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31 de julho de 2025

O homem a quem chamaram cavalo...

I'm not a horse, I'm not an animal, I'm a man...

 A L T E R I D A D E S                                                       

Anda por aí disponível na Net um filme que eu vi nos anos 70, já não me recordo muito bem onde, mas cuja memória me acompanhou até hoje, apesar de nunca mais o ter voltado a visionar desde então no grande ecrã. Revi-o agora em formato pequeno num canal da TV Cabo, o Star Movies 92 da NOS, no meu plasma caseiro. Espero que se mantenha disponível nos próximos tempos, sobretudo por tratar dum conjunto de tópicos tão atuais nos nossos dias, ligados ao embate de culturas oriundas de espaços geográficos diametralmente opostos e a aversão visceral duns e doutros aos distintos sistemas civilizacionais em confronto. Estou-me a referir a A Man Called Horse (1970), uma película estadunidense realizada por Elliot Silverstein, baseado no conto de Dorothy M. Johnson, Indian Country (1968).

Nas décadas anteriores, os westerns clássicos exibidos nos cinemas ou emitidos na televisão primavam pelas lutas ferozes entre índios e cowboys, quer dizer, entre os corajosos vaqueiros americanos e os ferozes indígenas emplumados. A completar esse estado bélico constante contado com imagens em movimento havia, ainda, toda uma gama de histórias aos quadradinhos, em que os colts certeiros dos bons derrotavam sem exceção os arcos e flechas dos maus. Ou seja, naquele mundo exótico do Far West mítico, os caras-pálidas levavam sempre a melhor sobre os peles-vermelhas. As aventuras infindas do Kansas Kid, do Roy Rogers, do Buffalo Bill contra o Touro Sentado, o Nuvem Vermelha, o Cavalo Louco preenchiam o nosso imaginário infantil a contaminar largamente o juvenil e até adulto.

O homem a quem chamaram cavalo veio dizer-nos que o ser-se diferente não nos faz, a priori, nem bons nem maus. Tudo depende  de se cumprirem ou não as regras estabelecidas por cada um dos grupos em presença. Neste caso concreto, entre um representante singular dos invasores ingleses e uma tribo inteira dos invadidos Sioux. O contacto abrupto e o convívio forçado dum europeu nunca até então visto leva a tribo americana que o arrestou a considerá-lo como um mero animal, sem o menor traço de humanidade claro à flor da pele. Tanto para o cativo como para os cativadores, a lei da alteridade considera o outro, individual/coletivo, como um selvagem, cruel e bárbaro. Estão todos errados, afinal. Os padrões é que variam, ou seja, os plasmados na tela e os visionados pelos espetadores.  

No ano em que este filme estreou, estavam ainda em cartaz dois outros de temática afim: The Royal Hunt of the Sun (1969) e o Soldier Blue (1970), de Irving Lerner e Ralph Nelson. Sobre o mais antigo, falei um pouco aqui, o que farei certamente acerca do mais recente, quando voltar a revê-lo numa qualquer estação televisiva. Com três idas ao cinema em menos dum ano, todos os mitos e contramito ligados à conquista do Novo Mundo pelo Velho partiram à desfilada para o país distante do nunca mais. Para tal terá contribuído também o desconforto de ter seguido todos os debates verbais travados na tribo ameríndia em sioux sem legendas auxiliares, pondo-me assim na pele das minorias que são confrontadas com uma língua estranha como se fosse de facto a sua. Tão simples e tão eficiente, em suma.

30 de abril de 2021

Percorsi di vita attraverso l'opera lirica


Bianca Castafiore & Maria Callas
dall'usignolo milanese alla divina del bel canto ...

A primeira definição que me foi dada de ópera marcou-me pela carga fortemente negativa dos termos utilizados. Não me lembro da ordem exata das palavras que compunham a frase então pronunciada, mas recordo que assentava nos alegados gritos estridentes produzidos em palco por umas senhoras que não sabiam cantar e eram aplaudidas por um conjunto de pessoas que não tinham nada para fazer. Nessa primeira abordagem do canto lírico, não havia lugar para caraterizar as vozes masculinos que acompanhavam as femininas tão severamente causticadas.

