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| CAROLE FORÊT Picnic at the Eifell Tower [Fine Art America, 2015] |
Em criança, as refeições ligeiras ao ar livre faziam-se a meio da tarde e ainda não eram designadas de piqueniques. Tinham lugar na Mata Real das Caldas da Rainha, num espaço especialmente preparado para o efeito e com o nome pomposo de Parque das Merendas. Também nos dispensávamos de estender as toalhas no chão e expor o farnel a todos os elementos de cada um dos grupos de crianças e adultos ali presentes. Havia mesas de pedra e bancos de madeira colocados em duas filas paralelas. No fundo do corredor assim formado, havia uma fonte à disposição de quem quisesse refrescar-se com a água fresca oriunda duma nascente local. Ainda me lembro do aqueduto que a transportava até nós mas já me esqueci da ementa preparada para o efeito. Umas fatias de pão com doce ou manteiga, uma bebida natural e uma peça de fruta. Depois brincávamos uns com os outros também já não sei bem a quê.
Quando me viciei na leitura dos Livros dos Cinco da Enid Blyton, fiquei fascinado com os lanches preparados pelo grupo, a que davam o nome sugestivo de piquenique. A nova palavra entrou de imediato no meu vocabulário e no dos meus primos que em tempo de férias nos juntávamos na Lourinhã a dois passos da praia da Areia Branca. De manhã apanhávamos banhos de mar e sol e à tarde rumávamos ao Pinhal Grande, situado a meio caminho entre a vila estremenha e o litoral atlântico. A imitação das sandwichs britânicas era improvisada com os ingredientes disponíveis à data nas mercearias locais. À falta dos fiambres e salames referidos, contentávamo-nos com umas sandes de chouriço e queijo, cercados de folhas de alface e rodelas de tomate, rematadas com uns ovos cozidos, umas tiras de cenoura crua e um sumo caseiro de fruta estival. As brincadeiras juvenis ganhavam então sentidos suplementares difíceis de descrever.
Com a chegada da idade adulta, as merendas, farnéis, merendas e piqueniques multiplicaram-se. Destaco os realizados em Sintra, nos embalses do Guadiana, à beira do Mont Saint-Michel, na Fôret de Brocéliande, no Parc Georges Brassens de Paris, no Jægersborg Dyrehave dinamarquês, no Killarney National Park irlandês do Kerry e até no St. James's Park de Londres. Aqui por baixo, as nascentes naturais da serra algarvia têm servido de palco privilegiado. Depois veio a pandemia, a estiagem e os incêndios e o piquenicar sazonal terminou abruptamente. A inércia instalada tem impedido que a toalha se tenha voltado a estender no chão e se encha das iguarias pantagruélicas usuais nestas ocasiões. As rillettes, os pâtés e os fromages franceses de mãos dadas com os pastéis de bacalhau, os rissóis e os croquetes portugueses deixaram de assinar o ponto há uma eternidade já. Dá para perguntar até quando assim será.


