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15 de maio de 2025

Mitos, Lendas & Contos de Fadas

«Foi a mulher que trouxeste para junto de mim que me ofereceu da árvore e eu comi...»
Génesis 3, 12

A arte de contar histórias terá surgido no preciso momento em que o homem adquiriu a capacidade de traduzir por palavras as imitações de realidades vividas ou imaginadasEsta habilidade de criar mundos paralelos numa fase remota, difícil de precisar, ocorreu na chamada etapa infantil ou animista da humanidade. Terá sido também neste comenos que os deuses e fadas entraram em cena nos mitos, lendas e contos que viriam depois a alimentar as literaturas orais e escritas de todos os povos dispersos pelos quatro cantos da terra.

A arte rupestre gravada e pintada em rochas, cavernas e abrigos pré-históricos, os carateres cuneiformes mesopotâmicos cunhados em placas de argila, os pictogramas hieroglíficos traçados nos papiros egípcios faraónicos, os manuscritos greco-romanos registados em rolos antigos e pergaminhos medievais, mais não são do que o germe dos cantos épicos, dramáticos e diegéticos clássicos, das narrativas sapienciais divinas, das fábulas e histórias da carochinha, impressos ou transmitidos de boca em boca e de geração em geração.

O Pomo de Ouro do Jardim das Hespérides, lançado pela Discórdia à mais bela das três deusas do Olimpo, provocou a rivalidade de todas e a Guerra de Troia. O Fruto Proibido da Árvore da Sabedoria, dado pela Serpente a Adão e Eva, levou à sua expulsão imediata do Paraíso Terrestre. A Maçã Envenenada, oferecida pela Rainha à Branca de Neve, causou-lhe um sono profundo e instantâneo, quebrado pela magia do beijo apaixonado do Príncipe Perfeito, num happy end sempre presente e esperado nos contos de fadas.

Mitos e lendas, epopeias e tragédias, histórias e romances, fábulas e apólogos, contos e parábolas, compostos em verso ou em prosa, são tudo produto duma mesma safra imagética, independentemente da natureza do pomar ou de se tratar dum pomo de ouro, dum fruto proibido ou duma maçã envenenada. A grande diferença é que a Literatura Infantil é a mais abrangente de todas as séries gizadas pela criatividade humana ao longo dos tempos, porque, ao contrário da literatura para adultos, se aplica a todos sem limite de idade.

27 de janeiro de 2025

Dioniso, o deus que nasceu duas vezes

         DIONISO - ΔΙΌΝΥΣΟΣ         
[Vaso grego de cerâmica com figuras vermelhas, séc. vi aec]
«Salve, descendente de Cronos, deus de tudo quanto é líquido e luminoso | Dá-nos ânforas repletas, rebanhos gordos, campos de fruta e colmeias de abastança | Vela pelas cidades e pelos navios que se fizeram ao mar e protege os jovens e a bondosa Témis.»
Hino Dionisíaco, apud Daniel J. Boorstin, Os Criadores (1992)

Chamam os mitos helénicos antigos heróis aos filhos dos deuses e dos homens. Podiam muito bem designá-los a todos por semideuses ou super-homens, porque simultaneamente divinos e humanos. A imortalidade herdada da sua origem olímpica permitia-lhes perdurar na memória coletiva dos mortais que os viram nascer, viver e morrer cobertos de glória, fama e honra eternas. O seu nome manter-se-á presente para todo o sempre nas gerações de seres perecíveis que testemunharam os seus feitos temporais e lhes deram um enfoque intemporal. Assim ocorreu com Héracles, Aquiles, Odisseu, Orfeu ou Jasão, para só referir alguns dos mais conhecidos.

De todos esses seres geneticamente híbridos, um que se destacou por se ter libertado da costela humana recebida da mãe e apropriado da dimensão divina do pai. Nas suas aventuras espúrias useiras e vezeiras, Zeus enamora-se de Sémele e engravida-a. Hera, movida pelos proverbiais ciúmes de mulher traída, resolve vingar-se da rival e propõe-lhe que solicite ao amado deixar-se ver sem disfarces, em todo o seu esplendor. Esta assim faz, sendo de imediato fulminada pelo resplendor do rei dos deuses e dos homens, que retirou o feto do ventre materno e coseu dentro da sua própria coxa. Finda a gestação, dava à luz Dioniso, o deus que nasceu duas vezes.

