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6 de março de 2025

Haruki Murakami, a busca do carneiro selvagem com uma estrela no dorso

「言いたくないんなら、言わなくてもいい」と男は言った。「その代わり君が羊を探し出すんだ。これが我々の最後の条件だ。今日から二ヵ月以内に君が羊を探し出せれば、我々は君が欲しいだけの報酬を出す。もし探し出せなければ、君の会社も君もおしまいだ。それでいいか?」
 村上春樹, 『羊をめぐる冒険 (1982)

Ao que consta, Haruki Murakami terá obtido o seu primeiro grande sucesso editorial dentro e fora das fronteiras insulares do Japão com o Em busca do carneiro selvagem (1982). Para quem entrou em contacto com a sua obra publicada em data posterior, as frases e páginas iniciais deste romance remetem-nos de imediato para a arte de contar muito especial deste eterno candidato ao Prémio Nobel da Literatura, galardão este que, com toda a probabilidade, nunca virá a receber. Palpites que, para o autor, pouco ou nada afetarão ou tirarão aos seus fiéis leitores, espalhados pelas várias partes do mundo, a vontade e prazer de viajar pelas histórias por si criadas ao longo dos tempos. Junta-se ao enorme rol de escritores ostracizados por Estocolmo e com mais ledores do que muitos dos distinguidos pela Academia Sueca.

O mais estranho neste texto maiormente Estranho, enquanto género teórico da literatura do insólito, é a omissão clara de sérias fugas da esfera do natural para a do sobrenatural, ao invés do verificado em títulos mais recentes. A presença dum Fantástico de hesitações seguidas no rasto das diversas variantes do Maravilhoso, nitidamente assumido, atestado e aceite, primam pela ausência. Tudo se passa num ambiente nipónico atual ‒ ou daquele em que foi captado pela ficção, centrada na década de 70 ‒, povoado por personagens sem nome próprio e apelido ou reduzido a etiquetas estereotipadas, provenientes do imaginário infantil dos contos da carochinha, nem sempre maiusculizados ou reduzidas a uma mera sigla, tais como maria-vai-com-todos, Líder Supremo, Homem Estranho, Rato, J., Condutor, Professor Carneiro, homem-carneiro, bem como ao «eu» implícito ou explícito do narrador, um jovem publicitário de Tóquio, divorciado e a caminho dos 30 anos de idade.

A badana de abertura da versão portuguesa, dado à estampa pela Casa das Letras, resume em três curtos parágrafos as linhas gerais que estruturam o relato, notas precisas que as casas distribuidoras depois registam ipsis verbis nas suas páginas de divulgação digital. Em poucas palavras, envia-nos para a tarefa detetivesca imposta ao relator-ator de encontrar um carneiro selvagem, invulgar, diferente dos demais, por exibir uma mancha de nascença em forma de estrela gravada no dorso e ser possuidor de propriedades extraordinárias que ultrapassam a compreensão humana. É certo que as oito partes e quarenta e três capítulos, enquadrados por um Prelúdio e um Epílogo, nos fornecem um número desmedido de pormenores pouco práticos de elencar neste espaço, mas que a arte do grande mestre japonês de associar palavras faz muito melhor nas mais de três centenas e meio de páginas que compõem a crónica de factos acontecidos ou tidos como tal. Leiamo-los com proveito e deleite. Não custa nada.

Na reta final do relatório investigativo redigido em forma de romance, ouvimos um dos partícipes afirmar estar morto, confissão singular de âmbito irreal até então afastado e que, à luz dos eventos até então revelados, nos leva a duvidar da sua veracidade. O predomínio dos sonhos descritos pelo fabulador leva-nos a dirigir a natureza de tal testemunho para o domínio restrito/total do imaginário onírico ou até do ilusório, causado pela solidão extrema a que se vira condenado. Coagido pelas exigências persecutórias do mandatário, sujeito às alucinações geradas por um coágulo de sangue no cérebro ou nas drogas tomadas para o debelar, o detetive forçado vê-se obrigado a achar o paradeiro do carneiro estrelado, suposto causador de todos os delírios prodigiosos, como o de invadir o corpo das pessoas, pondo ponto final às suas buscas policiais e relato das mesmas. Fá-lo à sua maneira, sem apelo nem agravo. Refaz o seu estilo de vida e prepara-se para encetar um novo capítulo da sua existência, longe agora do olhar atento dos leitores, que, ao fecharem o livro, já estarão à espera de de encontrar um outro, feito à medida única do grande criador de heróis/anti-heróis da imaginação literária.

