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5 de outubro de 2025

Majestades fidelíssimas desconstruídas

Altezas reais & majestades fidelíssimas caídas

O cardeal Dom Henrique recusou o tratamento de Sua Majestade, quando imprevistamente subiu ao trono, por morte do sobrinho-neto em Alcácer-Quibir. A seu ver, o título era demasiado imponente para ser usado por um mero mortal. Manteve, assim, a designação de Sua Alteza Real no curto período de tempo em que pela Graça de Deus foi Rei de Portugal e dos Algarves (1578-1580).

Dom Sebastião foi o único membro da Casa de Avis a usufruir dessa honraria, que lhe foi outorgada por Filipe II de Castela. Fê-lo na entrevista de Guadalupe (1577), dado o sobrinho ter acalentado o desejo de juntar aos reinos, senhorios e domínios lusitanos a conquista de África. O resultado dessa aventura está bem à vista, com a perda da vida na Batalha dos Três Reis (1578).

Os Braganças seguiram o exemplo dos Áustrias e mantiveram a titularia, estilos e honras como fórmulas de endereçamento real já usuais por todo o lado. Não descansaram, porém, até terem um estatuto similar à Sa Majesté Très Chrétienne gaulesa e Su Majestad Católica hispânicaDom João V conseguiu-o finalmente da Santa Sé, ao obter o epíteto de Sua Majestade Fidelíssima (1748).

A grandiosidade, imponência e excelência majestática e fidelíssima há muito ruíram sem deixar saudade ou rasto visível.. Cavaram à sua volta uma realeza destituída, exilada, caída. Os ventos republicanos varreram-na de vez do nosso horizonte de eventos. A ostentação parasitária monárquica persiste na memória anquilosada de alguns à espera duma bastilha redentora que há muito tarda.

18 de dezembro de 2024

Olhares d'el-Rei Dom Sebastião olhados por Cristóvão de Morais

Dom Sebastião (c. 1571-1574)
Cristóvão de Morais
[Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga]

Olhem para mim! ‒ parece dizer-nos Dom Sebastião (1554-1578) ‒, sou rei desde os 3 anos de idade e, mais dia menos dia, vou ser imperador do mundo. Portugal e Algarves d'Aquém e d'Além-Mar em África não me chegam como reinos há muito herdados pela Graça de Deus. Os Senhorios da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia são só o início dum Quinto Império que a dimensão dos territórios antanho dominados por Assírios, Persas, Gregos e Romanos nunca alcançaram.

Olhem-no, como eu o estou a olhar agora! diz-nos o galgo de caça d'O Desejado, muito compenetrado do seu papel ‒, o derradeiro Cavaleiro-Cruzado da Cristandade a terras da Moirama já está de espada em punho e de armadura engalanado. Levar-me-á com ele ou estou aqui só como figura de decoração num quadro de aparato maneirista. Olho-o e quase lhe beijo a mão, mas o olhar majestático do meu soberano já está virado para outros horizontes distantes, onde o olhar dum canis lupus familiaris não seria muito bem olhada.

Olhem-no, pronto para partir para Marrocos! ‒ sugere-nos o olhar artístico de Cristóvão Morais, ao retratar a meio corpo O Encoberto na flor da idade, que nunca chegou a abandonar, teria então 17 anos (ou talvez 20) e finar-se-ia ingloriamente no campo de batalha de Alcácer-Quibir aos 24 anos. O bisneto por partida dupla, a materna e a paterna, de Dom Manuel Primeiro, não regressaria vivo de Marrocos, à procura duma grandeza sonhada, logo convertida em pesadelo para todos aqueles que seguiram e lhe sobreviveram.    

O olhar enigmático e distante do único monarca lusitano morto a terçar armas continua a olhar-nos como uma das joias maiores expostas destacadamente no Museu de Arte Antiga de Lisboa, ali mesmo às Janelas Verdes. Diz-se também que o seu corpo remido se encontra sepultado no Convento de Santa Maria de Belém, o Mosteiro dos Jerónimos, num túmulo monumental, mas, aí, o seu olhar real não se deixa olhar por ninguém. Só o podemos imaginar com algum esforço, com o poder dos mitos e contramitos nos concedem.

