11 de setembro de 2026

Benesse e maldição do Toque de Midas

Bartolomeo Manfredi, Re Mida (c. 1617-1619)
«Mida si lava nella fontana di Pactolo»
[NY - Metropolitan Museum]
Ille male usurus donis ait 'effice, quicquid
corpore contigero, fulvum vertatur in aurum.'
adnuit optatis nocituraque munera solvit
Liber et indoluit, quod non meliora petisset.
Do ouro... 
Dizem os mitos antigos em modo de lenda ter havido na Frígia, em tempos que vão, um rei capaz de comutar em ouro tudo aquilo em que tocasse. A história de Midas, contada em versos gregos e latinos, reza que o dom lhe fora dado por Dioniso, como recompensa por ter salvo o sátiro Sileno, seu mestre e tutor, dum perigo em que caíra. Essa benesse divina revelou-se uma verdadeira maldição para um mero mortal. Ao levar um pedaço de pão e um pouco de vinho à boca, estes reduziram-se a ouro. Na iminência de morrer de fome e sede, pediu ao deus que revertesse essa oferta funesta. O antídoto foi-lhe facultado com a lavagem da cabeça e das mãos no rio Pactolo, cujas águas ficaram, desde então, carregadas de pepitas do valioso metal.
... ao ouropel
Dizem os mass média atuais ao jeito de faits divers haver, em tempos que por andam, um rei de coisa nenhuma apto a transmudar tudo em ouro sem tocar em nada. Para isso, o White House Big Boss tem ao seu dispor os acólitos para o fazerem por si com os mais finos meios dados por esquemas espúrios forjados entre guerras reais e pazes virtuais. O ouro de lei que não se nem deixa tocar é mudado pelo ouropel com que o tiranete de guedelha tingida de loiro-dourado amarelado e pretenso imperador do mundo e mais houvera envolve tudo em seu redor. Lâminas finas de latão barato ou cobre polido, associadas a fitas luzidias de parco ou nulo valor. Brilho falso, vazio, irreal. Delírios desmedidos dum grande gabador e pequeno fazedor.

EPÍGRAFE
Midas, que estava prestes a adoecer por causa dos presentes, disse: 'Faz com que tudo o que acontecer ao meu corpo se transforme em ouro'. Assentiu com a cabeça e pagou os presentes desejados, que seriam prejudiciais, e lamentou não ter pedido coisas melhores. P. Ovídio, Metamorfoses ( 8 EC: xi, 102.105)

6 de setembro de 2026

Pinceladas em contracorrente

Jonone et Onemize, «I spray your dream» (2024)

D u o . de n á . r . O

Porque à dúzia é mais barato...

As pinceladas em contracorrente são cada vez mais espaçadas. As memórias escasseiam, os horizontes de eventos decrescem, as motivações do dia a dia minguam. O anuário esvai-se num número redondo ou tido como tal.

doze anos uma livraria fechava as portas. Doze anos depois uma livraria ardia. Já não resta nenhuma livraria aberta no centro da cidade. As leituras fazem-se agora on-line ou deixaram de se fazer. A idade dos livros já era.

Entre os incêndios e secas estivais e as depressões e inundações invernais, decorreram os casos, casinhos e casões locais a alternar e/ou a concorrer com a loucura, alienação e insanidade globais. Nada de muito inspirador.

Pingos de escrita, pingos de leitura, pingos de canto, pingos de ioga, pingos do Lethes, pingos de pingos a pingar aqui e ali. Pinceladas a contracorrente a pingar no dia a dia, num pinga-pinga perene de anuário em anuário.

1 de setembro de 2026

Notícias dos tempos de passividade, imitação e mudança da cidade silvestre

«Espantoso como a vida corria, os jornais eram outros e as pessoas mudavam. Mesmo as que já não engordavam nem cresciam, compravam roupas, cortavam o cabelo e de repente apareciam mudadas à janela dum outro carro. Quando a certa altura começou a pensar que afinal nenhuma metafísica se desprendia dos acontecimentos, pôs-se à beira do rio, um barco branco passou trambolhocando água abaixo, e dizia ele a vermelho velho nas duas faces da proa — παντα ρεϊ’. Tinha tido tempo de copiar esses greguiformes na bainha da saia para perguntar ao Sr. Assumpção, e ele disse-lhe, sonhador, diante duma estante — “Panta rei? Tudo muda.”»
Lídia Jorge, Notícia da cidade silvestre (1984)

