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23 de abril de 2025

Ditos dos livros no dia mundial dos livros


No hay libro tan malo que no tenga algo bueno...
Miguel de Cervantes, Don Quijote de la Mancha (2005, 2015; II, 3)

DIA  MUNDIAL  DO  LIVRO
Extratos em Contracorrente

Desvarío laborioso y empobrecedor el de componer vastos libros; el de explayar en quinientas páginas una idea cuya perfecta exposición oral cabe en pocos minutos. Mejor procedimiento es simular que esos libros ya existen y ofrecer un resumen, un comentario.

Jorge Luis Borges, El jardín de senderos que se bifurcan (1941)

What do the books say, he wonders. Oh, to scratch that itch, eh? Well, Montag, take my word for it, I've had to read a few in my time, to know what I was about, and the books say nothing! Nothing you can teach or believe. They're about non? existent people, figments of imagination, if they're fiction. And if they're non fiction, it's worse, one professor calling another an idiot, one philosopher screaming down another's gullet. All of them running about, putting out the stars and extinguishing the sun. You come away lost.
Ray Bradbury, Farenheit 45 (1953)

Spesso i libri parlano di altri libri. Spesso un libro innocuo è come un seme che fiorirà in un libro pericoloso o, all’inverso, è il frutto dolce di una radice amara. [...] Sino ad allora avevo pensato che ogni libro parlasse delle cose, umane o divine, che stanno fuori dai libri. Ora mi avvedo che non di rado i libri parlano di libri, ovvero è come si parlassero tra loro. [...] Il bene di un libro sta nell'essere letto. Un libro è fatto di segni che parlano di altri segni, i quali a loro volta parlano delle cose. Senza un occhio che lo legga, un libro reca segni che non producono concetti, e quindi è muto.

Umberto Eco, Il nome della rosa (1980)

L'écriture ne soulage guère. Elle retrace, elle délimite. Elle introduit un soupçon de cohérence, l'idée d'un réalisme. On patauge toujours dans un brouillard sanglant, mais il y a quelques repères. Le chaos n'est plus qu'à quelques mètres. Faible succès, en vérité.
Quel contraste avec le pouvoir absolu, miraculeux, de la lecture ! Une vie entière à lire aurait comblé mes vœux; je le savais déjà à sept ans. La texture du monde est douloureuse, inadéquate ; elle ne me paraît pas modifiable. Vraiment, je crois qu'une vie entière à lire m'aurait mieux convenu.

Michel Houellebecq, Extension du domaine de la lutte (1994)

As Luzes e a poesia salvaram-me, ao entornarem a doçura do mel do favo onde o fel e a raiva já haviam começado o seu trabalho devastador...

Habituei-me a ser criticada
por ler livros,
por falar de ciência, de política e de filosofia,
por saber inglês e latim,
por ter demasiadas Luzes para uma mulher. 
Alguns homens mais cultos chegaram a invocar Molière para me ridicularizarem.

Maria Teresa Horta, As luzes de Leonor (2011)

J. l. BORGES, R. BRADBURY, U. ECO, M. HOUELLEBECQ, M. T. HORTA

16 de fevereiro de 2020

Mapas e territórios de vida e morte


J'ai décidé de me faire euthanasier...

Il se tourna vers son fils, le regarda droit dans les yeux. « Ça me paraissait mieux de te prévenir, et je ne me voyais pas t'en parler au téléphone. Je me suis adressé à une organisation, en Suisse. J'ai décidé de me faire euthanasier ».

Jed ne réagit pas immédiatement, ce qui laissa le temps à son père de développer son argumentation, laquelle se résumait au fait qu'il en avait marre de vivre.
« Tu n'es pas bien ici ? » demanda enfin son fils d'une voix tremblante.
Si, il était très bien ici, il n'aurait pas pu être mieux, mais ce qu'il fallait qu'il se mette dans la tête c'est qu'il ne pouvait plus être bien nulle part, qu'il ne pouvait plus être bien dans la vie en général (il commençait à s'énerver, son débit devenait fort et presque colérique, mais le vieux chanteur avait de toute façon sombré dans l'assoupissement, tout était très calme dans la pièce). S'il devait encore continuer il allait falloir lui changer son anus artificiel, enfin il trouvait que ça commençait à suffire, cette plaisanterie. Et puis il avait mal, il n'en pouvait plus, il souffrait trop.
« Ils ne te donnent pas de morphine ? » s'étonna Jed.
Oh si on lui donnait de la morphine, autant qu'il en voulait évidemment, ils préféraient que les pensionnaires se tiennent tranquilles, mais est-ce que c'était une vie, d'être constamment sous l'emprise de la morphine ?
À vrai dire Jed pensait que oui, que c'était même une vie particulièrement enviable, sans soucis, sans responsabilités, sans désirs ni sans craintes, proche de la vie des plantes, où l'on pouvait jouir de la caresse modérée du soleil et de la brise. Il soupçonnait pourtant que son père aurait du mal à partager ce point de vue. C'était un ancien chef d'entreprise, un homme actif, ces gens-là ont souvent des problèmes avec la drogue, se dit-il.