8 de fevereiro de 2024

André Belo, histórias de Marco Tulio Catizone, o rei Sebastião de Veneza

« Pour qui a grandi dans le " roman national " portugais, le roi Sébastien est un des monarques les plus connus d'une longue lignée. C'est un personnage d'envergure proverbiale, présent dans des romans, des chansons ou des histoires tentées d'ironie, comme celle qui évoque son retour à Lisbonne par un matin brumeux sur l'estuaire du Tage. Cette intimité collective avec le nom d'un roi ayant régné il y a quatre-cent cinquante ans vient du rôle historique de celui-ci dans la fin de la dynastie des Avis mais, surtout, de l'investissement mythique dont il a été l'objet au fil des siècles. »
André Belo, Le roi Sébastien de Venise (2023)

El-Rei Dom Sebastião (1574-1578) é de longe um dos mais populares monarcas portugueses. Nasceu órfão de pai e foi abandonado pela mãe aos quatro meses de vida. Subiu formalmente ao trono com três anos de idade e tomou as rédeas do poder aos catorze. Morreu sem honra nem glória com vinte e quatro em Alcácer-Quibir, para onde partira solteiro e sem descendentes declarados que o substituíssem à frente dos destinos do reino que queria universal e acabaria absorvido pelo império castelhano do tio. Esta a história que contam os manuais de história oficiais. A versão tradicional que seguiu o seu destino trágico no Norte de África trilhou todavia os sendeiros que propiciariam a gestação do mais consistente e duradouro mito/contramito da cultura nacional, o Sebastianismo. Aquele que fora apelidado o Desejado, passou a ser designado o Encoberto. O malogrado neto de Dom João III e Carlos V, o sobrinho de Filipe II, teria sobrevivido ao desastre marroquino e andaria por aí perdido à espera do melhor momento para se revelar como o senhor legítimo dos desígnios lusitanos.

A desdita do último cavaleiro cruzado com vocação messiânica dos tempos modernos atravessou fronteiras e conquistou os principais géneros/subgéneros da criação artística e ensaística. Foi cantado e representado nos palcos líricos e dramáticos, lido e recitado nas epopeias em verso e em prosa, foi estudado comentado um pouco por todo o lado à escala local e global. Por mais duma vez, as andanças académicas, os impulsos da curiosidade ou os apelos do puro lazer levaram-me a privar com uma ou outra dessas obras. A última a chegar à minha presença foi-me enviada de Rennes por uma amiga de longa data, que a viu exposta com grande destaque numa livraria central da capital da Bretanha. Trata-se da versão francesa da tese de André Belo, Morte e ficção do Rei Dom Sebastião (2021), publicado pelas Éditions Chandeigne, com o título bem mais sugestivo de Le roi Sébastien de Venise, histoire d'une rumeur (2023). Li-o de cabo a rabo com o espanto sempre estampado no rosto à medida que ia tomando conhecimento desses tais rumores desenvolvidos nas três centenas de páginas do livro. À distância de quatro séculos e meio de devir histórico, torna-se particularmente difícil entender o modo como as pretensões do «Rei de Veneza» acolhessem tantos partidários, apesar da manifesta fragilidade dos argumentos apresentados em sua defesa.

A recusa de aceitar a morte do jovem paladino da cristã em terra de mouros, o filho de príncipes e neto de reis e imperadores, levou os súbditos fiéis a acalentarem a tese que estaria vivo e se refugiara num local seguro, de onde galoparia num cavalo branco, numa manhã de nevoeiro, para recuperar o reino que lhe fora arrebatado. De pouco serviu aos incrédulos o reconhecimento do corpo do soberano logo após a batalha e a sua trasladação de Alcácer-Quibir para Ceuta (1578) e Lisboa (1582), onde ainda hoje repousa num mausoléu monumental erigido no Mosteiro dos Jerónimos (1682). A lenda do Adormecido começa a ganhar forma, encorajando os mais audazes a darem asas à imaginação e a converterem-se num ápice no providencial messias salvador que regressava aos seus domínios europeus e resgatar para a Casa de Avis trono arrebatado pelos Áustrias Castelhanos. A História regista as pretensões de quatro desses aventureiros, conhecidos por Rei de Penamacor (1584), Rei da Ericeira (1585), Rei do Madrigal (1590) e Rei de Veneza (1598-1603). É deste último, precisamente, que trata o volume agora dado à estampa e aqui trazido à baila.