Voltar à leitura de livros já lidos é um expediente que repito cada vez mais frequência. A falta de espaço físico para guardar novas aquisições e a recusa de me desfazer das antigas está na origem destas releituras relativamente recentes. Aproveitei o período de férias de verão para revisitar pela enésima vez um dos romances inaugurais de Lídia Jorge, Notícia da cidade silvestre (1984), aquele em que a fabulista troca o vilarejo rural de Vilamaninhos e o Hotel Alguergue do cenário algarvio d'O dia dos prodígios (1979) e d'O cais das merendas (1982), pelos tabulados urbanos de Lisboa e se lançar depois pelos palcos mais alargados do antigo império colonial português e da diáspora lusitana pelo mundo. Por esses dias soube da atribuição muito devida do Prémio Camões, o que me levou a mergulhar com maior intensidade nesse informe citadino agreste, espelhado de modo contundente no título seguido para lhe dar corpo.

O ponto de partida narrativo cumpre a função dum prólogo sucinto, traçado e assinado pela autora, com o fino propósito de apresentar a protagonista das histórias desenvolvidas nos capítulos e páginas seguintes. Adverte que M. J. Matos G. passa a ser designada por Júlia Grei, de modo a chamar a atenção para a impreterível alteração do real e para o valor simbólico contido no nome e apelido selecionados, «paixão» e «povo», particularmente apropriados para sublinharem o caráter de testemunho pessoal da intimidade falada emprestada à efabulação. Os demais coadjuvantes ou meros figurantes de escasso peso na ação terão de esperar por um segundo preâmbulo textual, registado em itálico pela emissora interna do discurso, onde já se vislumbra o vulto de Anabela Cravo, rapidamente transformada na antagonista do relato e promotora involuntária do longo processo de maduração radical do Panta rei (Πάντα ρεί = tudo muda), dístico registado em carateres gregos em ambas as faces da proa dum navio grego de passagem pelo estuário do Tejo.

Uma das particularidades das releituras espaçadas no tempo reside na descoberta de novas pistas de desmontagem intrínseca dum texto, de decifração das suas mensagens mais profundas. Esse processo de adentramento paulatino poderá até contar com a ajuda casual da IA, a mirar-nos a cada átimo no recanto mais insuspeito do ciberespaço. Ser avisado, v.gr., para o facto da imagem metafórica da «campânula de vidro», usada à exaustão por Lídia Jorge, se cruzar com o romance de Sylvia Plath, The Bell Jar (1963). Ignoro de que modo o foco central seguido pela criadora portuguesa é subsidiário do da americana, para além de abrigarem no seu interior uma sensação de isolamento social, sufoco emocional e opressão depressiva, onde as dramatis personæ retratadas se sentem protegidas, mas simultaneamente separadas do mundo exterior. O distanciamento crítico sentido aqui pelas emissoras face às ilusões gizadas pela Revolução dos Cravos voltará a repetir-se n'O jardim sem limites (1995), identicamente situado na capital metropolitana do país, embora transformada numa similar «bolha/esfera de ar».

As linhas gerais deste auto de notícia resume-se em poucas palavras, embora assente na exposição do penoso processo de transformação pessoal da narradora participante na ação como figura charneira de todos os eventos aludidos, sitos em Lisboa entre setenta e cinco e setenta e nove. As palavras escritas num «caderno amarelo» e nos «papéis» enviados por correio ou por quem calhava à suposta editora do relato final. Trata-se, em suma, da luta de sobrevivência de duas mulheres radicalmente distintas nos labirintos infindáveis da cidade silvestre que simboliza a própria vida. Júlia Grei segue uma estratégia de amor, Anabela Cravo uma estratégia de poder. Ambas atingem os seus objetivos, muito embora as etiquetas de heroína/anti-heroína tanto assentem numa como noutra, consoante o ponto de vista que queiramos perfilhar. A minha recai na que leva nome de gente, por ter sido a única a converter os tempos de passividade e imitação num tempo de mudança, livre de todos os resquícios de submissão sebástica existentes em si e a materializar o panta rei preambular.

