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13 de julho de 2017

A agenda semanal do confessor

Sante Scaldaferri

Deus e o Diabo na Terra do Sol

(1995)

Era uma vez um vigário...

Num lugar que ninguém sabe, pela praia ou pelo mato, pela ilha ou pela terra, era uma vez um vigário. Era uma vez a freguesia desse vigário, era uma vez sua igreja, era uma vez o povo que nesse sítio morava, onde havia muitas beatas e muita gente misseira e benigna. O vigário, antes da missa, não podia descansar, porque vinham as beatas se confessar. Depois da missa, não podia descansar, porque vinham as beatas se confessar, e então o padre não fazia outra coisa que cuidar das desobrigas daquele povo carolo. Aí o padre pensou, pensou, pensou e chegou num resultado, que foi fazer por escrito um ror de coisas, ror esse que preparou para ler na missa. Quando chegou a missa, o padre pegou do ror e leu da seguinte maneira: minhas prezadas devotas, povo desta freguesia, já estou ficando velho e cansado e não tenho mais tempo e sustança para tanta confissão todo dia. Por isso que doravante vamos obedecer à seguinte disposição, que eu mesmo pensei muito bem pensado e escrevi muito bem escrito, estando tudo muito bem ajuizado: no domingo, eu confesso as preguiçosas e as que não têm asseio; na segunda, as que furtam e as que mentem; na terça, as que bebem; na quarta, as que enganam o marido ou pecam ao contubérnio; na quinta, as crocas e as maldizentes; na sexta, as feiticeiras, as mandingueiras e as treiteiras; no sábado, as comilonas e as invejosas. Que quando o vigário terminou de dizer isso, ninguém disse nada na hora, mas toda a gente se olhou assim, e daquele dia em diante não teve mais beata que quisesse confissão naquela freguesia e o vigário descansou à larga com seu bom vinho de missa, pé de pato mangalô três vez.

João Ubaldo Ribeiro, Viva o Povo Brasileiro (1984)

11 de outubro de 2014

João Ubaldo Ribeiro e o poleiro das almas do bom povo brasileiro

«E assim, uma bola azul elétrico invisível suspensa pelos muitos ventos que povoam o firmamento, a almazinha adiava e ansiava o instante em que se tomaria de perdida paixão e se tornaria uma alma brasileira para todo o sempre, contribuindo para entender-se este fenômeno lembrar que, sim, as almas não aprendem nada, mas sonham desvairada-mente.»
João Ubaldo Ribeiro, Viva o povo brasileiro (1984)
Tomei conhecimento efetivo da existência de João Ubaldo Ribeiro no preciso momento em que os noticiários televisivos anunciavam o seu desaparecimento e lhe teciam os encómios costumeiros nestas ocasiões. Mais uma vez se provou que a visibilidade dos vultos da cultura só se intensifica com a chegada da morte. Mea culpa exclusiva neste caso. O nome do novo habitante do Parnaso das letras até já me deveria ser familiar, por ter sido laureado com o Prémio Camões em 2008. A leitura dos artigos da imprensa escrita e as notas publicadas no ciberespaço, também elas laudatórias, convidou-me a procurar uma livraria e adquirir algum dos seus romances. A tarefa efetuou-se sem dificuldades e até obtive um desconto especial, por ter escolhido a figura literária do dia ou da semana. Decidi-me de imediato pelo Viva o povo brasileiro (1984). Deixei-me cativar pela frase registada na capa e atribuída ao pai do autor: «Livro que não fica em pé, não presta». Obedeci ao reco-mendado por Manoel Ribeiro e as 850 páginas que conformam o volume escolhido aguentaram-no sem cair. Levei-o para casa para testar pessoalmente se ao critério quantitativo demonstrado se juntaria a qualidade poética produzida.

Tirei a prova dos nove à beira-mar. Ocupei uma parcela considerável das férias de verão a ouvir as histórias com história dentro enviadas do outro lado do Atlântico há precisamente três décadas. Gostei de ouvir tudo aquilo que as vozes selecionadas pela ficção resolveram confidenciar-me. Só para mim. Como se tratasse dum segredo que exigia uma cumplicidade partilhada de emissor-recetor único. Ilusões que a arte criadora dos artistas consegue oferecer aos seus admira-dores. Permito-me discordar do ponto de vista veiculado pela edi-tora portuguesa e enquadro a obra como uma lídima saga do povo brasileiro, uma vez que está ancorado na pesquisa da identidade nacional enunciada explicitamente no título. Opiniões não se discu-tem. Muito menos quando resultam dos apontamentos subjetivos traçados no decorrer duma viagem virtual pelo universo da ficção. As histórias secretas reveladas não funcionam como um contraponto da história oficial documentada, mas sim como um complemento fundamental para vislumbrar a verdade dos factos, situada na fronteira imprecisa do real e do imaginário.