As façanhas, prodígios e loucuras terrestres abriram-lhe as portas das esferas celestiais, não sem que antes tivesse dado uma saltada às profundezas infernais, para resgatar do Hades a sombra da mãe e a levar consigo para o Olimpo, demonstrando assim o seu poder à data reconhecido por todos. Aquele a quem também chamaram Baco foi convertido no atípico deus dos ciclos vitais, da fertilidade, da insânia, das festividades, dos ritos religiosos, do teatro, do vinho e do caos, provavelmente por ter vencido como nenhum antes a lei da morte e conquistado o direito divino à eternidade, como décimo segundo e último habitante maior do panteão grego.

Numa data não registada da idade dos mitos, os deuses deixaram de procriar com os humanos e os heróis saíram de cena, ou foram coagidos a mudar de paradigma. porém um corte neste quadro de aparente entrega dos mortais ao seu próprio destino. Uma virgem judia deu à luz uma criança gerada pelo espírito dum deus sem nome revelado. A sua estada entre os homens foi efémera, mas a sua ressurreição após a morte repôs-lhe a vida eterna própria da sua natureza divina, aquela que lhe permitiu recuperar a mãe da terra e coroá-la rainha do céu. Acaso este de gregos e hebreus deterem as mesmas chaves de acesso à imortalidade.

8 de julho de 2024

Filhos & Pecadores

O Pecado Original e a Expulsão do Paraíso
Michelangelo Buonarroti, Vaticano - Cappella Sistina, 1508-1512 
O Senhor Deus disse: «Eis que o homem, quanto ao conhecimento do bem e do mal, se tornou como um de nós. Agora é preciso que ele não estenda a mão para se apoderar também do fruto da árvore da Vida e, comendo dele, viva para sempre.»
O Senhor Deus expulsou-o do jardim do Éden, a fim de cultivar a terra, da qual foi tirado. Depois de ter expulsado o homem, colocou, a oriente do jardim do Éden, os querubins com a espada flamejante, para guardar o caminho da árvore da Vida.
Génesis. 3, 22-25

Era uma vez um deus sem nome que, para ocupar o tempo que não lhe faltava, resolveu criar um jardim pessoal e entregá-lo de guarda ao homem, um ser semidivino feito com barro amassado em água e animado com o sopro divino do demiurgo. Foi-lhe porém vedado o pomo do conhecimento, o que não se coibiu de infringir e sofrer as consequências, ser expulso do vergel que lhe havia sido confiado por ter cometido o designado pecado original.

Era uma vez um herói tebano que matou o pai e casou com a mãe. Subiu ao trono vago da cidade órfã do rei caído às mãos do filho e originou uma das tragédias áticas mais modelar da paideia grega antiga. O novo tirano tinha os dias e as noites contados pela poder punitivo do pai dos deuses olímpicos. Os erros juvenis conscientes cometidos pelo soberano assassinado deveriam ser assumidos na íntegra pelos atos inconscientes do herdeiro real.

Era uma vez um filho-do-vulgo que ideou ser um filho-de-algo, apesar do pai ser um mero presidente eleito duma res publica secular. Como infante lusitano ou príncipe real que julgava ser, começou a exercer um forte tráfico de influências em nome do progenitor, que conduziria a um resultado inesperado e um desfecho desconhecido. O pai virou-lhe as costassacudiu a chuva do capote e sem dó nem piedade arremessou todas as culpas para o filho.

Se na transgressão bíblica, o pecado original recai sobre os pais, que o legam aos filhos; se na hybris helénica, a perversidade do pai recai sobre o filho, que não a transmite a ninguém; no caso atual, o abuso do filho é delatado pelo pai que o incrimina de tudo. Cá se fazem se pagam. Amigos amigos, negócios à parte, ou, como sói dizer-se, quando o mar bate na rocha, quem se lixa é o mexilhão. E assim se gizam os mitos, as lendas e as histórias.