26 de agosto de 2026

A madeira norueguesa de Murakami

Haruki Murakami with The Beatles
[Adrian Tomine, The New Yorker (2020)]
I once had a girl | Or should I say, she once had me? | She showed me her room | "Isn't it good, Norwegian wood?" || She asked me to stay | And she told me to sit anywhere | So I looked around | And I noticed there wasn't a chair. || I sat on the rug | Biding my time, drinking her wine | We talked until two | And then she said, "It's time for bed" || She told me she worked in the morning | And started to laugh | I told her I didn't |And crawled off to sleep in the bath.
The Beatles, Norwegian Wood (1965)

Histórias contadas e cantadas...

Na altura, eu tinha trinta e sete anos e seguia a bordo de um Boeing 747. Descrito como um pássaro gigantesco, o avião deu início à descida, atravessou as densas nuvens carregadas de chuva e fez-se à pista do aeroporto de Hamburgo. A fria chuva de novembro tingia de cinzento a terra e transformava tudo em redor numa lúgubre paisagem digna da pintura flamenga: o pessoal de terra com impermeáveis, a bandeira no topo de um edifício térreo do aeroporto, um painel publicitário da BMW. Alemanha, aqui estou eu de novo, pensei.

Mal o aparelho completou a aterragem, apagaram-se os sinais luminosos que indicavam a proibição de fumar. Debitada pelos altifalantes, começou a soar baixinho a música de fundo. «Norwegian Wood», dos Beatles, numa versão orquestral delicodoce. Como de costume, a melodia teve o condão de me comover. Não, em bom rigor, não me comoveu; produziu em mim uma reação muito mais violenta do que era normal.

 Haruki Murakami, Norwegian Wood (1987)

20 de agosto de 2026

Chrétien de Troyes e os romances dos cavaleiros arturianos da távola redonda

« Le baron, selon la coutume, annonce qu'il va prendre le baiser du Blanc Cerf. Sitôt, par la cour on fait grand murmure. L'un l'autre les chevaliers se jurent que telle affaire n'ira sans défit d'épée ou de lance de frêne. Chacun veut par chevalerie faire reconnaître que son amie est la plus belle de l'assemblée. » [Érec et Énide (c. 1160-1164)]
« Je vous dirai que je n'irai point ainsi avec vous, car par le monde entier il serait de nous deux parlé comme d'Yseult et de Tristan. Quand nous nous en serions allés tous blâmeraient notre passion. Nul ne dirait, ne voudrait croire la chose comme elle est vraiment. [...] Je veux me faire passer pour morte, voilà l'idée que j'ai eu. D'abord je ferai la malade et vous penserez à pourvoir à ma sépulture. » [Cligès ou la fausse morte  (c. 1176)]

« Il passa outre à grande allure jusqu'à ce qu'il retrouve, par aventure, le chevalier, tout seul, à pied, tout armé, heaume lancé, l'écu au col, l'épée ceinte, près d'une charrette rencontrée. Les charrettes servaient alors à quoi servent les piloris [...] pour ceux qui ont commis meurtre et trahison, pour ceux qui sont tombés en duel de jugement, pour les larrons et les bandits de grand chemin. Qui était pris sur le fait était alors mis sur la charrette, mené par toutes les rues puis déclaré hors-de-loi, ne pouvant plus être ouï en justice, non plus honoré, ni fêté. » [Lancelot, le Chevalier de la charrette  (c. 1176-1181)]

« Messire Yvain cheminait pensif par une profonde forêt et soudain ouït un cri très fort et douloureux. Il se dirigea vers l'endroit d'où lui semblait parti le cri. Quand il parvint en ce lieu-là, il vit un lion dans un essart et un serpent qui l'enserrait dedans sa queu et lui brülait l'échine de cent flammes qu'il vomissait. Messire Yvain ne regarda longtemps cette merveille. En lui-même il se demanda lequel des deux il aiderait. Il se décida pour le lion, pensant qu'on ne doit faire du mal qu'à bête venimeuse et félonne. » [Yvain, le Chevalier au lion]
Chrétien de Troyes, Romans de la Table Ronde
(Paris: Gallimard, 1970. Ed. Jean-Pierre Foucher, pp. 42, 134, 159-60, 301)

