29 de abril de 2026

Harriet Beecher Stowe, a cabana do Pai Tomás ou a vida entre os humildes

The cabin of Uncle Tom was a small log building, close adjoining to “the house,” as the negro par excellence designates his master’s dwelling. In front it had a neat garden-patch, where, every summer, strawberries, raspberries, and a variety of fruits and vegetables, flourished under careful tending. The whole front of it was covered by a large scarlet bignonia and a native multiflora rose, which, entwisting and interlacing, left scarce a vestige of the rough logs to be seen. Here, also, in summer, various brilliant annuals, such as marigolds, petunias, four-o’clocks, found an indulgent corner in which to unfold their splendors, and were the delight and pride of Aunt Chloe’s heart.

Em meados da década de 60, ajudei a criar uma biblioteca de turma e que terá subsistido algum tempo mais, apensa ao acervo bibliográfico da escola. Frequentava então os dois anos do ciclo preparatório e a compra das obras fazia-se através duma cotização mensal voluntária. Alguns colegas mais abonados duplicavam a sua parte, ajudando assim a equilíbrio das finanças. Como compensação, teriam o direito de escolher os novos títulos. Terá sido através desta modalidade que o mais famoso romance de Harriet Beecher Stowe, A cabana do Pai Tomás (1852), entrou na nossa coleção de leituras extra escolares. O padrão dos livros de capa azul/cor-de-rosa prescrito pelo regime saía um pouco defraudado, mas temática algo sensível do esclavagismo americano era torneada por uma adaptação juvenil assaz ilustrada resultava incólume à censura pedagógica então vigente.  

Uma edição recente com capa bem colorida e versão integral do texto chegou-me agora às mãos. Num impulso vindo não sei de onde, apeteceu-me rever as peripécias atribuladas de vida do Pai Tomás, a que a tradutora resolveu devolver à designação onomástica original de Tio Tom. As explicações são bastamente esplanadas na extensa introdução, não conseguindo, todavia, apagar os ecos muito audíveis proferidos por uma tradição portuguesa quase bicentenária que me ficou gravada na memória. Minudências à parte, é o momento de regressar a uma história que tanto me marcou nos verdes anos, a tal que segundo Abraham Lincolm terá estado no germe da Guerra Civil Americana (1861-1865). Tudo começa com a perseguição a uma jovem escrava fugitiva, para salvar o filho de tenra idade que acabara de ser vendido pelo amo, logo seguido dum longo rol de eventos esclavagistas/abolicionistas, distribuídos por dois volumes, quarenta e cinco capítulos e cinco centenas de páginas.

Muitas são as figuras cénicas de primeira e segunda linhas retratadas alternadamente nesta saga de histórias ficcionadas duma realidade recente, todas elas dignas da abordagem atenta da narradora-autora, centrando-se paulatinamente no percurso dramático do protagonista, aquele que empresta o nome ao título ao painel efabulativo, o pai/tio Tomás/Tom como quisermos. O seu percurso pela trama reparte-se por três atos, cada um deles regido por um amo distinto e uns quantos traficantes de permeio. Arthur Shelby é obrigado a vendê-lo, para saldar dívidas que pendiam sobre a sua propriedade do Kentucky. Passa depois para a posse de Augustine St. Clare de Nova Orleães, até que o trespasse súbito deste o transfere para as mãos de Simon Legree na Luisiana profunda. Os bons tratos recebidos dos primeiros é drasticamente substituído pelo tratamento desumano do restante, que o manda chicotear até à morte, por se recusar a denunciar outros escravos fugitivos e a renunciar à sua  inabalável no cristianismo.

Passa-se a passo de corrida da pré-adolescência para a maturidade plena da vida e o nosso modo de ver o mundo altera-se por completo, como se pulássemos do dia para a noite. Decorrido mais de século e meio sobre a abolição da escravatura nos EUA, apercebemo-nos que a questão racial está longe de ter sido sanada. A exploração atual dos mais fracos pelos mais fortes assumiu formas renovadas de segregação do homem pelo homem. Assenta presentemente na exploração da força de trabalho dos imigrantes oriundos da grande aldeia global, as novas peças, mercadorias e coisas como os pretos de então eram chamados. As emoções que senti na fase infantil do meu existir mantêm-se intocáveis agora que atingi a fase adulta, mas acrescidas das emoções entretanto sentidas. Felizmente que para os intervenientes martirizados da fábula a crença na justiça divina lhes dava a esperança da salvação eterna prometida na Bíblia. Esse não é porém o credo que rege os meus passos terrestres sem a expetativa duma recompensa celestial. Se o inferno são os outros é que todos nós vivemos o nosso dia a dia. E assim vai o mundo e, ao que parece, de mal a pior.

