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6 de janeiro de 2023

A cavalgada dos Reis Magos

Carta de Juan de la Cosa
«Juan de la cosa la hizo en el puerto de S: mã en año de 1500»

Unida na diversidade, assim reza a divisa da UE, registada nas línguas oficiais dos países que lhe dão corpo. Em todo o espaço comunitário se festejam as principais datas do calendário cristão, mas cada um dos seus membros guarda a prerrogativa de o celebrar de modo especial. Atravessamos a raia portuguesa, e a multiplicidade de práticas ancestrais diferentes das nossas invadem-nos a cada momento. Testemunhei algumas dessas singularidades hispânicas, quando passei parte da quadra natalícia de 73/74 nos antigos reinos de Castela e Leão, com um especial realce para a importância ali dada à visita dos três Magos do Oriente ao recém nascido Menino Jesus em Belém da Nazaré.

Para a criançada, o momento crucial do Natal espanhol coincide com a chegada de Gaspar, Baltazar e Belchior carregados de presentes a distribuir por cada um dos membros da família. Tudo começa a 5 de janeiro à tarde, quando as principais vias das cidades se enchem com um grande desfile de boas vindas aos reais visitantes. Depois todos regressam a casa para uma ceia especial, no final da qual sucederá a noite mais longa do ano. Na manhã seguinte, a correria faz-se em direção ao local onde na véspera deixaram os sapatinhos à espera das ofertas que Suas Majestades ali terão deixado. O final das fiestas navideñas é então vivido com toda a pompa e circunstância devida.

Não cheguei a assistir à Cabalgata de Reys. A essa hora andava a cabalgar num Seat azul claro de não sei quantos cavalos e nenhum camelo entre Burgos e Salamanca. Participei todavia nesta cidade numa merienda familiar em Dia de Reis. Vi uma mesa cheia de turrones, hojaldres, mazapanes, mantecados y polvorones. Todos aqueles doces que dificilmente exibiríamos entre nós num 6 de janeiro, sem direito a feriado ou distribuição de prendas Fica-nos a tradição do bolo-rei ou rainha acompanhado dum cálice de vinho do porto. Ficou-me a memória o globo de navidad que um dos niños presentes me ofereceu a troco de lhe ter improvisado um cântico de natal português. Memória longínqua, memória presente. Só me esqueci do que terei cantado então.

TURRONES, HOJALDRES, MAZAPANES, MANTECADOS Y POLVORONES

6 de janeiro de 2022

Uma romã no Dia de Reis

A ROMÃ
Ana Hatherly
« Le symbolisme de la grenade relève de celui, plus général, des fruits à nom-breux pépins (cédrat, courge, orange). C'est, tout d'abord, un symbole de fécon-dité, de postérité nombreuse : dans la Grèce antique, elle est un attribut d'Héra et d'Aphrodite ; et, à Rome, la coiffure des mariées est faite de branches de grenadier. »
FRUTA DA ÉPOCA
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O primeiro dia do Ano Novo começa e termina sempre com uma dúzia de uvas passas, preparada na última noite do Ano Velho. Representam-se assim as doze badaladas da 1/2 noite e dá-se passagem de testemunho para o Ano Bom. Costuma ainda brindar-se com uma flûte de champagne ou de espumante. Em ambos os casos, a uva desidratada ao sol ou fermentada em cave é rainha e senhora, símbolo de prosperidade, fartura, longevidade, fertilidade e plenitude desejadas num novo ciclo renascido.

À falta de ouro, incenso e mirra requeridos pelos mitos e contramitos bíblicos neotestamentários, sobejam os frutos secos e cristalizados à mesa de Natal, Ano Novo e Reis. Figos, peras, cerejas e cascas de laranja a brilharem no bolo-rei a rivalizarem com as nozes, pinhões, avelãs e amêndoas do bolo-rainha. Representados também com maior ou menor protagonismo no panettone italiano, no christmas pudding britânico, na galette des rois gaulesa, no roscón de reyes hispânico ou no Apfelstrudel  germano-austríaco.

Ao que dizem as crenças ancestrais dos povos, o festival de fruta omnipresente nos dias de festa simboliza a prosperidade, a fartura, a longevidade, a fertilidade e a plenitude almejadas para todo o ano, máxime no render da guarda dum ciclo sazonal por outro. As castanhas calóricas dos troncos de natal e as ameixas conservadas em calda de açúcar a marcarem, umas e outras à sua maneira, um rito ancestral de mudança dos gelos invernais duma velhice final para a pureza primaveril duma juventude renovada.

No Dia de Reis a romã continua a reinar, não fosse ela (que eu saiba) o único fruto coroado à mesa, convertendo-se na rainha da festa, a rivalizar com os três reis magos do oriente e com o casal real em forma de bolo. Destronados ficam o melão e o ananás, muito embora possam fazer companhia como meros vassalos à rival da polpa vermelha, suculenta e granulada, personificação alegórica dos desejos sensuais, da imortalidade e da prosperidade. Que mais se poderia desejar dum fruto real numa mesa republicana.  

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6 de janeiro de 2021

Um casal real em forma de bolo


Bolo-Rei & Bolo-Rainha em Dia de Reis...