EÍGRAFE
«- Não és obrigado a falar, se não queres – referiu o homem. – Em vez disso, vais partir em busca do carneiro. São essas as nossas condições. Se dentro de dois meses, a partir de agora, conseguires dar com o carneiro, estamos dispostos a oferecer-te a recompensa que pedires. Agora, caso não o encontres, tanto tu como a tua empresa estarão acabados. De acordo?»
Haruki Murakami, Em busca do carneiro selvagem 
(Lx: CdL, 2007; P.6, cap.18, p.155)

29 de agosto de 2024

Haruki Murakami, o país cyberpunk das maravilhas e o fim do mundo surrealista

私は死ぬこと自体はそんなに怖くはなかった。ウィリアム・シェイクスピアが言っているように、今年死ねば来年はもう死なないのだ。考えようによっては実に簡単なことだ。しかし死んだあとで頭蓋骨を棚に並べられて火箸でこんこんと叩かれるというのはどうもあまり気がすすまなかった。死んだあとまで、自分の中から何かをひっぱりだされることを考えただけで私の気は|滅《め》|入《い》った。生きることは決して容易なことではないけれど、それは私が私自身の裁量でやりくりしていることなのだ。だからそれはそれでかまわない。『ワーロック』のヘンリー・フォンダと同じだ。しかし死んだあとくらいは、静かにそっと寝かせておいてほしかった。私は大昔のエジプトの王様が死んだあとでピラミッドの中に閉じこもりたがった理由がよくわかるような気がした。
村上春樹 「世界の終りとハードボイルド・ワンダーランド」(1985)

Haruki Murakami é um fabulista singular. Cada vez me convenço mais disso. A escassa meia dúzia de romances que passou pelo meu crivo de leitor atento leva-me a esta convicção, apesar de ainda desconhecer grande parte da sua já vasta criação literária. Viajou comigo estas férias de verão O impiedoso país das maravilhas e o fim do mundo (1985), cujo título, por si, não foge à regra aludida, por nos remeter para um amplo cenário de sugestões insólitas comprovativas das suspeitas referidas.

Se tivéssemos de selecionar uma palavra-chave para caraterizar a totalidade do relato, a escolha do vocábulo estranho seria de longe o eleito, tanto por ser um dos mais repetidos e flexionados pelas instâncias produtoras de discurso, como pela essência dos eventos reportados ou vividos pelos agentes centrais/laterais que lhes dão visibilidade ou protagonismo. Se entretanto nos deslocarmos do campo lexical para o semântico dos géneros poéticos, o caso muda de figuraA mera explicação natural das singularidades instadas fracassa em todas as linhas, surgindo de modo irreversível e imediato a premência de recorrer à aceitação sobrenatural do maravilhoso, a rondar de muito perto a esfera alotópica da ficção científica. Tzvetan Todorov e Umberto Eco definem muito bem as etiquetas teóricas acima apontadas.

A estranheza dominante nas cinco centenas e meia de páginas de texto nasce logo na capa do livro, cuja dualidade ecoa depois de o abrirmos e esbarrarmos com uma lídima história paralela dum dois em um, repartida alternadamente pelo país das maravilhas e pelo fim do mundo, a ocuparem nessa ordem vinte capítulos ímpares e outros tantos pares. Em ambos os casos, temos um narrador anónimo de primeira pessoa a partilhar as aventuras surreais por si passadas com um punhado de figurantes também carentes dum nome próprio. Tal como nos contos infantis, limitam-se a ser designados pelo aspeto físico ou ação laboral: Professor, Rapariga Gordinha, Bibliotecária, Calmeirão e Minorca, Guardião, Leitor de Sonhos, Coronel, Sombra, Encarregado da Central Elétrica, Homens e Mulheres.