EPÍGRAFE
«A cabana do Pai Tomás era uma pequena construção de troncos, mesmo ao lado da “casa-grande”, como o negro par excellence designava a habitação do seu senhor. Em frente, havia uma pequena horta bem cuidada, que no verão dava, morangos, framboesas e outras espécies de fruta e legumes. A fachada estava coberta por uma grande begónia escarlate e uma rosa autóctone, cujos ramos entrelaçados não deixavam à vista qualquer vestígio dos toros de aspeto grosseiro. Também aqui, no verão, uma profusão de flores anuais, como calêndulas, petúnias e boninas encontravam um recanto acolhedor para ostentar em toda a sua beleza, para orgulho e deleite da Mãe Chloe.»
Harriet Beecher Stowe, A cabana do Pai Tomás (1852)

23 de abril de 2026

A loucura que acaba cedo é a melhor

Gustave Courbet, Le Désespéré (c.1844-1845)
[
Collection Qatar Museums - Musée d’Orsay]
FALA A LOUCURA
I - Os vulgares mortais dizem mal de mim; mas não sou tão néscia como os tolos me julgam, pois ninguém é capaz como eu de divertir tanto os homens e até os deuses. [...] III - Não considero sapientes aqueles que julgam estultíssimo o elogio próprio. Se isto é estulto, é o que me convém. Não quadra tão bem à Loucura como soprar na trombeta da fama e autoelogiar-se. Quem é que pode exprimir-se melhor do que eu mesma? [...] «Já que ninguém me gaba, gabo-me eu a mim mesma».
Erasmo de Roterdão, Elogio da Loucura (1511)

Trampomanias, Trampolinices & Trampopitecas...                      

Abro a rádio e a telefonia logo pela manhã e os ruídos estridentes dos conflitos bélicos ecoam sem descanso em todos os canais noticiosos. A loucura instalou-se de vez à nossa volta por pensamentos, palavras e atos. Veio com armas e bagagens para ficar e sem levantar arraiais. Os senhores do mundo não dão tréguas aos vassalos submissos. A lei do mais forte impera. É um fartar vilanagem. Os novos imperadores, czares, basileus, pretensos reis dos reis, crescem como cogumelos em terreno baldio, estação após estação, sem apelo nem agravo.

Suetónio traça n'A Vida dos doze Césares (121EC) as excentricidades, vícios e loucuras de cada um até à derrocada final. Calígula nomeou o cavalo Incitatus como cônsul e declarou-se um deus vivo com direito a adoração. Nero terá cantado e tocado lira enquanto a cidade de Roma ardia, mandada incendiar a fim de nela construir um mega palácio à sua dimensão imperial. Um foi assassinado por um tribuno da guarda pretoriana, o outro foi obrigado a suicidar-se com a ajuda do secretário para fugir a um soldado romano que se aproximava.

As monarquias europeias não necessitaram de meios tão drásticos para afastar os seus soberanos atacados com surtos de insanidade mental. Limitaram-se a substitui-los no poder por uma regência adequada. Assim o fizeram os reis cristianíssimos com Carlos VI de França, os católicos com Joana-a-Louca de Castela, os fidelíssimos com D. Maria I de Portugal, Algarves e Brasil, os britânicos com Jorge III do Reino Unido ou os germânicos com Luís II da Baviera. Deram-lhes um exílio mais ou menos dourado e lavaram as mãos.

