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16 de abril de 2026

Olhares do Pai Tomás

Anónimo, Idealized view of a plantation in the 'Sunny South', with African Americans picking cotton (1883)
[Everett Historical Collection]

MISSISSÍPI

Ao longo de cem milhas, ou mais, a norte de Nova Orleães, o rio é mais alto do que as margens e o seu imenso caudal desliza entre diques maciços de mais de seis metros de altura. Do convés do vapor, como se habitasse um castelo flutuante, o viajante consegue abarcar toda a paisagem por milhas e milhas em redor. Dessa forma, nas extensas plantações que se desenrolavam diante dos seus olhos, uma após outra, Tom via estender-se um mapa da vida que o esperava. 

Via, ao longe, os escravos na sua labuta; via, mais distantes, em inúmeras plantações, os povoados de casebres dispostos em longas filas que reluziam à luz do sol, afastados das mansões imponentes e das zonas de ócio dos senhores; e enquanto este cenário animado se desenrolava, o seu pobre e insensato coração voltava a ver a herdade do Kentucky com as suas frondosas faias, a casa do senhor com os seus grandes e frescos aposentos e, logo ao lado, a pequena cabana coberta pela roseira brava e pela begónia. Conseguia ver os rostos familiares dos amigos, que haviam crescido com ele desde a infância; via a sua mulher atarefada com a preparação do jantar; ouvia as gargalhadas alegres dos filhos a brincar e o gorjeio do bebé nos seus joelhos; então, de súbito, tudo se desvanecia e ele via novamente os canaviais e os ciprestes e as plantações deslizando, e ouvia de novo o ronco e o ranger das engrenagens, e tudo lhe dizia, claramente, que essa fase da sua vida desaparecera para sempre.

Harriet Beecher Stowe, A cabana do Pai Tomás (1852)

11 de fevereiro de 2026

Fragmento entre fragmentos

Os jogos da macaca de Julio Cortazar

Morelliana.
¿Por qué escribo esto? No tengo ideas claras, ni siquiera tengo ideas. Hay jirones, impulsos, bloques, y todo busca una forma, entonces entra en juego el ritmo y yo escribo dentro de este ritmo, escribo por él, movido por él y no por eso que llaman el pensamiento y que hace la prosa literaria u otra. Hay primero una situación confusa, que sólo puede definirse en la palabra; de esa penumbra parto, y si lo que quiero decir (si lo que quiere decirse) tiene suficiente fuerza, inmediatamente se inicia el swing, un balanceo rítmico que me saca a la superficie, lo ilumina todo, conjuga esa materia confusa y el que la padece en una tercera instancia clara y como fatal: la frase, el párrafo, la página, el capítulo, el libro. Ese balanceo, ese swing en el que se va informando la materia confusa, es para mí la única certidumbre de su necesidad, porque apenas cesa comprendo que no tengo ya nada que decir. Y también es la única recompensa de mi trabajo: sentir que lo que he escrito es como un lomo de gato bajo la caricia, con chispas y un arquearse cadencioso. Así por la escritura bajo el volcán, me acerco a las Madres, me conecto con el Centro ‒sea lo que sea. Escribir es dibujar mi mandala y a la vez recorrerlo, inventar la purificación purificándose; tarea de pobre shamán blanco con calzoncillos de nylon.
Julio Cortázar. Rayuela (1963. cap. 82)

5 de dezembro de 2025

Garrett no rasto existencial de Camões

A índole deste poema é absolutamente nova; e assim não tive exemplar a que me arrimasse, nem norte que me seguisse Por mares nunca d'antes navegados.

Onde jaz, Portugueses, o moimento
Que do imortal cantor as cinzas guarda?
Homenagem tardia lhe pagastes
No sepulcro sequer... Raça d’ingratos!
Nem isso! nem um túmulo, uma pedra,
Uma letra singela! - A vós meu canto,
Canto de indignação, último acento
Que jamais sairá da minha lira,
A vós, ó povos do universo, o envio.
Ergo-me a delatar tamanho crime,
E eterna a voz me gelará nos lábios.
Lira da minha pátria onde hei cantado
O lusitano - envilecido - nome,
Antes que nesse escolho, em praia estranha,
Quebrada te abandone, este só brado
Alevanta final e derradeiro:
Nem o humilde lugar onde repoisam
As cinzas de Camões, conhece o Luso.