Entrei algum tempo depois no universo desenhado por Hergé n'As aventuras do Tintim, e encontrei de imediato na Bianca Castafiore o protótipo perfeito dessas virtuosas de timbre vocal tão penetrante, apesar de ser descrita nos álbuns em que aparece com o epíteto de Rouxinol Milanês. A imagem verbal e a iconográfica estava traçada, só faltava encontrar o registo sonoro para completar um cromo completo da intérprete da «Air des bijoux», do Fausto de Charles Gounod, ou da totalidade de La gazza ladra, de Gioachino Rossini, que tanto sucesso obtivera no Scala de Milão.

As digressões constantes do professor Bento Monteiro, nas aulas de Português ou de História, ou os esclarecimentos da Senhora Dona Maria do Rosário, que depois da catequese me dava pro bono uma ou outra lição de piano. Com o primeiro, ouvi em estreia absoluta Enrico Caruso e Mario Lanza e fui sensibilizado para ver as diferenças existentes entre um e outro, com vantagem do italiano sobre o americano. Com a segunda, descobri que afinal o tal canto bárbaro para desocupados também era conhecido como bel canto. A caricatura traçada começava a ser desmontada.

Dizem que o criador belga se terá inspirado em Renata Tebaldi e Maria Callas para dar vida à sua prima donna, as mais famosas sopranos da época, a rivalizarem entre si e com todas as restantes divas que as antecederam e sucederam nos palcos operísticos do mundo pelo estrelato, preferência do público e atenção dos media. Pelo seu caráter voluntarioso, temperamental e perfeccionista, mais do que pelo perfil lírico, maestria interpretativa ou timbre vocálico inigualável das duas, inclino-me mais para La Divina grega do que para La voce d'Angelo italiana. Chi lo sa dirà!

Na passagem da década de 60 para 70 não falhei uma transmissão pela EN2 das temporadas do São Carlos. O meu percorsi di vita attraverso l'opera lirica fez-se depois nas récitas populares do Coliseu. Lembro-me duma pouco conhecida Manon de Massenet e duma famosa Aida de Verdi. Entre um autor francês e um italiano, ainda couberam muitos outros cantados em inglês e alemão, como o Porgy and Bess de Gershwin e o Die Walküre de Wagner. Uma caminhada pela opera in musica a desmontar por completo a definição que me fora dada tantos anos antes.

Despedi-me do drama cantado ao vivo em palco em 75. O panorama musical fora da capital não prima pela abundância. Passei a ser ouvinte assíduo das gravações em vinil e laser, a visionar as muito escassas difusões televisivas da RTP2 ou do Canal Mezzo. Recorro hoje em dia ao YouTube e a outras plataformas de partilha de vídeos acessíveis através dum mero PC portátil. Vantagens dos nossos tempos internéticos. Avere una compagnia quotidiana de soprani e tenori, de bassi e contralti, de baritoni e mezzosoprani, a po 'di tutto o tutti quanti senza uscire di casa. Ecco!      

HERGÉ, Les aventures de Tintin

11 de abril de 2020

Arthur, c'est moi !

Fogões, Pijamas & Livros...
Il y avait une pub à la télévision française qui affirmait de façon fort tranchée : Arthur c'est extra ! J'ai trouvé ça vachemente super. C'est-à-dire : formidable, magnifique, génial. Je dirais même plus, comme Dupond et Dupont, les détectives fictifs des Aventures de Tintin créés par Hergé : Arthur c'est extra ! En fait, ce n'était plus qu'une simple cuisinière Arthur Martin, très populaire dans l'Hexagone. Tant pis ! J'ai apprécié quand même le slogan.

Quando o Forum Algarve abriu portas, chamou-me a atenção uma loja chamada Arthur. Imitei a Loulou dos perfumes e disse para mim mesmo: Arthur, c'est moi ! Num internamento feito a contragosto no Hospital de Faro, levei comigo um pijama com o logótipo Arthur estampado um pouco por todo o lado. Alguém que não conhecia a marca perguntou-me se tinha sido mandado fazer por mim. Olhei-o surpreendido, sorri-lhe e não disse nada.   

I have never read a book by Mark Brown, nor Arthur's Nose (1976), nor any of those that followed it. I would like to meet Arthur Read on the original albums or on the translated tv serie version. I only know him very superficially and in passing. I just know that at the beginning of the stories, he had a very big nose. Then he started to hide his nose in the books and he got prescription glasses to read better. C'est pas mal ! Quer dizer: Not bad indeed!


