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3 de março de 2026

Trilogia épica lusitana

A epopeia e a tragédia concordam somente em serem, ambas, imitação de ho-mens superiores, em verso; mas difere a epopeia da tragédia, pelo seu metro único e a forma narrativa. E também na extensão, porque a tragédia procura, o mais que é possível, caber dentro dum período de sol, ou pouco excedê-lo, po-rém a epopeia não tem limite de tempo – e nisso diferem, ainda que a tragédia, ao princípio, igualmente fosse ilimitada no tempo, como os poemas épicos.
Aristóteles, Poética. Ed. Eudoro de Sousa. Lisboa: IN-CM, 1994.
[1449b 9-16; cap. v, §24, p. 10]

Uma Epopeia (gr. εποποιία) é, em termos etimológicos, um conjunto de Epos (gr. επος), i.e., uma sucessão de relatos orais mais ou menos autónomos e de origem lendária, ligados por um fio condutor comum. As poéticas deram-lhe depois outros sentidos, baseados todos em maior ou menor grau na visão que lhe foi conferida por Aristóteles. Com um conjunto de episódios protagonizados pelo 5.º rei da 1.ª dinastia suméria de Uruk, compuseram os acádios as 12 placas cuneiformes que até nós chegaram do Gilgameš. O mesmo fez Homero em grego com a Ilíada e a Odisseia e Virgílio em latim na Eneida, bem como muitos outros poetas-cantores em datas posteriores nos mais diversos idiomas.

Camões terá sido o mais fiel continuador da tradição épica antiga. Cavalga à sua maneira o modelo greco-romano e adapta-o à realidade lusitana. Ultrapassa o longo hiato medieval e renasce com todo o esplendor nos tempos modernos, que ajudou a moldar e perpetuar. Os descendentes míticos de Heleno são substituídos pelos de Luso, o Eneias troiano sai de cena e o Gama lusitano ocupa toda a ribalta n'Os Lusíadas. O obreiro do quarto império apaga-se no horizonte mediterrânico e o fundador do quinto império instala-se no grande mar oceano atlântico, índico e pacífico. Os barões assinalados da ocidental praia lusitana transformam-se em heróis coletivos triunfantes a nível global.

Os criadores das Epopeias em Verso abrem as portas às Epopeias em Prosa, a que passámos a chamar Novelas e Romances. A cultura helenística consagrou-as aos amores e aventuras dum jovem casal de protagonistas. Ao invés, Petrónio prefere converter esses heróis exemplares em verdadeiros anti-heróis acabados no Satíricon, numa crítica cerrada aos costumes e à política romana do seu tempo. As aventuras/desventuras vividas por Fernão Mendes Pinto no Oriente são arroladas na Peregrinação, substituindo os heróis com nome da epopeia clássica camoniana pela arraia-miúda anónima, sem a qual os nomeados pelo vate consagrado seriam  sequer lembrados pelos anais oficiais.

O rio da literatura tem sido pródigo em fazer sulcar nas suas águas os relatos épicos das grandes navegações realizadas pelos muitos nautas que as efetuaram e dos naufrágios que as acompanharam. Assim ocorreu no regresso de Ulisses a Ítaca ou nas tópicas viagens dos peregrinos centrais da ficção diegética greco-bizantina. Vitoriosos todos eles tiveram os fados mais a seu favor do que o sem-número de embarcados tragados pela fúria dos mares nos domínios imperiais da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia. Muitos deles são referidos nos doze relatos compilados por Bernardo Gomes de Brito na História Trágico-Marítima. E assim a trilogia épica lusitana se fez: heroica, peregrina e dramática.  

Luís de Camões, Os Lusíadas (1572) - Fernão Mendes Pinto, Peregrinação (1614)
Bernardo Gomes de Brito, História Trágico-Marítima (1735-1736)

5 de dezembro de 2025

Garrett no rasto existencial de Camões

A índole deste poema é absolutamente nova; e assim não tive exemplar a que me arrimasse, nem norte que me seguisse Por mares nunca d'antes navegados.

