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9 de março de 2026

Dentro & Fora

Coroa Imperial Amarela
P.J Redouté - Fritillaire Imperiale 
var jaune
 Choix des plus belle fleurs (1827)

Toma lá dá cá, imperial e real

No tempo em que havia reis e rainhas a dar com um pau, havia também imperadores e imperatrizes igualmente em barda ali e acoli. Uns já nasciam com esse carma incrustado na pele. Outros eram importados e exportados a granel

À exceção da França, os impérios coloniais europeus nunca optaram por um imperador a reger os seus destinos em todos os territórios pertencentes aos seus domínios multicontinentais. Limitaram-se a um ou outro rei-imperador provisório. 

Entre nós, os Avis senhores de meio mundo, limitaram-se a exportar duas imperatrizes para o Sacro Império Romano-Germânico, Dona Leonor e Dona Isabel, filhas de Dom Duarte e Dom Manuel I. Todos de Portugal, como único apelido.

Os Braganças foram mais expeditos. Forneceram ao Brasil dois imperadores e garantia de mais, se a os ditames da história assim o determinassem. Dom João VI foi imperador titular por alguns meses, Dom Pedro IV por algum tempo mais.

Caídos os impérios globais, dentro e fora das fronteiras geopolíticas atuais, ficam os presidentes. Sem consortes a tiracolo, sem títulos a perder de vista, sem coroas reais e imperiais de aparato. Que assim seja agora e sempre. Viva a República!

D. Leonor & D. Isabel de Avis - D. João VI & D. Pedro IV de Bragança

3 de fevereiro de 2026

À espera dum novo e desejado salvador

Espelhismos do Dom Sebastião de Cristóvão de Morais
«Felices los que eligen, los que aceptan ser elegidos, los hermosos héroes, los hermosos santos, los escapistas perfectos.»
Julio Cortazar, Rayuela (1963: 3)

Oitenta governantes, se as contas me não falham, à espera dum novo e desejado salvador. Mais um para juntar aos 22 condes, 38 reis e 20 presidentes, a tomar as rédeas do poder, por nascimento, nomeação, conquista, usurpação e eleição, em 1158 anos de devir histórico.

A escassos dias da votação final, o próximo inclino de Belém já está escolhido a apreciável distância do seu mais direto opositor. Dizem as sondagens diárias que às vezes até acertam, quando as contas lhes não trocam as voltas. Será o vigésimo primeiro da série republicana.

Saudoso duma monarquia idílica há muito extinta, andou perdido na campanha um pretendente à cadeira presidencial disfarçado de Dom Afonso Henriques, O Conquistador. Melhor fora tê-lo feito d'el-rei Dom Sebastião, O Encoberto, após o desastre de Alcácer-Quibir.

Para trás ficaram outros cavaleiros-messias, empenhados na cruzada patriótico-nacional de livrar o país dos mil-e-um perigos a que estaria votado sem a sua prestimosa ajuda. Abyssus abyssum invocat. Uma dúzia, nem mais nem menos, entre paladinos aceites e rejeitados.

E como na res publica o render da guarda se faz amiúde, dentro de cinco anos o circo mediático de vendedores da banha da cobra e da peculiar horda de comentadores de tudo e de nada voltará de novo à nossa companhia. É que, como se diz, the show must go on.

João Ribeiro, D. Afonso Henriques (2004)

5 de outubro de 2025

Majestades fidelíssimas desconstruídas

Altezas reais & majestades fidelíssimas caídas

O cardeal Dom Henrique recusou o tratamento de Sua Majestade, quando imprevistamente subiu ao trono, por morte do sobrinho-neto em Alcácer-Quibir. A seu ver, o título era demasiado imponente para ser usado por um mero mortal. Manteve, assim, a designação de Sua Alteza Real no curto período de tempo em que pela Graça de Deus foi Rei de Portugal e dos Algarves (1578-1580).