O bota-fora dos presidentes narcisistas, paranoicos e megalómanos agilizou-seFindo o mandato, toda a psicose autoritária, arrogante e criminosa é lançada às ortigas. Por vezes sente-se a necessidade de antecipar a retirada dos tiranetes maquiavélicos o mais rápido possível. É que, como se diz, a loucura que acaba cedo é a melhor. Assim se faça com o pretenso xerife do mundo. As fanfarronices, trampomaníacas, trampolinieiras e trampolitecas já excederam há muito todos os limites viáveis. Xô-xô, vade-retro para nunca mais!

16 de abril de 2026

Olhares do Pai Tomás

Anónimo, Idealized view of a plantation in the 'Sunny South', with African Americans picking cotton (1883)
[Everett Historical Collection]

MISSISSÍPI

Ao longo de cem milhas, ou mais, a norte de Nova Orleães, o rio é mais alto do que as margens e o seu imenso caudal desliza entre diques maciços de mais de seis metros de altura. Do convés do vapor, como se habitasse um castelo flutuante, o viajante consegue abarcar toda a paisagem por milhas e milhas em redor. Dessa forma, nas extensas plantações que se desenrolavam diante dos seus olhos, uma após outra, Tom via estender-se um mapa da vida que o esperava. 

Via, ao longe, os escravos na sua labuta; via, mais distantes, em inúmeras plantações, os povoados de casebres dispostos em longas filas que reluziam à luz do sol, afastados das mansões imponentes e das zonas de ócio dos senhores; e enquanto este cenário animado se desenrolava, o seu pobre e insensato coração voltava a ver a herdade do Kentucky com as suas frondosas faias, a casa do senhor com os seus grandes e frescos aposentos e, logo ao lado, a pequena cabana coberta pela roseira brava e pela begónia. Conseguia ver os rostos familiares dos amigos, que haviam crescido com ele desde a infância; via a sua mulher atarefada com a preparação do jantar; ouvia as gargalhadas alegres dos filhos a brincar e o gorjeio do bebé nos seus joelhos; então, de súbito, tudo se desvanecia e ele via novamente os canaviais e os ciprestes e as plantações deslizando, e ouvia de novo o ronco e o ranger das engrenagens, e tudo lhe dizia, claramente, que essa fase da sua vida desaparecera para sempre.

Harriet Beecher Stowe, A cabana do Pai Tomás (1852)

11 de abril de 2026

Arthur's birthday parties

Team Arthur Lifetime Member
Happy birthday! - Tillykke til dig! - Buon compleanno!

Varreu-se-me da memória a minha primeira festa de aniversário. Provavelmente porque nessa época recuada a data se celebrasse duma forma mais tranquila, em família, sem magotes de convidados a cantar os parabéns a você e a bater palmas depois de apagadas as velas do bolo de anos. Lembro-me em contrapartida dos postais ilustrados que a minha avó Cristina então me enviava. Infelizmente, não guardo nenhum deles, deixados perdidos em caixas e gavetas há muito desaparecidas com a voragem dos tempos.

Os vislumbres mais nítidos apanharam-me crescidinho fora do país. Em 1995, as minhas meninas levaram-me a um rodízio de pizzas da Whitehall de Londres, tendo soprado a vela simbólica no President Hotel da Russel Square. Em 2015, ouvi cantar os parabéns no Parque Nacional dos Veados de Jægersborg, num piquenique com o meu núcleo familiar de Copenhaga. Em 2019, celebrei-o entre amigos, no Ristorante Il Bargello da Piazza della Signoria de Florença, à volta dum pizza napolitana mas sem velas a marcar o evento.

Todos as manhãs acordamos um dia e uma noite mais velhos. Cada dia de aniversário somamos ou diminuímos um ano à vida já vivida ou por viver. E continuamos a festejar indiferentes aos mais e menos quotidianos, a repetir o já dito e a dizer aqui ou algures. Em 2020 cantaram-me os parabéns na enfermaria dum hospital, em 2025 nos bastidores do Teatro das Figuras. Sem o canto e das palmas dos familiares, afastados pelas restrições do COVID e da arte de cena. Este ano será mais calmo. Quiçá sim, quiçá não...

