Mostrar mensagens com a etiqueta Histórias em contracorrente. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Histórias em contracorrente. Mostrar todas as mensagens

29 de agosto de 2025

Ei-los que partem...

Almada Negreiros, «A partida dos emigrantes» (1947-49)
[Lisboa, Gares Marítimas de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos]

Ei-los que partem | Novos e velhos | Buscar a sorte | Noutras paragens | Noutras aragens | Entre outros povos | Ei-los que partem | Velhos e novos || Ei-los que partem | Olhos molhados | Coração triste | A saca às costas | Esperança em riste | Sonhos dourados | Ei-los que partem | Olhos molhados || Virão um dia | Ricos ou não | Contando histórias | De lá de longe | Onde o suor | Se fez em pão | Virão um dia | Ou não...

Os acordes do «Eles» dedilhados à guitarra e cantados por Manuel Freire ecoaram pela primeira vez em 1968. Terá sido nessa altura que a ouvi de quando em vez nas rádios então existentes. Suspeita aparentemente lógica, baseada numa memória distante muito difusa de décadas que liga a balada a um qualquer folhetim então difundido por um ou outro desses tais postos: Rádio Clube Português, Rádio Renascença ou Emissora Nacional. Pouco importa ou tanto faz.

As três oitavas de versos tetrassilábicos sem refrão relatam-nos as travessias dos novos e velhos que partiam a buscar a sorte noutras paragens, noutras aragens, entre outros povos. Melodia singela a relatar os olhos molhados, coração triste, esperança em riste, sonhos dourados de quem partia com a saca às costas. Virão um dia, ricos ou não, contar histórias de de longe, onde o suor se fez em pão. Virão um dia, ou não. Assim findava a cantiga. O ir-e-vir nem por isso.

Já não ouvimos a voz de Manuel Freire como chegámos a ouvir nos anos de intervenção a que antecederam a queda do regime da outra senhora. Ainda teve alguma visibilidade nos primeiros tempos revolucionários, depois foi pouco a pouco silenciado, como todos os companheiros de travessia do deserto até hoje. Estão todos eles ausentes dos programas pimba que povoam os mass média atuais, a toda a hora do dia e da noite, da manhã e da tarde. Sem parar

Então como agora, uns partem e regressam porque querem, outros ficam porque já não querem voltar. Há depois aqueles que chegam a cada momento e são forçados a partir no momento seguinte quer queiram quer não. Filhos doutras paragens mais distantes, doutras aragens mais agrestes, doutros povos mais exóticos. Balada perene de migrantes que vão e vêm e que vêm e vão. Verso e reverso duma mesma medalha que não cabe nos versos e notas duma canção.

19 de junho de 2025

Férias pequenas, grandes e plenas

Bonnevacance!
férias
Nome feminino plural de féria (fé.ri.a | ˈfɛrjɐ), do latim ferĭa-, «dia de festa».

Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa

A capacidade de olhar à distância levam-me a vislumbrar um tempo idílico de infância, em que as férias não eram nem pequenas nem grandes, eram plenas. Começavam quando o solstício de verão se aproximava e os dias se tornavam maiores e mais quentes. Acabavam nas vésperas do equinócio do outono, quando as vindimas estavam no seu auge e as festividades das estações frias despontavam.

Em sentido contrário, dirijo o olhar para as férias que aí vêm e que voltarão a ter a dimensão dos dias de festa dos tempos pré-escolares. Estas agora só não são plenas porque entre os primeiros dias do inverno e os finais da primavera outras tarefas se foram impondo para preencher os longos dias duma reforma, aposentação ou jubilação obtida após a travessia da etapa ativa adulta pela vida.

