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23 de abril de 2025

Ditos dos livros no dia mundial dos livros


No hay libro tan malo que no tenga algo bueno...
Miguel de Cervantes, Don Quijote de la Mancha (2005, 2015; II, 3)

DIA  MUNDIAL  DO  LIVRO
Extratos em Contracorrente

Desvarío laborioso y empobrecedor el de componer vastos libros; el de explayar en quinientas páginas una idea cuya perfecta exposición oral cabe en pocos minutos. Mejor procedimiento es simular que esos libros ya existen y ofrecer un resumen, un comentario.

Jorge Luis Borges, El jardín de senderos que se bifurcan (1941)

What do the books say, he wonders. Oh, to scratch that itch, eh? Well, Montag, take my word for it, I've had to read a few in my time, to know what I was about, and the books say nothing! Nothing you can teach or believe. They're about non? existent people, figments of imagination, if they're fiction. And if they're non fiction, it's worse, one professor calling another an idiot, one philosopher screaming down another's gullet. All of them running about, putting out the stars and extinguishing the sun. You come away lost.
Ray Bradbury, Farenheit 45 (1953)

Spesso i libri parlano di altri libri. Spesso un libro innocuo è come un seme che fiorirà in un libro pericoloso o, all’inverso, è il frutto dolce di una radice amara. [...] Sino ad allora avevo pensato che ogni libro parlasse delle cose, umane o divine, che stanno fuori dai libri. Ora mi avvedo che non di rado i libri parlano di libri, ovvero è come si parlassero tra loro. [...] Il bene di un libro sta nell'essere letto. Un libro è fatto di segni che parlano di altri segni, i quali a loro volta parlano delle cose. Senza un occhio che lo legga, un libro reca segni che non producono concetti, e quindi è muto.

Umberto Eco, Il nome della rosa (1980)

L'écriture ne soulage guère. Elle retrace, elle délimite. Elle introduit un soupçon de cohérence, l'idée d'un réalisme. On patauge toujours dans un brouillard sanglant, mais il y a quelques repères. Le chaos n'est plus qu'à quelques mètres. Faible succès, en vérité.
Quel contraste avec le pouvoir absolu, miraculeux, de la lecture ! Une vie entière à lire aurait comblé mes vœux; je le savais déjà à sept ans. La texture du monde est douloureuse, inadéquate ; elle ne me paraît pas modifiable. Vraiment, je crois qu'une vie entière à lire m'aurait mieux convenu.

Michel Houellebecq, Extension du domaine de la lutte (1994)

As Luzes e a poesia salvaram-me, ao entornarem a doçura do mel do favo onde o fel e a raiva já haviam começado o seu trabalho devastador...

Habituei-me a ser criticada
por ler livros,
por falar de ciência, de política e de filosofia,
por saber inglês e latim,
por ter demasiadas Luzes para uma mulher. 
Alguns homens mais cultos chegaram a invocar Molière para me ridicularizarem.

Maria Teresa Horta, As luzes de Leonor (2011)

J. l. BORGES, R. BRADBURY, U. ECO, M. HOUELLEBECQ, M. T. HORTA

23 de outubro de 2023

Regresso, Novilíngua & Coda

CIDADE-MUNDO
Jan Amos Komenský, Labyrint světa a ráj srdce (1623)
“Twenty-seven years later, in this third quarter of the twentieth century A.D., and long before the end of the first century A.F., I feel a good deal less opti-mistic than I did when I was writing Brave New World. The prophecies made in 1931 are coming true much sooner than I thought they would. The blessed interval between too little order and the nightmare of too much has not begun and shows no sign of beginning.”

“The purpose of Newspeak was not only to provide a medium of expression for the world-view and mental habits proper to the devotees of Ingsoc, but to make all other modes of thought impossible. It was intended that when Newspeak had been adopted once and for all and Oldspeak forgotten, a heretical thought -- that is, a thought diverging from the principles of Ingsoc -- should be literally unthinkable, at least so far as thought is dependent on words.”

“There is more than one way to burn a book. And the world is full of people running about with lit matches. Every minority [...] feels it has the will, the right, the duty to douse the kerosene, light the fuse. Every dimwit editor who sees himself as the source of all dreary blanc-mange plain-porridge unleavened literature licks his guillotine and eyes the neck of any author who dares to speak above a whisper or write above a nursery rhyme.”

