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5 de maio de 2023

Uma cantiga de amigo dialogada com refrão de Dom Dinis no Dia da Língua

CANTIGAS MEDIEVAIS GALEGO-PORTUGUESAS

[Iluminura do Cancioneiro da Ajuda]

               Ai flores, ai flores do verde de pino

Ay flores ay flores do uerde pyno

Se sabedes nouas do meu amigo

       Ay de9 y hu e

Ay flores ay flores do uerde ramo

Se sabedes nouas do meu amado

       Ay de9 y hu e


Se sabedes nouas do meu amigo

Aquel qmètiu do q’po9cõmigo

       Ay de9 y hu e


Se sabedes nouas do meu amado

Aql qmètiu do q’ mha iurado

       Ay de9 y hu e


Vos me pcgùntades polo uossamigo

E eu bè v9 digió q’ e sanoe vyue

       Ay de9 y hu e


Vos me pcgùntades polo uossamado

E eu bè v9 digió q’ e vyue sanoe

       Ay de9 y hu e


E eu bè v9 digió q’ e sanoe vyue

E sera uos canto prazo passado

       Ay de9 y hu e

Dom Dinis, B 568, V 171 

Obs.: Assim se falava e escrevia no tempo de Dom Dinis (1261-1325), o rei-trovador que instituiu o Português como língua oficial do país (1297) e fundou a primeira universidade portuguesa em Lisboa (1288-1290).

5 de maio de 2021

Histórias da Língua

«Em 1297, findado o processo de Reconquista, D. Dinis, monarca e grande mecenas da literatura trovadoresca, adotou o português como língua do reino de Portugal, assim como seu avô Afonso X, o Sábio (1221-1284), monarca de Leão e Castela, anos antes fizera com o castelhano, ao mandar redigir na língua grandes obras históricas, astronómicas e legais. O caráter oficial possibilitou ao português seu desenvolvimento autónomo em relação ao galego, língua esta que, em virtude da expansão territorial portuguesa e da dominação castelhana, perdeu a importância literária de outrora.»

  Dia Mundial da Língua Portuguesa  

Fala-se muito tempo na integração do Português no seio das línguas oficiais da ONU, dado ser a mais difundida no Hemisfério Sul e a terceira no Ocidental, para além de ser a sexta a nível global. A grande objeção situar-se-ia nas divergências escritas que separavam as normas escritas portuguesa e brasileira, problema resolvido com o Acordo Ortográfico de 1990, que agora o mundo lusófono interpreta à sua maneira, não afastando as habituais questiúnculas atávicas de lana-caprina que nos caraterizam. Como se as diferenças existentes entre o francês europeu e o canadiano, o inglês britânico e o ianque ou o castelhano peninsular e o hispano-americano tenham impedido a sua oficialização pelos estados-membros que o constituem

A iniciativa até é louvável mas algo difícil de concretizar como tem vindo a ser demonstrado. Nem a eleição de António Guterres como nono Secretário-geral da Organização das Nações Unidas em 2017 resolveu o impasse. Aliás, seria muito pouco espetável que fora do espaço da lusofonia as suas intervenções internacionais passassem a ser proferidas na língua materna no desempenho das suas funções. Fá-lo-ia tanto como grande parte dos deputados nacionais ao Parlamento Europeu o fazem no seio da União Europeia, muito embora o Português seja um dos seus idiomas oficiais, preferindo fazê-lo em Inglês, mesmo após a consecução do Brexit e da saída subsequente do Reino Unido da associação de países em 2020. 

Polémicas à parte, celebra-se hoje nos nove países da CPLP, o Dia Mundial da Língua Portuguesa, instituída em 2019 pela Unesco. Data recente em comparação com a própria idade do idioma, difícil de achar, embora disponhamos de alguns dados para a sua identificação relativa. Sabe-se, por exemplo, cumprir-se agora o 724.º aniversário da sua adoção como língua oficial das chancelarias régias de Dom Dinis, ocorrida em 1297. Todavia, parece que desde 1255 Dom Afonso III já o fazia a par do Latim. Depois, consideremos ainda os documentos mais antigos redigidos em vernáculo, como a Notícia de Fiadores de 1175, lavrada no reinado de Dom Afonso Henriques. Mais ano menos ano, aqui ficam os meus votos de parabéns.

5 de maio de 2020

Diálogo travado em linguajar mui bárbaro e português ressuscitado


    Dia Mundial da Língua Portuguesa    

Num tempo indeterminado do futuro, um escoliasta descobriu os fragmentos dum livro publicado nos inícios dos anos 2000. Surpreendido com a linguagem decadente ali registada, traduziu-o para um português ressuscitado e comentou todos os barbarismos ali encontrados.

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Lendo a primeira Jornada por certo haveis pasmado com tão estranho linguajar e mais ainda em o moço que em a Abadessa, contudo também esta fala barbaramente. E mais advirto que se encontrais boas e bem escritas sentenças ao princípio da dita Jornada, antesmente os discursos, é isso porque eu verti para a moderna língua o que o autor escreveu, que era em tão desgraçada e estranha linguagem que não o poderíeis entender quiçá.

Achareis por certo, como disse, tal cousa de pasmar. Porém eu vos recordo que o caso se deu em os recuados primeiros dias do século vigésimo primeiro, quando a nossa portuguesa língua se perdia, o que veio depoismente a acaecer, que nosso povo tão dominado foi em corpo e em espírito que lhe preferiu a língua americangla, a que nossos cronistas também chamam hoje yeah-yeah-man. E a nossa só foi salva e revivescida em sua quase pura inteireza por esforço e estudo daqueles venerandos sábios que em boa hora e com a ajuda e a inspiração do Senhor se ajuntaram em Colégio de Arqueologia para estudar e ressuscitar o que em nós fora morto (e que era quase tudo) pelos bárbaros americanos e aqueles seus discípulos e seguidores que se assenhorearam da União, em o que não fomos mais afortunados que outros povos nossos irmãos do continente.

E àqueles que roídos de inveja ou tomados de douta arrogância dizem que esta língua portuguesa ressuscitada não é já aquela que antesmente se falava, e que o venerando Colégio confundiu em seu estudo a linguagem de muita épocas e cometeu outrossim grande soma de erros, responderei eu que não os vi a esses, nem a ninguém mais, fazer cousa melhor ou sequer alguma cousa; e hei por pouco honroso apontar erros e enganos quando nada se faz. E sobre os erros e enganos que eles apontam alembrarei eu que por o já dito desamor a nossa língua, e também por a muitas guerras e violências, se perderam quasemente todos os clássicos e que em os mais modernos magnéticos e televisivos registos e outros documentos que nos ficaram, e mui poucos eram, quasemente haviam só os discursos de gente que já não falava o escorreito português, antes era um linguajar muito bárbaro, de sorte que os sábios do dito venerando Colégio se viram em grandes e porfiados e esforçados trabalhos para de novo erguerem tão belo e nobre edifício, porém tão arrasado, que já quasemente saber não podiam o que era certo e errado.
João Aguiar, Diálogo das Compensadas. Lisboa: Asa, 2001, 13-14