Dom Sebastião foi o único membro da Casa de Avis a usufruir dessa honraria, que lhe foi outorgada por Filipe II de Castela. Fê-lo na entrevista de Guadalupe (1577), dado o sobrinho ter acalentado o desejo de juntar aos reinos, senhorios e domínios lusitanos a conquista de África. O resultado dessa aventura está bem à vista, com a perda da vida na Batalha dos Três Reis (1578).

Os Braganças seguiram o exemplo dos Áustrias e mantiveram a titularia, estilos e honras como fórmulas de endereçamento real já usuais por todo o lado. Não descansaram, porém, até terem um estatuto similar à Sa Majesté Très Chrétienne gaulesa e Su Majestad Católica hispânicaDom João V conseguiu-o finalmente da Santa Sé, ao obter o epíteto de Sua Majestade Fidelíssima (1748).

A grandiosidade, imponência e excelência majestática e fidelíssima há muito ruíram sem deixar saudade ou rasto visível.. Cavaram à sua volta uma realeza destituída, exilada, caída. Os ventos republicanos varreram-na de vez do nosso horizonte de eventos. A ostentação parasitária monárquica persiste na memória anquilosada de alguns à espera duma bastilha redentora que há muito tarda.

5 de outubro de 2024

A esfera emblemática do rei afortunado

Brasão Real e Emblema Pessoal de Dom Manuel I
Livro Carmesim (1502)
[Arquivo Municipal de Lisboa]

Num dia como o de hoje de 1910, implantava-se a República entre nós, a tal que ultrapassado um centenário, uma década e quatro anos bem contados, está a contar-nos de sua justiça. Este evento celebrado desde então com maior ou menor pompa e circunstância dum feriado nacional é do conhecimento geral de todos. Os reis e rainhas e demais corte palatina foram à sua vida para outras paragens e em boa hora levaram consigo muita da parafernália acumulada ao longo do devir histórico em que vigorou. 

Com o advento do novo regime, os acordes do Hino da Carta foram substituídos pelos d'A Portuguesa, a coroa real saiu de vez das insígnias oficiais do país, o azul-e-branco foi trocado pelo verde-rubro da bandeira e a esfera armilar impôs-se como a peça central dos novos símbolos nacionais. Ficaram porém de pedra e cal as medievas cinco quinas e sete castelos no brasão heráldico, com os atributos factuais ou fantasiosos que as diversas épocas que os viram surgir, crescer e fixar lhe quiseram outorgar.

O emblema manuelino foi o último elemento inserido no escudo português, após a sua inclusão efémera no armorial do triplo Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Atributo ancestral do saber universal, passou a representar a universalidade do poder régio dos Avis e imperial dos Bragança. Associado à expansão ultramarina lusitana, a esfera emblemática do rei afortunado converteu-se na vocação universal da diáspora portuguesa. O poder monárquico a adotou o poder republicano a fixou.

Esfera Armilar 1503

5 de outubro de 2023

Histórias com história dentro p'ra contar

SELO PORTUGAL
Carta de doação pelo infante D. Afonso Henriques a
Egas Ramires da igreja de São Bartolomeu de Campelo
28 de julho de 1129
[Arquivo Nacional da Torre do Tombo] 
CONDES ‒ REIS  PRESIDENTES
[com  Duques, Infantes, Príncipes e Vice-Reis de permeio]
A substituição solene da Monarquia pela República, formalizada nas varandas da Câmara Municipal de Lisboa em 1910, é celebrada no país com toda a pompa e circunstância que os tempos presentes permitem. Altura para evocar a realização, neste mesmo dia e mês do longínquo ano de 1143, da Conferência de Zamora, que reconhecia a Portugal o estatuto de Reino e ao seu soberano o título de Rei. Um duplo aniversário que os partidários belicosos dos dois regimes rivais revivem de modo distinto  invariavelmente virulento na verbalização emotiva de sentires. Feitios.