O termo utopia entrou na linguagem comum dos falantes através de Platão (c. 428-348 AEC), registado na República com o sentido literal dum «não lugar» ou «não existente», mas possível de erigir num estado ideal futuro regido pelos princípios de Justiça dos Reis-Filósofos. Este conceito de ascensão do caos primitivo ao cosmos vindouro é retomado no Timeu e no Crítias, diálogos da maturidade do autor compostos como contraponto ao exemplo falhado da mítica/lendária Atlântica, perdida nos abismos oceânicos situados ao largo das Colunas de Hércules.

Este conceito é trazido por Thomas More dos tempos antigos para os modernos, adaptado na Utopia (1516) ao humanismo então vigente. O período áureo das navegações europeias permitem-lhe imaginar a existência dum mundo modelar paralelo ao nosso, mas de localização desconhecida. Chega-se e sai-se dali por mero acaso. O filão descrito nessa sociedade perfeita é aproveitado por outros criadores coevos, dando origem à eutopia filosófica de cariz renascentisto-barroca dum Tommaso Campanella n'A Cidade do Sol (1602) ou dum Francis Bacon na Nova Atlântida (1624).

A breve trecho, o locus amœnus não tardou a converter-se num locus horrendus. Os relatos edénicos centrados em comunidades felizes instaladas em ilhas perdidas dos mares do Sul perderam o caráter inovador inicial, atravessaram um longo percurso de normalização genérica e caíram na fase epigonal da banalização a anunciar a extinção ou a renovação. As formas superiores inacessíveis de organização política local saem de cena e cedem o palco à distopia global acessível num porvir predestinado ao bem-estar absoluto e poupado aos caprichos do livre-arbítrio.

A queda dos impérios centrais e a ascensão de regimes totalitários entre guerras (mundiais, civis e frias) propiciaram o surgimento dum novo modo de contar histórias. Aldous Huxley avança com o Admirável mundo novo (1932), George Orwell prossegue com o Mil novecentos e oitenta e quatro (1949) e Ray Bradbury culmina com o Fahrenheit 451 (1953), formando, assim, um triângulo de ouro da ficção científica ou de antecipação topocrónica, erigida nos domínios duma Cidade-Mundo de cariz autocrático, a prefigurar a vitória quimérica duma Cidade-Estado planetária.

As previsões de futuro arriscam-se sempre a falhar nas suas linhas gerais. A esta a conclusão chegou Aldous Huxley, registada no «Prefácio do Autor» (1946) à sua obra maior e no Regresso ao admirável mundo novo (1958). Em pouco mais de uma geração, grande parte dos avanços científicos e tecnológicos conseguidos no sétimo século de Our Ford começavam a ser alcançados em meados do vigésimo século de Our Lord. As lacunas flagrantes detetadas são também referidas, com um destaque muito especial para a ausência de alusões à cisão nuclear.

A fronteira do real/imaginário é cada vez mais ténue e difícil de limitar. «Os Princípios da Novilíngua» vigentes no macrocosmo ficcionado do Big Brother perdem o seu caráter virtual e entram  ante no nosso universo de referências tangíveis quando o confrontamos com os excessos dogmáticos prescritos por uma certa linguagem inclusiva agora posta em voga, regida pelos preceitos cabais do politicamente corretoGeorge Orwell ver-se-ia obrigado a reformular de ponta a rabo o «Apêndice» com que completa de totalitarismo instaurado nesse tão distante/próximo ano de 1984.

Os livros ainda não começaram a ser sistematicamente queimados a 451ºF como na efabulação distópica de Ray Bradbury. O mesmo se não pode dizer de algumas palavras ali registadas e eliminadas à revelia do autor, por si elencadas no «Coda» (1979), um posfácio a uma reedição da obra. A maior censura consiste, porém, na omissão voluntária das palavras proibidas, as tais que não chegam a ser ditas/escritas para não ferir os sentires dos leitores. Triste realidade esta que afasto do meu horizonte de linguajares quotidianos, livre de espartilhos de qualquer tipo ou feitio.

                    NOVOS GÉMEOS IDÊNTICOS BOKANOVSKIZADOS DO III.º MILÉNIO                     

9 de agosto de 2023

Ray Bradbury, Fahrenheit 451, a temperatura a que o papel do livro se incendeia e arde...

