
«Espantoso como a vida corria, os jornais eram outros e as pessoas mudavam. Mesmo as que já não engordavam nem cresciam, compravam roupas, cortavam o cabelo e de repente apareciam mudadas à janela dum outro carro. Quando a certa altura começou a pensar que afinal nenhuma metafísica se desprendia dos acontecimentos, pôs-se à beira do rio, um barco branco passou trambolhocando água abaixo, e dizia ele a vermelho velho nas duas faces da proa — παντα ρεϊ’. Tinha tido tempo de copiar esses greguiformes na bainha da saia para perguntar ao Sr. Assumpção, e ele disse-lhe, sonhador, diante duma estante — “Panta rei? Tudo muda.”»Lídia Jorge, Notícia da cidade silvestre (1984)
Voltar à leitura de livros já lidos é um expediente que repito cada vez mais frequência. A falta de espaço físico para guardar novas aquisições e a recusa de me desfazer das antigas está na origem destas releituras relativamente recentes. Aproveitei o período de férias de verão para revisitar pela enésima vez um dos romances inaugurais de Lídia Jorge, Notícia da cidade silvestre (1984), aquele em que a fabulista troca o vilarejo rural de Vilamaninhos e o Hotel Alguergue do cenário algarvio d'O dia dos prodígios (1979) e d'O cais das merendas (1982), pelos tabulados urbanos de Lisboa e se lançar depois pelos palcos mais alargados do antigo império colonial português e da diáspora lusitana pelo mundo. Por esses dias soube da atribuição há muito devida do Prémio Camões, o que me levou a mergulhar com maior intensidade nesse informe citadino agreste, espelhado de modo contundente no título seguido para lhe dar corpo.
O ponto de partida narrativo cumpre a função dum prólogo sucinto, traçado e assinado pela autora, com o fino propósito de apresentar a protagonista das histórias desenvolvidas nos capítulos e páginas seguintes. Adverte que M. J. Matos G. passa a ser designada por Júlia Grei, de modo a chamar a atenção para a impreterível alteração do real e para o valor simbólico contido no nome e apelido selecionados, «paixão» e «povo», particularmente apropriados para sublinharem o caráter de testemunho pessoal da intimidade falada emprestada à efabulação. Os demais coadjuvantes ou meros figurantes de escasso peso na ação terão de esperar por um segundo preâmbulo textual, registado em itálico pela emissora interna do discurso, onde já se vislumbra o vulto de Anabela Cravo, rapidamente transformada na antagonista do relato e promotora involuntária do longo processo de maduração radical do Panta rei (Πάντα ρεί = tudo muda), dístico registado em carateres gregos em ambas as faces da proa dum navio grego de passagem pelo estuário do Tejo.
Uma das particularidades das releituras espaçadas no tempo reside na descoberta de novas pistas de desmontagem intrínseca dum texto, de decifração das suas mensagens mais profundas. Esse processo de adentramento paulatino poderá até contar com a ajuda casual da IA, a mirar-nos a cada átimo no recanto mais insuspeito do ciberespaço. Ser avisado, v.gr., para o facto da imagem metafórica da «campânula de vidro», usada à exaustão por Lídia Jorge, se cruzar com o romance de Sylvia Plath, The Bell Jar (1963). Ignoro de que modo o foco central seguido pela criadora portuguesa é subsidiário do da americana, para além de abrigarem no seu interior uma sensação de isolamento social, sufoco emocional e opressão depressiva, onde as dramatis personæ retratadas se sentem protegidas, mas simultaneamente separadas do mundo exterior. O distanciamento crítico sentido aqui pelas emissoras face às ilusões gizadas pela Revolução dos Cravos voltará a repetir-se n'O jardim sem limites (1995), identicamente situado na capital metropolitana do país, embora transformada numa similar «bolha/esfera de ar».
As linhas gerais deste auto de notícia resume-se em poucas palavras, embora assente na exposição do penoso processo de transformação pessoal da narradora participante na ação como figura charneira de todos os eventos aludidos, sitos em Lisboa entre setenta e cinco e setenta e nove. As palavras escritas num «caderno amarelo» e nos «papéis» enviados por correio ou por quem calhava à suposta editora do relato final. Trata-se, em suma, da luta de sobrevivência de duas mulheres radicalmente distintas nos labirintos infindáveis da cidade silvestre que simboliza a própria vida. Júlia Grei segue uma estratégia de amor, Anabela Cravo uma estratégia de poder. Ambas atingem os seus objetivos, muito embora as etiquetas de heroína/anti-heroína tanto assentem numa como noutra, consoante o ponto de vista que queiramos perfilhar. A minha recai na que leva nome de gente, por ter sido a única a converter os tempos de passividade e imitação num tempo de mudança, livre de todos os resquícios de submissão sebástica existentes em si e a materializar o panta rei preambular.