Onde jaz, Portugueses, o moimento
Que do imortal cantor as cinzas guarda?
Homenagem tardia lhe pagastes
No sepulcro sequer... Raça d’ingratos!
Nem isso! nem um túmulo, uma pedra,
Uma letra singela! - A vós meu canto,
Canto de indignação, último acento
Que jamais sairá da minha lira,
A vós, ó povos do universo, o envio.
Ergo-me a delatar tamanho crime,
E eterna a voz me gelará nos lábios.
Lira da minha pátria onde hei cantado
O lusitano - envilecido - nome,
Antes que nesse escolho, em praia estranha,
Quebrada te abandone, este só brado
Alevanta final e derradeiro:
Nem o humilde lugar onde repoisam
As cinzas de Camões, conhece o Luso.

Dizem os manuais literários ter o Romantismo sido introduzido entre nós precisamente 200 anos. O feito é atribuído a Almeida Garrett, ao publicar anonimamente, na Livraria Nacional e Estrangeira de Paris, o poema lírico-narrativo de feição anticlássica CamõesO grande vulto das letras portuguesas oitocentistas encontrava-se à data exilado na capital francesa, perseguido pelo regime absolutista então vigente no país, explicando assim o caráter assumidamente clandestino da editio princepsvendida por subscrição pública, como sendo uma obra proibida dum autor proscrito. O prefácio que a acompanhava referia ter sido redigida em janeiro do ano anterior, impressa nos dois meses seguintes e saído dos prelos em forma de livro a 22 de fevereiro de 1525. Todavia, a visibilidade dos dez cantos em verso branco e notas clarificadoras, inspirados na etapa final de vida do aedo épico d'Os Lusíadas, só seria alcançada em datas  posteriores, correspondentes às reedições de 1839, 1844 e 1854, todas elas revistas e alteradas profusamente pelo seu criador.   

«A ação do poema é a composição e publicação dos Lusíadas; os outros sucessos que ocorrem são de facto episódicos, mas fiz por os ligar com a principal ação»Assim resume o jovem bardo em poucas palavras preambulares o tecido diegético orientador da sua crónica camoniana. Poucas mais poderíamos registar sem correr o risco de entrar abusivamente no corpo poético do testemunho prestado ao urdidor do livro matricial maior das letras nacionais. Digamos, mesmo assim, tratar-se de duas histórias paralelas, fautora da aproximação simbólica do destino nefasto de Camões ao de Garrett. O primeiro, ao regressar pobre a um país em crise profunda, em via de se perder na aventura insana de Dom Sebastião em Alcácer-Quibir (1578). O segundo, na condição de exilado na Europa, por motivos políticos provocados pela Vilafrancada (1823), a insurreição liderada pelo infante rebelde Dom Miguel.

Continuando sem abusar do transcrição de extratos mais ou menos longos de Garrett, é difícil de evitar a transcrição da declaração de princípios genéricos documentada na prefação à edição inaugural da obra, quando averte os potenciais leitores: «Não sou clássico nem romântico; de mim digo que não tenho seita nem partido em poesia (assim como em coisa nenhuma) e por isso me deixo levam minhas ideias boas ou más...». E assim terá feito, quando substitui o número fixo de versos por estrofe pelo variável do chamado parágrafo poético. A revolta individual do versejador contra as regras típicas do nova escola literária marca assim a sua presença não se inibindo, porém, de seguir o princípio isométrico da sucessão regular de decassílabos heroicos não rimados. Neste compromisso de conciliar a tradição greco-latina desenvolvida n'Os Lusíadas com as nascentes tendências europeias ensaiadas no Camões, o seu arquiteto imprime ao Poema o aspeto formal duma epopeia clássica com um conteúdo nacional romântico.

Entre as muitas tiradas pessoais dum eu enunciativo, proferidas por um narrador extradiegético identificado com o próprio autor, e um outro eu poético atribuído ao herói épico ficcionado, a evocação das vidas similares dum e doutro conduz-nos do primeiro ao derradeiro verso do texto semifactual/semifantasista, com um relevo especial a todos as prefações e notas de rodapé e final de livro. No ano em que se cumprem os 500 anos do nascimento de Luís de Camões, não deixa de ser curioso associá-lo ao bicentenário da publicação da obra que abriu as portas ao Romantismo literário no nosso país. Almeida Garrett não deixou nenhum escrito explícito a assinalar a coincidência destes dois eventos, a vinda ao mundo do Poeta em 1525 e a publicação do Poema a si dedicado em 1825. Mas, mesmo assim, não será demais assinalá-la agora, quando mais não seja para relembrar, através das letras, a memória de ambos, e enviá-la depois lá para o Parnaso, onde residem lado a lado com toda a honra e glória merecidas.       

