Mostrar mensagens com a etiqueta Bento Monteiro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Bento Monteiro. Mostrar todas as mensagens

5 de agosto de 2021

As lições dos mestres carismáticos

Accademia di Platone ad Atene
Mosaico da villa di T. Siminius Stephanus a Pompei 
(c. séc. )
[MuseoNazionale Archeologico di Napoli]

«A profissão de professor [...] compreende numerosas tipologias que vão desde a do pedagogo destruidor de espíritos à do Mestre carismático.»
George Steiner, As lições dos mestres (2003)

1. Letras & Números
Soube dias que o Prof. Dinis morrera, ao que me foi dado saber num acidente de viação, desconheço exatamente quando. Rondaria agora os noventa e picos. Durante muito tempo, tive vontade de rever o meu mestre-escola da Primária. Nunca calhou. Não voltei a saber nada dele. Nem sequer me lembro do apelido. Difícil de o encontrar na Net. Iniciou-me nas Letras e nos Números e demais artes do trívio e do quadrívio. Recordo-o vestido a rigor de príncipe de gales, sempre de gravata e sapatos superengraxados. Por alguma razão era conhecido por Manequim Inglês. Podia ser pior.

2. Língua & História
tempos, dizia eu a um amigo, num diário em rede que quando estava a ler pela enésima vez As lições dos mestres de George Steiner, me lembrara do Dr. Bento Monteiro, meu professor no Secundário de Língua e de HistóriaNa altura perguntei-me porquê, depois percebi ter sido o meu primeiro mestre carismático, aquele que me iniciara no universo do canto lírico e da paideia grega e me motivara a escrever e a ler ainda mais. Através da blogosfera soube ter falecido em 2008. Mais um que não voltei a ver como desejava, o Aristóteles Bigodaça, como alguns lhe chamavam.  

3. Filosofia & Dialética
E nada digo a propósito de epítetos, porque a partir do Médio os discípulos deixavam de alcunhar os mestres. Se o Prof. Barrilaro Ruas algum tivesse, seria com certeza o de Sofista Maiêutico, dado o modo como referia o método pedagógico de Sócrates, o grande mestre da Filosofia e da Dialética, nas aulas que eu frequentava no Instituto Comercial de Lisboa. Perdi-o de vista, apesar de tal como eu se ter mudado para a Faculdade de Letras. Vi-o algumas vezes na RTP, enquanto deputado do PPM, até que em 2003 os mass media anunciaram o seu passamento aos 82 anos de idade.   
 
4. Filologia & Linguística
Encontrei o Prof. Lindley Cintra já no final de vida, aquele que foi o meu Mestre de Mestres na Universidade de Lisboa, onde me iniciou no seio da Filologia e da Linguística, o estudo da linguagem nas fontes históricas antigas dos textos literários e registos escritos das diversas variantes do português e das suas congéneres românicas. Com ele aprendi que sem um conhecimento mínimo do latim e do grego, dificilmente entenderia a génese, avanço e triunfo da realidade cultural portuguesa. É que quem descura as suas origens ancestrais, empenha seriamente a sua razão de existir e dos seus.    

5. Literatura & Cultura 
Nunca perdi de vista a Prof.ª Ana Hatherly desde que a vi pela primeira vez no Príncipe Real, numa dependência da Universidade Nova de Lisboa. Sobre a minha orientadora de Mestrado e Doutoramento em Literatura e Cultura contei aqui algumas histórias que não vou repetir. Limito-me a reforçar a ideia de ser uma Mestre Prodigiosa de muitas artes e saberes, que me ajudou a olhar com olhos de ver para o Barroco. Convivemos como mestre e discípulo um quarto de século. E mais houvera se não tivesse entretanto partido para o Parnaso, o único lugar mítico que lhe pertence de direito*.

NOTAS
* No dia em que há seis anos Ana Hatherly partiu para junto de Apolo e das nove Musas, as entidades míticas inspiradoras da criação artística e científica.

30 de abril de 2021

Percorsi di vita attraverso l'opera lirica


Bianca Castafiore & Maria Callas
dall'usignolo milanese alla divina del bel canto ...

A primeira definição que me foi dada de ópera marcou-me pela carga fortemente negativa dos termos utilizados. Não me lembro da ordem exata das palavras que compunham a frase então pronunciada, mas recordo que assentava nos alegados gritos estridentes produzidos em palco por umas senhoras que não sabiam cantar e eram aplaudidas por um conjunto de pessoas que não tinham nada para fazer. Nessa primeira abordagem do canto lírico, não havia lugar para caraterizar as vozes masculinos que acompanhavam as femininas tão severamente causticadas.

Entrei algum tempo depois no universo desenhado por Hergé n'As aventuras do Tintim, e encontrei de imediato na Bianca Castafiore o protótipo perfeito dessas virtuosas de timbre vocal tão penetrante, apesar de ser descrita nos álbuns em que aparece com o epíteto de Rouxinol Milanês. A imagem verbal e a iconográfica estava traçada, só faltava encontrar o registo sonoro para completar um cromo completo da intérprete da «Air des bijoux», do Fausto de Charles Gounod, ou da totalidade de La gazza ladra, de Gioachino Rossini, que tanto sucesso obtivera no Scala de Milão.