Sem querer revelar os meandros labirínticos da intriga, digamos que entre os Programadores do Sistema e os Semióticos da Fábrica, com os Invisíveis de permeio, o destino do jovem sujeito de enunciação de Tóquio vai-se traçando numa aproximação-fusão paulatina com o repórter dos eventos ancorados na Cidade dos unicórnios de pelagem multicolorida nas estações quentes e dourada nas frias. As pistas ténues, subtis, suaves, discretas, imperceptíveis, distribuídas às mãos cheias no decorrer do duplo ato narrativo e efetuadas em momentos diferentes, recuperam o ponto de ligação perdido no final da viagem forçada do velho mundo real consciente para o novo mundo imaginado pelo subconsciente do herói/anti-herói relator dos dois cronótopos efabulados.

Os avanços científicos aflorados dispensam a antecipação dum porvir vindouro mais ou menos distante do nosso universo de referências. Tudo se passa nos nossos dias, naqueles que balizaram a escrita e publicação da obra, já lá vão cerca de quatro décadas, numa época em que o Japão e a aldeia global já desenhara cenários distópicos pautados pelos ditames da alta tecnologia. A inventiva literária tem explorado esse filão de associar a cibernética e o punk alternativo, de criar interfaces funcionais entre os computadores e o sistema nervoso interno. Em linhas gerais, o grande mestre das letras nipónicas ensaia nesta ficção a sua forma pessoal de encarar o subgénero diegético do cyberpunk. Fá-lo através das vozes sem nome das personagens que lhe dão vida e nos representam a todos nós. O protagonista é submetido sem para isso ter sido ouvido numa dessas experiências aberrantes e o resultado deixa-se ver no testemunho que nos legou. No final das suas peregrinações pelos subterrâneos pós-modernos, em que viveu mergulhado os seus 35 anos de idade, conquista pela primeira vez o ensejo de exercer o livre-arbítrio, de escolher um dos dois mundos retratados. Os leitores, todavia, terão de esperar até às últimas palavras por si proferidas. Respeitemos-lhe a vontade e saibamos lê-lo sem interrupções até então.

EPÍGRAFE
«Não era propriamente a ideia da morte que me aterrorizava. Como disse William Shakespeare: "Morre este ano e não terás de morrer no próximo." De um certo ponto de vista, convenhamos que a coisa  parecia muito simples. No entanto, a ideia de que, depois de morto, a minha cabeça seria colocada numa prateleira e alvo de pequenos toques dados com pinças não me entusiasmava. Mais: deprimia-me pensar que, uma vez morto, alguém pudesse extrair algo dentro de mim. A vida não é fácil, mas uma pessoa sempre pode ir gerindo o seu destino de acordo com a sua consciência. Como acontece com a personagem de Henry Fonda no filme O homem das pistolas de ouro. Ao menos gostaria que me deixassem descansar em paz. Julguei compreender o desejo manifestado pelos faraós do Antigo Egito, no sentido de serem enterrados no interior das pirâmides.»
Haruki Murakami, O impiedoso país das maravilhas e o fim do mundo (Lx, CdL: L1, cap. 5, p.74)

29 de julho de 2024

Histórias do Fim do Mundo de Murakami

map Haruki Murakami
THE MAP OF END OF THE WORLD
Town map based on Haruki Murakami's novel
Hard-Boiled Wonderland and the End of the World
世界の終りとハードボイルド・ワンダーランド


BURACO PURO

– Para que serve aquele buraco? – perguntei ao Coronel.

– Para nada respondeu, enquanto levava a colher à boca. Estão a cavar por cavar. Nesse sentido, trata-se de um buraco puro.

– Não percebo.

– É muito simples. Apeteceu-lhes fazê-lo, é a única razão.

Mastiguei o pão enquanto refletia naquela ideia de buraco puro.

– De vez em quando, cavam um buraco explicou o ancião. Pode bem ser que, no fundo, se compare à minha paixão pelo xadrez. Não tem sentido, não leva a lado nenhum, mas isso não interessa nada. Aqui, nós abrimos um buraco atrás do outro. São atos sem finalidade, esforços sem progresso, passos que não conduzem a lado nenhum. Não achas maravilhoso? Ninguém fica ferido, ninguém fere ninguém. Ninguém passa à frente de ninguém ou fica para trás. Sem vitória, sem derrota.

– Acho que percebo.

O ancião, depois de assentir várias vezes com a cabeça, inclinou o prato e recolheu o último pedaço de estufado. 