Nas vésperas dos dias de festa do descanso maior, interrompi as caminhadas de domingo mas mantive as sessões bissemanais de yoga, abrandei os ensaios dos grupos corais e ultimei as aulas pro bono na academia sénior. Comecei a contar os dias que me separam do sol e sombra, das leituras e escritas, da companhia mais assídua dos livros de proveito e deleite, de ensino e diversão.

arrumei as calças, camisolas e casacos; estreei as t-shirts, bermudas e havaianas; já apartei as toalhas de praia, os fatos de banho e a cadeira de lona. Os chapéus de sol, os para-ventos de prevenção e os panamás de pano já foram postos de lado. Os giros à beira-mar, à beira-ria e à beira-dunas já se avistam no horizonte. E aí vou eu em pensamento ávido de lá chegar de corpo e alma.

29 de maio de 2025

Original & Imitação

Um peixinho dourado com barbatana dorsal de tubarão

Não queiras sapateiro tocar rabecão…

Qualidade & Quantidade

Quando os complexos de inferioridade se transformam em complexos de superioridade, a mania das grandezas manifesta-se em toda a sua extensão. Desmesuradamente. A originalidade evapora-se e a imitação explode. Os exemplos não faltam. Pequenos e grandes, antigos e recentes, imprevisíveis e expectáveis. Deixemos os de menor calibre de fora e convoquemos alguns dos mais visíveis. Nascidos numa etapa civilizacional longínqua, desenvolvidos num fluxo civilizacional contínuo e prenúncio duma evolução civilizacional vigente, perdida num horizonte de eventos ignotos, mas cada vez mais próximos do nosso ângulo de visão.

Começando com os Sumérios, não se sabe ao certo de onde vieram nem para onde foram. Provavelmente, quando inventaram a escrita, já teriam esquecido a sua proveniência e acabaram por se diluir no seio dos Acádios semitas. Nem uns nem outros se encarregaram de registar em nenhuma placa cuneiforme estes dados que em nada lhes interessaria documentar. As lendas do rei sumério de Uruk uniram-se na epopeia acádia de Gilgamesh. Estes aproveitaram-se da matéria-prima original, ampliaram-na a seu belo prazer e criaram um género novo que muitos outros depois imitaram, com Homero, Virgílio e Camões à cabeça de todos eles.

Na Idade dos Heróis épicos, Troia foi tomada, saqueada e incendiada pelos Aqueus, após um cerco de dez anos. Eneias consegue fugir e protagonizar um sem número de aventuras por terra e por mar até chegar à anelada península italiana. Aí, estará na origem da fundação lendária de Roma, cidade imperial que posteriormente conquistará toda o Mare Nostrum mediterrânico, incluindo os antigos territórios gregos. Com esta anexação punitiva, a nova senhora incontestável do mundo conhecido tenta demonstrar a alegada superioridade bélica latina sobre a invejada superioridade cultural helénica. Exageros à parte, cá se fazem cá se pagam.

Os eixos do poder mudaram-se para o novo mundo, levando consigo a secular matriz do velho continente. Para a ereção da capital, os seus arquitetos associaram as colunas e pilastras gregas aos arcos e cúpulas romanas. A acumulação desregrada de originais alheios imitados à exaustão encontra o expoente máximo no Capitólio, um misto de templos helénicos e de basílica latina ou dum bolo de noiva com vários andares. A sujeição da qualidade à quantidade, feita à medida do atual inquilino da Casa Branca, a alimentara-lhe o ego e a transformá-lo num lídimo César global, a vencer aos pontos a loucura de Nero, Calígula ou Caracala.

WASHINGTON, THE CAPITOL. (US-D.C.(1891) 

23 de abril de 2025

Ditos dos livros no dia mundial dos livros


No hay libro tan malo que no tenga algo bueno...
Miguel de Cervantes, Don Quijote de la Mancha (2005, 2015; II, 3)

DIA  MUNDIAL  DO  LIVRO
Extratos em Contracorrente

Desvarío laborioso y empobrecedor el de componer vastos libros; el de explayar en quinientas páginas una idea cuya perfecta exposición oral cabe en pocos minutos. Mejor procedimiento es simular que esos libros ya existen y ofrecer un resumen, un comentario.