2 de abril de 2026

Mente sã em corpo são

Corrida de atletas gregos em Olímpia

[Vaso grego, 431-434 - gettyimages]

Orandum est ut sit mens sana in corpore sano.
Fortem posce animum mortis terrore carentem,
qui spatium vitæ extremum inter munera ponat
naturæ, qui ferre queat quoscumque labores,
nesciat irasci, cupiat nihil et potiores
Herculis ærumnas credat saevosque labores
et venere et cenis et pluma Sardanapalli. 
Monstro quod ipse tibi possis dare; semita certe 
tranquillæ per virtutem patet unica vitæ.
Juvenal, Sátiras ( Séc. II EC:  IV.10.356-364) 

Neste primeiro septenário de reformado, aposentado ou jubilado, tenho praticado a mente sã em corpo são a caminhar, a yogar, a cantar, a lecionar e a blogar. Faço-o regularmente todos os dias da semana de modo alternado, com breves intervalos nos meses mais quentes do estio meridional.

O intervalo este ano foi mais prolongado no dois primeiros itens da série. O município laranja da urbe findou as suas funções camarárias fechando as portas a todas as atividades desportivas inseridas no programa sénior, tendo sido retomadas nove meses escoados com a nova equipa camarária rosa.

Voltei ao equilíbrio lunar e solar das asanas, pranayamas, pratyharas e dharanas do Ioga, depois de ter passado em passo de corrida pelas práticas sem registo sânscrito do Pilatos. Hábitos antigos não se mudam do dia para a noite. Juntei as mãos e reavivei a ancestral saudação ritual hindu: Namastê!

As passeatas, marchas e corridas pelos trilhos, veredas e carreiros algarvios, por vales, campos e montes da região, a vencer riachos rurais, asfalto urbano ou terra batida, a andar é que se faz caminho. Sapatilhas nos pés, bastões nas mãos e a meta bem à vista no horizonte ou ao virar da esquina.

Leciono uma manhã por semana. Arejo os livros da biblioteca cá de casa, para lhes dar vida enquanto os abro, leio e comento. Garanto que os neurónios ainda continuam despertos e a funcionar em termos académicos, embora submetidos ao regime pro bono e dirigidos a um pública sénior, tal como eu.

Quem canta seus males espanta. Se for num coral ameniza a vida, se for em dois ainda melhorDepois vêm os concertos, participações, encontros dentro fora das divisas do quotidiano habitual. Plateias, anfiteatros, auditórios abrem-nos as portas e os acordes entoados a várias vozes ecoam em liberdade.

Palavra a palavra, frase a frase, ideia a ideia, as histórias vão surgindo dia a dia, mês a mês, ano a ano neste blogue composto em nome dum herói imaginário nado num romance medieval de cavalaria. E assim, o exercício semanal do corpo são em mente sã lá vai surgindo no fluir dos dias, dos meses e dos anos. 

EPÍGFRAFE 
Deve-se pedir em oração que a mente seja sã num corpo são. | Peça uma alma corajosa que careça do temor da morte, | que ponha a longevidade em último lugar entre as bênçãos | da natureza, que suporte qualquer tipo de labores, | que desconheça a ira, nada cobice e creia mais | nos labores selvagens de Hércules do que | nas satisfações, nos banquetes e camas de plumas de Sardanápalo. | Revelarei aquilo que podes dar a ti próprio; | certamente, o único caminho de uma vida tranquila passa pela virtude.
Juvenal, Sátiras ( Séc. II EC:  IV.10.356-364) 

27 de março de 2026

José Saramago e o regresso a uma segunda vida de Francisco de Assis

«Então será como nascer outra vez. No instante do nascimento todos somos iguais em pobreza. Vimos ao mundo nus, fracos, inocentes.»
José Saramago, A segunda vida de Francisco de Assis (1987)

Celebra-se este ano, com toda a pompa e circunstância a que os canais habituais do poder nos habituaram, o oitavo centenário da morte de Giovanni di Pietro de Bernardone. Dito assim às cruas, fica-se sem se saber muito bem a razão desta iniciativa a alguém que dificilmente identificamos com quem seja ou tenha sido. O mistério começa a desvendar-se, quando nos apercebemos tratar-se do fundador da ordem mendicante dos Frades Menores, mais conhecida por Franciscanos, a tal que teve a perícia de renovar o Catolicismo do seu tempo, afastando os seus membros da clausura dos mosteiros e criando a prática da pregação itinerante. Afinal de contas, as comemorações solenes referem-se a São Francisco de Assis, que a Igreja de Roma canonizou em 1228, regia então Gregório IX a cadeira papal de São Pedro na Santa Sé.