Marco Tullio Catizone, o legítimo nome do falsário calabrês, sustentou a sua pretensão durante cinco longos anos. Os primeiros rumores começaram a surgir nas vésperas da morte de Filipe II de Castela e conheceram o seu desfecho espectável um quarto de século após o insucesso trágico da Batalha dos Três Reis. De fantasia em fantasia, de prisão em prisão, de processo em processo, a confissão obtida sob tortura confirma a acusação do crime de lesa-majestade, cometido por usurpação de identidade, falsificação de assinatura e insígnias reais, ditando a amputação da mão direita, a execução na forca, o esquartejamento e a exposição pública da cabeça e do membro decepado. Mais uma vez e após a leitura exaustiva de todas as peripécias aliadas à fraude sebástica, torna-se particularmente difícil de entender que as diferenças físicas detetadas, a incompetência linguística do português e a ausência duma memória credível tenha tido tão pouco peso no desmascaramento imediato do embusteiro. Outros tempos, outras vontades, outros interesses políticos jogados à escala das potências hegemónicas de então. Os pormenores mais recônditos deste episódio insólito vivido na passagem da centúria de quinhentos para a de seiscentos são minuciosamente dissecados pelo espírito académico de André Belo, cujos resultados registados em livro poderão ser consultados em dois idiomas recentemente publicados. Aproveitemo-los se, de facto, a matéria tratada continuar a povoar o nossos imaginário individual e coletivo.

Marco Tullio Catizone
[Madrid - Museo del Prado]

« Le faux Sébastien était un homme originaire de Calabre, identifié à partir du procès de Naples sous le nom de Marco Tullio Catizone; s'il a avoué son nom devant le vice-roi de Naples et lors du procès de Sanlúcar, il est à chaque fois revenu sur ses aveux. Pourtant, il ne ressemblait pas au roi Sébastien, sa mémoire était lacunaire et il maitrisait très mal la langure portugaise.»
André Belo, Le roi Sébastien de Venise (2023)

25 de agosto de 2023

Olhares dos Avis-Áustria, olhados por Sánchez Coello e Cristóvão de Morais

Don Carlos (1564) & Dom Sebastião (1565)

Alonso Sánchez Coello e Cristóvão de Morais

Os dois primos de Avis-Áustria parece que se olham sem nunca se terem olhado olhos nos olhos. Nem na vida real nem na versão pintada. O olhar do Príncipe Don Carlos das Astúrias foi captado pelo olhar de Alonso Sánchez Coelho em Madrid. O olhar d'el-Rei Dom Sebastião de Portugal foi captado por Cristóvão de Morais em Lisboa. Os retratos dos netos de Carlos V e de Dom João III estão dispostos para quem os quer olhar a uma distância ainda maior. O filho de Filipe II e de Maria Manuel na capital austríaca e o filho de Juana de Áustria e de Dom João Manuel na capital espanhola.

Colocados lado a lado na disposição virtual de circunstância, num face a face evitado pelo olhar dos dois pintores régios quinhentistas das coroas ibéricas, os dois retratos são o produto das alianças matrimoniais multigeracionais estabelecidas entre primos e primas direitos e por partida dupla. O resultado está à vista de quem quiser olhar com olhar de quem olha estes dois bisnetos de Dom Manuel I de Portugal e Algarves e de Maria de Aragão e Castela. Um olhar atento não deixa escapar alguns dos traços fisionómicos que os retratistas não deixaram de fixar com o seu olhar de artistas.