A concentração monárquica numa casa republicana faz-se no Dia de Reis, que hoje se celebra em honra dos míticos Baltazar, Gaspar e Belchior, os três reis magos que afinal não eram três, nem reis, nem magos. São Mateus refere-os no Evangelho (Mt 2, 1-12) que lhe é atribuído, sem os numerar e nomear. Mas essas minúcias pouco importam passados mais de dois milénios sobre a visita e ofertas dos sacerdotes orientais do zoroatrismo ao deus-menino, por si reconhecido como Messias prometido e futuro Rei de Israel, para grande desespero do Rei Herodes protegido de Roma. A história mais completa da tríada encontra-se referida n'A revelação dos magos, um manuscrito apócrifo siríaco, composto ao que parece no séc. Ⅱ, de que existe uma cópia do séc. Ⅷ no Vaticano já traduzido para inglês pelo académico norte-americano Brent Landau.

ouro, incenso e mirra que os três monarcas terão dado a Jesus de Nazaré recém-nascido estão nos dias de hoje representados simbolicamente nas frutas cristalizadas dispostas em grande quantidade no bolo-rei em forma de coroa, obrigatório na mesa nesta data, a fim de celebrar a derradeira festividade da quadra católica. Estarão também presentes na coroa menos colorida do bolo-rainha, criado ultimamente para as bocas mais temorosas dos excessos calóricos do açúcar. O casal real olha de relance os três reis magos colocados em posição de adoração no presépio armado com maior ou menor aparato num espaço privilegiado da casa. Já se apearam dos camelos que os transportaram desde o local onde se levanta o sol e avistaram a Estrela de Belém pela primeira vez, agora depositada no topo da Árvore de Natal que a acolheu.

6 de janeiro de 2020

O ouro, incenso e mirra dos Reis Magos

GREGÓRIO LOPES
«Adoração dos Reis Magos» (1539-1541)
[Museu Nacional de Arte Antiga - Lisboa]

Menino Jesus - Pai Natal - Reis Magos
No tempo em que o Menino Jesus descia pela chaminé para colocar os presentes no sapatinho ali posto, o Pai Natal ainda não trazia às mãos-cheias as prendas vindas diretamente dos centros comerciais e depositava na Árvore de Natal plantada na sala de estar a pouca distância da televisão.

Nos dias de hoje em que o Menino Jesus foi trocado pelo Pai Natal, as ofertas embrulhadas em papel colorido são abertas a toda a pres-sa logo a seguir à consoada, que o tempo urge e a curiosidade ex-perimentada por crianças e graúdos é incapaz de esperar pela manhã do dia seguinte.

Nesta tradição de inundar o Natal com os substitutos atuais ao ouro, incenso e mirra das eras bíblicas, falta as grandes superfícies pro-longarem estrategicamente a quadra com mais presentes, prendas e ofertas de todo o tamanho e feitio neste Dia de Reis, também ele vés-pera do Natal Ortodoxo...

6 de janeiro de 2017

Os magos do Oriente e o dia de Reis

GRÃO VASCO
«Adoração dos Reis Magos» (c. 1501-1506)

[Museu Nacional Grão Vasco - Viseu]
«Tendo nascido Jesus em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes, chegaram a Jerusalém uns magos vindos do Oriente. E perguntaram: "Onde está o rei dos Judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo." Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes perturbou-se e toda a Jerusalém com ele. E reunindo todos os sumos sacerdotes e escribas do povo, perguntou-lhes onde devia nascer o Messias. Eles responderam: "Em Belém da Judeia, pois assim foi escrito pelo profeta: E tu, Belém, terra de Judá, de modo nenhum és a menor entre as principais cidades da Judeia; porque de ti vi sair o Príncipe que há de apascentar o meu povo de Israel." Então Herodes mandou chamar secretamente os magos e pediu-lhes informações exatas sobre a data em que a estrela lhes tinha aparecido. E, enviando-os a Belém, disse-lhes: "Ide e informai-vos cuidadosamente acerca do menino; e, depois de o encontrades, vinde comunicá-mo para eu ir também prestar-lhe homenagem." Depois de ter ouvido o rei, os magos puseram-se a caminho. E a estrela que tinham visto no Oriente ia adiante deles, até que, chegando ao lugar onde estava o menino, parou. Ao ver a estrela, sentiram imensa alegria; e, entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se, adoraram-no; a, abrindo os cofres, ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra. Avisados em sonhos para não voltarem junto de Herodes, regressaram ao seu país por outro caminho.»
(Mt 2, 1-12)
A história é antiga e vem registada no Evangelho de São Mateus, com que abre o Novo Testamento. Em mais nenhum local do livro sagrado do monoteísmo cristão volta a ser referida. Mas como quem conta um conto acrescenta um ponto, os magos vindos do Oriente passaram a ser três, foram elevados à categoria de reis e começaram a chamar-se Gaspar, Melchior e Baltasar. Com o passar dos tempos, o mitologia católica finaliza a quadra natalícia com este episódio simbólico, celebrado no dia 6 de janeiro de todos os anos. 

Tão pouco nos é revelado o país de onde eram oriundos o que não inibiu a tradição de lhes atribuir uma etnia diferente. Dois  brancos e um negro. Afinal, África era tão ou mais exótica do que a própria Ásia. A imaginação renascentista de Grão Vasco (c1475 - c1542), deslocou um desses adoradores do menino para a terra há pouco descoberta dos Pataxó brasileiros, esse admirável mundo novo da América já rendido à nova fé messiânica. Assim urgia propagar aos quatro ventos para memória futura. E assim o foi e sem delongas...