Quem ninguém felicita é Vímara Peres, pela tomada de Portus Cale, criação da Presúria do Porto e fundação de Portugal em 868Histórias da História com 1155 anos de idade bem contados, com muitos e variados condes, reis e presidentes a contá-las e alguns duques, príncipes, infantes, vice-reis mais de permeio. falta encontrar uma data precisa para festejar condignamente e em igualdade de direito o nascimento dum país. Até podia ser simbolicamente a 5 de outubro e ganhava-se assim um oportuno três em um à maneira para juntar ao feriado já existente. Ideias.

24 de julho de 2023

Epítetos Reais & Apodos Plebeus

O REI AZARADO & O IRMÃO GOLPISTA

Cognomes, apelidos & alcunhas

Todos os reis portugueses têm um cognome (o Povoador, o Lavrador, o Magnânimo, o Usurpador) ou vários (o Conquistador ou o Fundadoro Cruel ou o Justiceiro), por vezes contraditórios (o Grande / o Opressor) e a caírem no domínio da mera alcunha popular (o Gordo). O mesmo se diga das rainhas (a Piedosa ou a Louca, a Educadora ou a Parideira) e dos respetivos cônjuges (o Capacidócio, o Sacristão ou o Edificador e o Rei-Artista), bem como de algumas consortes (a Aleivosaa Desejada, a Excelente Senhoraa Princesa Perfeitíssima). Esta proliferação de epítetos reais deve-se ao facto de carecerem de verdadeiros apelidos e não posporem ao nome próprio a estirpe dinástica a que pertenciam: Borgonha, Avis, Habsburgo e Bragança.    

Falta essa tradição aos presidentes, por possuírem prenome(s) e sobrenome(s), conquanto os apodos plebeus atribuídos a alguns deles corram à boca pequena. Quase segredados nos tempos da outra senhora e pronunciados à tripa-forra nos nossos dias. o Cabeça-de-Abóbora ou Corta-Fitas será, quiçá, o mais conhecido de todos. Depois veio o trio armado (o Caco-de-Vidro, o Chico-Rolha, o Endireita) e o trio letrado (o Bochechaso Cenoura, a Múmia), a precederem o já crismado Senhor das selfies e dos afetos. E como não ofende quem quer, só ofende quem pode, ousemos chamar-lhe também o Tio Celito, o Cata-Vento, o Papagaio, o Comentador-Mor, o Egocêntrico, o Língua-de-Trapos, o Fala-Barato. É caso para dizer que o que a uns falta a outros sobeja.

Res publica, a caricatura ao serviço da tristeza pública, 2010

5 de outubro de 2021

Bastardias duma monarquia milenar

Fanny Nushka, Petit bâtard (2019)
[Saatchi Art]

bas·tar·do
(francês antigo bastard, francês bâtard)
Que não nasceu de matrimónio. Que não é de casta pura. Que não é puro; degenerado. Filho ilegítimo.

Diz-se que a monarquia portuguesa nasceu bastarda e assim se manteve até ter sido mandada às ortigas quando a República chegou. Faz hoje precisamente o número redondo de 111 anos. Estou a reportar-me ao segundo Condado Portucalense, refundado em 1096 por Henrique de Borgonha, casado com Dona Teresa de Portugal, filha ilegítima de Afonso de Castela e Leão.

As bastardias monárquicas prosseguem aquando da passagem conflituosa da primeira dinastia real lusitana para a segunda. Beatriz de Borgonha é impedida de suceder ao pai por suspeita de infidelidade matrimonial cometida pela mãe, por alguma razão apelidada de Aleivosa. Ironicamente, é derrotada pelo Mestre de Avis, filho ilegítimo de Dom Pedro Ⅰ de Portugal e Algarve.   

A sorte não esteve do lado do filho natural do infante Dom Luís tal como estivera com Dom João Ⅰ. O Prior do Crato, apesar de ter sido aclamado rei de Portugal e cunhado moeda nessa qualidade, foi derrotado por Filipe Ⅱ das Espanhas, o todo poderoso primo da Casa de Áustria. Morreu exilado em Paris e com ele as aspirações de recuperar a coroa que detivera de julho a agosto de 1580.