« Et puis d'ailleurs, en quoi est-ce que ça te regarde ? » lança agressivement son père (Jed prit alors conscience qu'il n'écoutait plus, depuis un certain temps déjà, les récriminations du vieillard). Il hésita, tergiversa avant de répondre que si, quand même, en un sens, il avait l'impression que ça le regardait un peu. « Déjà, être un enfant de suicidé, ce n'est pas très drôle... » ajouta-t-il. Son père accusa le coup, se tassa sur lui-même avant de répondre avec violence : « Ça n'a rien à voir ! »

9 de abril de 2019

Michel Houellebecq: a serotonina ou a demanda do bem-estar e da felicidade

« C'est un petit comprimé blanc, ovale, sécable. Il ne crée, ni ne transfor-me ; il interprète. Ce qui était définitif, il le rend passager ; ce qui était inéluctable, il le rend contingent. Il fournit une nouvelle interprétation de la vie – moins riche, plus artificielle, et empreinte d'une certaine rigidité. Il ne donne aucune forme de bonheur, ni même de réel soulagement, son action est d'un autre ordre : transformant la vie en une succession de formalités, il permet de donner le change. Partant, il aide les hom-mes à vivre, ou du moins à ne pas mourir – durant un certain temps. »
Michel Houellenecq, Sérotinine (2019)
A serotonima sanguínea é uma hormona segregada no aparelho di-gestivo e na estrutura cerebral que regulariza o trânsito gastrointesti-nal e atua sobre o sistema nervoso central. Assim rezam as entradas dos dicionários. Está sobretudo ligada ao processo pessoal da auto-estima e ao reconhecimento obtido no seio dum grupo. Quando pro-duzida pelos fármacos antidepressivos, inibe a síntese da testostero-na, contrariamente ao verificado no estado natural. Estas são já as definições fornecidas por Michel Houellebecq no sétimo romance re-gistado na lista completa de obras publicadas, com o título original de Sérotonine (2019). Um dia destes a tradução portuguesa ainda aparece por aí. *

O relato de recorte autobiográfico é-nos apresentado como uma ca-minhada inexorável para a morte. O emissor interno debita-nos esse desfecho anunciado através dum longo processo depressivo de sofrimento psíquico e apagamento irreversível da vontade de viver. Para evitar a catástrofe iminente, Florent-Claude Labrouste recorre sem resultados palpáveis ao revolucionário Captorix, um pequeno comprimido branco, oval e ranhurado posto ao serviço da fábula. Tinha então 46 anos de idade e uma previsão de poucos mais à sua frente. Suposições hipotéticas que o realismo narrativo assumido impede de concretizar. O ato de escrita retrospetiva situa-se num futuro indeterminado posterior à presidência francesa de Emmanuel Macron, o que nos remete com alguma imprecisão para meados ou finais da década de 20 ou inícios da seguinte.

Em declaração registada na contracapa do livro, o autor afirma serem as suas crenças limitadas mas violentas e acreditar na possibilidade do reino restrito do amor. Esse o perfil traçado pelo relator interno que dá voz à narrativa. Incapaz de alimentar uma relação duradoura a dois, acaba por se deixar vencer por uma paixão incontrolável que o conduzirá às portas dum suicídio várias vezes referido e nunca concretizado. Kate, Claire, Marie-Hélène, Camille, Tam e Yuzu são alguns dos nomes duma vasta galeria pessoal de casos falhados, todos eles efémeros e sem retorno possível. Uma dinamarquesa, uma francesa, uma brasileira, uma luso-descente, uma jamaicana e uma japonesa. Apatia, solidão, tibieza. Um vazio existencial total em perfeito contraste com a plenitude exemplar experienciada pelos pais, no dia em que escolheram morrer conjuntamente para poderem ser sepultados um ao lado do outro, a testemunhar sem margem para dúvidas a viabilidade duma história de amor eterno.         

A separação abrupta do protagonista da filha dos bem-sucedidos imi-grantes alentejanos e duma inabilidade congénita bastamente con-fessada para reatá-la atravessam toda a tessitura argumentativa do livro. De permeio fica uma revista exaustiva dos primeiros tempos do terceiro milénio francês, europeu e ocidental em geral, nas suas múltiplas relações com o mundo globalizado. Das imediações da estação naturista de Al Alquian andaluza, da torre Totem ou do hotel Mércure parisienses, da gîte ou bungalow normandos, as grandes problemáticas dos nossos dias atravessam o testemunho pessoal do engenheiro agrónomo e narrador do texto. lhe faltou antever o movimento contestatário dos coletes amarelos, a provar por a+b que as conjunturas históricas acontecem sempre de modo imprevisível, deitando por terra as antecipações estruturais desenhadas pelo discurso literário. Que nos reste um pouco a esperança, para que os cenários imaginários de caos postos em palco pela ficção se afastem de cosmos de rotinas reais feitas-desfeitas-refeitas a cada momento desta nossa existência quotidiana.

(*) - Apareceu nas livrarias portuguesas devidamente traduzido para português a 21 de maio de 2019, pelo que a espera não foi assim tão longa.  