Dizem os manuais literários ter o Romantismo sido introduzido entre nós precisamente 200 anos. O feito é atribuído a Almeida Garrett, ao publicar anonimamente, na Livraria Nacional e Estrangeira de Paris, o poema lírico-narrativo de feição anticlássica CamõesO grande vulto das letras portuguesas oitocentistas encontrava-se à data exilado na capital francesa, perseguido pelo regime absolutista então vigente no país, explicando assim o caráter assumidamente clandestino da editio princepsvendida por subscrição pública, como sendo uma obra proibida dum autor proscrito. O prefácio que a acompanhava referia ter sido redigida em janeiro do ano anterior, impressa nos dois meses seguintes e saído dos prelos em forma de livro a 22 de fevereiro de 1525. Todavia, a visibilidade dos dez cantos em verso branco e notas clarificadoras, inspirados na etapa final de vida do aedo épico d'Os Lusíadas, só seria alcançada em datas  posteriores, correspondentes às reedições de 1839, 1844 e 1854, todas elas revistas e alteradas profusamente pelo seu criador.   

«A ação do poema é a composição e publicação dos Lusíadas; os outros sucessos que ocorrem são de facto episódicos, mas fiz por os ligar com a principal ação»Assim resume o jovem bardo em poucas palavras preambulares o tecido diegético orientador da sua crónica camoniana. Poucas mais poderíamos registar sem correr o risco de entrar abusivamente no corpo poético do testemunho prestado ao urdidor do livro matricial maior das letras nacionais. Digamos, mesmo assim, tratar-se de duas histórias paralelas, fautora da aproximação simbólica do destino nefasto de Camões ao de Garrett. O primeiro, ao regressar pobre a um país em crise profunda, em via de se perder na aventura insana de Dom Sebastião em Alcácer-Quibir (1578). O segundo, na condição de exilado na Europa, por motivos políticos provocados pela Vilafrancada (1823), a insurreição liderada pelo infante rebelde Dom Miguel.

Continuando sem abusar do transcrição de extratos mais ou menos longos de Garrett, é difícil de evitar a transcrição da declaração de princípios genéricos documentada na prefação à edição inaugural da obra, quando averte os potenciais leitores: «Não sou clássico nem romântico; de mim digo que não tenho seita nem partido em poesia (assim como em coisa nenhuma) e por isso me deixo levam minhas ideias boas ou más...». E assim terá feito, quando substitui o número fixo de versos por estrofe pelo variável do chamado parágrafo poético. A revolta individual do versejador contra as regras típicas do nova escola literária marca assim a sua presença não se inibindo, porém, de seguir o princípio isométrico da sucessão regular de decassílabos heroicos não rimados. Neste compromisso de conciliar a tradição greco-latina desenvolvida n'Os Lusíadas com as nascentes tendências europeias ensaiadas no Camões, o seu arquiteto imprime ao Poema o aspeto formal duma epopeia clássica com um conteúdo nacional romântico.

Entre as muitas tiradas pessoais dum eu enunciativo, proferidas por um narrador extradiegético identificado com o próprio autor, e um outro eu poético atribuído ao herói épico ficcionado, a evocação das vidas similares dum e doutro conduz-nos do primeiro ao derradeiro verso do texto semifactual/semifantasista, com um relevo especial a todos as prefações e notas de rodapé e final de livro. No ano em que se cumprem os 500 anos do nascimento de Luís de Camões, não deixa de ser curioso associá-lo ao bicentenário da publicação da obra que abriu as portas ao Romantismo literário no nosso país. Almeida Garrett não deixou nenhum escrito explícito a assinalar a coincidência destes dois eventos, a vinda ao mundo do Poeta em 1525 e a publicação do Poema a si dedicado em 1825. Mas, mesmo assim, não será demais assinalá-la agora, quando mais não seja para relembrar, através das letras, a memória de ambos, e enviá-la depois lá para o Parnaso, onde residem lado a lado com toda a honra e glória merecidas.       

23 de abril de 2025

Ditos dos livros no dia mundial dos livros


No hay libro tan malo que no tenga algo bueno...
Miguel de Cervantes, Don Quijote de la Mancha (2005, 2015; II, 3)

DIA  MUNDIAL  DO  LIVRO
Extratos em Contracorrente

Desvarío laborioso y empobrecedor el de componer vastos libros; el de explayar en quinientas páginas una idea cuya perfecta exposición oral cabe en pocos minutos. Mejor procedimiento es simular que esos libros ya existen y ofrecer un resumen, un comentario.