Trata-se mesmo dum grande relato que se ocupa da vida duma família com muitos feitos guerreiros ocorridos num passado remoto, com muitos ramos parentais à mistura, fruto duma miscigenação étnica multissecular oriunda de três continentes. Índios americanos, negros africanos e brancos europeus. Genealogias legítimas indese-jadas substituídas por outras inventadas ao sabor da maré ou dos interesses dos seus membros fundadores mais proeminentes. Num dos galhos dessa árvore feita com pessoas, surge uma gesta caboca de cor acobreada. Num outro, uma gesta mulata de cor parda. Entre um e outro ou para além dos dois, uma gesta sem mestiçagem declarada, cor bronzeada a esconder um sangue azul inexistente. Portugueses, espanhóis, holandeses, franceses e ingleses também são chamados à colação, para enriquecerem a paleta e darem um colorido inconfundível ao poleiro das almas, cada uma delas à procura duma série de encarnações que lhes permita desenhar o genuíno espírito e sabedoria do bom povo brasileiro.

Os heróis e os anti-heróis pululam no texto. Os consagrados pelo poder instituído e os guardados na memória das gentes. Entre uns e outros não existem coincidências de catalogação. A língua dos pretos ou a língua dos brancos com que são contados os seus feitos é que condiciona a sua colocação numa das duas listagens. Surgem todos eles em Itaparica, uma ilha perdida na imensidade das Terras da Vera Cruz e acabam por se espalhar por todo o território do país. Pedaços sincopados de vida a dar unidade a uma grei que se carateriza pela diversidade. A esperança na Irmandade do Homem mora nas laudas de papel em branco revestido a negro com as palavras convocadas com engenho e arte por um escritor iluminado. Há também espaço para definir a fé como uma maneira de ver o mundo capaz de tornar possíveis aquelas coisas que se deseja que aconteçam. O Espírito do Homem continua a vagar sobre as águas da grande baía de todos os santos, errante mas confiante, a encarnar os seres que o inspiram e lhe dão razão de lutar, a demudar-se nas almas brasileirinhas, tão pequetitinhas, mas com uma ânsia tão grande de existir.

7 de setembro de 2014

Língua comum

Natureza viva...
Nada melhor do que escolher o último dia de férias para falar das leituras de férias. Colocar três delas lado a lado e fazer a conta-corrente das impressões de viagem que o seu convívio de semanas me proporcionou. Exóticas no seu todo. A cheirar a terra e a mar. Pejadas de história com histórias dentro. Ecos multisseculares de convívio musculado. Aguerrido, quezilento, brigão. Um trato revelado na língua comum mais falada no hemisfério sul.

Passamos o olhar pelas palavras feitas de letras e ouvimos os heróis que as povoam a contar-nos as suas vidas como se nos conhecêssemos há uma eternidade. Esse o principal segredo da literatura. Fazer de cada leitor um confidente de histórias fingidas como se fossem verdadeiras. Um cúmplice incondicional. As estremas entre umas e outras desaparecem do horizonte e deixam campo livre à imaginação.

Depois as páginas que nos falam aos ouvidos chegam ao final do seu percurso e obrigam-nos a travar um diálogo silencioso com os amigos que vimos partir e ainda mantemos entre mãos. Até podemos partilhar com os outros essas tais emoções de trajeto mas o efeito do primeiro contacto desfaz-se. Ninguém lê um livro da mesma maneira. Ninguém vê o mundo do mesmo modo. As subjetividades envolvidas impedem-no.

Os três autores convocados lidam com a língua portuguesa como poucos. Todavia fazem-no de modo distinto. Os registos angolanos de Pepetela e de José Eduardo Agualusa não se confundem com os brasileiros de João Ubaldo Ribeiro. Cada um deles estabeleceu relações muito estreitas com a realidade portuguesa. A colonial e a dos nossos dias. Em nada se confundem com o linguajar europeu que conhecemos e praticamos no nosso dia-a-dia coloquial.

A lusofonia tem destas coisas espantosas. Une-nos a todos na diversidade e divide-nos na unidade. Pena é que um manancial tão auspicioso nos ponha de costas voltadas quando à nossa realidade cultural. Fazemos gala em ignorar-nos uns aos outros. Como se o outro fosse o inimigo. Malhas que o império ainda hoje tece aos meninos de sua mãe, que somos todos nós. O poeta que tinha no português a sua pátria lá continua a ter as suas razões…