29 de abril de 2025

Sófocles, a cegueira e a clarividência trágicas do rei Édipo de Tebas

Jean-Auguste-Dominique Ingres
Œdipe explique l'énigme du sphinx - 1808
ΟΙΔΙΠΟΥΣ
Τέκνα του Κάδμου του παλιού γενεά νέα, τι συναγμένοι κάθεσθε σ’ αυτούς τους τόπους, με τα κλαδιά της ικεσίας στεφανωμένοι; Και η πόλις είν’ από θυμιάματα γεμάτη, και αντιλαλεί από στεναγμούς κι από παιάνας; Αυτά εγώ απ’ το στόμα να μάθω θέλοντας, κι όχι απ’ το στόμα των μαντατοφόρων ο πολυφήμιστος ήλθα εδώ πέρα Οιδίπους. Λέγε μου ωστόσο γέροντα που σου ταιριάζει πρώτα απ’ τους άλλους να μιλής: η αιτία ποια να ’νε που ήλθατ’ εδώ στεφανωτοί με δάφνης κλώνους; Για ένα κακό που πάθατε ή μήπως γι’ άλλο που προσδοκάτε; πρόθυμος να σας βοηθήσω. Γιατί θενά ήμουν άσπλαχνος αν δεν λυπούμουν αξιολύπητους όπως εσάς ικέτας.

Repete a sabedoria popular milenar que Édipo matou o pai e casou com a mãe. Assimnem mais nem menos, sem esclarecer muito bem a razão de tal insólito. Sigmund Freud encargou-se de clarificar essa dupla singularidade com a formulação do popular complexo centrado na figura do rei/tirano de Tebas, protagonista da tradição lendária grega antiga. Mais abrangente seria o saber do público ateniense contemporâneo dessas histórias pretéritas do que a dominada pelos espetadores/leitores atuais, a ponto de dispensar a menção a alguns eventos significativos ocorridos em data anterior aos representados no drama. Sabia, v.g., ter Laio raptado Crísipo, tendo por isso sido maldito por Pélops e punido por Zeus. O castigo seria executado pelo próprio filho do violador das leis da hospitalidade, que lhe tiraria acidentalmente a vida e desposaria a viúva. Todos os antecedentes causadores do desenlace funesto são de seguida revelados pelas falas ditas pelas vozes em cena no Prólogo, Párodo, Episódios, Estásimos e Êxodo, compostos por Sófocles no Rei Édipo (415 AEC), certamente a mais famosa tragédia ática que até nós chegou.

Às omissões já referidas, haverá que acrescentar os episódios que levaram à morte do velho tirano de Tebas e ao entronamento do novo, tal como do seu passado remoto e enlace com a rainha viúva. É que tanto o público dos festivais dionisíacos urbanos da primavera e dos leneus rurais de inverno, como das Paneteneias quadrienais, sabia perfeitamente que o protagonista havia sido abandonado à nascença, adotado pelos reis de Corinto e tirado fortuitamente a vida ao pai biológico numa rixa travada num cruzamento de caminhos estreitos da Beócia. A tragédia de Sófocles centra-se, precisamente, no processo de autognose de Édipo, determinado em esclarecer a razão da animosidade dos deuses para com a cidade que o escolhera como soberano, por ter decifrado o enigma da Esfinge e livrado a pólis de males maiores, e para as causas que haviam provocado a morte do seu antecessor por um malfeitor desconhecido.

A chave de todo o drama baseia-se na convicção helénica de que ninguém pode fugir à sua sorte. Nem sequer os deuses teriam a faculdade de exercer o livre-arbítrio, de fugir à inevitabilidade ditada pela ananke, a necessidade, força, compulsão, coação ou ordem natural, levada ao extremo da arrogância. O oráculo de Delfos, ao prever o destino do herói/anti-herói que empresta o nome ao drama, guiou em vão os verdadeiros pais a mandá-lo matar. Contra a sua vontade e à de todos os intervenientes na representação cénica dos factos acontecidos, o corifeu e coreutas na orquestra e os atores no proscénio, a liha de vida traçada mesmo antes de nascer acabaria por se cumprir em todos os seus pormenores. O parricídio seguido do incesto, ainda que inconscientes, teriam de seguir o seu trajeto tal e qual estavam predestinados desde a origem dos tempos.