Jorge Luis Borges, El jardín de senderos que se bifurcan (1941)

What do the books say, he wonders. Oh, to scratch that itch, eh? Well, Montag, take my word for it, I've had to read a few in my time, to know what I was about, and the books say nothing! Nothing you can teach or believe. They're about non? existent people, figments of imagination, if they're fiction. And if they're non fiction, it's worse, one professor calling another an idiot, one philosopher screaming down another's gullet. All of them running about, putting out the stars and extinguishing the sun. You come away lost.
Ray Bradbury, Farenheit 45 (1953)

Spesso i libri parlano di altri libri. Spesso un libro innocuo è come un seme che fiorirà in un libro pericoloso o, all’inverso, è il frutto dolce di una radice amara. [...] Sino ad allora avevo pensato che ogni libro parlasse delle cose, umane o divine, che stanno fuori dai libri. Ora mi avvedo che non di rado i libri parlano di libri, ovvero è come si parlassero tra loro. [...] Il bene di un libro sta nell'essere letto. Un libro è fatto di segni che parlano di altri segni, i quali a loro volta parlano delle cose. Senza un occhio che lo legga, un libro reca segni che non producono concetti, e quindi è muto.

Umberto Eco, Il nome della rosa (1980)

L'écriture ne soulage guère. Elle retrace, elle délimite. Elle introduit un soupçon de cohérence, l'idée d'un réalisme. On patauge toujours dans un brouillard sanglant, mais il y a quelques repères. Le chaos n'est plus qu'à quelques mètres. Faible succès, en vérité.
Quel contraste avec le pouvoir absolu, miraculeux, de la lecture ! Une vie entière à lire aurait comblé mes vœux; je le savais déjà à sept ans. La texture du monde est douloureuse, inadéquate ; elle ne me paraît pas modifiable. Vraiment, je crois qu'une vie entière à lire m'aurait mieux convenu.

Michel Houellebecq, Extension du domaine de la lutte (1994)

As Luzes e a poesia salvaram-me, ao entornarem a doçura do mel do favo onde o fel e a raiva já haviam começado o seu trabalho devastador...

Habituei-me a ser criticada
por ler livros,
por falar de ciência, de política e de filosofia,
por saber inglês e latim,
por ter demasiadas Luzes para uma mulher. 
Alguns homens mais cultos chegaram a invocar Molière para me ridicularizarem.

Maria Teresa Horta, As luzes de Leonor (2011)

J. l. BORGES, R. BRADBURY, U. ECO, M. HOUELLEBECQ, M. T. HORTA

10 de outubro de 2024

Flagelos mediáticos secos e molhados

Ramón Castellano de Torres, Cataclismo (2007)

As secas estivais severas começaram a ceder, as primas borrascas outonais chegaram de mansinho. Os incêndios vão e as inundações estão a caminho. Entre rescaldos de flagelos pretéritos e presságios de desgraças vindouras, folgam as costas. Entre o fogo enraivecido e as chuvadas torrenciais, os mass media fazem tréguas passageiras que intercalam com os habituais conflitos, epidemias e cataclismos mil. A guerra das audiências não tem sossego e não de reality shows e telenovelas a toda a hora vive a gente. que puxar um pouco ao sentimento e à lagrimazinha no canto do olho.

As imagens seguintes poderão ferir a suscetibilidade das pessoas mais sensíveis, dizem os pivots de serviço com ar compungido, feito à medida, mas nem por isso desistem de transmiti-las em grandes, pequenos e médios planos. E nem merece a pena mudar de canal, que nos vizinhos o panorama é idêntico. O poder das imagens em movimento é muito forte. As televisões aproveitam-se dessa regalia sobre as rádios e jornais, incapazes de reproduzir com eficácia garantida o deflagrar das chamas de fogo e do desabar diluviano das bátegas de água vistos segundo a segundo no pequeno ecrã.

A caixinha mágica que mudou o mundo nem sempre o tem mostrado na sua melhor faceta. Rendeu-se ao efeito mórbido do catastrofismo, Ampliou o lado negro da vida e aligeirou as restantes tonalidades do espetro cromático criado. A atração sádica das televisões por cenários apocalípticos suscita um clima depressivo nos telespetadores, que parece gozarem dum prazer masoquista com os canais noticiosos especialistas na difusão reiterada das grandes hecatombes naturais e provocadas. Como sói dizer-se, são insondáveis os caminhos que levam à liderança, ou seja, albarde-se o burro à vontade o dono.