18 de março de 2016

Michel Houellebecq, as cumplicidades dialéticas do mapa e do território

« Le contraste était frappant : alors que la photo satellite ne laissait apparaître qu’une soupe de verts plus ou moins uniformes parsemée de vagues taches bleues, la carte développait un fascinant lacis de départementales, de routes pittoresques, de points de vue, de forêts, de lacs et de cols. Au-dessus des deux agrandissements, en capitales noires, figurait le titre de l’exposition : "LA CARTE EST PLUS INTÉRESSANTE QUE LE TERRITOIRE" »
Michel Houellebecq, La Carte et le Territoire (2010)
Ouvi falar pela primeira vez de Michel Houellebecq meia dúzia de anos a propósito d’O mapa e o território (2010) e dos ecos que até nós chegaram da atribuição polémica do Prix Goncourt à obra. O nome do autor ficou-me no ouvido, até pela sonoridade algo exótica que o acompanha e pela forma singular de o registar. Umas férias de verão projetadas para Rennes aconselharam-me a aguardar para então a sua aquisição in loco. Fi-lo na livraria Le Failler da rua Saint-Georges. Veio acompanhado dos restantes romances publicados. Cu-riosamente, agora acabei de lê-lo, de cabo-a-rabo e num-só-fôlego. Em último lugar. O proveito e deleite experimentado em anteriores viagens repetiu-se.

O argumento central da história é revelado na contracapa da edição de bolso que tenho entre mãos. Especula-se aí que se o relato tivesse sido confiado ao protagonista, Jed Martin, este tê-lo-ia iniciado pelas peripécias associadas à avaria do esquentador do apartamento parisiense em que vivia à época. Falaria depois do pai arquiteto e das inúmeras consoadas solitárias de Natal que celebravam juntos. Referir-se-ia, também, ao seu primeiro encontro com Olga, uma beldade russa que encontrara na primeira exposição fotográfica que fizera a partir dos mapas rodoviários publicados pela Michelin. Tudo isto a anteceder o sucesso mundial que viria alguns anos mais tarde a obter com um conjunto de retratos a óleo de figuras públicas de renome internacional, entre as quais a do escritor Michel Houellebecq. Mencionaria, ainda, a ajuda preciosa que prestara ao comissário Jasselin para desvendar os enigmas dum crime cometido com grande atrocidades e com repercussões mediáticas. O resumo termina aí impedindo-me de prosseguir a análise abusiva dos fios da trama urdidos no texto. Vistas bem as coisas, o esquema autobiográfico sugerido na paráfrase corresponde ipsis verbis ao seguido na versão original parafraseada. Brincadeiras publicitárias que apetece consignar para que constem.

Lidos os livros que compõem o corpus em apreço do criador de situações possíveis dos nossos dias e dos vindouros, sinto-me apto a considerar o derradeiro da lista visitada em ordem acrónica como o mais tranquilo de todos. As temáticas da arte, dinheiro, amor, morte, trabalho, turismo, família já abordadas de modo recorrente nas restantes ocasiões voltam a ser chamadas à colação sem os exageros discursivos com que se habituou a brindar os consumidores da sua escrita. Assinadas as tréguas com o mundo envolvente, o plano escolhido para alimentar hipotéticas celeumas na república das letras assentou arraiais na já aludida presença do autor na tessitura narrativa, com estatuto de coprotagonista duma das suas sequências mais surpreendentes, a descrição física e psíquica completa do próprio Houellebecq feita pelas mãos do sujeito de enunciação interna dos factos narrados. Verosímeis na sua quase totalidade, ficcionados na exposição mórbida da antecipação do seu próprio assassinato, enterro e testamento, efetuada na qualidade de personagem imaginada por uma personalidade real homónima. Oportunidade de dialogar consigo mesmo no interior da fábula no momento preciso da sua conceção. Fantasias existenciais que só o faz-de-conta gerado pela literatura torna possível.

Estratégias de autopromoção garantidas à parte, a verdade é que o fabricante de imagens disfóricas pintadas com palavras tem o condão de nos prender à magia dos sentidos segundos nelas contidos. Só conseguimos parar na presença inevitável do postreiro diacrítico de pontuação grafado na folha de papel que lhe serve de canal. E pomo-nos a conjeturar a configuração dos próximos projetos romanescos a animar uma qualquer rentrée literária e a alimentar o número potencial de bestsellers edificados à escala global. Oportunidade de promover o debate generalizado das principais questões que povoam a nossa realidade quotidiana e ajudam a traçar o verdadeiro perfil da condição humana. Caricatural, absurda, paradoxal. E o problema da eutanásia até pode ser chamado a pisar de novo as tábuas da ribalta. Incómodo, amargo, desagradável. A velhice a atravessar-se-nos neste nosso mapa e território feito por medida para a eterna juventude com anseios de eternidade. Eutopias virtuais transformadas em distopias reais por artes de berliques e berloques magistralmente executadas e postos à nossa inteira disposição. Verdadeiro segredo gritado aos sete ventos para todos aqueles que tiverem bom ouvido e estiverem preparados para ouvi-lo.