Esgotadas as bastardias diretas, entra-se nas indiretas da união ibérica e da realeza lusitana autónoma, oriundas de descendentes remotos do primeiro duque de Bragança, filho natural do Rei da Boa Memória. A única incerteza assenta nas alegadas origens espúrias de Dom Miguel, assente nas apregoadas ligações adulterinas de Carlota Joaquina de Bourbon, a pouco fiel consorte de Dom João Ⅵ.


cd

Nos dias que correm, as preocupações genéticas das castas puras deixaram de fazer sentido. Tornaram-se obsoletas. O sangue azul dos filhos-de-algo foi substituído pela nobreza do sangue vermelho dos filhos-do-vulgo. A linhagem dos presidentes eleitos deixou de fazer parte da coisa pública com a extinção de infantes, príncipes e reis. Morta a Monarquia, viva a República! Agora e sempre, viva!...

21 de janeiro de 2021

Damas & Cavalheiros no jogo das cadeiras presidenciais p'ra Belém

A REPÚBLICA
Simões de Almeida (Sobrinho)
[Museu de Lisboa - Palácio Pimenta  - 1911]

É entrar, é entrar, a corrida vai começar!

A República é representada alegoricamente por uma mulher, batiza-da Marianne pelos gauleses, baseados no facto de Marie e Anne serem os nomes próprios mais usados nos meios populares do país aquando da Revolução Francesa, tendo-se tornado um dos símbolos mais conhecidos do novo regime a partir da canção occitânica de re-sistência popular La Guérisou de Mariano / La Guérison de Marianne, composta em 1792 pelo sapateiro-poeta Guillaume Lavabre.

A Mariana portuguesa usa o mesmo barrete frígio da sua congénere de além-Pirenéus, símbolo da liberdade greco-romana, associado à coroa de louros representativa da invencibilidade da sua portadora, bem como à bandeira nacional demonstrativa do poder de quem a veste como couraça ou peitoral. Para fazer face à Monarquia, a sua rival mais destacada, dá pelo nome sonante e único de República desde o seu nascimento e canonização pública e política. 

E se, segundo dizem as estatísticas do PORDATA, há mais mulheres (52,8%) do que homens (47,2%), dá vontade de perguntar a razão de nunca termos eleito nenhuma presidente da república, apesar de termos tido algumas candidatas apresentadas a escrutínio desde que o sufrágio universal foi instituído entre nós. Cinco candidaturas femininas (9,3%) face a quarenta e nove masculinas (90,7%). Uma diferença abissal que nos faz sentir uma certa perplexidade.

Palácio Nacional de Belém

É verdade que a Monarquia portuguesa entronou duas rainhas soberanas em 770 anos de existência. Um número exíguo mas mesmo assim superior à francesa, que em 1362 anos não conheceu nenhuma, igualando-nos depois no que à República de refere com um idêntico match nul. A campanha eleitoral está a chegar ao fim mas até ao arrumar dos cestos é vindima. Depois da ida às urnas, tudo estará decidido. Les jeux sont faits & rien ne vas plus.

10 de novembro de 2020

Monarcas, Presidentes & Consortes

    Reis, Damas / Rainhas, Valetes & Jokers    

Desde o já longínquo dia 23 de maio de 1179, data em que o Papa Alexandre III assinou a bula Manifestis Probatum a reconhecer D. Afonso Henriques como primeiro Rei de Portugal, sucederam-lhe no trono 34 monarcas, entre os quais duas rainhas. Tiveram esses herdeiros do Fundador as suas caras-metades, que receberam a designação de Consortes, sem qualquer papel de relevo na ação governativa e vivendo em grande parte à sombra da Casa das Rainhas, fonte principal do seu rendimento. No caso das mulheres, o título de Rainha era-lhes atribuído após o enlace, necessitando os homens de engravidar a soberana para merecerem o título de Rei. Se por qualquer motivo essa função de procriador real ficasse por cumprir, pondo em causa a sobrevivência dinástica, teriam de se contentar com o estatuto de Príncipes consorte.