6 de setembro de 2024

Decénios em contracorrente

D e c é . n i . O

Quando passamos os sete decénios de existência, temos muitas histórias para contar e eu já contei algumas aqui nestas histórias digitais. Se os fados para estiverem virados, algumas mais haverá para encher os dias, meses e anos que cabem num novo decénio de histórias. Assim o Arthur d'Algarbe tenha engenho e arte para o fazer.

Uma década recheada com histórias aos quadradinhos, com artes, astros, filmes, história, livros, música, números, palavras, sentidos, histórias de televisão, hospital, vida histórias em contracorrente e tutti quanti, dum cavaleiro de cavalarias trazidas das histórias noveladas de mundos imaginadas para as histórias centradas no mundo real.

Estante de livros já lidos e relidos com história dentro, livros de crónicas feitas, de ensaios escritos, de fotos tiradas, de memórias lembradas, de vidas vividas; livros matriciais antigos, clássicos e atuais, daqui e dali, um pouco de todo o lado; versos ao gosto lírico, épico e dramático; prosas em forma de conto, novela e romance.

O encerramento duma livraria foi o ponto de partida para a abertura em contracorrente destas histórias de faits divers q.b., baseado numa novela de cavalaria medieval gaulesa. Viro a página desta década a referi-la, para que as emoções da aventura então encetada propiciem uma nova etapa de escritas e leituras em conta-corrente.

2 de setembro de 2024

Mercearias & Supermercados

Roque Gameiro - 1901
João da Esquina conservava sobre José das Dornas um olhar desconfiado
[Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, Centro de Arte Moderna]

Mercearias de Bairro & Supermercados de Periferia

Em meados da década de 6O, a minha cidade acordou alvoroçada, porque estava anunciada a abertura do primeiro supermercado do burgo. As trombetas de triunfo duma nova era soaram com pompa e circunstância. O toque de finados dos velhos tempos ecoaram em surdina, meio envergonhados, como se viesse de muito longe, dum espaço assustadoramente distante. Situado na esquina de duas vias centrais de trajeto urbano, mais não era do que um longo corredor repleto de expositores oferecidos ao livre acesso dos clientes. À entrada havia os carrinhos com rodas para levar as compras até à caixa registadora. Tudo como nos filmes que o único canal então existente da RTP transmitia em dias certos e a preto e branco.

Para trás, começaram a ficar as tradicionais mercearias de bairro, aquelas que estavam ao dispor das necessidades básicas de toda a vizinhança. Na proximidade da minha casa, havia um par delas à distância dum atravessar de rua. Tornámo-nos clientes em exclusivo da que ficava mais perto de nós. Também parecia ser a melhor. Os produtos estavam à vista de todos, mas separadas do freguês por um eficiente balcão. Numa das pontas, estava munido duma guilhotina de cortar bacalhau e, na outra, duma bomba medidora de azeite. O centro de operações era ocupado por uma balança a princípio bem calibrada, que presidia a todas as operações de venda avulso, como uma verdadeira rainha que era e não prescindia de ser.  

O supermercado pioneiro da minha terra já não existe e a mercearia da minha rua já fechou as portas há uma eternidade. Alguns desses estabelecimentos renderam-se aos novos tempos. Os menores passaram a minimercados, lojas gourmet e superettes. As maiores deslocaram-se para a periferia transformadas nos hipermercados dos shopping centers. Atropelam-se uns aos outros, esvaziam as cidades aos fins de semana e dias feriados, converteram-se nos grandes templos do consumo dos bem de primeira e nenhuma necessidade. Dá vontade de dizer como Platão na República e José Saramago repetiu na epígrafe inicial da Caverna: «Que estranha cena descreves e que estranhos prisioneiros, São iguais a nós».