14 de setembro de 2015

Michel Houellebecq, a plataforma dos prazeres exóticos

«Dès qu'ils ont quelques jours de liberté les habitants d'Europe occidentale se précipitent à l'autre bout du monde, ils traversent la moitié du monde en avion, ils se comportent littéralement comme des évadés de prison. Je ne les en blâme pas ; je me prépare à agir de la même manière.»
Michel Houellebecq, Plateforme (2001)
A descoberta faseada do universo narrativo de Michel Houellebecq prossegue no meu plano de leituras gizado desde que ouvi pronunciar o seu nome pela primeira vez. A fonte era segura e os argumentos suficientemente fortes para me impedirem de resistir à tentação da descoberta. Era um mestre da língua, um recreador da arte de escrever romances, um provocador nato dos frequentadores mais pacatos da república das letras, uma pedrada no charco do panorama editorial contemporâneo. Registei a afirmação bombástica de que teria colocado metade da França a discutir com a outra metade. Gostei deste anúncio de guerra verbal travada em torno duma obra de ficção. A avaliação foi efetuada por uma entidade ligada ao mercado livreiro, pelo que fiquei com a pulga atrás da orelha, depois de ter procedido a um desconto habitual aos encómios produzidos nestes casos especiais. Curiosamente, ainda não li o tal caso concreto que motivou todo elogio rasgado a um autor de nome bizarro que a partir daí me habituei a pronunciar. Tenho-o na estante à espera de vez. Por agora fico-me com a Plataforma (2001), um relato dos nossos dias que promove uma incursão desapiedada pelos labirintos do turismo sexual praticado por uma certa camada da população ocidental nas utopias orientais do prazer imediato, exótico e a low cost.

A palavra polémica tantas vezes repetida instala-se mal abrimos o livro e avançamos pelos parágrafos iniciais. Situação a que já me habituei sem pestanejar. A tal ponto que passei a considerar esse cenário como perfeitamente expectável. Tornou-se uma banalidade. O alvo da verdadeira controvérsia chamada à colação dos leitores está ancorado nas temáticas tratadas e não nas histórias contadas pelo escritor. Trata-se duma questão de conteúdo e não de forma. Depois, a descrição exaustiva e continuada dos contactos físicos efetuados pelas personagens, mais ou menos íntimos, a solo, a dois ou a muitos, não ultrapassa em nada aquilo que as pessoas estabelecem entre si dentro da mais perfeita normalidade prevista pela natureza humana. O pudor imperante nestas situações é que costuma transformar o possível em interdito, o incómodo em tabu, o prazer em pecado, o erotismo em pornografia. O fabulador externo estabelece uma cumplicidade estreita com o interno e assim a fábula se vai fazendo. O narrador e o autor confundem-se no nome dado ao protagonista, Michel, a quem é confiada a missão de pôr em crónica os factos. As notas biográficas espalhadas um pouco por todo o lado voltam a ganhar uma visibilidade inequívoca.

O percurso discursivo do relator de serviço distribui-se por três centenas e meia de páginas agrupadas em três partes ou etapas, cada uma delas ancorada num destino viageiro distinto. A Tailândia-Cuba-Tailândia dos circuitos propostos desde Paris pelas Nouvelles Frontières e explicados pelos guias do Routard e Michelin. Pelo meio ocorre uma história de amor-morte a pontuar o encontro-desencontro de culturas situadas nos antípodas deste nosso mundo globalizado. Imenso expositor das imagens de marca postas à veneração de todos. Rolex, Nike, BMW, Yves Saint Laurent, Gucci, Kenzo, Prada, Adidas, Arnani, Vuitton, Lacoste. Ídolos duma nova religião imposta aos quatro cantos da terra. Omnipotente, omnipresente, omnisciente. Ironia trágica dum devir planetário atual cada vez mais à deriva sem uma tábua de salvação à vista. Os atentados entram em cena. Nos mass media, as vítimas passam a culpadas. A hipocrisia instala-se e toma conta do drama. Os paraísos edénicos transformam-se num piscar de olhos em infernos dantescos, o locus amœnus em locus horrendus, o sonho em pesadelo, a eutopia em distopia. A plataforma programática para a partilha do mundo, qual tratado de Tordesilhas do terceiro milénio, é abandonado. O projeto Afrodite sai derrotado pela ação bélica de Ares, a divindade olímpica da brutalidade, da violência e da matança personificadas.

Polémicas e controvérsias à parte, ultrapassado o impacto causado pela linguagem nua e crua convocada pelo discurso, transpostas as fronteiras do politicamente correto, somos obrigados a render-nos à força telúrica das palavras selecionadas para contar uma experiência pessoal de vida. O anti-herói da fábula esquece-se por vezes da história que está a escrever e põe-se a resumir as histórias escritas pelos outros. Umas e outras campeãs de venda nos free shop dos aeroportos pisados nas suas viagens por três continentes. Autocrítica indireta registada no próprio romance que os analistas encartados só poderão empregar a posteriori. Riso sarcástico dum mestre da pantomina. O escárnio e o maldizer no seu melhor como só os melhores sabem fazer.

7 de junho de 2015

Michel Houellebecq, as partículas elementares do amor verdadeiro

«Il n'y a pas de silence éternel des espaces infinis, car il n'y a en vérité ni silence, ni espace, ni vide. Le monde que nous connaissons, le monde que nous créons, le monde humain est rond, lisse, homogène et chaud comme un sein de femme.»
Michel Houellebecq, Les particules élémentaires (1998) 
Garante um velho mito grego que outrora a nossa natureza era diferente da atual. Para além do masculino e do feminino havia ainda o andrógino. Esta terceira espécie de proto-humanos era constituída pela associação das outras duas. Esses seres híbridos ter-se-iam extinguido por vontade expressa de Zeus, de forma a castigá-los pela arrogância manifestada ao longo da sua existência. A decisão de escalarem o céu e guerrearem os imortais foi travada de modo radical. O pai dos deuses dividiu-os em dois, tornando-os assim mais fracos e menos dados a ambições usurpadoras. Desde então, separados em homens e mulheres, esqueceram-se de conquistar os espaços olímpicos e passaram a perseguir-se uns aos outros sobre a terra, à procura da outra metade que haviam perdido, no intuito perseverante de se voltarem a fundir num só corpo. A história é contada por Aristófanes aos companheiros de simpósio, encontro de amigos/conhecidos que Platão reuniu nas páginas dialogadas d’O banquete ou do amor (c. 380 aec).