Jorge Luis Borges, El jardín de senderos que se bifurcan (1941)

What do the books say, he wonders. Oh, to scratch that itch, eh? Well, Montag, take my word for it, I've had to read a few in my time, to know what I was about, and the books say nothing! Nothing you can teach or believe. They're about non? existent people, figments of imagination, if they're fiction. And if they're non fiction, it's worse, one professor calling another an idiot, one philosopher screaming down another's gullet. All of them running about, putting out the stars and extinguishing the sun. You come away lost.
Ray Bradbury, Farenheit 45 (1953)

Spesso i libri parlano di altri libri. Spesso un libro innocuo è come un seme che fiorirà in un libro pericoloso o, all’inverso, è il frutto dolce di una radice amara. [...] Sino ad allora avevo pensato che ogni libro parlasse delle cose, umane o divine, che stanno fuori dai libri. Ora mi avvedo che non di rado i libri parlano di libri, ovvero è come si parlassero tra loro. [...] Il bene di un libro sta nell'essere letto. Un libro è fatto di segni che parlano di altri segni, i quali a loro volta parlano delle cose. Senza un occhio che lo legga, un libro reca segni che non producono concetti, e quindi è muto.

Umberto Eco, Il nome della rosa (1980)

L'écriture ne soulage guère. Elle retrace, elle délimite. Elle introduit un soupçon de cohérence, l'idée d'un réalisme. On patauge toujours dans un brouillard sanglant, mais il y a quelques repères. Le chaos n'est plus qu'à quelques mètres. Faible succès, en vérité.
Quel contraste avec le pouvoir absolu, miraculeux, de la lecture ! Une vie entière à lire aurait comblé mes vœux; je le savais déjà à sept ans. La texture du monde est douloureuse, inadéquate ; elle ne me paraît pas modifiable. Vraiment, je crois qu'une vie entière à lire m'aurait mieux convenu.

Michel Houellebecq, Extension du domaine de la lutte (1994)

As Luzes e a poesia salvaram-me, ao entornarem a doçura do mel do favo onde o fel e a raiva já haviam começado o seu trabalho devastador...

Habituei-me a ser criticada
por ler livros,
por falar de ciência, de política e de filosofia,
por saber inglês e latim,
por ter demasiadas Luzes para uma mulher. 
Alguns homens mais cultos chegaram a invocar Molière para me ridicularizarem.

Maria Teresa Horta, As luzes de Leonor (2011)

J. l. BORGES, R. BRADBURY, U. ECO, M. HOUELLEBECQ, M. T. HORTA

12 de fevereiro de 2025

Computadores: a mão luminosa de Deus na escrita do Decálogo no Monte Sinai

                 Left right human brain concept                 
«Nos dias que se seguiram ela quis que nos encontrássemos na Basic Sight. Fechámo-nos na sua sala e ela sentou-se ao computador, uma espécie de televisor com um teclado, muito diferente daquele que havia algum tempo mostrara a mim e às meninas. Carregou no botão de abertura, meteu retângulos escuros dentro de blocos cinzentos. Aguardei, perplexa. No ecrã apareceram soluços luminosos. Lila começou a bater no teclado, fiquei de boca aberta. Nada que se pudesse comparar a uma máquina de escrever, mesmo que fosse elétrica. Ela acariciava as teclas cinzentas, com as pontas dos dedos e o texto nascia no ecrã em silêncio, verde como erva acabadas de despontar. Aquilo que ela tinha na cabeça, agarrado a qualquer córtex do cérebro, parecia derramar-se para o exterior por milagre e fixar-se no nada do ecrã. Era potência  que apesar de passar pelo ato, continuava a ser potência, um estímulo eletroquímico que se transformava imediatamente em luz. Pareceu-me a escrita de Deus como ela devia ter sido no Sinai, no tempo dos mandamentos, impalpável e tremenda, mas com um efeito concreto de pureza.»
Elena Ferrante, História da menina perdida (2014) [Vol IV, cap. 101, pp.273-274]
No tempo em que os computadores se chamavam pomposamente cérebros eletrónicos e tinham o tamanho colossal duma casa, entrei pela primeira vez em contacto com o universo obscuro da cibernética. O meu batismo nesse universo inexplorado deu-se numa disciplina de informática que o antigo Instituto Comercial de Lisboa começara a ministrar nesses dias conturbados de vastas mudanças e eu ainda frequentava a contragosto. Viviam-se então os anos revolucionários dos cravos de abril, numa altura em que eu me preparava para trocar os números das contabilidades, economias e finanças pelas letras das línguas, literaturas e culturas clássicas e modernas.

