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7 de julho de 2026

Fronteiras de Conil de la Frontera

CONIL DE LA FRONTERA
[Archivo de la Fundación Casa Medina Sidonia]
frontera
(De fronte y -era.)
f. Confín de un Estado.  
aduana, confín, demarcación, divisoria, término.
Diccionario de la lengua española

No final dos anos 60, fui convidado a passar parte das férias de verão em Conil de la Frontera. Os tempos de guerra colonial impediram-me de rumar até à Costa de la Luz andaluza. As fronteiras políticas então traçadas entre o sagrado torrão lusitano e o resto do mundo estavam totalmente vedadas a todos os mancebos nacionais em idade militar.

Em meados da década de 80, atravessei um par de vezes a pele de touro ibérica em direção a outras paragens. Passei sempre ao largo de Conil de la Frontera sem ter ensejo de visitar o casario branco e as praias douradas do pueblo gaditano. Na sua malha urbana não tinha os braços dos meus amigos de juventude abertos à minha espera.

Na entrada do segundo quartel do novo milénio, o perfil de Conil de la Frontera voltou a acenar-me no horizonte. O gesto foi feito à distância por um sobrevivente dessa pandilla de antanho. Decidira residir nesse local de veraneio onde em tempos fora feliz e queria reviver. A fruir o sol, o mar, a natureza e a presença dos amigos.

A ligação a Conil de la Frontera faz-se hoje numa assentada. O Espaço Schengen suprimiu as fronteiras tão bem como a conquista de Granada fizera outrora com as aduanas cristãs e muçulmanas. Após 350 km de autoestradas, pisei por fim a terra prometida nos verdes anos e concretizada agora nos bem maduros. Nem mais!

Dibujo de Conil y su costa, 1727

1 de dezembro de 2025

O país das laranjas & o pais dos coelhos

LARANJA

Laranja, s. Do persa nārang (por sua vez do sânscrito nāranga) pelo ár. nāranjâ, mesmo sentido; cf.: esp. naranja, galego laranja. Este dualismo hispânico (laranja-naranja) faz-me hesitar quanto ao caso port.: trata-se da evolução ár. nāranjâ < port. laranja, ou, talvez antes, de port. laranja < ár. vulgar nāranâ? Esta última forma é nome de unidade de laranj, muito espalhado pelos dialetod ocidentais...
J. P. Machado, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa,  Lx. Horizonte: 1977 (III, 386b)

Os mitos e lendas greco-latinos localizaram o Jardim das Hespérides nas terras do fim do mundo junto ao grande mar Oceano. Os Pomos de Ouro ali existentes passaram com o tempo a confundir-se com as Laranjas. Provavelmente as amargas, porque as doces parece terem sido introduzidas/inventadas pelos habitantes históricos ali instalados, sobretudo na parte mais ocidental da península. Alguns passaram então a chamar-lhes Portugal ou «Terra das Laranjas».

Inspirados nesse diz que diz enriquecido pela mitologia helénica, portokáli, portocálâ, portokal' e portokal passaram a designar LARANJA em grego, romeno, búlgaro e turco. O exemplo foi depois seguido por outras línguas faladas fora das fronteiras europeias, tais como o arménio, georgiano, afegão ou iraquiano. Até a vintena de países árabes (os introdutores do fruto na península), o fazem no seu dia a dia, registando برتقال e pronunciando bortugal ou burtugálum.

Os mitos e contramitos fenícios não tiveram a mesma sorte neste rincão distante da Ibéria a que chamaram Span ou Spania, que, através da terminação I-shphanim, remeteria para um mamífero roedor da família dos hiracoides ali existentes em grande quantidade. À falta dum nome mais adequado para identificar esse território obscuro onde o sol se punha no final do dia, batizaram-no de «Terra dos Coelhos». A denominação Hispânia viria mais tarde por via latina, derivando depois para Espanha.

No Primeiro de Dezembro de 1640 o País das Laranjas venceu o Pais dos Coelhos. Dizem por aí que o primeiro se libertou da tutela do segundo, ou que recuperou mesmo a sua independência. Bocas. Os Habsburgos coroados caíram e os Braganças levantaram-se. Sai um primo entra outro primo. Castelhanos/Portugueses ou vice-versa. Tudo farinha do mesmo saco. Os herdeiros de Carlos Quinto de Gand e de Isabel de Portugal revezaram-se no poder.