Esta tentativa de explicar de jeito divertido e exemplar o mistério fundamental da vida, resultante da associação consentida de dois seres sexualmente distintos sob os auspícios divinos de Eros, veio-me à memória quando percorri com olhar atento as imagens literárias registadas por Michel Houellebecq nas entrelinhas das mais de três centenas de páginas do seu segundo romance, As partículas elementares (1998). Fez-me companhia nos momentos de pausa forçada passados em alguns aeroportos europeus que me levaram numa incursão académica até Cracóvia. Ficou-me a vontade de revisitar o texto com mais calma após o regresso, intento que só consegui cumprir agora, dum fôlego, decorrido um bom par de anos. O prazer da leitura repetiu-se, intensamente, como se se tratasse duma estreia absoluta. O caráter controverso dos temas abordados e o tom provocatório com que o autor expõe os seus pontos de vista voltaram a exercer em mim um fascínio avassalador, perceção pessoal que nem todas os sentires estéticos conseguem entender ou aceitar de ânimo leve. A fluência do discurso é inegável e o domínio da língua total. As palavras valem o que valem, mesmo quando os dicionários mais conservadores, que as deveriam alojar e enquadrar no contexto para que foram criadas, teimam em ignorar ou marginalizar.

A velha historieta platónica, situada na fronteira da anedota e da etiologia, vem à baila por portas travessas neste relato do mais mediático escritor francês da atualidade. Entrou em cena quando voltei a seguir os percursos de vida trilhados por caminhos diametral-mente opostos pelos dois meios-irmãos que o protagonizam. Ambos procuram incessantemente a sua cara-metade e nunca a chegam a encontrar. Bruno envereda pela via do prazer e apercebe-se da sua incapacidade de amar. Michel opta pela via do amor e apercebe-se da sua impossibilidade de amar. O mundo absurdo do primeiro obtém um equivalente perfeito no mundo preciso do segundo. Um dedica-se à escrita o outro à ciência. Os traços biográficos do romancista surgem a cada passo. As oscilações entre o factual e o fictício são constantes. Coincidências episódicas empoladas certamente pela fábula, mas confirmadas pontualmente pela realidade exterior ao livro que as confronta. A ironia é convocada pelas instâncias narrativas e a sátira surge em termos duma caricatura grotesca das relações humanas, sobretudo das familiares estabelecidas entre uns e outros, de todas as gerações, sem distinções muito visíveis.

Dizem os exegetas que o título escolhido pode ser entendido como uma metáfora pedida emprestada à mecânica quântica, reenviando os leitores para o espírito rigoroso que atravessa o texto e à conce-ção dum espaço social onde os indivíduos que a formam se veem como meras partículas elementares dum todo universal. Aceito a tese sem pestanejar. A solução estaria na dissociação radical da reprodução do prazer, condição sine qua non da humanidade conhecer a verdadeira paz e o amor. A antecipação científica modelada à maneira de Aldous Huxley, referido mais do que uma ocasião, leva-nos até 2079, quando os seres humanos da antiga raça em extinção se confrontam com os representantes duma novíssima raça estável criada num ambiente laboratorial. O sonho da eternidade parece que se cumprirá lá para o final deste século. Sorte ou azar nosso que não testemunharemos a vinda desses entes imortais criados à imagem e semelhança dos deuses. Vingança dos filhos dos proto-humanos helénicos que a arte poética dum fabricante de heróis da imaginação converteu em autênticos neo-humanos edificadores das utopias do melhor dos mundos.

3 de abril de 2015

Michel Houellebecq, história duma submissão anunciada

« Il est probablement impossible, pour des gens ayant vécu et prospéré dans un système social donné, d'imaginer le point de vue de ceux qui, n'ayant jamais rien eu à attendre de ce système, envisagent sa destruction sans frayeur particulière. »
Michel Houellebecq, Soumission (2015)
O meu encontro cara a cara com o mais recente romance de Michel Houellebecq, Soumission (2015), deu-se na Fnac de Faro, a única livraria da cidade onde moro que ainda se atreve a vender livros em francês. Fiquei a olhar para um dos exemplares estrategicamente expostos a perguntar-me se lhe pegaria de imediato ou se esperaria por uma edição de bolso mais económica e fácil de arrumar numa das estantes de casa. Partilhei o dilema com uma cliente francesa que ali estava a ver as novidades. Esta aconselhou-me a esperar pelo Natal, altura em que estava prevista a sua publicação em tamanho e preço reduzidos. A rematar a conversa de circunstância, sugeriu-me, ainda, a escolha doutros títulos alternativos, bem mais interessantes do ponto de vista estético-literário, do que aquele que as polémicas divulgadas pelos mass media já haviam convertido num bestseller internacional. Agradeci as informações prestadas e resolvi adquiri-lo naquele mesmo instante. Os tais impulsos comandados insubmissos que as leis da razão têm dificuldade em explicar ou desistem de o fazer.