Tudo nasceu numa mera sala de aulas do antigo edifício bizantino de traçado ortodoxo ali às Chagas, onde em tempos funcionara a embaixada russa dos czares. Era-nos proposto solver um problema de lana-caprina e esquematizar todas as fases da sua resolução através da representação gráfica num ordinograma devidamente submetido a um conjunto de símbolos normalizados, fornecidos pela linguagem Cobol. O diagrama esquemático explicativo da sequência de operações em curso era depois traduzida passo a passo em fórmulas matemáticas precisas, com recurso à numeração binária, em cartões perfurados confiados de seguida ao computador.

Quando me mudei de armas e bagagem para a Faculdade de Letras da Clássica, os personal computers ainda não estavam na moda. Bati todos os meus trabalhos académicos com o teclado HCESAR novinha em folha que nem sequer era elétrica. Outra realidade que a vindoura tornaria obsoleta. Só troquei o matraquear estrepitoso da máquina de escrever pelo processador silencioso de texto do meu primeiro comutador pessoal muito mais tarde, quando passei a frequentar a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Nova. Uma mutação épica indescritível, que me catapultou definitivamente da noite para o dia para o domínio eletrónico cósmico do luminoso digital.

O computador parecido com um televisor antigo, munido dum teclado como o das máquinas de escrever e dum apêndice de navegação chamado rato já desapareceram do meu horizonte de operações. Levaram consigo a enorme torre de armazenamento de dados e as disquetes de armazenamento de dados. me rendi à mobilidade dum portátil. Abençoadas ficções memorialistas mais ou menos autobiográficas postas ao dispor dos leitores, a ajudá-los a recordar as mudanças constantes do quotidiano que a anamnese real não regista. Reviver, v.gr., o esforço mental sentido em tempos para plasmar num fluxograma como fazer uma torrada ou fritar um ovo.

Cartão perfurado IBM não usado

9 de janeiro de 2025

Umberto Eco à maneira de Arcimboldo

ARCIMBOLDO
Pormenores da Primavera e de Rodolfo II de Habsburgo
[Paris, Musée du Louvre]

Este cálice pareceu-lhe a certa altura como que uma urna, e pensou que no meio daquelas rochas estaria inumado o cadáver do padre Gaspar. Já não visível, se a ação da água o havia primeiro revestido de macio coralino, mas os corais, absorvendo os humores terrestres daquele corpo, haviam tomado a forma de flores e frutos de jardim. Talvez dentro em pouco ele reconhecesse o pobre velho transformado numa criatura até então estrangeira ali em baixo, o globo da testa fabricado com um coco peluginoso, dois pomos passados a compor as bochechas, olhos e pálpebras tornados duas tâmaras amargas, o nariz de serralha verrugosa como o esterco dum animal; por baixo, no lugar de lábios, figos secos, uma beterraba com o seu ramo apical para o queixo, e um cardo rugoso em ofício de garganta; em ambas as têmperas duas casta-nhas com ouriço a fazer de farripas, e por orelhas as duas cascas duma noz aberta; com dedos, cenouras; de melancia o ventre; de marmelo os joelhos.

Umberto Eco, A ilha do dia antes (1994)

14 de novembro de 2024

A vida parcial de Ginés de Pasamonte

Eleazar, «Ginés de Pasamonte» (2005)

Cadena de galeotes que va a las galeras del rey...