Don Carlos (1545-1568) morreu encarcerado nos seus aposentos pessoais do Real Alcázar de Madrid, por insanidade mental, traição e tentativa de parricídio. Tinha então 23 anos e não chegou a lançar um olhar soberano sobre os domínios do pai, os tais onde o sol nunca se punha. Dom Sebastião (1554-1578), altivo, mimado e louco como o primo, morreu aos 24 anos no campo de batalha de Alcácer-Quibir, longe de poder olhar para o seu almejado império de além-mar em África. Triste fim para os herdeiros de príncipes, reis e imperadores das estirpes dos Habsburgo hispânicos e dos Avis lusitanos.

O Príncipe das Astúrias e o Rei de Portugal mais do que se olharem como primos-irmãos, bem podiam olhar-se como meios-irmãos, que detinham cerca de 50% de genes familiares em comum, fruto de fusões consanguíneas a perder de vista na árvore genealógica a que o seu olhar pudesse enxergar. Partiram os dois sem deixar descendência, assim como sucederia aos seus sobrinhos-netos, bisnetos, trinetos, tetranetos ou primos afastados de Carlos II de Espanha e Afonso VI de Portugal. Olhar distante duma parentalidade ancestral, há muito tempo malquista, malvista ou mal-olhada.

14 de setembro de 2020

Os olhares de D. João III e D. Catarina de Áustria olhados por Cristóvão Lopes

CRISTÓVÃO LOPES

D. João III com São João & D. Catarina de Áustria com Santa Catarina
Cópia atribuída a Cristóvão Lopes (c. 1552-1571), original de Antonio Moro

[Convento da Madre de Deus - Lisboa]

Dom João III de Avis-Beja e Dona Catarina de Áustria-Habsburgo, Reis de Portugal e Algarves, estão, há cerca de quatro centúrias e meia, voltados para o altar-mor da Igreja do Convento da Madre de Deus, a olhar desde o coro-alto para a talha dourada barroca que o reveste e a adorar a Sagrada Forma da Eucaristia, na companhia de São João Batista e Santa Catarina. Os dois esposos, cunhados e primos foram retratados em corpo inteiro por Cristóvão Lopes, ajoelhados e de mãos postas a orar, virados um para o outro, mas sem se olharem de frente. O mesmo se diga dos olhares diagonais dos padroeiros pessoais, dos anjos da guarda e do cordeiro divino. Nada de distrações nas devoções religiosas de corte.

Os netos dos Reis Católicos, Isabel e Fernando de Castela e Aragão, podem também ser olhados na versão simplificada do Museu de Arte Antiga, depois de terem sido levados a contragosto do Convento de Nossa Senhora da Esperança para as Janelas Verdes. Continuam em Lisboa, lado a lado, em posição simétrica, mas sem se olharem olhos nos olhos ou para os dois bem-aventurados pela Cúria de Roma que os protegem. Os visitantes olham-nos nos rostos régios fixados no duplo retrato individual contemplativo de aparato palatino, sem lhes encontram, por mais que o façam, o olhar majestático e distante de cada um deles fixado a óleo sobre tábua por Cristóvão Lopes ou por algum outro pintor anónimo da sua oficina.

Ao que se julga saber, este conjunto de Tableaux Vivants dos avós de Dom Sebastião, tal como os bustos do Museu de São Roque, terão sido inspirados em originais de António Moro, datados de 1552, atualmente em dois museus de Madrid, o da irmã de Carlos V no Prado e o do irmão de Isabel de Portugal no Lázaro Galdiano. Aí, ganharam coragem e atreveram-se a olhar de frente quem os olha, que o destino os afastou para espaços diferentes. O duplo olhar piedoso dos painéis portugueses, fruto de quem sobreviveu a nove filhos e à perda de algumas praças do Algarve de além-mar em África, não está espelhado no duplo olhar altivo fixado pelo mestre flamengo, apesar de nessa data os ter retratado de luto carregado.