ADÃO E EVA NO PARAÍSO
(Painel de colmeia séc. xix)

24 de dezembro de 2023

Presépio minimalista à maneira algarvia

   O MENINO JESUS CÁ DE CASA   

Laranjas, searas, trono e menino

A vaca e o burro do presépio tradicional franciscano primam pela ausência nos evangelhos canónicos do Novo Testamento. Aliás, dois deles referem a Natividade, sendo omitida pelos restantes: Marcos e João saltam do anúncio de João Batista para o batismo de Jesus; Mateus inclui a vinda duns magos vindos do Oriente guiados por uma estrela; Lucas alude ao convite feito por um anjo a um grupo de pastores para visitarem o menino, que encontram envolto em panos, deitado numa manjedoura junto a José e Maria.

O quadro natalício assim traçado daria poucos elementos cénicos para de recrear o nascimento do Menino em Belém de Nazaré. Limitar-se-ia ao pai-mãe-filho, um ou outro guardador de rebanhos indefinidos e a um número indeterminado de peregrinos orientais destituídos da categoria real. Seria sempre possível imaginar umas casas espalhadas aqui e além, considerar um rio a atravessar a paisagem local e os habitantes locais a desempenharem as suas tarefas quotidianas. A falta da vaca e do burro pouca falta faria.

Mais restritivo do que a visão bíblica deste episódio natalício é a seguida pelos fiéis algarvios. Aqui, nem o musgo do pinhal a revestir os campos, nem a areia da praia a traçar os caminhos, nem o castelo altaneiro a demarcar o horizonte, obrigatórios no presépio estremenho da minha infância marcam presença. A liturgia católica cumpre-se com umas laranjas e umas searas de trigo a cercarem o trono e a figura tutelar do Menino Jesus. É quanto basta para garantir o alimento espiritual para todo o ano. Pro que conta, tem avonde!

26 de abril de 2022

Impérios do Mundo

LA JÉRUSALEM CÉLESTE
Tapisserie de l'Apocalypse
[Château d'Angers, France, c. 1375]
Eternos moradores do luzente, | Estelífero Polo e claro Assento: | Se do grande valor da forte gente | De Luso não perdeis o pensamento, | Deveis de ter sabido claramente | Como é dos Fados grandes certo intento | Que por ela se esqueçam os humanos | De Assírios, Persas, Gregos e Romanos.
Luís de Camões, Os Lusíadas, 1572 (I, 24)
… depois dos três impérios dos Assírios, Persas e Gregos que já passaram, e depois do quarto, que ainda hoje dura, que é o Romano, há de haver um novo e melhor Império que há de ser o quinto e último.
Padre António Vieira, História do Futuro, 1653-1661 (I, i )
Grécia, Roma, Cristandade, | Europa – os quatro se vão | Para onde vai toda idade. | Quem vem viver a verdade | Que morreu D. Sebastião?
Fernando Pessoa, Mensagem, 1936 (III, i, 2.º, 5)

Da Terceira Roma à Nova Jerusalém...

Quando durante a Revolução Neolítica os caçadores-recoletores nómadas se tornaram agricultores-pastores sedentários, o processo embrionário de formação dos impérios começou a perfilar-se no horizonte. Se nos cingirmos à visão bíblica judaico-cristã, ter-se-iam sucedido quatro grandes entidades políticas de dimensão territorial crescente, identificadas com o Assírio-Babilónico, o Medo-Persa, o Greco-Macedónico e o Romano-Bizantino. Outros se lhe seguiram ao longo dos séculos, mas nenhum deles conseguiu conquistar o domínio almejado e inequívoco de Quinto Império do mundo.

A literatura épico-profético-lusitana de Luís de Camões, do P.e António Vieira e Fernando Pessoa olharam para os vastos domínios dos reinos e senhorios de Portugal e Algarves, de Aquém e Além-Mar em África, da Guiné, Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia como globais, sem abranger todavia os vinte e quatro fusos horários da esfera terrestre. Nem o império católico dos filipes hispânicos onde o sol nunca se punha, nem o napoleónico do imperador dos franceses, nem o império anglicano de sua majestade britânica lograram erigir nos seus tempos áureos de conquista eurocêntrica do mundo.   

Os impérios centrais eurasiáticos autocratas altamente belicistas dos alemães, dos austro-húngaros, dos otomanos turcos e dos ortodoxos russos ruíram durante a Grande Guerra, seguidos na geração imediata da queda do eixo imperial germano-italiano-nipónico no final da Segunda Guerra Mundial. O tempo dos impérios parecia ter desaparecido de vez do horizonte planetário global na passagem do segundo para o terceiro milénios, sobretudo a partir do derrube do Muro de Berlim e da subsequente implosão interna do império soviético e do universo da cintura-tampão de países-satélites.