Tras todos éstos venia un hombre de muy buen parecer, de edad de treinta años, sino que al mirar metia el un ojo en el otro un poco. Venía diferentemente atado que los demás, porque traía una cadena al pie, tan grande, que se la liaba por todo el cuerpo, y dos argollas a la garganta, la una en la cadena, y la otra de las que llaman guardamigo o pie-de-amigo, de la qual decendian dos hierros que llegaban a la cintura, en los cuales se asían dos esposas, donde lleuaua las manos, cerradas con un grueso candado, de manera que ni con las manos podía llegar a la boca, ni podía bajar la cabeza a llegar a las manos. Preguntó don Quijote que cómo iba aquel hombre con tantas prisiones más que los otros. Respondióle la guarda: porque tenia aquel solo más delitos que todos los otros juntos, y que era tan atrevido y tan grande bellaco, que, aunque le llevaban de aquella manera, no iban seguros dél, sino que temían que se les había de huir.
‒¿ Qué delitos puede tener ‒dijo don Quijote‒, si no han merecido más pena que echalle a las galeras?
‒Va por diez años ‒replicó la guarda‒, que es como muerte civil. No se quiera saber más sino que este buen hombre es el famoso Ginés de Pasamonte, que por otro nombre llaman Ginesillo de Parapilla.
‒Señor comisario ‒dijo entonces el galeote‒, vayase poco a poco, y no andemos ahora a deslindar nombres y sobrenombres; Ginés me llamo, y no Ginesillo, y Pasamonte es mi alcurnia, y no Parapilla, como voacé dize; y cada uno se dé una vuelta a la redonda, y no hará poco.
‒Hable con menos tono ‒replicó el comisario‒, señor ladrón de más de la marca, si no quiere que le haga callar, mal que le pese.
‒Bien parece ‒respondió el galeote‒ que va el hombre como Dios es servido; pero algún día sabrá alguno si me llamo Ginésillo de Parapilla o no.
‒Pues ¿no te llaman ansí, embustero? ‒dijo la guarda.
‒Sí llaman ‒respondió Ginés‒; “más yo haré que no me lo llamen, o me las pelaría donde yo digo entre mis dientes. Señor caballero, si tiene algo que darnos, dénoslo ya, y vaya con Dios, que ya enfada con tanto querer saber vidas ajenas; y si la mia quiere saber, sepa que yo soy Ginés de Pasamonte, cuya vida está escrita por estos pulgares.
‒Dize verdad ‒dijo el comissario‒; que él mesmo ha escrito su historia, que no ay más, y deja empeñado el libro en la carcel en
docientos reales.”
‒Y le pienso quitar ‒dijo Ginés‒ si quedara en docientos ducados.
‒¿ Tan bueno es? ‒dijo don Quijote.
‒Es tan bueno ‒respondió Ginés‒, que mal año para Lazarillo de Tormes y para todos cuantos de aquel género se han escrito o escribieren. Lo que le sé decir a voacé es que trata verdades, y que son verdades tan lindas y tan donosas, que no puede haber mentiras que se le igualen.
‒Y¿cómo se intitula el libro? ‒preguntó don Quijote.
La vida de Ginés de Pasamonte ‒respondió el mismo.
‒Y ¿está acabado? ‒preguntó don Quijote.
‒¿Cómo puede estar acabado ‒respondió el‒, si aún no está acabada mi vida? Lo que está escrito es desde mi nacimiento hasta el punto que esta última vez me han echado en galeras.
‒Luego ¿otra vez habéis estado en ellas? ‒dijo don Quijote.
‒Para servir a Dios y al rey, otra vez he estado cuatro años, y ya sé a que sabe el biscocho y el corbacho ‒respondió Ginés‒; y no me pesa mucho de ir a ellas, porque alli tendré lugar de acabar mi libro; que me quedan muchas cosas que decir, y en las galeras de España hay más sosiego de aquel que sería menester, aunque no es menester mucho más para lo que yo tengo de escribir, porque me lo sé de coro.
‒Habil pareces ‒dijo don Quijote.
‒Y desdichado ‒respondió Ginés‒; porque siempre las desdichas persiguen al buen ingenio.
Miguel de Cervantes, Don Quijote de la Mancha (Madrid, 1605; I, 22)

13 de outubro de 2024

Nacionalismos & Patriotismos

On a trop souvent tendance à rapprocher les deux attitudes, et à considérer que le nationalisme est une forme accentuée du patriotisme. En ce temps-là - et sans doute à d'autres époques aussi - la vérité était tout autre : le nationalisme était exactement le contraire du patriotisme. Les patriotes rêvaient d'un Empire où coexisteraient des peuples multiples, parlant diverses langues et professant diverses croyances, mais unis par leur commune volonté de bâtir une vaste patrie moderne qui insufflerait aux principes prônés par l'Occident la sagesse subtile des âmes levantines. Les nationalistes, eux, rêvaient de domination totale quand ils appartenaient à l'ethnie majoritaire, et de séparatisme quand ils appartenaient aux communautés minoritaires ; l'Orient misérable d'aujourd'hui est le monstre né de leurs rêves conjugués.
Amin Maalouf, Origines (2004)

29 de julho de 2024

Histórias do Fim do Mundo de Murakami

map Haruki Murakami
THE MAP OF END OF THE WORLD
Town map based on Haruki Murakami's novel
Hard-Boiled Wonderland and the End of the World
世界の終りとハードボイルド・ワンダーランド


BURACO PURO

– Para que serve aquele buraco? – perguntei ao Coronel.

– Para nada respondeu, enquanto levava a colher à boca. Estão a cavar por cavar. Nesse sentido, trata-se de um buraco puro.

– Não percebo.

– É muito simples. Apeteceu-lhes fazê-lo, é a única razão.