ironia trágica definidora do género distribui-se pela circunstância, algo absurda nos nossos dias, de serem os filhos a expiar os erros dos pais, de tomarem sobre os seus ombros a hybris pretérita dos genitores, propiciando, assim, a catarse purificadora de soberbas mil, descomedimentos e insolências de outrem. Édipo, o todo poderoso pés-furados de Tebas, submete-se às suas próprias leis, vazando os olhos que não tinham visto a realidade enquanto sãos e renunciando ao trono que lhe cabia por herança. Clarividência sábia difícil de repetir desde pelos detentores do poder. Nem sequer em sentido figurado. Estes ouvem os rumores sem fundamento documentado, comutam as dúvidas em certezas e derrubam os caídos em desgraça sem apelo nem agravo. Ignoram o exemplo do descendente de Laio e Jocasta, quando as suspeitas de favorecimentos alheios recaem sobre os seus ombros, demonstrando ser a inocência encarada de modos muito distintos, consoante as molduras conjunturais envolventes, a da honestidade ou a da prepotência. É que de facto, como diz a sabedoria popular, o pior cego é aquele que não quer ver.

ÉDIPO
Meus filhos, nova geração do antigo. Cadmo nascida, que quereis sentados neste lugar, com ramos de suplicantes adornados? A cidade está, a um tempo, repleta de incenso, de peanes e de gemidos. O que entendi  não bastar conhecer pela boca dos mensageiros, vim sabê-lo em pessoa, filhos, eu, nome Édipo, para todos glorioso. Mas vamos, ancião, fala, pois a ti compete falar por eles: em que disposição vieste, por que medos ou anseios? Pois é meu desejo em tudo vos ajudar. Insensível eu seria, se me não apiedasse perante esta vossa atitude. 
Sófocles, Rei Édipo (415 AEC; Prólogo 1-14)

24 de fevereiro de 2025

Homero, a Ilíada e a cólera de Aquiles

                  Páris & Menelau                  

Kalliadès, figuras vermelhas de argila (c. 490-480 aec)

Μῆνιν ἄειδε θεὰ Πηληϊάδεω Ἀχιλῆος
οὐλομένην, ἣ μυρί᾽ Ἀχαιοῖς ἄλγε᾽ ἔθηκε,
πολλὰς δ᾽ ἰφθίμους ψυχὰς Ἄϊδι προΐαψεν
ἡρώων, αὐτοὺς δὲ ἑλώρια τεῦχε κύνεσσιν
οἰωνοῖσί τε πᾶσι, Διὸς δ᾽ ἐτελείετο βουλή,
ἐξ οὗ δὴ τὰ πρῶτα διαστήτην ἐρίσαντε
Ἀτρεΐδης τε ἄναξ ἀνδρῶν καὶ δῖος Ἀχιλλεύς 

Dizem que o fundador da Paideia helénica terá nascido em Esmirna e vivido em Quios, que seria um aedo/rapsodo/compilador cego, que terá criado em data incerta a obra prima/primeira do cânone literário ocidental. A tradição dá-lhe o nome de Homero e assegura ser o autor irrefutável da Ilíada, um longo poema épico de 15 693 versos em hexâmetros dactílicos ou heroicos, distribuídos por 24 livros, um por cada letra do alfabeto grego. A ação remonta à lendária Guerra de Troia travada cerca de 1300-1200 AEC e terá sido gizada oralmente ou por escrito à volta de 800-700 AEC. Entre uma e outra baliza temporal, um hiato de 400 anos de escuridão, a chamada Idade das Trevas, a separar os derradeiros momentos da Cultura Micénica dos inaugurais da Cultura Grega, aqueles em que os mitos/lendas ancestrais deram passo às histórias formatadas na Era Axial, i.e., a sistematização das religiões e da criação dos principais géneros poéticos idealizados em verso e prosa.

Ao invés do que se costuma dizer, a Ilíada não trata na sua totalidade do relato minucioso dos dez anos do assédio, conquista e incêndio de Ílion. Nem sequer referências ao famoso Cavalo de Troia, dado que o seu aparecimento só sucederá no final do conflito sangrento duma década travado entre Gregos e Troianos. O núcleo central da efabulação decorre no final do nono ano do cerco da cidade e não ocupa mais do que cinquenta dias, condensados em pouco mais duma semana. Tudo começa no primeiro verso com a menção à cólera de Aquiles, o Pelida, e culmina no postremo com os funerais de Heitor, o domador de cavalos. Por outras palavras, os heróis épicos por excelência do poema, representantes das duas forças beligerantes pela posse da Pólis situada às portas do Helesponto, a meio caminho do Mar de Mármara, do Estreito do Bósforo e do Ponto Euxino, no limite estratégico entre os continentes europeu e asiático, fronteira natural entre o mundo ocidental e o oriental.