Todos os mitos têm um fundo global e intemporal. Todas as lendas têm um fundo local e temporal. Todos os contos que lhes estão associados representam o eco distante duma realidade vivida e que a imaginação se incumbiu de moldar. Cada um destes relatos espelha também um compromisso estreito da ficção com a História. Os livros de aventuras amorosas e místicas arturianas não fogem a esta regra. Enviam-nos para factos acontecidos aquando das invasões saxónicas às ilhas britânicas (sécs. v-vi) e refeitos em plena medievalidade (sécs. ix-xii). Decorrem nas franjas resistentes dos antigos territórios celtas da Ibérnia, Gales, Cornualhas e Armórica. Os deuses e heróis épicos, dramáticos e diegéticos da matriz helénica cedem gradualmente o passo aos cavaleiros da corte de Artur de Pendragon, das florestas, fontes, pântanos, mares, praias e castelos encantados da Irlanda e das duas Bretanhas.

Chrétien de Troyes [c. 1135 c. 1190], poeta, romancista e trovador francês, escolheu algumas destas figuras provenientes das remotas tradições galesas e converteu-as em protagonistas de quatro dos seus romans courtois que até nós chegaram. Jean-Pierre Foucher reduziu a prosa os octossilábicos originais, verteu-os do francês antigo para o moderno e reuniu-os no volume Romans de la Table Ronde (1970). Li a seleta num exemplar de bolso adquirido durante umas férias em Sarlat, no Périgord, editado pela Folio Classique da Gallimard, que me forneceu, ainda, um longo Prefácio e Notas do tradutor, bem como um Dossier de contextualização literária. Voltei à sua companhia uma trintena de anos após a primeira visita e mais uma vez em tempo de pausa estival. Fi-lo com o olhar amadurecido pelo hiato intermédio das duas leituras e que só o tempo com a sua proverbial sagacidade nos decide oferecer.

O núcleo fundador da série baseia-se num paradigma comum regido pela unidade e diversidade expositiva. Todos eles traçam em linhas gerais a biografia fictícia dum cavaleiro, oriundo dos mais elevados estratos sociais, senhores de muitos nomes, aventuras e virtudes. Audazes na liça e fiéis no amor, agem como lídimos paladinos dos fracos e oprimidos, representando os mais altos ideais da cavalaria andante e do amor cortês. Parceiros de armas do Rei Artur e membros da Távola Redonda, particularizam-se em cada um dos títulos do ciclo. No Érec et Énide, explora-se o equilíbrio entre os deveres da cavalaria e os quesitos do amor conjugal. Estes juízos são ampliados no Cligès ou la fausse morte, ao substituir-se a paixão fatal pelo enlace legal. Ao invés, no Lancelot, le Chevalier de la charrette surge o adultério apaixonado entre o Lancelot e Genebra, a consorte real. Finalmente, no Yvain, le Chevalier au lion exploram-se os princípios centrais do fin'amor, definidores em suma do género.

O caráter independente de cada um dos quatro títulos do grupo não inibe, porém, o encaixe regular de episódios vindos doutras narrativas similares, lineares e fantasiosas, protagonizadas por algum cavaleiro mais ou menos famoso da Ordem da Távola Redonda e devidamente listados no index final de heróis. O destaque centra-se naturalmente no Rei Artur e na Rainha Genebra, a par de Messire Gauvain e do Senescal Ké, bem como no triângulo amoroso formado pelo Rei Marc da Cornualha e por Tristão e Isolda. Subitamente, senti um impulso intenso de voltar à floresta encantada da Brocéliande, onde tantos eventos reais ou imaginados terão tido lugar. É verdade que a Dama do Lago e a Fada Viviane já não se deixam ver por essas paragens mágicas, mas a fonte de Barenton, o vale sem retorno, a árvore de ouro, o espelho das fadas ou o túmulo de Merlim continuam à vista de quem os quiser ver ou rever, como será justamente o meu caso.

14 de agosto de 2026

Eclipse total ou pouco mais ou menos

eclipse
(e·clip·se)
Ocultação temporária, parcial ou total, de um astro por interposição de outro.
Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

Vi há pouco o que à partida não se vê ou deixa ver. O Sol começou a esconder-se nas costas da Lua que, na ausência de luz e na mais profunda negridão, também deixou de ser vista. Chamam-lhe eclipse solar, uma ocultação total que de muito em muito longe se deixa observar num mesmo quadrante geográfico.