Mastiguei o pão enquanto refletia naquela ideia de buraco puro.

– De vez em quando, cavam um buraco explicou o ancião. Pode bem ser que, no fundo, se compare à minha paixão pelo xadrez. Não tem sentido, não leva a lado nenhum, mas isso não interessa nada. Aqui, nós abrimos um buraco atrás do outro. São atos sem finalidade, esforços sem progresso, passos que não conduzem a lado nenhum. Não achas maravilhoso? Ninguém fica ferido, ninguém fere ninguém. Ninguém passa à frente de ninguém ou fica para trás. Sem vitória, sem derrota.

– Acho que percebo.

O ancião, depois de assentir várias vezes com a cabeça, inclinou o prato e recolheu o último pedaço de estufado. 

–Talvez haja na Cidade coisas que te pareçam estranhas. Mas, para nós, é tudo muito natural. Natural, puro e pacífico. Tenho a certeza de que, um dia, tu também o compreenderás. Espero que sim. Fui militar durante muito tempo, e não me arrependo. A meu modo, tive uma vida feliz. O cheiro a pólvora e a sangue, o relampejar dos sabres, o toque dos clarins: ainda hoje recordo tudo isso muitas vezes. Contudo, não consigo recordar-me do que nos empurrava para a luta: a honra, o patriotismo, a combatividade, o ódio, esse tipo de coisas. Neste momento, talvez tenhas medo de perder o teu coração. Eu também receei pelo meu. Não tens de te envergonhar disso. – Interrompeu-se por instantes, à procura de palavras, com o olhar vago. No entanto, quando perderes o teu coração, a tua alma encontrará a paz. Uma paz tão profunda como nunca sentiste. Lembra-te do que te digo.

Assenti em silêncio.

Haruki Murakami, O impiedoso país das maravilhas e o fim do mundo (Lx: CdL,1985. 30: 449-450)

20 de junho de 2024

O Orlando de Virginia Woolf visto por Lídia Jorge n'O Belo Adormecido

QUANDO A LITERATURA FALA DE LITERATURA...

Começamos a ler um conto e este remete-nos uma e outras vezes para um romance que desconhecíamos e cuja intriga resumida nos convida a visitar o original. Assim se passa das palavras de Lídia Jorge n'O belo adormecido (2004) para a tessitura narrativa de Virgínia Woolf no Orlando (1928).

Acontece na vida dos atores, mesmo aqueles cuja intimidade não se torna matéria universal da intriga dos magazines. Acontece. Tudo isso porque me tinham proposto e eu havia aceitado desempenhar o papel do único personagem colhido da Literatura, que vive durante vários séculos, que a meio do percurso muda de sexo, modos e trejeitos e fatos, meios de transportes e palácios, e procede a todas essas mudanças através de um striptease mental mirabolante, praticado diante de toda a gente. Isto é, eu iria ser Orlando, ele mesmo.

A personagem que eu representava invocava a Grande Geada que se abatera sobre a Inglaterra, na altura em que Orlando era moço. A tirada referia o momento em que a corte inglesa fora para Greenwich e o rio gelado pudera ser varrido com vassouras como se fosse o soalho dum palácio. Sobre o rio patinava uma princesa russa com título Romanovitch, a linda Sacha, da qual eu, jovem ardente me enamorava. Era o início do século dezassete britânico. [...Estava eu, precisamente, a repetir palavras, embrulhada na cama de rede, a decorar a passagem em que a personagem invocava o momento em que o Tamisa, iluminado pelos archotes, mostrava silhuetas dos peixes congelados no interior da sua massa de água solidificada, podendo os príncipes e as princesas de todas as nações patinar por cima, e eu, que não era príncipe mas lorde, encontrava-me precisamente nesse transe de ser jovem lorde patinador, quando me tinha apercebido de que da realidade surgia uma sombra.

Por mim, poderia garantir à pessoa que me esperava no Salão do Ritz, que por aqueles dias o meu melhor divertimento tinha consistido em decorar o meu papel, estando a personagem que me era cara cada vez mais volátil e mais densa, a aproximar-se, de hora a hora, da configuração burlesca para a qual fora concebida, feita de propósito para pulverizar a identidade e a História, e eu pronta para a interpretar. Dez folhas daquelas já eu fora capaz de reproduzir, de olhos fechados, e agora eu abria a janela que dava para o poito de cimento o seu guarda-sol aberto, e prosseguia como se estivesse mudando de sexo, passando de homem a mulher, fora do lugar e do tempo ‒ «Damas, cavalheiros, despertei. Que as trombetas digam a verdade. Verdade, verdade, verdade, estou nu na vossa frente…»