A leitura foi rápida e proveitosa. Alertou-me para a possibilidade de nas próximas eleições gaulesas o palácio do Eliseu vir a ser ocupado por um presidente muçulmano. Até aqui nada de especial. Num estado secular, as convicções religiosas dos cidadãos, incluindo as do mais alto dignitário, não podem interferir em momento algum no desempenho integral das funções governativas ou no exercício das restantes liberdades cívicas que os assistem de juris et de jure. A minha objeção à realidade narrada surge quando o status quo da Quinta República é totalmente subvertido nesta antecipação ficcionada de cariz político. O novo poder instituído no país remete para o caixote de lixo da história os mais elementares princípios inaugurados pela Revolução Francesa e exportados para toda a aldeia global. O mais chocante da situação é que a esmagadora maioria dos habitantes do hexágono parece aceitar a situação com uma naturalidade inquietante. Deixa-se submeter, sem pestanejar, às mais radicais normas do Islão. Até se converte ao novo credo corânico, para manter ou recuperar um emprego ameaçado ou perdido.

O insólito da situação obriga-nos a uma pequena reflexão que nos permita apontar para possíveis lições do texto, tão polémico como todos aqueles que o autor tem vindo a pôr à disposição do leitor. A falência dos partidos tradicionais anunciada para 2022 já começou a concretizar-se nas eleições locais de 2015, a pouca distância da publicação da distopia que alguns lá vão comparando, a bem ou a mal, ao Brave New World (1932) de Aldous Huxley e ao Nineteen Eighty-Four (1949) de George Orwell. A vitória dum partido islâmico nascido do nada é que será mais difícil de realizar no espaço de tempo tão curto dum mandato presidencial. Admite-se a derrota relativa da Frente Nacional mas estranha-se a ausência de referências ao Estado Islâmico, tão presente nos noticiários difundidos pelos jornais, rádios e televisões à escala planetária. O anúncio da decadência do modelo ocidental tal qual o conhecemos hoje deixou há muito de ser entendida como uma mera figura de retórica. A realidade já se encarregou de confirmar algumas das previsões mais sombrias umas décadas atrás. Daí a configurar o ressurgimento dum novo império romano, regido pelas leis mais extremadas da sharia e a reboque da França, é que resulta pouco credível e sem pernas para andar. Uma redução ao absurdo, em suma, duma situação possível mas pouco provável de implementar nesta parte mais ocidental da península euroasiática.

Este relato de antecipação política a curto prazo não é certamente a melhor ficção de Houellebecq. Já li melhor. Não será porventura a pior, como alguns críticos mais existentes afirmam. Como desconheço a obra completa do autor desta Submissão, estou impedido de tecer juízos de valor ancorados no rigor na subjetividade de leitor atento. Trata-se dum texto honesto que desenha uma perspetiva muito pessoal de encarar o devir histórico. Uma caricatura eficiente riscada com traço firme. Um discurso fluente e incisivo. Uma pedrada no charco lançada contra o estado de apatia em que os cidadãos do velho continente caíram. Uma fábula dos nossos dias. Um escrito exemplar que se inscreve no duplo propósito de divertir e instruir. Retiremos as ilações sugeridas e tomemos conta do nosso destino, em liberdade, que de seres providenciais e salvadores está o inferno cheio.

2 de março de 2015

Michel Houellebecq e as extensões dos domínios da luta dum jovem informático

«Le libéralisme économique, c’est l’extension du domaine de la lutte, son extension à tous les âges de la vie et à toutes les classes de la société. De même, le libéralisme sexuel, c’est l’extension du domaine de la lutte, son extension à tous les âges de la vie et à toutes les classes de la société.»
Michel Houellebecq, Extension du domaine de la lutte (1994)
Tenho vindo a substituir pouco a pouco a compra compulsiva de livros que deixaram de me caber nas estantes depois de lidos pela revisitação de todos aqueles que em tempos me ofereceram visitas guiadas únicas pelo universo mágico da imaginação poética. O caso que aqui trago acompanhou-me numa outra viagem complementar. Aquela que me trouxe de Rennes a Faro, com passagens rápidas por Paris e Lisboa, no regresso dumas férias de verão bretão com amigos de longa data. Entre as etapas percorridas de TGV e Alfa Pendular, em trânsito pelos aeroportos de Roissy e da Portela, pedaços de espaço-tempo intervalados com muitas horas paradas nas gares ferroviárias e aéreas, Michel Houellebecq pôs-me a par das peripécias autobiográficas dum jovem informático de 30 anos, na Extensão do domínio da luta (1994), o romance com que o mais controverso escritor vivo das letras francesas se projetou nas bocas do mundo. Quando cheguei a casa, os dois percursos pelas geografias do real e da fantasia encontraram-se num final feliz, levando-me a idealizar outras peregrinações conjuntas que a força do destino, condicionada pelo livre-arbítrio sempre presente nestas circunstâncias, lá me tem permitido concretizar.