As digressões constantes do professor Bento Monteiro, nas aulas de Português ou de História, ou os esclarecimentos da Senhora Dona Maria do Rosário, que depois da catequese me dava pro bono uma ou outra lição de piano. Com o primeiro, ouvi em estreia absoluta Enrico Caruso e Mario Lanza e fui sensibilizado para ver as diferenças existentes entre um e outro, com vantagem do italiano sobre o americano. Com a segunda, descobri que afinal o tal canto bárbaro para desocupados também era conhecido como bel canto. A caricatura traçada começava a ser desmontada.

Dizem que o criador belga se terá inspirado em Renata Tebaldi e Maria Callas para dar vida à sua prima donna, as mais famosas sopranos da época, a rivalizarem entre si e com todas as restantes divas que as antecederam e sucederam nos palcos operísticos do mundo pelo estrelato, preferência do público e atenção dos media. Pelo seu caráter voluntarioso, temperamental e perfeccionista, mais do que pelo perfil lírico, maestria interpretativa ou timbre vocálico inigualável das duas, inclino-me mais para La Divina grega do que para La voce d'Angelo italiana. Chi lo sa dirà!

Na passagem da década de 60 para 70 não falhei uma transmissão pela EN2 das temporadas do São Carlos. O meu percorsi di vita attraverso l'opera lirica fez-se depois nas récitas populares do Coliseu. Lembro-me duma pouco conhecida Manon de Massenet e duma famosa Aida de Verdi. Entre um autor francês e um italiano, ainda couberam muitos outros cantados em inglês e alemão, como o Porgy and Bess de Gershwin e o Die Walküre de Wagner. Uma caminhada pela opera in musica a desmontar por completo a definição que me fora dada tantos anos antes.

Despedi-me do drama cantado ao vivo em palco em 75. O panorama musical fora da capital não prima pela abundância. Passei a ser ouvinte assíduo das gravações em vinil e laser, a visionar as muito escassas difusões televisivas da RTP2 ou do Canal Mezzo. Recorro hoje em dia ao YouTube e a outras plataformas de partilha de vídeos acessíveis através dum mero PC portátil. Vantagens dos nossos tempos internéticos. Avere una compagnia quotidiana de soprani e tenori, de bassi e contralti, de baritoni e mezzosoprani, a po 'di tutto o tutti quanti senza uscire di casa. Ecco!      

HERGÉ, Les aventures de Tintin

11 de fevereiro de 2021

Gatinhar, caminhar & arrastar

Édipo e a Esfinge de Tebas

Figura vermelha em vaso grego (c. 480-470 AEC.)
[Museus do Vaticano] 

« τί ἐστιν ὃ μίαν ἔχον φωνὴν τετράπουν καὶ δίπουν καὶ τρίπουν γίνεται »
Ψευδο-Απολλόδωρος - Βιβλιοθήκη (III, 5, 8)
[Qual é o ser que, dotado duma só voz, tem quatro pernas pela manhã, duas ao meio-dia e três à noite? ]
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca (III, 5, 8)

Enigma da inflexível cantora da cidadela de Cadmo

Se a memória me não falha, ouvi falar pela primeira vez de Édipo no secundário. Terá sido nas aulas de História ministradas pelo professor Bento Monteiro, um dos meus mestres maiores da minha formação académica pré-universitária. Veio a propósito dos mistérios ligados aos monstros fabulosos com rosto humano e corpo de leão alado, imaginados pelos mitos e contramitos do mundo helénico. Mais do que o incesto trágico, a cegueira autopunitiva, o suicídio materno ou parricídio invito, sensibilizaram-me sobretudo as palavras ocultas no enigma proferido pela Esfinge de Tebas.

Decifra-me ou devoro-te! Vociferava a cantora inflexível, traiçoeira e impiedosa, carcereira da cidadela grega fundada por Cadmo. E o filho abandonado ao nascer por Jocasta e Laio encontrou a solução para a charada mortal, eliminou com uma flechada ou obrigou-a a despenhar-se dum alto penhasco e tornou-se Rei de Tebas. O ser dotado duma só voz era o Homem, que na primeira infância se limita a gatinhar com as mãos e os pés, depois em criança e adulto aprende a caminhar com as duas pernas e finalmente na velhice recorre a um bordão para não me arrastar.

Comecei a andar numa idade que não sei precisar. participei nesse processoatravés da observação das tentativas lentas e contidas, feita de avanços e recuos das minhas filhas e neto. Um entorse ou algo semelhante que me passou de raspão obrigou-me a valer-me dum bastão ortopédico com luz e ponteira. Édipo não escapou ao oráculo de Delfos de matar o pai e casar com a mãe, mas teve coragem de enfrentar a autopunição que a si mesmo se impusera. De facto, o livre-arbítrio só falha no ato de nascer, crescer e envelhecer, para o qual não temos forma conhecida de evitar.