OFICINA DE CRISTÓVÃO LOPES

D. João III com São João & D. Catarina com Santa Catarina
Cópia anónima, original de Antonio Moro

[Museu Nacional de Arte Antiga - Lisboa]

4 de agosto de 2020

Lucette Valensi, Fábulas sebastianistas da memória da batalha dos três reis

« Au lendemain du 4 août, la bataille appartient déjà au passé, mais pas encore pour les Portugais restés au pays. Plus qu'au-jourd'hui, reporters de la presse écrite, cameramen de la té-lévision et détenteurs de téléphone mobile assistent en direct aux événements qu'ils nous présentent, les " nouvelles " étai-ent alors des relations, des récits différés d'actions révolues, Qu'apprit-on, au Portugal, de la bataille du 4 août ? »
                                               Lucette Valensi, Fables de la mémoire: La glorieuse bataille des trois rois (1992, 2009)
Encontrei na pequena livraria do Museu Judaico de Belmonte um livro que procurava em vão uma eternidade, alegadamente por estar muito esgotado, apesar de Lucette Valensi ter visto as suas Fables de la mémoire: La glorieuse bataille des trois rois (1992) publicadas em duas edições francesas e outras tantas portuguesas. Fiquei-me com o único exemplar disponível no local, a versão mais recente da obra, preparada pelas Éditions Chadeigne  Librairie Portugaise, com o apoio do Centre Culturel Calouste Gulbenkian de Paris. Comprei-o há dois anos mas só agora lhe peguei e tenho vindo a seguir os relatos da malfadada incursão bélica do Rei de Portugal no Reino dos Algarves de além-Mar em África, bem como de todos os acidentes extraordinários, associados ao evento. Nela não faltam visões, vozes, aparições, revelações, vaticínios, sinais, alucinações, prodígios, presságios, histórias, lendas, fábulas, milagres, trovas, construções mitológicas e tudo o mais que a memória dos povos foi gizando ao longo dos séculos sobre o maior desastre da História portuguesa, a batalha de Alcácer-Quibir, travada a 4 de agosto de 1578, aquela em que morreram três soberanos: Dom Sebastião, rei de Portugal; Abd al-Mâlik, sultão legítimo de Marrocos; e Moulay Muhamed, o sultão destronado e aliado do exército invasor lusitano. No final da contenda, será  al-Mansûr, o novo senhor do Sultanato Saadiano, a receber de imediato os louros da vitória e, de certo modo, à distância de dois anos, Filipe II de Castela, ao tornar-se Filipe I de Portugal, depois de ter herdado, comprado ou conquistado para os Áustrias a Coroa dos Avis.

Cruzei-me com a Matéria Sebástica  muitas e variadas vezes durante o meu percurso académico, enquanto discente/docente de Línguas, Literaturas e Culturas. Ainda me lembro da popularidade alcançada pelo Quarteto 1111 com A lenda de el-rei Dom Sebastião (1968), uma balada feita ao gosto saudosista da época a recontar de modo cantado os infortúnios d'O Desejado. Depois há ainda os ensaios políticos, os filmes alusivos, os documentários televisivos, as teses académicas, as peças de teatro, a ópera, as poesias, os artigos de revistas, os livros. Destaco um único romance, as Dix mille guitares, composto em 2010 por Catherine Clément, que recenseei para o Pátio de Letras em 2011, repus aqui neste espaço em 2017, reflexão reduzida duma comunicação mais extensa apresentada em 2011 na Uniwersytet Łódzki (Polónia), e publicada em 2014 pela Acta Universitatis Lodziensis, parcialmente disponível na Net. Acrescento a terminar uma conferência que proferi em 2017, na Association Culturelle Portugaise Alma Lusa sediada em Rennes (França), onde a temática foi tratada com todos os pormenores disponíveis. Em ambos as ocasiões, senti vontade de consultar o estudo da professora franco-tunisina de origem judaica, Lucette Valensi, que, como referi, só viria a encontrar numa pequena vila histórica da Beira Baixa em 2018, obra que não consegui vislumbrar nas mais reputadas livrarias da capital da Bretanha.