–Talvez haja na Cidade coisas que te pareçam estranhas. Mas, para nós, é tudo muito natural. Natural, puro e pacífico. Tenho a certeza de que, um dia, tu também o compreenderás. Espero que sim. Fui militar durante muito tempo, e não me arrependo. A meu modo, tive uma vida feliz. O cheiro a pólvora e a sangue, o relampejar dos sabres, o toque dos clarins: ainda hoje recordo tudo isso muitas vezes. Contudo, não consigo recordar-me do que nos empurrava para a luta: a honra, o patriotismo, a combatividade, o ódio, esse tipo de coisas. Neste momento, talvez tenhas medo de perder o teu coração. Eu também receei pelo meu. Não tens de te envergonhar disso. – Interrompeu-se por instantes, à procura de palavras, com o olhar vago. No entanto, quando perderes o teu coração, a tua alma encontrará a paz. Uma paz tão profunda como nunca sentiste. Lembra-te do que te digo.

Assenti em silêncio.

Haruki Murakami, O impiedoso país das maravilhas e o fim do mundo (Lx: CdL,1985. 30: 449-450)

19 de junho de 2022

Haruki Murakami e a fabulosa crónica do pássaro de corda

「近所の木立からまるでねじでも巻くようなギイイッという規則的な鳥の声が聞こえた。我々はその鳥を「ねじまき鳥」と呼んでいた。クミコがそう名付けた。本当の名前も知らなければ姿も見たことが無い、毎日近所の木立にやってきては、我々の属する静かな世界のねじを巻く
村上春樹、『ねじまき鳥クロニクル』(1994-1995)

O impacto causado pela leitura dum novo título de Haruki Murakami resulta sempre numa aventura difícil de explanar. As palavras existem mas fogem-nos quando tentamos fazê-lo de modo claro e eficaz. O mais mediático criador nipónico de histórias dos nossos dias quiçá de todos os tempos não foge à regra nesta fabulosa Crónica do pássaro de corda (1994-1995), tida por alguns como a sua obra maior. Sou incapaz de o afirmar com uma certeza absoluta, inexistente no universo das imagens verbais desenhadas com engenho e arte. Cada leitor é um mundo subjetivo único, capaz de se apossar a seu modo das potencialidades estéticas dum objeto de criatividade plástica e de albergar em si a faculdade inalienável de as julgar a seu bel-prazer. A fórmula mais circunspecta de resolver o dilema talvez resida na ideia de que o melhor ainda está para vir. A ver vamos.   

Estruturalmente, este romance foi ideado como uma trilogia. As seis centenas e picos de páginas que a conformam estão reunidas em três livros numerados e com subtítulos distintos  La gazza ladra (de junho a julho de 1984); O pássaro profeta (de julho a outubro de 1984); O caçador de pássaros (de outubro de 1984 a dezembro de 1985) , que conheceram uma existência autónoma aquando do seu lançamento no país de origem. A edição num único volume continua a parecer-me uma solução mais adequada. A versão reduzida em tamanho de bolso equivale também ao formato ideal para suprir a falta de espaço para alojar os tomos escritos com palavras impressas. Os interesses comerciais dos editores mantêm-se de pé sem beliscaduras visíveis e o interesse dos leitores é aumentada sem perderem o fio condutor da história com hiatos desnecessários de permeio.

Se se tivesse de caraterizar a totalidade deste mega relato a uma só palavra, esta penderia sem reserva para as imediações do insólito. O manancial de casos detetados capítulo a capítulo é inesgotável. A órbita genérica do Estranho impõe-se como uma realidade ubíqua, contrariando a tendência instintiva do leitor transpor as estremas do estritamente natural, apesar do aviso do cronista nos arrastar para a esfera perene duma realidade verosímil questionável. As ligações subliminares ao distópico ano de 1984 orwelliano já andam no ar a funcionarem como percursoras do icónico 1Q84 murakamiano. Nesta quase fábula gizada na véspera dum novo milénio, o autor nipónico não evoluíra ainda para a concreção clara das manifestações do sobrenatural, a despeito de subsistirem algumas dúvidas nas etapas finais de cada um dos retábulos do tríptico, logo abafadas pelas hipóteses oníricas levantadas pelo protagonista.