A contracapa da edição de bolso que me serviu de testemunho refere tratar-se da odisseia desencantada do protagonista, situado entre duas idades, a representar o papel dum observador dos movimentos humanos e das banalidades desenvolvidas à beira das máquinas de café. Definição feliz, muito embora o conceito de heroísmo subjacente ao género épico tenha de ser adaptada a uma realidade urbana, atual, situada na derradeira década do século passado. Desde então até aos nossos dias pouco terá mudado. Se as vidas reveladas das personagens da ficção se prolongassem no real quotidiano que nos rodeia, se a mimeses literária se fundisse com as existências traçadas fora do universo diegético dos contos, novelas e romances, se por via deste entrecruzar de planos voltássemos a encontrar o jovem quadro que dá forma à fábula, amadurecido de 10 ou 20 anos, aperceber-nos-íamos que pouco se teria alterado na sua forma de ser e de estar neste mundo globalizado em torno da revolução tecnológica das modernas sociedades da informação computorizada. Estaria provavelmente rendido ao sistema que nos verdes anos associara ao liberalismo económico e ao sexual. As tais extensões do domínio da luta que dão título à obra. O absurdo, a solidão, a tristeza, a desilusão, a angústia e a amargura teriam tomado conta do seu destino pessoal e confirmado um estado de depressão ininterrupta, anunciada desde o início das confissões partilhadas no texto.

No final das deslocações forçadas/escolhidas de navegador solitário pelas rotas hexagonais do país natal, o analista-programador, em conflito com o statu quo a que chegara, opta por uma peregrinação purificadora ao cume duma montanha, rodeada de florestas e de natureza a perder de vista, sentindo com impressionante violência no seu íntimo a possibilidade de experimentar a alegria, o que, num ser até então obcecado com a morte, não deixa de constituir uma mensagem a reter por todos os leitores. Em Houellebecq, a possibilidade de contrariar a predestinação alheia à nossa vontade existe e o direito à liberdade pessoal da escolha é reclamado a cada momento, ainda que, para tal, tenha de recorrer ao tratamento de choque da provocação militante, que tantos engulhos tem causado aos espíritos menos preparados para encarar o diferente.

Durante o voo encetado entre as duas capitais referidas, um parceiro de jornada questionou-me, num francês de invejar, cultivado na cidade luz que deixáramos para trás, se apreciava o estilo do autor da obra que me via ler avidamente. Respondi-lhe que estava a gostar, mas precisava de conhecer os restantes títulos que levava comigo e só depois poderia ter uma opinião global bem formada. Olhou-me incrédulo e continuou a folhear o jornal com as notícias frescas do dia sem voltar a dirigir-me palavra. Agradeci a deferência e continuei a leitura da centena e meia de páginas que tinha entre mãos. Neste momento já estou em condições de o fazer, mas vou aguardar por outras ocasiões para revelar o veredicto final, para abrir o balanço e dizer de que modo geri as contas do deve e haver identificadas depois de lidos e relidos os livros.

4 de fevereiro de 2015

L'enfant térrible des lettres françaises

Houellebecq à l'Hebdo

(N.° 1177 du 7 janvier 2015)

Six morceaux choisis

Au métro Sèvres-Babylone, j’ai vu un graffiti étrange : « Dieu a voulu des inégalités, pas des injustices », disait l’inscription. Je me suis de-mandé qui était cette personne si bien informée des desseins de Dieu.
Extension du domaine de la lutte (1994)

Je sais bien que l’Islam – de loin la plus bête, la plus fausse et la plus obscurantistes de toutes les religions – semble actuellement gagner du terrain ; mais ce n’est qu’un phénomène superficiel et transitoire : à long terme, l’Islam est condamné, encore plus sûrement que le christianisme.
Les particules élémentaires (1998)

Jusqu'au bout je resterai un enfant de l'Europe, du souci et de la honte ; je n'ai aucun message d'espérance à délivrer. Pour l'Occident je n'éprouve pas de haine, tout au plus un immense mépris. Je sais seulement que, tous autant que nous sommes, nous puons l'égoïsme, le masochisme et la mort. Nous avons créé un système dans lequel il est devenu simplement impossible de vivre ; et, de plus, nous continuons à l'exporter.
Plateforme (2001)

Le jour du suicide de mon fils, je me suis fait des oeufs à la tomate. Un chien vivant vaut mieux qu'un lion mort, estime justement l'Ecclésiaste. Je n'avais jamais aimé cet enfant : il était aussi bête que sa mère, et aussi méchant que son père. Sa disparition était loin d'être une catastrophe ; des êtres humains de ce genre, on peut s'en passer.
La possibilité d'une île (2005)

Qu'est-ce qui définit un homme ? Quelle est la question que l'on pose en premier à un homme lorsque l'on souhaite s'informer de son état ? C'est sa place dans le processus de production qui définit avant tout l'homme occidental.
La carte et le territoire (2010)

L'absence de curiosité des journalistes était vraiment une bénédiction pour les intellectuels, parce que tout [...] était aisément disponible sur Internet aujourd'hui, et il me semblait qu'exhumer certains de ces articles aurait pu lui valoir quelques ennuis ; mais après tout je me trompais peut-être, tant d'intellectuels avaient soutenu Staline, Mao ou Pol Pot sans que cela ne leur soit jamais vraiment reproché ; l'intellectuel en France n'avait pas à être responsable, ce n'était pas dans sa nature.
Soumission (2015)