Os festejos da restauração monárquica portuguesa foram breves, sendo logo substituídas pelas fanfarras dos exércitos hispânicos. A Guerra da Aclamação duraria 28 anos a que se seguiram alguns conflitos mais em períodos intermitentes. Até houve uma Guerra das Laranjas ainda viva em Olivença por palavras ditas/reditas nos dois lados da raia. Questiúnculas antigas de irmãos/hermanos desavindos e sempre de braços abertos para o restabelecimento da paz.

22 de outubro de 2025

Pelo toque das castanholas...

                                    CHAROLEIRAS DE ESTOI                                    

Más contento que unas castañuelas...

Se se quiser dar um toque andaluz a um canto espanhol, junte-se-lhe um par de castanholas. Para lhe imprimir ainda um pouco de salero, que seja cantada/dançada por uma bailaora/cantante com uma bata de cola flamenca, uma peineta y mantilla e um clavel rojo en la oreja. O look ideal estará criado, o ambiente de feria de abril está criada. Depois a originalidade do todo obtido pouca importância tem, quando acompanhada pelo repique de palillos de las castañuelas.

Regista a memória dos povos que as castanholas eram conhecidas dos fenícios 3000 anos. Depois ter-se-ão espalhado um pouco por toda a parte no mundo antigo e moderno, continuando populares nas culturas ibéricas, magrebinas, sefarditas, otomanas e ciganas. Em termos meramente portugueses, as iluminuras do Cancioneiro da Ajuda documentam a sua forte presença nas mãos das cantadeiras e bailadeiras das cantigas trovadorescas galaico-lusitanos.

Pelo toque das castanholas, também se chega à tradição popular algarvia de cantar as charolas em grupo e de casa em casa, no dia de Ano Novo e nos seguintes até aos Reis, a celebrar o nascimento do Deus-Menino. As castanholas são obrigatórias nestas ocasiões festivas e comunitárias, para acentuar o ritmo das canções e versos alusivos interpretados. Ouvem-se sobretudo nos meios rurais mas também em festivais urbanos em toda a época natalícia. Viva! 

Estou a poucos dias de participar em Jerez de la Frontera num encontro internacional de coros. O Ossónoba leva na bagagem  o «El vito», um baile, canto e música popular andaluza que aguenta muito bem o toque das castanholas. Fá-lo-emos à moda portuguesa, com as conchas de madeira ornadas com fitas coloridas e seguras pelos quatro dedos maiores das mãos, que também as farão vibrar e levar o público a gritar no final os olés e vivas merecidos. ¡Vale!

Cancioneiro da Ajuda
Trovadores nobres - Bailadeiras com castanholas - Jograis com saltérios

10 de julho de 2025

A cantar y a bailar por sevillanas

Tomàs - Sevillanas

Qué bonitas están las niñas cuando tienen veinte años
Cuando tienen veinte años | qué bonitas están las niñas
cuando tienen veinte años | qué bonitas están las niñas
cuando tienen veinte años | Cuando tienen veinte años
qué alegría en su mirada y en sus andares qué garbo
qué alegría en su mirada | y en sus andares qué garbo
Morenita de ojos negros 
rubita de ojos azules, trigueña pelo castaño 
qué bonitas están las niñas cuando tienen veinte años 
Amigos de Ginés, Niñas de veinte años (1972)

Aprendi a gostar das sevillanas com a minha amiga Sónia. Amiga será um termo exagerado, quando centrada em alguém que tinha vergonha de me olhar ou falar. É que nessas idades ditas dos -teen, a diferença de seis anos mais corresponde a uma eternidade. Estou a vê-la à distância de muitas décadas a passar a ferro a roupa da família e a ouvir e a cantar uma seguidilla sevillana gravada numa cassete áudio de fita magnética. O ferro a vapor que manejava com vigor era uma novidade absoluta para mim. O leitor de cintas então em voga é, agora, um arcaísmo há muito caído em desuso.

Ainda tentei aprender a cantar e a bailar por sevillanas com a M. Esther, a irmã mais velha dos meus amigos extremeños, essa com uma idade bem mais próxima da minha. Mesmo assim, não se inibiu de me encarar e dizer sem tibieza no olhar e timidez no falar, que me faltava requiebro al canto y salero al bailar. Escusado será dizer que nem me atrevi a rascar una guitarra ou atirar-me com afinco ao repique de palillos. Fiquei-me pelo palmateo a marcar o rítmo da melodia e deixei de parte a arte da precursão acertada das castañuelas, na presença de entendidos ou tidos como tal.