Nos dias de hoje, o sonho delirante do ideado patriarca da alma russa, a real e a imaginária, o candidato presumido a senhor absoluto de toda a Rússia, grande, pequena e branca, empenhou-se na tarefa providencial de recuperar a grandeza imperial de superpotência muito perdida. O predador-vencedor/perdedor continua a sua cruzada de reunir as parcelas sumidas da miríade de entidades multinacionais anexadas pela força das armas no decurso dos séculos. Triste César este de pacotilha, ocupante de ruínas alçadas numa terra queimada, devastada mas nunca subtraída à vontade indomável dos povos.

O novo grão-duque de Moscóvia, o novo czar sem coroa do Kremlin, o novo soberano redentor da Rus eslava, ambiciona ativar a titularia imperial herdada do passado e tornar-se o potentado supremo da urbe humana globalizada, o messiânico conquistador do Quinto Império. Moscovo, já considerada a Terceira Roma terrestre, passaria a ser também uma legítima e merecida Nova Jerusalém celestial, a cabeça bicéfala do ambicionado Império do Mundo. Delírios do novo déspota enlouquecido que nos calhou na rifa. Cuidado com ele que anda por aí às claras a atazanar-nos o juízo.

Reuterswärd – Non-Violence – New York City (2012)

22 de junho de 2018

Aromas e sabores das maçãs proibidas e cobiçadas, símbolos de amor e morte

«Tal como a macieira entre as árvores da floresta | é o meu amado entre os jovens. | Anseio sentar-me à sua sombra, | que o seu fruto é doce na minha boca. || Leve-me para a sala do banquete, | e se erga diante de mim a sua bandeira de amor. || Sustentem-me como bolos de passas, | fortaleçam-me com maçãs, | porque eu desfaleço de amor...»
Cântico dos Cânticos (Ct 2, 3-5) 
Contam os mitos antigos feitos lendas que  no fim do mundo, onde a terra e o mar se encontram, existiu um pomar divino plantado pela rainha do Olimpo, irmã e esposa de Zeus. Estava guardado por uma serpente gigantesca de fulvo dorso e era conhecido pelo Jardim das Hespérides ou dos Imortais, porque cresciam no seu interior as maçãs de ouro, as tais que garantiam a quem as possuísse a eterna juventude. Por altura das bodas de Thétis e Peleu, a Discórdia apareceu sem ser convidada no meio da cerimónia e ofereceu um desses frutos cobiçados à mais bela das deusas presentes. A rivalidade entre Hera, Atena e Afrodite conduziriam ao Julgamento de Páris, ao Rapto de Helena e à Guerra de Troia. Mas isso já são outras histórias a que Homero deu a forma de epopeia.

No outro lado do mundo, perto do local onde o sol surge todas as manhãs, também terá havido um Jardim das Delícias ou do Éden. Foi plantado por Javé, aquele que terá dado origem a tudo o que existe. Destinou-o ao primeiro homem e à primeira mulher por si criados. Fez deles seus guardiões eternos. Podiam comer os frutos ali postos ao seu dispor menos as maçãs fornecidas pela árvore do conhecimento. O aroma emanado desse pomo proibido fazia adivinhar que o seu sabor lhe não ficaria atrás. Eva deixou-se tentar pela serpente e deu-o a comer a Adão. O resultado da desobediência foi a sua expulsão do Paraíso Terrestre. Foram condenados aos ditames do bem e ao mal, situados entre a vida e a morte. Histórias da justiça divina tornadas exemplares no livro dos livros sagrados.

Há muitos anos, vivia num país distante uma princesa chamada Branca de Neve. Quando a mãe morreu, o pai voltou a casar-se. Os ciúmes da nova rainha pela beleza da enteada não tardaram. Resolveu eliminá-la fisicamente para assim assegurar o afeto exclusivo do rei. Tal como costuma acontecer nestes relatos, a vítima escapou à morte. Abandonada no meio da floresta do reino, foi recebida por sete anões, com quem passou a morar. A teia narrativa prossegue com mil e uma peripécias, gizadas ao sabor da imaginação do contador de serviço. Pelo meio fala-se dum espelho encantado, da maldade da madrasta e do poder letal duma maçã mágica. Refere-se ainda o beijo de amor dum príncipe perfeito, que dará um final feliz a um conto infantil conhecido de todos.