3 de outubro de 2016

As viagens do lagarto

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De hoje não passa. Ando há muito tempo para contar uma história de fadas, mas isto de fadas foi chão que deu uvas, já ninguém acredita, e por mais que venha jurar e trejurar, o mais certo é rirem-se de mim. Afinal de contas, será a minha simples palavra contra a troça de um milhão de habitantes. Pois vá o barco à água, que o remo logo se arranjará.
José Saramago, A bagagem do viajante (1973) | O lagarto (2016)
José Saramago voltou a ser notícia nas separatas dos jornais e nas estantes das livrarias. Acaba de ser dada à estampa um texto seu com ilustrações de José Francisco Borges. Dá pelo nome de O lagarto (2016) e foi apresentado oficialmente no FOLIO - Festival literário internacional de Óbidos. Por breves instantes pensei tratar-se de mais um inédito perdido resgatado do silêncio. Ilusão pura. As gavetas e baús que em tempos albergaram manuscritos literários convertíveis em livros há muito estão vazios.

Adquiri um exemplar no dia do lançamento. Trata-se duma história de fadas sem fadas já publicada n' A bagagem do viajante (1973). Trata-se duma fábula dos nossos dias acontecida em espaço urbano conhecido. Um sardão verde com olhos de cristal surgiu do nada no Chiado para espanto de quem se atreveu a dirigir a vista para aquele corpo coberto de escamas, rabo longo, patas rápidas e língua bífida. E o sucesso contado e desenhado prossegue ao longo duma dúzia de páginas por numerar que constituem o álbum.  

O Natal está a chegar e com ele as novidades literárias. Saramago estará presente com um conto exemplar dos anos 70 a falar-nos de répteis sáurios doutros tempos que poderão voltar a assustar-nos nos nossos dias. Cuidado. É preciso estar bem atento para saber decifrar as alegorias da ficção. Essa a lição da historieta. Saber ler as entrelinhas da escrita nos alvores do terceiro milénio como se fazia nos derradeiras décadas do segundo. O alerta está aí em forma de insólito. Um relato infantil para gente crescida.


7 de setembro de 2016

Milagre de Santa Maria de Faro em verso e aos quadradinhos

Iluminura das Cantigas de Santa Maria
Afonso X, O Sábio, 1280
[Biblioteca do Escorial, Madrid]

Pesar a Santa Maria

Esta é dum miragre que mostrou Santa Maria en Faaron quando era de mouros

Pesar à Santa Maria de quen por desonrra faz
dela mal a ssa omagen, e caomia-llo assaz.

Desto direi un miragre que feso en faaron
a Virgem Santa Maria en tempo d’ Aben Mafon,
que o reino do Algarve ti’ aquela sazon
a guisa d’ om’ esforçado, quer en guerra, quer en paz.
Pesar á Santa Maria de quen por desonrra faz…

En aquel castel’ avia omagen, com’ apres’ ei
da Virgen mui groriosa, feita como vos direi
de pedra bem fegurada, e, com’ eu de cert’ achei,
na riba do mar estava escontra ele de faz.
Pesar á Santa Maria de quen por desonrra faz…

Bem do tempo dos crischãos e sabian y estar,
e porende os cativos a yan sempr’ a orar,
e Santa Maria’ a vila de Faaron nomar
por aquesta razon foron. Mas o poboo malvaz
Pesar á Santa Maria de quen por desonrra faz…

Dos mouros que y avia ouveron gran pesar en,
e eno mar a deitaron sannudos com gran desden;
mas gran miragre sobr’ esto mostrou a Virgen que ten
o mund’ en seu mandamento, a que soberva despraz.
Pesar á Santa Maria de quen por desonrra faz…

Ca fez que niun pescado nunca poderon prender
enquant’ aquela omagen no mar leixaron jazer.
Os mouros, pois viron esto, fórona dali erger
e posérona no muro ontr’ as amas em az.
Pesar á Santa Maria de quen por desonrra faz…

Des i tan muito pescado ouveron des enton y,
que nunca tant’ y ouveram, per com’ a mouros oy
dizer e aos crischãos que o contaron a mi;
poren loemos a Virgen en que tanto de bem jaz.
Pesar á Santa Maria de quen por desonrra faz…”
Cantiga CLXXXIII, de Afonso X, O Sábio


NOTA
No dia em que se celebra o feriado municipal de Faro, por datar de 7 de setembro de 1540 a Carta Régia que serviu para D. João III elevar a Villa de Faram a cidade.

