
« Le baron, selon la coutume, annonce qu'il va prendre le baiser du Blanc Cerf. Sitôt, par la cour on fait grand murmure. L'un l'autre les chevaliers se jurent que telle affaire n'ira sans défit d'épée ou de lance de frêne. Chacun veut par chevalerie faire reconnaître que son amie est la plus belle de l'assemblée. » [Érec et Énide (c. 1160-1164)]
« Je vous dirai que je n'irai point ainsi avec vous, car par le monde entier il serait de nous deux parlé comme d'Yseult et de Tristan. Quand nous nous en serions allés tous blâmeraient notre passion. Nul ne dirait, ne voudrait croire la chose comme elle est vraiment. [...] Je veux me faire passer pour morte, voilà l'idée que j'ai eu, D'abord je ferai la malade et vous penserez à pourvoir à ma sépulture. » [Cligès ou la fausse morte (c. 1176)]
« Il passa outre à grande allure jusqu'à ce qu'il retrouve, par aventure, le chevalier, tout seul, à pied, tout armé, heaume lancé, l'écu au col, l'épée ceinte, près d'une charrette rencontrée. Les charrettes servaient alors à quoi servent les piloris [...] pour ceux qui ont commis meurtre et trahison, pour ceux qui sont tombés en duel de jugement, pour les larrons et les bandits de grand chemin. Qui était pris sur le fait était alors mis sur la charrette, mené par toutes les rues puis déclaré hors-de-loi, ne pouvant plus être ouï en justice, non plus honoré, ni fêté. » [Lancelot, le Chevalier de la charrette (c. 1176-1181)]
« Messire Yvain cheminait pensif par une profonde forêt et soudain ouït un cri très fort et douloureux. Il se dirigea vers l'endroit d'où lui semblait parti le cri. Quand il parvint en ce lieu-là, il vit un lion dans un essart et un serpent qui l'enserrait dedans sa queu et lui brülait l'échine de cent flammes qu'il vomissait. Messire Yvain ne regarda longtemps cette merveille. En lui-même il se demanda lequel des deux il aiderait. Il se décida pour le lion, pensant qu'on ne doit faire du mal qu'à bête venimeuse et félonne. » [Yvain, le Chevalier au lion]
Chrétien de Troyes, Romans de la Table Ronde(Paris: Gallimard, 1970. Ed. Jean-Pierre Foucher, pp. 42, 134, 159-60, 301)
Todos os mitos têm um fundo global e intemporal. Todas as lendas têm um fundo local e temporal. Todos os contos que lhes estão associados representam o eco distante duma realidade vivida e que a imaginação se incumbiu de moldar. Cada um destes relatos espelha também um compromisso estreito da ficção com a História. Os livros de aventuras amorosas e místicas arturianas não fogem a esta regra. Enviam-nos para factos acontecidos aquando das invasões saxónicas às ilhas britânicas (sécs. v-vi) e refeitos em plena medievalidade (sécs. ix-xii). Decorrem nas franjas resistentes dos antigos territórios celtas da Ibérnia, Gales, Cornualhas e Armórica. Os deuses e heróis épicos, dramáticos e diegéticos da matriz helénica cedem gradualmente o passo aos cavaleiros da corte de Artur de Pendragon, das florestas, fontes, pântanos, mares, praias e castelos encantados da Irlanda e das duas Bretanhas.
Chrétien de Troyes [c. 1135 ‒ c. 1190], poeta, romancista e trovador francês, escolheu algumas destas figuras provenientes das remotas tradições galesas e converteu-as em protagonistas de quatro dos seus romans courtois que até nós chegaram. Jean-Pierre Foucher reduziu a prosa os octossilábicos originais, verteu-os do francês antigo para o moderno e reuniu-os no volume Romans de la Table Ronde (1970). Li a seleta num exemplar de bolso adquirido durante umas férias em Sarlat, no Périgord, editado pela Folio Classique da Gallimard, que me forneceu, ainda, um longo Prefácio e Notas do tradutor, bem como um Dossier de contextualização literária. Voltei à sua companhia uma trintena de anos após a primeira visita e mais uma vez em tempo de pausa estival. Fi-lo com o olhar amadurecido pelo hiato intermédio das duas leituras e que só o tempo com a sua proverbial sagacidade nos decide oferecer.
O núcleo fundador da série baseia-se num paradigma comum regido pela unidade e diversidade expositiva. Todos eles traçam em linhas gerais a biografia fictícia dum cavaleiro, oriundo dos mais elevados estratos sociais, senhores de muitos nomes, aventuras e virtudes. Audazes na liça e fiéis no amor, agem como lídimos paladinos dos fracos e oprimidos, representando os mais altos ideais da cavalaria andante e do amor cortês. Parceiros de armas do Rei Artur e membros da Távola Redonda, particularizam-se em cada um dos títulos do ciclo. No Érec et Énide, explora-se o equilíbrio entre os deveres da cavalaria e os quesitos do amor conjugal. Estes juízos são ampliados no Cligès ou la fausse morte, ao substituir-se a paixão fatal pelo enlace legal. Ao invés, no Lancelot, le Chevalier de la charrette surge o adultério apaixonado entre o Lancelot e Genebra, a consorte real. Finalmente, no Yvain, le Chevalier au lion exploram-se os princípios centrais do fin'amor, definidores em suma do género.
O caráter independente de cada um dos quatro títulos do grupo não inibe, porém, o encaixe regular de episódios vindos doutras narrativas similares, lineares e fantasiosas, protagonizadas por algum cavaleiro mais ou menos famoso da Ordem da Távola Redonda e devidamente listados no index final de heróis. O destaque centra-se naturalmente no Rei Artur e na Rainha Genebra, a par de Messire Gauvain e do Senescal Ké, bem como no triângulo amoroso formado pelo Rei Marc da Cornualha e por Tristão e Isolda. Subitamente, senti um impulso intenso de voltar à floresta encantada da Brocéliande, onde tantos eventos reais ou imaginados terão tido lugar. É verdade que a Dama do Lago e a Fada Viviane já não se deixam ver por essas paragens mágicas, mas a fonte de Barenton, o vale sem retorno, a árvore de ouro, o espelho das fadas ou o túmulo de Merlim continuam à vista de quem os quiser ver ou rever, como será justamente o meu caso.