Identificados os actantes fulcrais da refrega homérica, há que apontar os periféricos, os adjuvantes/oponentes de cada uma das forças em presença, bem como do seu contributo na trama. Aquiles dos pés ligeiros recusa-se a combater mais os seus guerreiros ao sentir-se ofendido por Agamemnon, rei de Micenas e líder dos sitiantes, enfraquecendo assim o exército aqueu e levando-os a uma derrota. Este havia-o despojado duma escrava que lhe coubera como butim duma escaramuça recente e só retoma quando o seu amigo Pátroclo é morto num duelo pelo primogénito de Príamo, o rei de Troia. Como vingança, retoma o combate e mata igualmente numa luta de corpo a corpo Heitor, príncipe herdeiro da cidade assaltada. A cólera inicial do filho da deusa Tétis e do mortal Peleu converte-se num apaziguamento final, pondo assim termo ao Poema Épico de Ílion, contado/cantado por Homero para registo pleno dos ouvintes e glória eterna dos heróis.

Quanto ao destino de Helena e Páris, os causadores da conflagração armada de gregos e troianos, bem como da própria cidade-estado que os acolhera, temos de o encontrar na imensidade de textos descritivo-narrativos em verso e prosa, registados em rolos de papiro e pergaminho, sobreviventes à voragem inclemente do tempo com dois mil e oitocentos anos de existência. Procurá-los sobretudo na Odisseia, a epopeia do regresso acidentado de Ulisses a Ítaca, ao encontro de Penélope e Telémaco, a mulher e o filho que já não via há duas décadas, composta também ela por Homero, o grande cosedor de cantos heroicos do ciclo troiano. Feitos inesquecíveis de seres semidivinos a quem deu vida nos seus dias e continuam vivos nos nossos, omnipresentes na memória coletiva de todos aqueles que continuam a ouvir as suas vozes distantes através das palavras registadas nas páginas do livro que temos entre mãos. Assim o prazer pela leitura continue vivo nas nossas práticas quotidianas.

INVOCAÇÃO
Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles, o Pelida | (mortífera!, que tantas dores trouxe aos Aqueus | e tantas almas valentes de heróis lançou no Hades, | ficando seus corpos como presa para cães e aves | de rapina, enquanto se cumpria a vontade de Zeus), | desde o momento em que primeiro se desentenderam | o Atrida, soberano dos homens, e o divino Aquiles.

12 de março de 2024

Camões: as armas e os barões assinalados dos filhos de Luso

       Eternos moradores do luzente
Eʃteliƒero polo & claro aʃʃento,
Se do grande valor da ƒorte gente,
De Luʃo, não perdeis o penʃamento,
Deueis de ter ʃabido claramente,
Como he dos ƒados grandes certo intento
Que por ella ʃeʃqueção os humanos,
De Aßirios, Perʃas, Gregos & Romanos.
Luis de Camoẽs, Os Lusiadas
(Cant. I, est. 24, fol.º 5)

Fará hoje precisamente 452 anos que Luís Vaz de Camões viu sair dos prelos de António Gonçalves a primeira edição d'Os Lusíadas (1572), aquela que as normas de referência bibliográfica assinalam com a sigla Ee/S ou E/D, tendo em atenção o pormenor do pelicano da xilografia do frontispício ter a cabeça voltada para a esquerda [Sinistra] ou para a direita [Destra] e corresponder à alternância do «E entre / Entre» das duas versões referidas [I.1:7]. Minudências à parte, é verdade que a folha de rosto só refere o mês e o ano de publicação, mas a dar fé no Alvará Régio que concedeu ao autor a tença anual vitalícia de 15000 réis a partir de 12 de março de 1572, leva-nos a inferir ter sido essa a data precisa da sua impressão.