As alegorias com maçãs têm proliferado ao longo dos tempos, de levante a poente, de norte a sul, ou nesse país de fantasia ou do faz-de-conta. Referem-se a um fruto que a ciência remeteu para a categoria dos pseudofrutos, por crescer num tecido adjacente ao ovário da flor. Depois descobrimos que o Pomo da Discórdia seria uma «laranja», que o grego atual designa por πορτοκαλί (portucali), e que o nome latino do Fruto Proibido, malum, tanto pode significar «maçã» como «mal». Do que não restam dúvidas, é que a semente do livre-arbítrio helénico de Páris ou judaico de Adão formam um pentagrama simbólico perfeito do amor e do saber imortais. Que Eva e Helena o neguem se puderem. Que a Branca de Neve e o Príncipe Perfeito das histórias de fadas o façam também se souberem.

                P E N T A G R A M A             

28 de maio de 2018

À la poursuite de la vie sans fin...

 PARALLÉLISMES 


MORCEAU 1 : L'Épopée de Gilgamesh
[Version ancienne, c. 1750-1600 AEC : Berlin III / 1'-14']
« Que vagabondes-tu ainsi, Gilgamesh ? | La vie sans fin que tu re-cherches, | Tu ne la trouveras jamais ! Quand les dieux ont créé les hommes, | Ils leur ont assigné la mort, | Se réservant l’immortalité, à eux seuls ! | Toi, plutôt, remplis-toi la panse ; |  Demeure en gaieté, jour et nuit ;  | Fais quotidiennement la fête ; | Danse et amuse-toi, jour et nuit ; | Accoutre-toi d’habits bien propres ; | Lave-toi, baigne-toi ; | Regarde tendrement ton petit | Qui te tient par la main, | Et fais le bonheur de ta femme | Serrée contre toi : | Car elle est | L’unique perspective des hommes ! »

MORCEAU 2 : Ecclésiaste
[Bible hébraïque , c. 450-180 AEC : IX, 5-10']
« Les vivants savent au moins qu’il leur faut mourir. Mais les morts ne savent plus rien : ils n’ont plus ni amour, ni haine, ni désir, et ils n'auront plus jamais part à tout ce qui se fait sous le soleil. Allons ! Mange ton pain dans l'allégresse et bois ton vin d'un cœur plaisant ; mets tout le temps des habits de fête ; n'épargne pas les parfuns pour ta tête ; jouis de la vie avec la femme que tu aimes, tous les jours de vanité que l'on t'accorde ici-bas ; c'est là ta part dans l'existence et dans tout le tracas que tu te donnes sous le soleil ! Tout ce qui est en ton pouvoir, fais-le dans ta force, car il n'y a plus ni action, ni pensée, ni savoir, ni sagesse au Shéol où tu vas... »

Jean Bottéro, Babylone et la Bible. Paris: Hachette, 1994, 265-267

6 de janeiro de 2017

Os magos do Oriente e o dia de Reis

GRÃO VASCO
«Adoração dos Reis Magos» (c. 1501-1506)

