcación, divisoria, término.
Diccionario de la lengua española

No final dos anos 60, fui convidado a passar parte das férias de verão em Conil de la Frontera. Os tempos de guerra colonial impediram-me de rumar até à Costa de la Luz andaluza. As fronteiras políticas então traçadas entre o sagrado torrão lusitano e o resto do mundo estavam totalmente vedadas a todos os mancebos nacionais em idade militar.

Em meados da década de 80, atravessei um par de vezes a pele de touro ibérica em direção a outras paragens. Passei sempre ao largo de Conil de la Frontera sem ter ensejo de visitar o casario branco e as praias douradas do pueblo gaditano. Na sua malha urbana não tinha os braços dos meus amigos de juventude abertos à minha espera.

Na entrada do segundo quartel do novo milénio, o perfil de Conil de la Frontera voltou a acenar-me no horizonte. O gesto foi feito à distância por um sobrevivente dessa pandilla de antanho. Decidira residir nesse local de veraneio onde em tempos fora feliz e queria reviver. A fruir o sol, o mar, a natureza e a presença dos amigos.

A ligação a Conil de la Frontera faz-se hoje numa assentada. O Espaço Schengen suprimiu as fronteiras tão bem como a conquista de Granada fizera outrora com as aduanas cristãs e muçulmanas. Após 350 km de autoestradas, pisei por fim a terra prometida nos verdes anos e concretizada agora nos bem maduros. Nem mais!

Dibujo de Conil y su costa, 1727