A minha atração melódica pelas sevillanas não esmoreceu com o desaire obtido in illo tempore ao tentar cantá-las e bailá-las. Muito pelo contrário. Aquelas Niñas de veinte años, interpretadas pelos Amigos de Ginés e ouvidas à exaustão ficaram-me nos ouvidos. Até hoje. Esqueci-me de quase todas as rimas que lhe dão corpo, mas a melodia que as acompanhavam resistiu na sua totalidade ao tempo. Trauteio-as sem a presença de testemunhas indiscretas. E nem estou a falar das duas nenas minhas amigas de adolescências pretéritas há muito afastadas do meu horizonte de contactos. ¡Y olé!

12 de agosto de 2024

Tráficos de fronteira

JR – Picnic – 2017

TROCAS POR TROCAS

Em meados de setenta, uma ida a Espanha continuava a ser uma aventura cheia de burocracias. Os cravos de abril tinham arrumado de vez as manigâncias mais cabeludas do tempo da outra senhora, mas ainda havia muitas arestas a limar. Os passaportes continuavam de pedra e cal a ser exigidos sem exceção a todos os viandantes raianos, acompanhado da licença militar para os homens em idade de reserva, devidamente controlados dum lado e doutro da fronteira. Trâmites legais rigorosos que a adesão à CEE e ao espaço Schengen aligeirou drasticamente. Realidade que para as gerações nascidas nos dias de hoje lhes parece pertencer à mais pura ficção.

Numa ocasião, deixei os salvo-condutos em casa e foi-me vedado varar o Guadiana. Nesses antanhos, uma peseta valia seis tostões e as compras no lado de saíam mais em conta do que do lado de . Ilusões que o euro desfaria sem pena nem compaixão na viragem do milénio. Sentado ali à espera do regresso da minha cara-metade, anotei o tráfego dos ferrys de serviço: toalhas, tabaco e café para lá; duralexes, chocolates e perfumes para cá. Registei ainda a ida de esfregonas e baldes com flores pintadas para Ayamonte e a vinda de trapeadoras y baldes sin flores pintadas para VRSA. Trocas por trocas, um motivo floral a mais ou a menos faz a diferença.

7 de agosto de 2024

Identidades partilhadas nas Janelas Verdes e na Imprensa Nacional

«Países desde há muito independentes, Portugal e Espanha partilham no entanto uma familiaridade de séculos, que não decorre apenas da contiguidade geográfica, mas foi forjada por relações dinásticas, ligações económicas, laços políticos e estreitas afinidades linguísticas, resultantes da sua pertença comum ao mesmo tronco da cultura latina [...] As peças do Museu Nacional de Arte Antiga expõe agora ao público contam uma parte dessa história, através de obras de arte compradas por igrejas, conventos e mosteiros, ou reunidas em coleções que permanecem até hoje por estudar a fundo. Do século xiv ao início do século xx, estão aqui presentes as grandes correntes da pintura espanhola, cada época representada pelos artistas mais emblemáticos do seu tempo.»
Pedro Adão e Silva, Identidades partilhadas
Lisboa: MNAA - IN, 2023, p. 7
«A exposição dá conta dos estreitos laços que uniram os dois países ao longo da história, e fá-lo através de obras que são o resultado desse movimento humano e artístico. O catálogo proporciona, de resto, uma investigação sobre as características específicas desse intercâmbio artístico e as apropriações de elementos italianos e flamengos daí resultantes, bem como sobre o processo de reelaboração desses elementos de modo a torná-los próprios. Esta exposição implicou também a participação duma série de obras, algumas inéditas e outras às quais foi alterada a atribuição, que contribuem, de um modo notável, para o conhecimento dos pintores espanhóis e que demonstram a presença de artistas espanhóis em Portugal.»
Miquel Iceta i Llorens, Identidades partilhadas
Lisboa: MNAA - IN, 2023, p. 9

Uma exposição temporária de arte visita-se, regra geral, uma única vez, podendo, todavia, ser repetida numa ou noutra ocasião especial, quando o interesse despertado a tal convide e as possibilidades de o fazer assim o permitam. Em ambos os cenários, o contacto com as telas exibidas é limitado. Um catálogo, em contrapartida, folheia-se, olha-se, aprecia-se, tantas vezes quantas as desejadas a qualquer hora do dia ou época do ano. É o que se passa com estas Idades Partilhadas (2023-2024), que, depois de terem revelado ao público visitante do Museu Nacional de Arte Antiga das Janelas Verdes a «Pintura espanhola em Portugal», criada desde a origem medieval dos dois países peninsulares até à atualidade, se encontra agora compilada, comentada e contextualizada nas páginas copiosamente ilustradas do volume preparado pela Imprensa Nacional - Casa da Moeda. Abro-o, vejo-o e admiro-o.