29 de setembro de 2015

As lições de Artérix, Obélix & C.ª

René Goscinny & Albert Uderzo, Astérix le Gaulois
Pratiquei grande parte da minha fluência escrita e oral em francês através das aventuras exemplares de Astérix le Gaulois, Obélix & Compagnie, contadas e desenhadas aos quadradinhos por Gosciny e Uderzo. Em certos momentos do meu percurso académico, também fui convidado a ler algumas dessas histórias em latim restaurado ou kikerista. Aprendi ainda o sentido que podia ter a palavra resistência, consubstanciado nas lutas sempre vitoriosas da minúscula Gália Armoricana contra a desmedida Roma Imperial.

Mais tarde fiz uso da versão portuguesa destes e doutros álbuns da escola franco-belga para explorar os sentidos das onomatopeias e metáforas visuais, contidas numa simples vinheta de BD. Com um simples PAF!, meia dúzia de estrelas e outros tantos sinais dinâmicos de basta já, põe-te na alheta, que já estás aqui a mais, se constrói uma cena completa de significações. Passava-se isso nos tempos áureos em que abracei os universos pedagógicos da literatura infantil dirigida a um público global sem idade definida.

A imitação dos sons para verbalizar sentidos pode coincidir uma ou outra vez com com a leitura das letras iniciais duma sequência de palavras. A força simbólica da onomatopeia sobrepõe-se à do acrónimo e o jogo de sentidos entra em cena. Entrando na arte de governar os destinos da Lusitanian gentem, os heróis gauleses da banda desenhada são chamados ao palco e o PAF! desenhado dá uma surra monumental no PàF coligado. Infestis pilis cum illis! Fora com eles!. Ça y est!. Alea jacta est. Assim seja e já está...

29 de dezembro de 2014

Salomão aos quadradinhos

«Bem, Salomão, ainda não sei como é que vai ser exatamente a tua história, mas de uma coisa podes ter a certeza: o que tiver que ser, será, o que não tiver que ser, não será. Dito isto posso-te também dizer que... "Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam". O livro dos itinerários»
João Amaral, A viagem do elefante (2014)
Aprendi a ler com as histórias aos quadradinhos que O Primeiro de Janeiro publicava todos os domingos em formato de suplemento juvenil. Chamava-se «O Janeirinho» e fazia concorrência ao «Pim-Pam-Pum» d' O Século, que também cheguei a folhear uma ou outra vez. Recordo-me dum interminável Príncipe Valente e duma tira sem palavras do Reizinho. O bê-a-bá das histórias contadas com imagens e palavras em balões foi-me transmitida pelas séries curtas do Walt Disney tipo A Dama e o Vagabundo, mais tarde adaptadas ao cinema e dobradas com sotaque brasileiro.

Já alfabetizado e a frequentar o ciclo preparatório, entrei em contacto com a literatura clássica num manual escolar em versão histórias aos quadradinhos. Nada mais nada menos do que a Odisseia de Homero. Por essa altura, fui também iniciado nas peripécias desenhadas das Viagens de Marco Polo e na Peregri-nação de Fernão Mendes Pinto, provavelmente em edições promovidas pela Fundação Calouste Gulbenkian, que se encarregou de divulgar num boletim especial as aventuras e desventuras de Camões e da composição épica d' Os Lusíadas.

As aprendizagens com as histórias aos quadradinhos prosseguiu na faculdade. Fui aí convidado a ler o Astérix em latim que alternei com a versão francesa original. Duma assentada, pratiquei as duas línguas com um suporte visual, mas só a segunda, hélas, me permitiu estabelecer uma conversação de longa duração pelos desafios que a vida me foi oferecendo desde então. Felizmente não fui obrigado a mergulhar em nenhuma BD em idioma grego antigo ou moderno. Os meus conhecimentos linguísticos teriam sentido fortes dificuldades em superar esse poliglotismo académico.

No ano em que saiu o último póstumo de Saramago, umas Espin-gardas, alabardas ilustradas por Günter Grass, saiu também dos prelos uma adaptação de João Amaral d' A viagem do elefan-te (2014). A história aos quadradinhos de Salomão segue de muito perto os itinerários já desenhados com palavras. Dispenso-me de os sintetizar. A visita ao original será sempre mais proveitosa. Sobretudo se as vinhetas alinhadas em tiras e pranchas coloridas forem substituídas pelas linhas negras impressas nas páginas em branco dum livro a cheirar a tinta. Manias pessoais. Nada mais...