No preciso momento em que se festeja o Dia Mundial do Teatro, decidi associar esta efeméride instituída em 1961 ao texto dramático que José Saramago centrou num dos santos mais populares do Cristianismo universal, A segunda vida de Francisco de Avis (1987), levado à cena cerca de quatro décadas pelo Novo Grupo Teatro Aberto, aquando do seu lançamento pela Caminho. Desengane-se, todavia, quem supuser que o Prémio Nobel português da Literatura se limitou a lavrar à distância dos séculos, por palavras escritas e declamadas, distribuídas por dois atos e um número não explicitado de cenas, um panegírico encomiástico ao padroeiro dos animais e da ecologia. A primeira vida não é omitida, mas a segunda anunciada no título toma conta do discurso, até ser revelada nos derradeiros parágrafos da peça, como um projeto a concretizar num futuro não registado no livro ou representado em palco.

O leitmotiv da história conta-se em poucas palavras. O dramaturgo imagina o regresso de Francisco de Assis ao mundo contemporâneo e encontra a ordem religiosa por si fundada convertida numa empresa multinacional de sucesso, baseada nos princípios capitalistas dos lucros elevados, nos jogos das bolsas de valores e no maneio especulativo de ativos. O problema instala-se a partir do momento em que questionamos a localização temporal da ação. Saber se o protagonista veio do passado para um futuro que corresponde ao nosso presente de leitores/espetadores, ou se se limitou a aterrar num mundo transformado/alternativo, em que a realidade medieva tivesse sido substituída pela realidade do nosso dia a dia atual. Só a liberdade literária poderá responder à nossa dúvida, lembrando-nos que no mundo da ficção tudo é possível, desde que aceitemos as novas leis que opõem real e imaginário. Umberto Eco, v.gr., explica-os através da alotopia/ucronia*, o que, em vernáculo puro, se pode traduzir por insólito maravilhoso ou simples alegoria.

Refeito da surpresa observada na ordem por si fundada e goradas as tentativas de reverter a situação criada pelos seus antigos irmãos na austeridade militante e devolver a companhia à sua pureza original, Francesco, Il Poverello, aquele que renunciara à fortuna familiar para viver na mais profunda humildade muda de estratégia. Resolve abandonar os seus confrades doutros tempos e iniciar um novo percurso de redenção para ganhar o céu no final do seu percurso pela terra. Assume o verdadeiro nome, o João com que fora batizado, e reconhece que a pobreza não é santa, pelo que deverá ser eliminada do mundo. O seu novo objetivo assenta na máxima que, se vai para outra vida, outro homem terá de ser. Convida os opositores a segui-lo na nova missão mas só é acompanhado por Clara, Leão e Junípero, figuras centrais da tradição franciscana e do carisma da Ordem. A segunda vida de Francisco de Assis está ainda por escrever e não é relatada nas páginas da peça, que Pica, a mãe do herói, se compromete solenemente a fazer.

* Umberto ECO, «Os mundos da ficção científica», in Sobre os Espelhos e outros ensaios. [1985]. Lisboa: Difel, 1989, p. 202.

21 de março de 2026

Só assim será poema...

Mulher com Tábuas de Cera e Estilete
[Fresco das ruínas romanas de Pompeia c. 55-59 EC]
  

ARTE POÉTICA

Que o poema tenha carne
ossos vísceras destino
que seja pedra e alarme
ou mãos sujas de menino. 

Que venha corpo e amante
e de amante seja irmão
que seja urgente e instante
como um instante de pão.
 
Só assim será poema
só assim terá razão
só assim te vale a pena
passá-lo de mão em mão.

Que seja rua ou ternura
tempestade ou manhã clara
seja arado e aventura
fábrica terra e seara.

Que traga rugas e vinho
berços máquinas luar
que faça um barco de pinho
e deite as armas ao mar.

Só assim será poema
só assim terá razão
só assim te vale a pena
passá-lo de mão em mão

Hélia Correia (c. 1971) 

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Musicado por José Jorge Letria