Nas cerca de quatro centenas de páginas do texto, a investigadora procede à resenha exaustiva de todas as relações investigadas e referentes ao tema d'O Encoberto, as anónimas e as assinadas, as manuscritas e as impressas, as portuguesas e as marroquinas. Menciona também as perdidas, os murmúrios, gemidos e silêncios, através dos testemunhos documentados pelas memórias escritas e orais, individuais e coletivas, imediatas e longínquas, sobreviventes à voragem do tempo. Desenvolve a gloriosa Batalha dos Três Reis, recorrendo às lembranças duma grande carnificina entre cristãos, judeus e muçulmanos. Através dessas Fábulas da Memória, as tais que começaram a ser contadas logo após a contenda e têm vindo a repetir-se mais de quatro centúrias, encontram-se distribuídas por dez capítulos, enquadradas por uma Introdução e uma Conclusão, secções canónicas obrigatórias neste tipo de trabalho, a que não falta, também, um curto Prefácio e uma extensa Bibliografia, para além dum muito completo aparato crítico de Notas, registadas a duas colunas. As diversas versões de vitória/derrota do combate e das suas repercussões na formação do Sebastianismo, entendido como o mais enraizado mito messiânico ou do homem providencial de toda a história cultural portuguesa, porque assente no regresso dum rei salvador do país.

Em 1986 ou 87  se a memória fragmentária dos eventos me não falha , andei pelos percursos bélicos marroquinos trilhados pelo derradeiro Cavaleiro-Cruzado europeu de feição medieval. Efetuei-o integrado numa viagem turística, sem fins peregrinos, organizada por um pequeno grupo de amigos. Entre Ceuta e Fez, fizemos escala em Tânger, Tetuão, Arzila e Larache. Tudo lugares paradigmáticos da Era Imperial portuguesa, que o guia oficial foi referindo com meias-palavras de circunstância e usando a técnica do politicamente correto. Passámos ao largo de Ksar-el-Kebir sem parar, depois de ter atravessado o Wâd al-Makhâzir, o local da batalha, sem ter avistado a ponte arruinada sobre o rio Oued al-Makhâzir, onde as forças invasoras cristãs foram dizimadas e o aliado rebelde muçulmano se afogou. O aqui e o agora também em que o Mito da Cruzada se converteu no Contramito da Decadência, aquele em que o jovem rei de 24 anos terá perdido a vida ou simplesmente desaparecido, para reaparecer, à boa maneira arturiana, numa manhã de nevoeiro, vindo duma ilha encantada, no seu cavalo real, para reassumir o Trono entretanto ocupado a título pessoal pelo tio materno, Filipe I/II de Habsburgo. E assim a história se fez lenda, e assim El-Rei Dom Sebastião passou de anti-herói derrotado pelo Islão nos labirintos da contenda em herói romanesco e prometido conquistador dum Quinto Império Global para a Cristandade. A crença na vinda dum salvador nacional frutificou e espalhou-se por todo o Império, com especial incidência no Brasil, e chegou até aos nossos dias vestido com as roupagens atuais. Continuamos à espera ansiosa duma vacina milagrosa que nos liberte do novo coronavírus, o Covid-19, que nos devolva a normalidade utópica que usufruíamos antes da pandemia. E como a esperança é a última a morrer, façamos fé que esta recente versão do Sebastianismo tenha pernas para andar e nos venha visitar o mais depressa possível. 

Lucette Valensi, Fábulas da Memória (1996, 2008)

10 de outubro de 2018

Pizzas de outono e de todo o ano

Galleria Vittorio Emanuele II di Milano

Alberto Oliva Comics

Pizza nella Galleria Vittorio Emanuelle II di Milano...

