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| Albert Samuel Anker „Die Dorfschule von 1848“ |
«Quando fui para a escola do Largo do Leão, a professora da segunda classe, que ignorava até onde o recém-chegado teria acedido no aproveitamento das matérias dadas e sem qualquer motivo para esperar da minha pessoa quaisquer assinaláveis sabedorias (reconheça-se que não tinha obrigação de pensar outra coisa), mandou-me sentar entre os mais atrasados, os quais, por virtude da disposição da sala, ficavam numa espécie de limbo, à direita da professora e de frente para os adiantados que deviam servir-lhes de exemplo.»José Saramago, As pequenas memórias (2006)
Quando entrei na escola primária do Bairro da Ponte, a disposição da sala já apresentava um aspeto mais moderno do que o pintado por Albert Samuel Anker, num quadro de época de meados de oitocentos, ou do que o descrito por José Saramago n'As pequenas memórias (2006), ocorridas no primeiro quartel de novecentos. Em vez da ocupação algo desordenada da sala de aulas suíça, ou da repartição portuguesa dos alunos nos grupos dos adiantados e dos atrasados, o espaço pedagógico que me foi dado frequentar já considerava a existência duma categoria intermédia, a fila dos assim-assim, colocada como fronteira natural intransponível entre a fila dos bons e a fila dos burros.
Sentei-me sempre na primeira carteira da fila dos meninos que não eram nem muito bons nem muito maus. Vestiam-se com o conforto que a estação exigia. Sandálias no tempo quente e botas no tempo frio. Não tinham de engraxar os sapatos todos os dias como os colegas que se sentavam junto às janelas, mesmo em frente da secretária do professor, ou de andarem descalços o ano inteiro, como os encostados à parede da parte mais escura da sala. À frente dos remediados, só se via o quadro negro, apagador e giz, um crucifixo com uma jarra de flores aos pés e os retratos muito bem alinhados do Senhor Presidente de Conselho de Ministros e de Sua Excelência o Chefe de Estado.
No dia em que não identifiquei os retratados da parede pelos nomes completos que lhes eram devidos, apanhei o primeiro par de reguadas punitivas do percurso escolar. Só mais tarde percebi a razão do castigo. Salazar e Thomaz foram dois nomes que nunca mais deixaram de ocupar os meus pensamentos mais sombrios. Ainda hoje evito pronunciá-los sem uma razão muito concreta para o fazer. Aprendi então que nem sempre se devem chamar os bois pelos nomes próprios. Há sempre um ou outro apelido à disposição para os substituir. Tarde demais. Na altura aprendi também o verdadeiro significado do provérbio popular que reza à gerações ser a palavra de prata e o silêncio de ouro.
Soube há pouco que o professor que me acompanhou nas quatro classes da primária morrera num acidente de viação, não sei se há muito se há pouco tempo. Não voltarei a vê-lo numa das minhas cada vez mais raras visitas às Caldas da Rainha. Durante algum tempo ainda pensei poder reencontrá-lo num qualquer recanto do velho burgo estremenho. Rever aquele a quem as más línguas apelidavam de Manequim Inglês que tanto dava umas reguadas e ponteiradas a preceito quando para aí estava voltado como dava dava aos intervalos uns toques na bola com os sapatos engraxados de ir à missa, sem despir o fato completo príncipe de gales ou tirar a gravata de seda de estampado colorido.