O desenho estrutural do repositório impresso da mostra patenteada em Lisboa é inaugurado com dois prefácios redigidos pelos ministros ibéricos da cultura, Pedro Adão e Silva e Miquel Iceta i Llorens, logo seguido de quatro ensaios assinados por outros tantos académicos luso-hispânicos. Palavras de circunstância usuais nestes espaços, mas, mesmo assim, plenas todas elas dum forte cariz informativo e fino pendor artístico para visitas e leitores. Assim, enquanto Fernando Bouza descreve as relações históricas de Portugal e Espanha (sécs. xv-xix), no Entre elos e rejeições, Benito Navarrete Prieto centra-se no Século de Ouro e no cânone ibérico, nas designadas Identidades partilhadas, homónimas do designativo genérico do certame. Por seu lado, Joaquim Oliveira Caetano releva o contributo espanhol para a pintura portuguesa, num Cruzar a fronteira, ao passo que Ramiro A. Gonçalves se encarrega de traçar algumas notas sobre a presença de pintura espanhola em coleções privadas lisboetas (sécs. xviii-xx), no Entre permanências e ausências.

A resenha exaustiva neste espaço da totalidade das oitenta e duas peças reunidas na maior pinacoteca nacional resulta impraticável. O mesmo se diga para a identificação das três dezenas de críticos de arte que tornaram público o produto da sua investigação, centrada na meia centena de pintores representados na coleção e distribuídos cronologicamente por seis núcleos temáticos, a saber: [1] Gótico e Primeiro Renascimento, [2] Maneirismo, [3] Retrato de Corte, [4] Primeiro Naturalismo, [5] Barroco, [6] Academia e Romantismo. De mencionar, mesmo assim, os nomes sonantes de Luís de Morales, El Greco, Alonso Sanches Coello, José de Ribera ou Murillo, para além dum retrato elaborado na oficina de Velázquez, ou, ainda, os contributos de Vasco Pereira Lusitano, Baltazar Gomes Figueira e Josefa de Óbidos, três criadores portugueses bem conhecidos com formação pictórica sevilhana.

Guardei para o remate desta crónica de quadros olhados/descritos o óleo sobre tela escolhido para ilustrar o cartaz promocional do evento e a capa do repositório impresso. Depois de ter sido visto até há pouco como um original de Clemente Sánchez, este São Sebastião passou agora a ser tido como uma criação maior de Francisco de Zurbarán (1598-1664). As caraterísticas intrínsecas da obra não sofreram o mais pequeno beliscão com esta nova atribuição, mas, ao revés, o seu valor extrínseco de mercado alterou-se de modo exponencial. Lances de qualidade/quantidade que o mundo das artes conhece muito bem. Com a cara e o corpo lavados após o restauro a que foi submetido, o santo oriundo do Convento de Nossa Senhora da Graça, em Lisboa, poderá a partir deste momento ser admirado com outros olhos numa posição de destaque reforçado no MNAA. Palpites de experiência feitos.

  Francisco de Zurbarán, São Sebastião (c. 1634-1636

14 de junho de 2024

Triangulação musical, recitada, entoada e silvada ao ritmo da zamba argentina

 Atahualpa Yupanqui - José Larralde - Jorge Cafrune 

Era un lindo caballo, mi caballo | Abría su relincho en la mañana, saludándolo al sol | Caracoleaba sobre el parche del camino cuando íbamos al pueblo | Y una noche, no sé qué le pasó, no sé qué le pasó | Y era un lindo caballo, mi caballo...
Zamba de mi esperanza | Amanecida como un querer | Sueño, sueño del alma | Que a veces muere sin florecer...
Quién me enseñó a ser bruto | Quién me enseñó, quién me enseñó | Si en la panza de mamá | No había ni escuela ni pizarron...