[Museu Nacional Grão Vasco - Viseu]
«Tendo nascido Jesus em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes, chegaram a Jerusalém uns magos vindos do Oriente. E perguntaram: "Onde está o rei dos Judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo." Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes perturbou-se e toda a Jerusalém com ele. E reunindo todos os sumos sacerdotes e escribas do povo, perguntou-lhes onde devia nascer o Messias. Eles responderam: "Em Belém da Judeia, pois assim foi escrito pelo profeta: E tu, Belém, terra de Judá, de modo nenhum és a menor entre as principais cidades da Judeia; porque de ti vi sair o Príncipe que há de apascentar o meu povo de Israel." Então Herodes mandou chamar secretamente os magos e pediu-lhes informações exatas sobre a data em que a estrela lhes tinha aparecido. E, enviando-os a Belém, disse-lhes: "Ide e informai-vos cuidadosamente acerca do menino; e, depois de o encontrades, vinde comunicá-mo para eu ir também prestar-lhe homenagem." Depois de ter ouvido o rei, os magos puseram-se a caminho. E a estrela que tinham visto no Oriente ia adiante deles, até que, chegando ao lugar onde estava o menino, parou. Ao ver a estrela, sentiram imensa alegria; e, entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se, adoraram-no; a, abrindo os cofres, ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra. Avisados em sonhos para não voltarem junto de Herodes, regressaram ao seu país por outro caminho.»
(Mt 2, 1-12)
A história é antiga e vem registada no Evangelho de São Mateus, com que abre o Novo Testamento. Em mais nenhum local do livro sagrado do monoteísmo cristão volta a ser referida. Mas como quem conta um conto acrescenta um ponto, os magos vindos do Oriente passaram a ser três, foram elevados à categoria de reis e começaram a chamar-se Gaspar, Melchior e Baltasar. Com o passar dos tempos, o mitologia católica finaliza a quadra natalícia com este episódio simbólico, celebrado no dia 6 de janeiro de todos os anos. 

Tão pouco nos é revelado o país de onde eram oriundos o que não inibiu a tradição de lhes atribuir uma etnia diferente. Dois  brancos e um negro. Afinal, África era tão ou mais exótica do que a própria Ásia. A imaginação renascentista de Grão Vasco (c1475 - c1542), deslocou um desses adoradores do menino para a terra há pouco descoberta dos Pataxó brasileiros, esse admirável mundo novo da América já rendido à nova fé messiânica. Assim urgia propagar aos quatro ventos para memória futura. E assim o foi e sem delongas...

29 de fevereiro de 2016

As arcas do dilúvio universal

L'Arche de Noé
[Saint-Savin sur Gartempe - Abbaye St-Savin et St-Cyprien]
EPÍGRAFE 1: Epopeia do Grande Sábio (c. 1800 AEC: III, i, 20-24)
«Parede, escuta-me com atenção! | Cabana, nota todas as minhas palavras! | Separa-te da tua casa, constrói um barco! | Despreza os bens, conserva a tua vida!»
EPÍGRAFE 2: Grande Dilúvio da Bíblia (c. 800 AEC: Gn. 6, 14)
«Constrói uma arca de madeiras resinosas. Dividi-la-ás em compar-timentos e calafetá-las-ás com betume, por fora e por dentro.»
Li há dias, num testemunho tornado público na netosfera das reali-dades virtuais, ser o Gilgamesh um poema de autor desconhecido e inúmeras versões, que nos conta a lenda dum rei sumério semidivi-no e do seu encontro com o semi-humano Enkidu. Frisava-se aí, também, a referência a situações bíblicas concretas, como a cria-ção do mundo e o dilúvio universal. O confronto entre os dois relatos torna-se particularmente interessante e explosivo, dado que a epo-peia mesopotâmica primitiva foi composta cerca de mil anos antes da compilação hebraica do livro sagrado por excelência dos três mo-noteísmos de expressão planetária.

Quando a escrita cuneiforme começou a ser decifrada em cascata no início do séc. xix, depois de ter estado fechada sobre si mesma cerca de dois milénios, os seguidores das religiões abraâmicas en-traram literalmente em choque. Afinal a Torah do povo eleito não era a mais antiga coleção de ensinamentos divinos dados a revelar aos mortais. A arca de Noé havia sido precedida pela barca de Atra-hasis. Os versículos do Génesis hebraico resumiam-se a uma va-riante tardia dos versos do Supersábio sumério. O mais inquietante é que todos esses poemas estavam centrados numa imensidade de deuses e não dum só em particular.       

Os paralelismos existentes nos textos cotejados não se confinam aos episódios destacados. Muitos outros haveria a arrolar para testar a sua origem comum. As terras banhadas pelo Tigre e Eufrates. A in-venção da escrita permitiu que a memória coletiva guardada pelos povos dos dilúvios ocorridos no final da última glaciação, há dez mil anos, se convertesse num conjunto de mitos assírio-babilónicos e judaico-cristãos indeléveis. Depois o homem descobriu ter criado os deuses à sua imagem e semelhança. A dimensão religiosa dá lugar à literária. E o processo de humanização de Abraão, Noé, Atrahasis, Enkidu e Gilgamesh entrava em cena.