"It was a pleasure to burn. It was a special pleasure to see things eaten, to see things blackened and changed. With the brass nozzle in his fists, with this great python spitting its venomous kerosene upon the world, the blood pounded in his head, and his hands were the hands of some amazing conductor playing all the symphonies of blazing and burning to bring down the tatters and charcoal ruins of history. With his symbolic helmet numbered 451 on his stolid head, and his eyes all orange flame with the thought of what came next, he flicked the igniter and the house jumped up in a gorging fire that burned the evening sky red and yellow and black. He strode in a swarm of fireflies. He wanted above all, like the old joke, to shove a marshmallow on a stick in the furnace, while the flapping pigeon-winged books died on the porch and lawn of the house. While the books went up in sparkling whirls and blew away on a wind turned dark with burning."

Num destes dias agitados da invasão dum país soberano disfarçada de intervenção militar especial, um iraniano tresloucado queimou um exemplar do Alcorão perto duma mesquita em Estocolmo. Este ato islamofóbico foi aproveitado pela Turquia para vetar durante algum tempo a entrada da Suécia na Nato. A notícia deste ato ritual de contestação duma ideologia tida como totalitária, cometida por uma outra de sinal identicamente extremista, apanhou-me a caminho das férias de verão longe dos holofotes televisivos. Aproveitei este fait divers da aldeia global atual para encetar uma releitura do mais lido relato de Ray Bradbury, o Faherenheit 451 (1953), uma distopia atemporal, cujo título nos remete para a temperatura a que o papel dum livro se incendeia e arde, i.e., 232,8ºC, pouco mais ou menos.

Tudo se passa num espaço e num tempo antecipados pouco precisos, a configurar as habituais metatopias-metacronias exigidas por este tipo especial de ficção científica. Se as referências singulares a Los Angeles, St. Louis e Chicago nos remetem para a Califórnia, Missouri e Illinois, nada nos garante que estejamos ainda numa entidade política soberana atualmente conhecida por EUA. Os eventos relatados projetam-nos para uma realidade vivencial ainda distante da nossa, mas pontualmente concretizada em momentos menos felizes da história. O visionamento há cinquenta anos de filmes do foguetão V-2 (1942) e a alusão à vigência do padrão intelectual seguido nos últimos cinco séculos ou mais do Hamlet (1599-1601), de Shakespeare, remetem-nos para localizar a ação entre finais do Séc. XX e inícios do XXI, para todos os efeitos após 1990, ano/década em que a sociedade retratada no romance terá vencido duas guerras atómicas e reformulado toda a sua forma de agir.

Os bombeiros daquele país sem nome conhecido e sem data precisa de nascimento têm por missão vital a queima sistemática de livros e das casas que os abrigassem. Absurdo ilusório, imediatamente desfeito, se nos lembrarmos da alegada purificação pelo fogo de todos os textos contrários às ideologias religiosas e políticas então dominantes. A Inquisição e o Nazismo são exemplos perfeitamente ilustrativos em termos históricos a par da eliminação das bibliotecas do Don Quixote ou do mosteiro d'O nome da rosa, imaginados por Cervantes e Umberto Eco na esfera literária. O autor aponta a intolerância racial como causa inicial da censura às obras impressas, a que depois se acrescentaram outras num crescendo infindável. Se não se gosta queima-se e resolve-se o problema. A partir de dado momento já restava muito pouco a preservar e não se perdia grande coisa. Afinal os livros não diziam nada e ninguém passou a sentir a sua falta. E, depois, havia sempre a possibilidade de substituir as humanidades pelo desporto.

uma larga mão-cheia bem contada de anos, ouvi num congresso internacional de países lusófonos uma comunicação que mudou radicalmente a minha forma de encarar a transmissão verbal de tradição oral. Soube então que os arquivos ancestrais destruídos durante a guerra civil moçambicana haviam sido reconstruídos através da memória atenta dos anciãos sobreviventes ao conflito. Espantoso. Nesse momento compreendi melhor o processo de preservação das palavras emprestadas por Homero à Ilíada e à Odisseia, por volta de 800AEC, as tais que andaram de boca em boca até serem compiladas por Pisístrato, entre 545-527AEC. Um exercício coletivo multigeracional que os resistentes do mundo alienado plasmado nas páginas duma epopeia em prosa moderna tomam como modelo e replicam. Na tentativa de ultrapassar a Idade das Trevas então vigente e de derrotar os cães-mecânicos programados para perseguir e eliminar os amantes da leitura, de banir de vez as salamandras, fénix e demais símbolos da barbárie instituída, cada um dos resistentes clandestinos transforma-se num homem-livro. Adota-o, memoriza-o, eterniza-o. Oferece-o às novas gerações, para assim fazerem ressurgir das cinzas a humanidade que lhes havia sido sonegada em nome de coisa nenhuma.