Entrei no universo mágico de Atahualpa Yupanqui ainda em Lisboa. numa época em que as rádios não se limitavam a passar a qualquer hora do dia e da noite música anglo-saxónica. Não me recordo bem do momento exato em que ouvi pela primeira vez a voz, a guitarra e os versos de Don Ata, ao ritmo tradicional cantado-recitado-dedilhado das payadas, chacareras, tonadasvalses, milongas, coplas e zambas argentinas. Os textos originais ou coligidos do ¡Basta ya!, do Duerme negrito e das Preguntitas sobre Dios já os teria lido e relido nos encontros semanais da Capela do Rato. Surpreendente. Depois gastei uma cassete magnética que uma amiga minha me gravara e oferecera, à força de tanto a reproduzir.

O fascínio por uma zamba cantada, recitada e trinada ao som duma guitarra criolla não deixou de crescer até hoje. Ampliou-se com as aprendizagens que as minhas amizades estremenhas de longa data me foram ofertando. Lembro uma incursão noturna pelas vastas planícies raianas de Olivença e da charla que tive com o meu amigo Fernando G. sobre os cantautores, pesquisadores, compiladores e divulgadores da cultura nativa argentina. Dos grandes vultos então referidos, fixei o de Jorge Cafrune. Já em Badajoz, comprei uma cinta do recém-descoberto El Turco que ainda ouço sempre que para aí estou virado. Delicio-me agora com os duetos partilhados com o jovem Marito na Virgen India. ¡Precioso! 

A triangulação musical, recitada, entoada e silvada ao ritmo da zamba argentina, moldada pelos sentires dos aedos, vates, jograis atuais, culmina com José Larralde, El Cantor Orillero, ainda hoje ativo e a encantar-nos com o seu sentir profundo e pungente. Notei-o desde os primeiros acordes declamados e entoados do Hombre e das demais fachas incluídas no álbum a que dá nome. Os dialetos, falares e formas particulares de realizar a língua oficial do país andino-atlântico, imposta pelos invasores e conquistadores vindos do outro lado do mar 500 anos antes. Escutei-o religiosamente em terras hispânicas e escuto-o agora enquanto escrevo. paixões que vêm para ficar e perdurar. Afortunadamente.

1 de dezembro de 2023

Conexões e ruturas ibéricas

Portugalia & Hispania

Lucas Jansz Waghenaer, Europa Ocidental, 1588

Na visão centralista dos Áustrias, Castela e Leão imperavam nos seus domínios ibéricos herdados, conquistados e comprados, com uma espada erguida na mão direita e o globo terrestre na esquerda. O brasão de armas completo de Felipe II é elucidativo dessa realidade ilusória, que alentou o sonho hegemónico espanhol desde a subida ao trono português em 1580 até à queda de Filipe IV desse mesmo trono em 1640. Um elmo central a presidir e os laterais submissos a admirá-lo, ou seja, os dragões alados luso-aragoneses a prestarem vassalagem ao leão acastelado da soberania hispânica unificada.

Trezentos e cinquenta e cinco anos após a assinatura do tratado de Madrid em 1668, que pôs termo a vinte e oito anos de guerra (da Aclamação lhe chamaram na altura e da Restauração em tempos mais recentes), voltou a ouvir-se falar com insistência na hipotética reversão desta separação peninsular. Desconheço ao certo quantos portugueses aceitariam de bom grado esta segunda união ibérica, muito embora algumas sondagens de opinião efetuadas no país vizinho afirmem ser francamente favoráveis. Duvido. Presumo que o grau de aceitação espanhola possa ser superior à nossa. Alvitro.

As vantagens duma tal associação até poderiam ser úteis para ambas as partes, se entretanto as querelas separatistas que continuam a grassar do lado de da fronteira fossem debeladas de vez e as reservas levantadas do lado de cá não agudizassem ainda mais a situação. O problema da centralidade de Madrid (em detrimento de Lisboa/Barcelona), o predomínio do castelhano (em concorrência com o português/catalão), o regime político adotado (em oposição à república/monarquia). Admitir por fim que a unidade desejada terá de passar por um modelo federativo de estados independentes entre si.

Celebra-se hoje a independência da Casa de Bragança face à Casa de Áustria, efeméride festejada efusivamente pelos saudosistas duma Monarquia extinta e olhada com indiferença pelos cidadãos comuns da República vigente. Neste mesmo dia de há cinco anos, frui em Sevilha a chegada da reforma, aposentação ou jubilação, como se lhe queira chamar, consoante o gosto de cada um ou a casta profissional a que se pertença. Independência lhe chamo eu. Sem feriado nacional, sem drama pessoal, sem vivas ou bota-abaixo. Recebi-a de ânimo leve, braços abertos e votos de boas-vindas.