Mal olhava para os papéis, o tempo fazia-se outrora, eu passava a ser um jovem lorde inglês transformado em lady, e decorava o meu papel de mulher recente, agora amante de um homem, tendo de proferir frases retumbantes, a propósito da cerimónia do meu casamento ‒ «Eu chamei por ele, ele chamou por mim, e as nossas palavras subiram e giraram como falcões bravios por entre os campanários…». Diria eu pela minha personagem, tanto ela quanto o meu marido, ambos para sempre e definitivamente ambíguos, pois apenas uma célula, quando muito célula e meia, nos distinguia em matéria de ser e sexo.

Fechei os olhos, entregue à personagem que me levava agora pelas longínquas estradas de gravilha rasgadas ao longo dos prados das Ilhas Britânicas, gares ogivais do fim do século dezanove, automóveis pioneiros do século vinte, estava agarrada  ao soalho, a medir a cintura e a barriga das pernas, estava como deve estar uma profissional de teatro atenta, dominada, cumprindo um programa por objetivos, etapa após etapa. Completamente lúcida.

Eu duvidava, porém, que as palavras que Martim havia recolhido do filme da Tilda para rematar as minhas falas de quatrocentos anos, fossem adequadas para encerrar o século vinte de Orlando. Diria eu, de calção pelo joelho ‒ «Nem senhoras nem senhores. Estou entre a vida e a morte, entre o princípio e o fim. Não sou homem, nem mulher… Já estou começando outro início e ainda nem terminei este fim Estou entre a vida e a morte» [...] Eu preferia que se regressasse, de facto, àquele ano de mil novecentos e vinte e oito, metade da personagem voasse no aeroplano, e a outra metade mostrasse os seios à lua e tivesse um colar de pérolas que ardesse na escuridão, conforme o original, e os dois fossem só um, que por instantes da vida se separavam. Para quê separar o que era de Orlando?

Lídia Jorge, O belo adormecido (Lisboa: Dom Quixote, 2004, pp. 15, 32-33, 40, 56, 63, 68-69)

Tilda Swinton no écran (1992) & Isabelle Huppert no palco (1993)

22 de maio de 2024

Seis autores, seis obras, seis aberturas

SEIS NOMES POR ORDEM ALFABÉTICA
Hélia Correia - João Aguiar - José Saramago - Lídia Jorge - Maria Velho da Costa - Mário de Carvalho

A assinalar o Dia do Autor Português

1. Hélia Correia, Montedemo (1983)

Mais tarde alguns lembraram que tudo começou naquele domingo seco em que a terra tremeu. Coisa sem importância, num instante seco sentida noutro instante acalmada, nem mesmo Irene a tonta pensou que lhe servisse de mote em pregaçãoUm tremor ligeirinho no afrouxar da noite, hora de moribundos e de bêbedos, todos pensando que se balouçavam em líquidos maternos, quentes e protetores. Os outros, muito poucos, que estavam acordados: mulheres suspensas do tossir das crias, velhos apunhalados por insónias, tinham ficado em dúvida se fora realmente o chão que se ondeara numa sacudidela ou se tontura provocada por um sangue de repente engrossado ao de cima dos olhos. O padre chegou mesmo a confessar que achara muito estranho terem tocado os sinos apenas com aquele abanãozico. Mas a manhã nasceu radiosa e gelada, e o próprio mar parecia tão sem peso, tão dançarino e limpo de pecado que o assunto passou ao esquecimento.

2. João Aguiar, Navegador solitário (1996)

Eu hoje faço quinze anos mas era melhor que não os fizesse. Tive um dia lixado e pra começar o meu velho obrigou-me a trabalhar no restaurante a servir os almoços e eu nunca gosto de lá trabalhar mas no dia dos anos é pior que nos outros dias e depois a velha não me deixou sair à noite com o Angelino e a outra malta porque apareceram visitas e no fim de tudo ainda tive de começar a escrever esta merda de diário ou lá como lhe chamam e eu não gosto nada de escrever não me importo de ler porque há a Bola e há os livros de caubóis mas escrever isso é mesmo contra vontade porque é uma chatice e a gente ainda tem de pôr vírgulas mas eu vírgulas não vou nessa não ponho que se lixe.