7 de janeiro de 2015

Michel Houellebecq, as possibilidades duma ilha e da vida eterna

«Et l’amour, où tout est facile, | Où tout est donné dans l’instant ; | Il existe au milieu du temps | La possibilité d’une île.
Michel Houellebecq, La possibilité d’une île (2005)
Faço tábua rasa das listas publicadas nos rankings da especialidade sobre os filmes que devíamos ver, os discos que devíamos ouvir, os livros que devíamos ler. Tudo isto antes de morrer, está bem de ver, porque depois desse instante capital da vida, a verificação dos Top Ten Lists se torna inviável. A menos que aceitemos a transmigração das almas ou a encarnação dos corpos ao longo dos séculos e milénios, com encontro garantido na intemporalidade. Michel Houellebecq desenvolve magistralmente a temática da imortalidade n’A possibilidade de uma ilha (2005), romance de antecipação, desenhado ao modo das distopias clássicas da ficção científica. Ignoro se foi arrolado como um dos 1001 Books tidos como imprescindíveis para atingir a cultura literária padrão, canonizada por peritos da massificação global, pouco atentos à criação artística da realidade periférica envolvente. Como ainda estou à espera de ler o livro da minha vida, também me dispenso de colocá-lo nessa categoria. Em contrapartida, foi composto por um representante daquele número restrito de autores que me sugerem a descoberta completa da sua obra romanesca. O primeiro passo já foi dado. Os próximos já foram encetados. 

A estrutura discursiva centra-se num dupla narrativa separada por 2000 anos de devir genético, o relato de vida de Daniel 1 e os comentários que lhe são feitos por Daniel 24 e Daniel 25. Pacto autobiográfico duma estirpe biológica única, ligada-continuada pelo mesmo código de ADN e repartida-unificada por incarnações sucessivas de clonagem cibernética. Ecos dos universos utópicos de Aldous Huxley e do Admirável mundo novo (1932) são audíveis em ondas sucessivas. Em ambos os textos visionários se pode detetar um cronótopo vindouro em função dos saberes científicos disponíveis no momento da escrita. Paraísos celestiais com morada terrestre. Os dois partilham um culto insano pelo mito da eterna juventude dos corpos jovens. Os dois alimentam um ódio visceral pela degradação dos corpos velhos. A presença controlada de seres superiores, modificados, perfeitos, integrados em grupos privilegiados, opõe-se a uma massa imprecisa de seres inferiores, primitivos, selvagens, nascidos em plena natureza. A felicidade conquistada pelos primeiros contrasta com a infelicidade herdada pelos segundos. As barreiras de proteção lá estão para estabelecer a fronteira imperiosa entre uns e outros. 

As analogias pautadas devem-se mais às singularidades do género do que à imperícia dos fabuladores de edificarem Futuros possíveis, de gerarem sonhos aos incautos e pesadelos aos precavidos. Divergem, sobretudo, na conceção político-social que a fábula atribui aos sobreviventes das grandes catástrofes geológicas e revoluções biológicas que dividiram os cidadãos e deram origem a outras eras. As castas comunitárias predominantes na inglesa são substituídas pelas relações interindividuais exclusivas na francesa. O desejo material é anulado e a perceção espiritual é ativada. A solidão surge e o amor desaparece. Ao conquistar a juventude perpétua, preparada pela ciência persistente dos Sept Fondateurs e pelo saber convincente da Sœur suprême, o destino dos neo-humanos rejuvenescidos acaba por igualar o destino dos selvagens envelhecidos. A existência privada das emoções que dão sentido à eternidade reduz-se ao nada absoluto. Ironia trágica da própria condição humana. 

Maria 23 supera a angústia da morte e parte à procura da vida. Daniel 25 segue-lhe o exemplo. Enceta uma viagem de prospeção pelos antigos territórios dos homens à descoberta do lado exterior do mundo. As paisagens devastadas pela Grande Seca ocupam o Grande Espaço cinzento vazio de gentes. Faz-se acompanhar de Fox. Um cão. O único ser biológico com quem interage fisicamente desde que a vida real foi substituída pela vida virtual. Os derradeiros representantes genéticos da estirpe humana que deram pelo nome de Maria e Daniel recusam a condição de isolamento insular a que a ambição de imortalidade conduziu. Recorrem ao livre-arbítrio, o modelo eutópico que Houellebecq preservou. Desco-nhecemos se se terão encontrado numa qualquer comunidade de seres sedentos de saborear o riso e o choro das origens. Mistério insondável. A possibilidade duma ilha enfrentar a sucessão de instantes existentes no meio do tempo é a única certeza visível no horizonte do estar e do deixar de estar. A ponte ontológica erigida pelos homens e mulheres de desfrutar a ciência, de conceber a arte, de entender a beleza, de preencher o vazio, de consumar o amor…

NOTA 
Texto publicado há pouco mais dum ano no Pátio de Letras, no regresso dumas férias passadas na Bretanha francesa e nas ilhas normandas do Canal. Retomo-a com pequeníssimas variantes no dia em que Michel Houellebecq volta ao ataque com um explosivo Soumission, um romance de antecipação política com polémica já perfilada no horizonte. Enquanto aguardo pela leitura do novo livro, fiquem as impressões escritas de leituras já efetuadas no tempo.