Observei o fenómeno no Parque Ribeirinho da Ria Formosa e no meio duma multidão de mirones munida tal como eu de óculos para eclipse certificados. E o jogo das escondidas entre os dois astros maiores visíveis na nossa esfera celeste foi correndo no período de tempo previsto por quem percebe do assunto.

Vistas bem as coisas e por assim dizer, ainda consegui vislumbrar uma fatia solar de 7% a espreitar por uma grande esfera plana de sombra, obscuridade ou trevas lunar, a imitar uma noite antecipada dum par de horas e duração duns breves 27 segundos. Faro, afinal, só nos eclipsou 93% de superfície do astro-rei.

Desisti de ver as Perseidas, anunciadas nos canais mediáticos como a melhor chuva de estrelas-cadentes do ano. A julgar pelo maior eclipse solar dos últimos 114 anos, o melhor é dedicar o tempo a outros entretenimentos, até porque a próxima dança de gato e rato astral só se verificará daqui a uns meros 118 anos.

6 de agosto de 2026

Os mal contados 900 Anos de Portugal

Acácio Lino, Batalha de São Mamede (1922)
[Lisboa, Sala Acácio Lino, Palácio de São Bento]
«O primeiro significado que à batalha de S. Mamede (1128) sempre foi atribuído e ainda hoje o é por muitos, senão pela maioria dos portugueses ‒ foi o de um confronto interno, doméstico, uma espécie de "guerra civil": o seu objeto era a posse e chefia do Condado Portucalense, os sujeitos eram D. Afonso Henriques e sua mãe, D. Teresa, bem como os partidários de uns e de outros. Este aspeto existiu, foi importante e teve efeitos políticos imediatos: a chefia do Condado Portucalense, atribuído ‒ como se sabe ‒ a D. Henrique e a D. Teresa hereditariamente, passou num ápice da filha do Imperador de Leão para o filho varão dos condes portucalenses. E este não tardou em, desde logo, extrair consequências da sua vitória ‒ por exemplo, nomeando certos companheiros seus para cargos importantes da administração do condado (chanceler-mor, alferes-mor, etc).»
Diogo Freitas do Amaral
Em que momento se tornou Portugal um país independente (2001)

Tem-se falado muito ultimamente nos 900 anos da fundação de Portugal, número redondo centrado na batalha de São Mamede, travada no dia 26 de junho de 1128, entre Dom Afonso Henriques e Dona Teresa de Leão. O vencedor transformou-se no novo Conde de Portucale, cargo até então desempenado pela vencida. Uma simples querela familiar entre mãe e filho teria levado ao ponto de partida duma nova entidade política soberana, cujo aniversário agora se celebra ou começa a celebrar.

Vistas bem as coisas, tudo ficou rigorosamente na mesma. Nada mudou. Condado era, condado ficou. Uma condessa-rainha, gerada por um rei-imperador, é trocada por um conde-infante, filho e neto de condes. O Condado Portucalense governado até então por uma Domina passa a ser governado por um Dominus. A linha dinástica condal iniciada em 1096 pelo Conde Dom Henrique de Borgonha manteve-se de pé pelos séculos fora até à queda da Monarquia e ao advento da República em 1910.

Se quisermos recuar alguns séculos, podemos assentar arraiais na Presúria do Porto, campanha militar liderada por Vímara Peres, que tomou em 868 a região de Entre-Douro-e-Minho e delimitou pela primeira vez a Terra Portucalense. Afonso III das Astúrias confia-lhe a administração do território como entidade distinta da Galiza, como primeiro Conde de Portucale, a que se seguiu uma dezena de descendentes por linha reta ou cognata. 

Episódio após episódio, a certidão de nascimento dum território, estado ou nação empurra-nos para balizas históricas cada vez mais distantes entre si. Um longo processo de formação dum país, reconhecido dentro e fora das fronteiras que o delimitam e projetam no mundo. E tudo isto há 1158 anos, cumpridos ou a cumprir nos dias de hoje, já que os ecos remotos que até nós chegaram do evento primevo não indicam uma data precisa para fazer um bolo, cantar os parabéns e soprar as velas.