5 de janeiro de 2024

Dois retângulos, um círculo e três cores

Tombo das Armas e dos Reis e Titulares de todas as famílias Nobres
 do Reino de Portugal com o nome de Tesouro da Nobreza
[ANTT, Casa Real, Cartório da Nobreza, liv. 21, fl. 19]
LOGÓTIPO
Conjunto formado por letras e/ou imagens, com design que identifica, representa ou simboliza uma entidade, uma marca, um produto, um serviço, etc.
Dicionário Priberam da língua Portuguesa [em linha] 

Estalou neste outono-inverno uma polémica cerrada envolvendo os elementos da bandeira portuguesa ausentes do novo logótipo do governoAs vozes dissonantes alegam ter havido um desrespeito total dos símbolos nacionais do país. Perguntam-se insistentemente sobre o destino dado às cinco quinas de Dom Afonso Henriques, aos sete castelos de Dom Afonso Terceiro e à esfera armilar de Dom Manuel Primeiro, evocativas da batalha de Ourique, da conquista do Algarve e das descobertas portuguesas.

Picado pela curiosidade, lancei-me pela Net em busca das insígnias retiradas abusivamente da atual marca gráfica da República. Dei-me conta da ausência das quinas no escudo de armas do Conquistador, da inexistência dum número fixo de castelos no pendão do Bolonhês, da omissão da esfera armilar do brasão real do Afortunado. A inclusão conjunta dos três elementos referidos numa bandeira oficial teria de esperar pela criação efémera do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves e pela ulterior queda da Monarquia.

Armas do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves
[Carta da Lei de 21 de maio de 1816]

Polémica atrai polémica e os elementos constitutivos da bandeira eliminados do logótipo não fogem à regra. Afinal e ao que parece, as quinas dos escudetes hierárquicos devem o nome aos cinco pontos dum dado de jogar, os castelos às insígnias reais de Castela e a esfera armilar a um antigo emblema chinês usado pela dinastia Han antes do início da era cristã. Mitos convertidos em contramitos, a dispensar as teorias wokistas da conspiração, tão do agrado do politicamente correto e da cultura do cancelamento.

Identidade visual do Governo da República Portuguesa
[Manual de aplicação da identidade visual, julho de 2023]

1 de dezembro de 2023

Conexões e ruturas ibéricas

Portugalia & Hispania

Lucas Jansz Waghenaer, Europa Ocidental, 1588

Na visão centralista dos Áustrias, Castela e Leão imperavam nos seus domínios ibéricos herdados, conquistados e comprados, com uma espada erguida na mão direita e o globo terrestre na esquerda. O brasão de armas completo de Felipe II é elucidativo dessa realidade ilusória, que alentou o sonho hegemónico espanhol desde a subida ao trono português em 1580 até à queda de Filipe IV desse mesmo trono em 1640. Um elmo central a presidir e os laterais submissos a admirá-lo, ou seja, os dragões alados luso-aragoneses a prestarem vassalagem ao leão acastelado da soberania hispânica unificada.

Trezentos e cinquenta e cinco anos após a assinatura do tratado de Madrid em 1668, que pôs termo a vinte e oito anos de guerra (da Aclamação lhe chamaram na altura e da Restauração em tempos mais recentes), voltou a ouvir-se falar com insistência na hipotética reversão desta separação peninsular. Desconheço ao certo quantos portugueses aceitariam de bom grado esta segunda união ibérica, muito embora algumas sondagens de opinião efetuadas no país vizinho afirmem ser francamente favoráveis. Duvido. Presumo que o grau de aceitação espanhola possa ser superior à nossa. Alvitro.

As vantagens duma tal associação até poderiam ser úteis para ambas as partes, se entretanto as querelas separatistas que continuam a grassar do lado de da fronteira fossem debeladas de vez e as reservas levantadas do lado de cá não agudizassem ainda mais a situação. O problema da centralidade de Madrid (em detrimento de Lisboa/Barcelona), o predomínio do castelhano (em concorrência com o português/catalão), o regime político adotado (em oposição à república/monarquia). Admitir por fim que a unidade desejada terá de passar por um modelo federativo de estados independentes entre si.