Sobre o poema se disse muito e outro tanto fica ainda por dizer. Dizem ser o canto épico de todos os portugueses, quando o poeta só se propôs cantar as armas e os barões assinalados. Acrescenta ainda as memórias gloriosas dos reis que alargaram o império e daqueles que pelos atos valorosos feitos em vida se foram da lei da morte libertando. Por outras palavras, canta a glória dos heróis viris e faz tábua rasa da fama feminil das heroínas. Saem de cena as donas e donzelas também elas descendentes de Luso, o filho ou companheiro de Baco, bem como toda a arraia-miúda posta à sombra do peito ilustre lusitano. Ecos perceptíveis de ressonância latina, recolhidos nas fontes clássicas postas então à sua disposição.

Constitui um lugar-comum considerar Camões o expoente máximo do Renascimento português, pelo menos se o fizermos no sentido lato do termo. Para ser mais rigoroso, talvez fosse preferível redefinir melhor o período histórico-cultural em que viveu e remetê-lo para as fronteiras mais precisas do Maneirismo literário. Na idealização d'Os Lusíadas, o vate lusitano socorre-se do contributo romano da Eneida de Vergílio que, por sua vez, se inspirara na Ilíada e na Odisseia de Homero. Compõem as suas epopeias à maneira uns dos outros. Com boa vontade, até o próprio aedo jónico pode ter tido acesso a uma ou outra versão das façanhas mesopotâmicas de Gilgameš.

Se uma Epopeia [εποποιία] é um conjunto de Epos [επος], de relatos orais de origem lendária, unidos ao mito através do canto, então todos os casos referidos partilham dessa regra genérica, só divergindo na ânsia legítima de se superarem. Os Troianos vencidos pelos Aqueus, vingam-se destes em tempos históricos, quando os Latinos filhos dos primeiros derrotam os Helenos herdeiros dos segundos. O Império Grego sucessor do Assírio e do Persa acaba também ele por ser conquistado pelo nascente poder imperial Romano. Nada que o Príncipe dos Poetas Lusitanos não tenha referido na epopeia que o celebrizou, afirmando ter a vitória definitiva do mundo moderno sobre o antigo sido obtida pelo engenho e arte dos filhos de Luso.

Nos dias em que se comemoram os Quinhentos Anos do autor d'Os Lusíadas, seria bom começar a depurar a sua vida vivida das fábulas que lhe estão associadas e lhe dão corpo e colorido. Deve ser sina dos criadores laureados dos heróis épicos da imaginação. Do rapsodo da cólera de Aquiles e das odisseias de Ulisses nada se sabe, do cantor das façanhas marítimas de Vasco da Gama pouco mais ou nada. A meio milénio de distância, já seria altura de passar dos mitos e contramitos do Trinca Fortes, Pinga Amor e Cavaleiro da Fortuna aos factos de vida de facto vivida por aquele que com uma mão na espada e noutra a pena chegou até à nossa memória presente rumo às futuras perdidas na bruma do tempo.

17 de novembro de 2023

Epopeia de Gilgameš, a história do grande homem que não queria morrer

«E chegou o momento fatal: ao amanhecer, caíram pãezinhos e aguaceiros de trigo, ao entardecer, examinei o aspeto do tempo: era assustador ver! Então entrei no barco e blo-queei a escotilha: quem a fechou, Puzur-Amurru, um barqueiro, dei-lhe de presente o meu palácio, com todas as suas riquezas. Quando o amanhecer brilhou, uma nuvem ne-gra se ergueu do horizonte na qual trovejou Adad (deus da Tempestade), precedido por Shullat e Hanish, arautos divinos que cruzaram as colinas e o país. Nergal (rei do Sub-mundo?) rasgou os suportes (das comportas celestes) e Ninurta (deus da Guerra e do Fu-racão) começou a transbordar as barragens de cima. Enquanto os deuses infernais, bran-dindo tochas, incendeiam o país inteiramente com sua conflagração. Adad espalhou seu silêncio mortal pelo céu, reduzindo à escuridão tudo o que era luminoso… despedaçou a terra como um pote. No primeiro dia que a tempestade soprou, soprou tão furiosa que... e o anátema passou sobre os homens, como a guerra. Ninguém mais via ninguém: do céu, as multidões não eram mais discerníveis, entre essas trombas d'água.»
Sînleqe'unnennî, Epopeia de Ghilgameš
 (Nínive: c. 1000 AEC; táb. xi, vv. 90-112)