A série de eventos bizarros, atípicos, chocantes, singulares e incríveis arrolados no testemunho datado abre com o telefonema erótico duma voz feminina anónima, cuja identidade ficará por revelar até ao final da crónica ocorrido dezoito meses mais tarde. Enquanto a abertura de La gazza ladra de Rossini soa na rádiodá-se notícia do sumiço do gato que o casal Toru e Kumiko Okada possuía no seu apartamento de Tóquio. Prossegue um pouco depois com a partida inesperada da própria mulher para parte incerta e por motivos que o evoluir dos factos narrados irá avançando de forma pouco clara. O felino acaba por regressar a casa tão inesperadamente como partira o mesmo não acontecendo no período de tempo narrado com a dona. A mediar estas ausências e na ânsia de as desvendar desenrola-se a rotina do jovem assistente jurídico desempregado cuja vivência regista por escrito para memória futura sua ou deleite estético nosso.

Lidas as três partes do livro, tenho outro em lista de espera. Mas não será de imediato que o vou abrir e visitar. É forçoso haver, pelo menos, umas férias de permeio. Uma pausa estratégica ocupada com outros cenários imagéticos. As situações enigmáticas com que por vezes nos vamos deparando também necessitam de descanso. A normalidade do dia a dia agradece. Imitar um pouco o herói obscuro da crónica por si lavrada e descer ao poço sem água para alumiar as trevas do nosso inconsciente. Seguir de perto a postura do jovem cronista marcado com uma mancha na cara e tentar preencher os abismos labirínticos que habitam dentro de nós. Pegar num taco de basebol defensivo e substituir no jardim da casa abandonada a ave de pedra incapaz de voar por um pássaro de corda capaz de separar o sonho da realidade. Vê-lo chegar todos os dias dum arvoredo próximo e ouvi-lo trinar um canto constante e estridente. Senti-lo a enrolar mecanicamente os parafusos do nosso pequeno e pacato mundo à procura duma energia vital, cósmica e universal.

EPÍGRAFE
«Vindo do arvoredo ali próximo chegava até nós o canto constante, estridente, de um pássaro que parecia estar a dar corda a algum mecanismo. Chamávamos-lhe o pássaro de corda. Foi Kumiko que se lembrou de lhe chamar assim. Não sabíamos ao certo o seu verdadeiro nome nem tão-pouco que aspeto tinha. Mas isso tanto fazia ao pássaro de corda. Todos os dias vinha até ao arvoredo perto de casa e punha-se a dar corda ao nosso pequeno e pacato mundo.»
Haruki Murakami, Crónica do pássaro de corda (Lx, CdL: Ⅰ, 11)

4 de abril de 2022

La gazza ladra di Gioachino Rossini e gli spaghetti di Haruki Murakami

Música, apenas música

ABERTURAS

Estava na cozinha a vigiar o esparguete ao lume, quando tocou o telefone. Ao mesmo tempo ia assobiando a abertura da ópera La Gazza Ladra de Rossini, que estava a tocar numa estação de rádio em FM. O fundo musical perfeito para cozinhar massa.

Senti-me tentado a ignorar o toque, uma vez que o esparguete estava quase pronto e Claudio Abbado se aprestava para conduzir a Orquestra Filarmónica de Londres ao auge da intensidade dramática. Por fim, não tive outro remédio senão atender. Podia ser alguém conhecido a querer entrar em contacto comigo por causa de uma nova proposta de trabalho. Baixei o gás, fui até à sala e levantei o auscultador.

peço dez minutos do teu tempo disse uma mulher do outro lado da linha.

Costumo ser bom a reconhecer uma pessoa pela voz, mas confesso que nunca tinha ouvido aquela.

– Desculpe, mas com quem é que deseja falar? – perguntei educadamente.

­Contigo, é óbvio. Dez minutos. Dá-me apenas dez minutos do teu tempo. Vais ver que conseguimos entender-nos na perfeição. – A mulher tinha uma voz suave e profunda, mas, tirando isso, impossível de descrever.

– Entender-nos?

– Entender-nos no que toca aos sentimentos um do outro.

Meti a cabeça através da porta e espreitei para dentro da cozinha. Uma nuvem de vapor branco saía da panela com a massa ao lume e Abbado continuava a dirigir La Gazza Ladra.

– Vai ter de me desculpar, mas tenho o esparguete quase pronto. Importa-se de ligar mais tarde?

Haruki Murakami, Crónica do pássaro de corda (1997, 1998)
[Lisboa, Casa das Letras, 2006, cap.1., p. 7]