3. José Saramago, Memorial do convento (1982)

D. João, quinto do nome na tabela real, irá esta noite ao quarto de sua mulher, D. Maria Ana Josefa, que chegou há mais de dois anos da Áustria para dar infantes à coroa portuguesa e até hoje ainda não emprenhou. se murmura na corte, dentro e fora do palácio, que a rainha, provavelmente, tem a madre seca, insinuação muito resguardada de orelhas e bocas delatoras e que só entre íntimos se confia. Que caiba a culpa ao rei, nem pensar, primeiro porque a esterilidade não é mal dos homens, das mulheres sim, por isso são repudiadas tantas vezes, e segundo, material prova, se necessária ela fosse, porque abundam no reino bastardos da real semente e ainda agora a procissão vai na praça. Além disso, quem se extenua a implorar ao céu um filho não é o rei, mas a rainha, e também por duas razões. A primeira razão é que um rei, e ainda mais se de Portugal for, não pede o que unicamente está em seu poder dar, a segunda razão porque sendo a mulher, naturalmente, vaso de receber, há de ser naturalmente suplicante, tanto em novenas organizadas como em orações ocasionais. Mas nem a persistência do rei, que, salvo dificultação canónica ou impedimento fisiológico, duas vezes por semana cumpre vigorosamente o seu dever real e conjugal, nem a paciência e humildade da rainha que, a mais das preces, se sacrifica a uma imobilidade total. depois de retirar-se de si e da cama o esposo, para que se não perturbem em seu gerativo acomodamento os líquidos comuns, escassos os seus por falta de estímulo e tempo, e cristianíssima retenção moral, pródigos os do soberano, como se espera de um homem que ainda não fez vinte e dois anos, nem isto nem aquilo fizeram inchar até hoje a barriga de D. Maria Ana. Mas Deus é grande.

4. Lídia Jorge, O dia dos prodígios (1980)

Um personagem levantou-se e disse. Isto é uma história. E eu disse. Sim. É uma história. Por isso podem ficar tranquilos nos seus postos. A todos atribuirei os eventos previstos, sem que nada sobrevenha de definitivamente grave. Outro ainda disse. E falamos todos ao mesmo tempo. E eu disse. Seria bom para que ficasse bem claro o desentendimento. Mas será mais eloquente. Para os que creem nas palavras. Que se entenda o que cada um diz. Entrem devagar. Enquanto um pensa, fala e se move, aguardem os outros a sua vez. O breve tempo de uma demonstração.

5. Maria Velho da Costa, Casas pardas (1977) 

Que lindo dia, que lindo dia, margaridinhas de olho de oiro palmeirando mínimas os canteiros na berma da rua, tráfego, gentes, tudo vestido de roupa lavada, do bruto azul das nove, pressa limpa, pressa boa, deixai-me em paz e ao meu passo manso, cabeça azoada de vozes de toda a noite fechada a ver se aprendo, leixai toda a esperança de onde vos tendes lavado e para onde ides, fugidos, correntes e determinados, ganhá-lo, ganhá-lo, ‒ ganho, se o houver para mim, será aqui nesta clareza do não cegado de saltos de retina entre as noites cerradas, || Era já noite cerrada dizia o filho p’ra mãe debaixo daquela arcada passava-se a noite bem, Canta o resto, canta Lala, Agora, Zizinha, deixe-me as fitas do avental, credo, que seca, olhe a sua mãezinha que vem lá, O pai deixa, || E esta ovação clara do dia passar passando, passo leve e ar já quente, rudo tão recorte contra azul, o peito aliviado, a vista ardente a ver exatíssimo contorno de tudo, prédios, este rosa de tinta esgarçada com varandas, verde aquele pintado agora, e os elétricos que são a cor da cidade que agride, amarela a tinir a esta minha hora visionária do visível, carregadora ambulante do sétimo sentido que é o ouvido-dizer, Há num carro de bois que atravessa a cidade com hortaliça todas as madrugadas, há, disse o Amigo.

6. Mário de Carvalho, «Ignotus Deus» IN A inaudita guerra da avenida Gago Coutinho (1983)

Na semana de Pentecostes, faleceu quase toda a irmandade, de uma morte serena, mui natural. Os mais dos frades deixaram a vida com um sorriso suave, o corpo tranquilo expelindo fragrâncias olorosas. Aos dois sobreviventes, Frei Abel e Frei Domingos, nem roçou suspeita de epidemia, perante uma morte assim tão simples, tão sem sofrer. Fora servido o Senhor chamar a si os seus servos, e com brandura o fez, concedendo-lhes um trespasse em santidade, sem convulsões e sofrimentos das carnes e das almas, que cilícios e penitências e disciplinas haviam já macerado avonde.