Em trânsito de Varsóvia para Faro, fiz escala por algumas horas em Milão. Tudo se passou sete anos, mais dia menos dia, e inseriu-se na participação num Colloque International, organizado pela Chaire de Philologie romane, da Universidade de Łódź. Levei até ali uma reflexão pessoal sobre a Catherine Clément e as Dez mil guitarras, que os seguidores de D. Sebastião terão deixado em Alcácer-Quibir, após a infortunada Batalha dos Três Reis. O texto anda por aí à solta na Net em formato PDF e pode ser encontrado por quem o quiser achar. Deixemo-lo navegar sem sobressaltos.

Sobrevoámos os Alpes, que medeiam a Polónia da Itália, aterrei na capital da Lombardia. Uma navetta levou-me a mim e à minha colega e amiga à stazione centrale. A linha amarela da Metropolitana conduziu-nos à piazza Duomo. A aventura milanesa ia começar. A e de city tour. O Miracolo a Milano do Vittorio de Sica surgiu-nos logo ali, à saída do Metro. Visita lenta à catedral. Olhar atento à città degli Sforza. Praças, estátuas, palácios, jardins. Uma pausa junto ao Teatro alla Scala e ao Leonardo da Vinci impôs-se. E uma área de La Traviata de Verdi soou subitoLibiamo ne' lieti calici.

Uma travessia nos diversos sentidos da Galleria Vittorio Emanuele II encaminhou-nos até ao Il Salotto. Pausa apetecida para degustar uma pizza quattro stagioni outonal e beber uma birra pilsner Nastro Azzurro. Os sabores italianos provados in situ. Tempo para pôr a con-versa em dia, para viver o pós-conferência, para falar doutros pro-jetos coloquiantes com sabor viandante e empenhados na descober-ta de novos horizontes. Tempo para um arrivederci alla prossima vol-ta à Milan e preparar o retorno a casa. O desejo então expresso con-tinua ainda no ar à espera duma concretização rápida. Ecco!

29 de maio de 2017

De sábio e de louco...

HIERONYMUS BOSCH

«A extração da pedra da loucura»

[Museo del Prado - Madrid - 1475-1480]
«Haverá coisa mais louca, dizem, do que adular o povo com uma candidatura, comprar os votos, conquistar os aplausos de tantos loucos, comprazer-se com as aclamações deles, deixar-se  levar em triunfo como um ídolo, ou estar no fórum como uma estátua? Acrescei a isto a ostentação dos nomes e cognomes. Acrescei as honras divinas prestadas a homúnculos, acrescei as cerimónias públicas em que são celerados tiranos. Tudo coisas louquíssimas, para se rir das quais não bastaria um Demócrito».
Erasmo de Roterdão, Elogio da loucura (1511, xxvii)

Taxa de demência dos grandes do mundo

Adolfo Hitler queria conquistar um império que durasse mil anos. Es-palhou a morte aos milhões durante doze anos e depois suicidou-se numa casamata de Berlim. Napoleão Bonaparte queria conquistar o maior império europeu de todos os tempos. Foi derrotado pelo general inverno e morreu envenenado no exílio Santa Helena. Filipe II foi o primeiro líder dum império global onde o sol nunca se punha. Faleceu entregue às suas mil maleitas no mosteiro-palácio do Escorial e o mundo não tremeu como se temia.

Die Welt ist ein Irrenhaus und hier ist die Zentrale. Le paradis des fous est l'enfer des sages. Cada loco con su tema. De sábio e louco todos temos um pouco, dizemos nós em português, língua familiar ao tio de D. Sebastião, o Desejado, pela Graça de Deus Rei de Portugal e dos Algarves, d'Aquém e d'Além-Mar em África, Senhor da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia. Aquele que queria conquistar o Quinto Império do Mundo e desapareceu em Alcácer-Quibir.

The different sorts of madness are innumerable. Reza em inglês o provérbio árabe que se pode aplicar a todos os tiranetes do mundo, no idioma que mais se identifica hoje em dia com a globalização. Dizem os mass-media planetários que Donald Trump foi eleito o Rei dos Loucos (König der NarrenRoi des fousRey de los locosKing of the Fools) na parada do primeiro de abril deste ano em Nova Iorque. Mentira ou verdade, os incautos que se cuidem, pois a loucura anda por aí à solta, em liberdade.