Os gregos inventaram tudo (ou quase tudo) em termos literários. Por vezes limitaram-se a adaptar as formas universais de olhar o mundo ao seu modo especial de o fazer. Assim nas diversas variedades da autodescrição lírica em verso dos estados de espírito perenes que os povoavam. Noutras ocasiões, deram voz aos heróis do passado mítico-lendário e puseram-nos a dialogar no presente os episódios mais relevantes que haviam protagonizado enquanto seres viventes. Assim o fizeram na representação cénica de factos sérios da tragédia ou risíveis da comédia, com passagem obrigatória pela modalidade intermédia do drama satírico. As histórias, essas, passaram a ser contadas em prosa no romance, depois de terem sido cantadas em verso na epopeia homérica e nas imitações que se lhe seguiram.

A criação absoluta da poesia épica terá de recuar, todavia, alguns séculos a rondarem o milénio ou a ultrapassá-lo, para se situar no ambiente mesopotâmico povoado pela verve narrativa dos povos nativos do duplo sistema fluvial banhado pelo Tigre-Eufrates. A mais antiga obra literária conhecida centra-se na figura semi-histórica de Gilgameš (𒀭𒉋𒂵𒈩), 5.º rei da 1.ª dinastia de Uruk, que terá vivido entre 2700-2600 AEC. Tudo começa na língua isolada dos Sumérios com um conjunto de lendas que lhe estão associadas e ao seu servo, companheiro e amigo Enkidu (𒂗𒆠𒆕). Dispomos atualmente dos fragmentos de cinco delas, registadas em placas de argila entre 2300-2000 AEC, num total de 1055 versos. As versões do texto épico chegaram até nós compostas no idioma semita dos Acádios, a mais remota exumada em Babilónia (1750-1600 AEC) e a mais recente em Nínive (c. 1000 AEC). Importa-nos sobretudo esta última, guardiã dos 2503 versos recuperados dos cerca de 3000 originais compilados, refeitos ou editados em doze tábuas de escrita cuneiforme por um obscuro Sînleqe'unnennî, um exorcista cujo nome traduzido à letra seria «Oh-Deus-Sîn-recebe-a-minha-oração».

O extenso relato assírio-babilónico está centrado nas relações de grande cumplicidade de Gilgameš-Enkidu, estabelecida aquando das suas missões, aventuras e viagens conjuntas pelo universo que os vira nascer e crescer (I-VI). O transtorno causado pela perda prematura do parceiro leva o herói a encetar uma peregrinação solitária, em busca do segredo que lhe permitisse evitar a morte e alcançar a vida sem fim  (VII-XII). Fá-lo junto de Utanapištî (𒌓𒍣), o Supersábio mesopotâmico do dilúvio universal, aquele que, pela sua existência exemplar, conquistara entre todos o dom da imortalidade. O antecessor pré-bíblico de Noé desilude-o completamente, ao informá-lo que quando os deuses criaram os homens lhes haviam destinado a morte, reservando para si sós a exclusividade da vida. A alegada origem sobrenatural do filho de Lugalbanda e Ninsuna, um rei semilendário de Uruk e uma deusa do panteão sumério, de pouco lhe valera. O plano humano do pai não lhe permitiria atingir o plano divino da mãe.

Os feitos prodigiosos do grande homem que não queria morrer não lhe permitiram alcançar a ventura de viver para todo o sempre. Viu-se impedido de evitar por motu próprio a descida aos subterrâneos cavernosos do Inferno, mas terá sido surpreendido ao ascender às alturas luminosas do Céu logo após o trespasse inevitável a que estava votado desde o nascimento, fruto da divinização póstuma que os seus súbditos terrenos do Aquém lhe deram de acesso imediato às esferas celestiais do Além. Mitos à parte, saibamos nós manter na lembrança a presença viva dos seus trabalhos heroicos efetuados quase cinco milénios. Proeza obtida também com a ajuda dos poetas épicos de então e académicos assiriólogos de agora, que criaram, gravaram, refizeram, decifraram e aclararam os milhares de versos que lhe foram dedicados. Lidos e relidos todas as versões hoje em dia disponíveis em livro real/virtual, urge deixar uma palavra de apreço a todos aqueles que o permitiram, com um destaque muito especial para Samuel Noah Kramer e Jean Bottéro, por me terem revelado os heróis sumérios e acádios da imaginação. Que vivam também eles para todo o sempre na nossa memória individual e coletiva.