quase cinco anos que não dispomos duma Primeira-dama, rótulo dado abusivamente à esposa do Presidente da República em exercício ou com quem ele viva em união de facto. No próximo lustro também não teremos nenhuma ou talvez tenhamos de passar igualmente sem um abstruso Primeiro-cavalheiro, Valete, Joker ou como lhe queiramos chamar. Vistas bem as coisas e medindo-as pelo lado estritamente legal, nunca tivemos, não temos, nem nunca teremos um ou uma consorte presidencial com um título especial. É que no baralho de cartas da democracia plena, não há lugar para Primeiras-damas ou Primeiros-cavalheiros, a menos que esta nossa República se tenha transformado por artes de berliques e berloques numa Monarquia disfarçada, por ação de saudosistas impenitentes do anterior regime, extinto de vez há 110 anos.

Como o Gabinete do Cônjuge da Casa Civil da Presidência da República, que presta apoio à alegada Primeira-dama se encontra desativado desde março de 2016, pouco se sabe das atividades das suas ocupantes nos períodos de tempo que desempenharam pro bono este cargo não eletivo. Diz-me uma memória resistente à passagem do tempo e ávida de registar os eventos importantes da nossa História milenar, ter a última dita Primeira-dama que nos coube na rifa ocupado o tempo precioso que escasseava ao presidencial consorte a colecionar presépios, atividade meritória que lhe deve ter reservado por deferência especial um lugar de precedência protocolar no além, assim como o teve neste aquém legislado pelo Estado Português. É o mínimo que se poderia desejar a quem exerceu com tanto brio natalício tão honrosas funções.
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As eleições presidenciais portuguesas de 2021 estão à porta. Se tudo correr com a normalidade prevista, a primeira volta deverá decorrer num domingo situado entre 10 de janeiro e 14 de fevereiro. O Palácio Nacional de Belém terá novos inquilinos a partir do dia 9 de março. Terá ou manter-se-á o mesmo para mais um mandato. Se assim for, lá teremos de passar mais 5 anos sem a figura decorativa duma Primeira-dama de pacotilha, que nem por portas travessas será votada nas urnas eleitorais. Aquele espaço que já foi de reis e rainhas, príncipes e infantes, que já funcionou como residência privada duma dezena de presidentes da república, ficará reduzido às suas funções exclusivas de residência oficial do chefe de estado. Ás de copas, de espadas, de paus e de ouros. Único senhor dum cargo para o qual foi legalmente empossado.


5 de outubro de 2020

As saudades monárquicas de Ricardo Reis em tempo de república...

Café Royal & Hotel Bragança

O bagageiro levanta o boné e agradece, o táxi arranca, o motorista quer que lhe digam, Para onde, e esta pergunta, tão simples, tão natural, tão adequada à circunstância e ao lugar, apanha desprevenido o viajante, como se ter comprado a passagem no Rio de Janeiro tivesse sido e pudesse continuar a ser resposta para todas as questões, mesmo aquelas, passadas, que em seu tempo não encontraram mais que o silêncio, agora mal desembarcou e logo vê que não, talvez porque lhe fizeram uma das duas perguntas fatais, Para onde, a outra, e pior, seria, Para quê. O motorista olhou pelo retrovisor, julgou que o passageiro não ouvira, já abria a boca para repetir. Para onde, mas a resposta chegou primeiro, ainda irresoluta, suspensiva, Para um hotel, Qual, Não sei, e tendo dito, Não sei, soube o viajante o que queria, com tão firme convicção como se tivesse levado toda a viagem a ponderar a escolha, Um que fique perto do rio, cá para baixo, Perto do rio só se for o Bragança, ao princípio da rua do Alecrim, não sei se conhece, Do hotel não me lembro, mas a rua sei onde é, vivi em Lisboa, sou português, Ah, é português, pelo sotaque pensei que fosse brasileiro, Percebe-se assim tanto, Bom, percebe-se alguma coisa, dezasseis anos que não vinha a Portugal, Dezasseis anos são muitos, vai encontrar grandes mudanças por cá, e com estas palavras calou-se bruscamente o motorista.