Celebra-se hoje a independência da Casa de Bragança face à Casa de Áustria, efeméride festejada efusivamente pelos saudosistas duma Monarquia extinta e olhada com indiferença pelos cidadãos comuns da República vigente. Neste mesmo dia de há cinco anos, frui em Sevilha a chegada da reforma, aposentação ou jubilação, como se lhe queira chamar, consoante o gosto de cada um ou a casta profissional a que se pertença. Independência lhe chamo eu. Sem feriado nacional, sem drama pessoal, sem vivas ou bota-abaixo. Recebi-a de ânimo leve, braços abertos e votos de boas-vindas.

6 de setembro de 2023

Rotinas em contracorrente

Pam Wenger, Morning Routine (2020)
[Wall Art ‒ fineartamerica]

                   Noves fora nada...                    

Sometimes the writer must ask himself whether what he has written has any value except to himself...

Voltei às minhas rotinas em contracorrente do pós-férias de verão em tempos ditas grandes. Retomei o cantar & ouvir com horário fixo e mantive o ler & escrever e o blogar & comentar com horário livre.

Deitei para trás das costas os noves fora nada que já leva este espaço de histórias ditas em conta-corrente flexível e prossigo esta caminhada de anuário rumo à primeira década de vida real e virtual.

Peguei na reflexão do W. Somerset Maugham feita em jeito de Exame de Consciência e resolvi compor algumas palavras mais sobre o tudo e coisa nenhuma que vão tendo algum sentido para mim. Até ver.

30 de junho de 2023

Duplicidades contraditórias

«O sentimento chamado saudade carateriza-se pela sua duplicidade contraditó-ria: é uma dor da ausência e um comprazimento da presença, pela memória. É um estar em dois tempos e em dois sítios ao mesmo tempo, que também pode ser interpretado como uma recusa a escolher; é um não querer assumir plena-mente o presente e o não querer reconhecer om passado como pretérito.»
António José Saraiva,  A cultura em Portugal (1981)

Há uma quinzena de anos, descobri por mero acaso o blogue da confraria dos antigos alunos da escola onde fizera o secundário. Revi-me à distância de quatro décadas inserido numa foto de grupo tirada numa visita a Guimarães, integrada na já longínqua viagem de finalistas ao norte do país. Passei a seguir com caráter quase diário a página do grupo e a comentar com frequência uma ou outra postagem em que a minha lembrança conservara sem grande esforço alguma ideia ou imagem. E os dias, semanas e meses foram-se sucedendo e as minhas visitas fiéis foram-se espaçando gradualmente até se tornarem pontuais, esporádicas ou residuais.

Numa fase inicial, ainda pensei participar num desses encontros primaveris de inícios de maio. Depois, fui observando atentamente as reportagens digitais divulgadas na altura e apercebi-me que cada um desses instantâneos estampados para a posteridade retratavam um conjunto infindo de ilustres desconhecidos. Por mais que tentasse, raramente consegui juntar um nome a um rosto. As memórias fugazes guardadas do passado não coincidiam com as fisionomias do presente daqueles ex-colegas, com quem nunca mais voltara a conviver, fixados meio século mais tarde pela objetiva duma câmara fotográfica. Senti-me um estranho entre estranhos e desisti da ideia.

Contas feitas e aferidas, o saldo obtido entre o deve e o haver leva-me sempre à conclusão de manter uma relação muito especial entre o então e o agora. Não nutro qualquer desejo íntimo especial de acolitar a ancestral duplicidade contraditória lusitana de estar com quem não estou ou de estar onde não estou. As únicas soedades, suidades ou saudades que sinto em mim ‒ vindas de distantes solitátis, soledades ou solidões ‒ não vêm dum ontem longínquo que não posso recuperar ou dum hoje fugidio que não posso reter, mas dum amanhã que há de vir. Quando estiver não sei onde nem sei com quem. Tanto faz. O que importa é que chegue ou chegando.