[…]

Parou em frente de um café, acrescentou, O melhor será ir ver primeiro se há quartos, não posso esperar mesmo à porta por causa dos elétricos. O passageiro saiu, olhou o café de relance, Royal de seu nome, exemplo comercial de saudades monárquicas em tempo de república, ou remanescência do último reinado, aqui disfarçado de inglês ou francês, curioso caso este, olha-se e não se sabe como dizer a palavra, se rôial ou ruaiale, teve tempo de debater a questão porque já não chovia e a rua é a subir, depois imaginou-se regressando do hotel, com quarto ou ainda sem ele, e do táxi nem sombra, desaparecido com as bagagens, as roupas, os objetos de uso, os seus papéis, e a si mesmo perguntou como viveria se o privassem desses e todos os outros bens. Já ia vencendo os degraus exteriores do hotel quando compreendeu, por estes pensamentos, que estava muito cansado, era o que sentia, uma fadiga muito grande, um sono da alma, um desespero, se sabemos com bastante suficiência o que isso seja para pronunciar a palavra e entendê-la. 

José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis (1984: 17-18)

5 de outubro de 2019

Datas da Monarquia e da República

LAÇO NACIONAL PORTUGUÊS
 Monarquia & República 

Conferência de Zamora
A 5 de outubro de 1143, D. Afonso Henriques de Portugal e Afonso VIII de Leão dão por concluída a Conferência de Zamora, celebrada para estabelecer as condições duma paz duradoura que pusesse fim aos conflitos fraternos até aí existentes. O encontro foi patrocinado pelo Cardeal Guido de Vico, legado do Papa Inocêncio II, e mediado por João Peculiar, Arcebispo Primaz de Braga. A ausência de atas ou tra-tados assinados pelas partes envolvidas é colmatada pela existência doutros documentos que atestam a sua realização. A importância da efeméride resulta sobretudo do facto do neto mais velho de Afonso VI ter reconhecido o mais novo como Rei de Portugal e deste ter reconhecido o primo como Imperador de todas as Espanhas. Manda quem pode, obedece quem deve. Um toma-lá-dá-cá de cabeças coroadas e sangue azul nos pergaminhos.

Implantação da República
A 5 de outubro de 1910, um golpe de estado vitorioso organizado pelo Partido Republicano Português procedeu à destituição revolucionária da Monarquia Constitucional dos Bragança e à Implantação da Re-pública em Portugal. A mudança de regime foi proclamada nesse mesmo dia por José Relvas na varanda dos Paços do Concelho de Lisboa. Seguiu-se a constituição oficial dum Governo Provisório, presidido por Teófilo Braga, com vista a preparar a lei fundamental do país. A família real partiu para o exílio, os símbolos nacionais foram adaptados à nova realidade e as efemérides próprias destas ocasiões foram cumprindo os trâmites legais que os anais oficiais do Estado se encarregaram de registar com todos os altos e baixos usuais. E assim a história se faz e vai fazendo. Um vê-se-te-avias de zés-ningém e sangue rubro a correr nas veias.

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Diz-se por à boca cheia ter sido a partir da Conferência de Zamora que Portugal se tornou independente, como se o título de Rei e o estatuto de Reino fossem suficientes para assegurar a maior ou menor autonomia dum país relativamente a todos os demais. Se de facto assim fosse, a independência então conquistada teria sido perdida com a Implantação da República 767 anos depois. Digamos que a existência dos estados e da nações se vai fazendo no dia-a-dia com passagens sucessivas duns regimes políticos para outros. E assim um conde se tornou rei. E assim um reino se fez república. Por vezes festividades de sinal contrário celebram-se num mesmo dia. Coincidências. Insólita singularidade esta dum dois-em-um a marcar um 5 de Outubro da Monarquia e da República. Ironia do devir histórico que no dia de hoje nos é dado assinalar.


SELO REAL DE D. AFONSO HENRIQUES & BRASÃO DE ARMAS DA REPÚBLICA