On a trop souvent tendance à rapprocher les deux attitudes, et à considérer que le nationalisme est une forme accentuée du patriotisme. En ce temps-là - et sans doute à d'autres époques aussi - la vérité était tout autre : le nationalisme était exactement le contraire du patriotisme. Les patriotes rêvaient d'un Empire où coexisteraient des peuples multiples, parlant diverses langues et professant diverses croyances, mais unis par leur commune volonté de bâtir une vaste patrie moderne qui insufflerait aux principes prônés par l'Occident la sagesse subtile des âmes levantines. Les nationalistes, eux, rêvaient de domination totale quand ils appartenaient à l'ethnie majoritaire, et de séparatisme quand ils appartenaient aux communautés minoritaires ; l'Orient misérable d'aujourd'hui est le monstre né de leurs rêves conjugués.Amin Maalouf, Origines (2004)
No hay libro tan malo que no tenga algo bueno... Cervantes, «Quijote» (II, 3)
13 de outubro de 2024
Nacionalismos & Patriotismos
11 de janeiro de 2024
Amin Maalouf, as cruzadas ocidentais à Palestina vistas pelo olhar oriental árabe
« Ce livre part d'une idée simple : raconter l'histoire des croisades telles qu'elles ont été vues, vécues et relatées dans " l'autre camp ", c'est-à-dire du côté arabe. Son contenu repose, à peu près exclusivement, sur les témoignages des histo-riens et chroniqueurs arabes de l'époque. Ces derniers ne parlent pas de croisa-des, mais de guerres ou d'invasions franques. Le mot qui désigne les Francs est transcrit différemment selon les régions, les auteurs et les périodes: Faranj, Faranjat, Ifranj, Ifranja... Pour unifier, nous avons choisi la forme la plus conci-se, celle surtout qui sert aujourd'hui encore dans le parler populaire à nommer les Occidentaux, et plus particulièrement les Français : Franj. »Amin Maalou, Les croisades vues par les Arabes (1983)
Descobri a escrita luminosa de Amin Maalouf no Léon l'African (1986), o seu romance de estreia, logo seguido de Les Croisades vues par les Arabes (1983), o ensaio com que se lançara na república das letras e que agora voltei a visitar. À data da edição original francesa da biografia ficcionada de Hassan el-Wazzan (comerciante, diplomata, escritor e geógrafo árabo-andaluz conhecido por Leão-o-Africano), acompanhei com olhar atento o confronto que então se fez sobre a verdade histórica patente num e noutro relato, assentes em eventos acontecidos trazidos ao convívio dos leitores imersos nas veredas criativas do imaginário. Risco em boa hora assumido pelo autor desde o prefácio a estas cruzadas ocidentais à Palestina vistas pelo olhar oriental árabe até aos nossos dias referidos no epílogo. Plano ousado de sucesso garantido que o conduziria à vigésima nona poltrona da Académie française há pouco mais duma dúzia de anos (2011) e mais recentemente a seu secretário perpétuo (2023).
Seguindo de muito perto a tradição trilhada pelos cronistas islâmicos coevos, a referência e numeração das sucessivas cruzadas adotadas pela historiografia oficial cristã são substituídas pela identificação das fases que marcaram os cento e noventa e cinco anos de presença efetiva dos Roum (bizantinos) e Franj (francos) na Palestina: Invasão (1096-1100), Ocupação (1100-1128), Reação (1128-1146), Vitória (1146-1187), Adiamento (1187-1244) e Expulsão (1244-1291). Converte-os nas seis partes da resenha, agrega-lhes catorze capítulos expostos pela ordem em que se foram dando, enquadrando a sequência obtida por um prólogo e um epílogo breves, bem como por um conjunto de complementos contextuais facilitadores da tarefa interpretativa dos leitores atuais. A estrutura discursiva estava preparada para contrapor à versão europeia vigente a visão alternativa árabe anunciada no título destes anais modernos, compostos por um libanês semita de criação católica estabelecido em França.
Todas as histórias têm personagens que lhes dão vida num espaço e num tempo determinados. Estas Cruzadas não fogem à regra, só que os heróis/anti-heróis que as povoam e os adjuvantes/oponentes que lhes estão associados nessa Terra Santa de três convicções religiosas monoteístas em plena Idade Média variam segundo os pontos de vista do binómio narrador/narratário. Os bons para os Árabes serão necessariamente os maus para os Franj (e vice-versa), numa disputa actancial sangrenta entre os diversos sujeitos/objetos da contenda. Dada a multiplicidade-variabilidade dos eixos geradores do saber-poder-querer convocados, torna-se pouco viável identificar aqui com a imparcialidade exigida um nome único para simbolizar um vencedor/vencido em cada uma das partes envolvidas. Digamos que se terá destacado Godofredo de Bulhão, o conquistador de Jerusalém e primeiro soberano do Reino Latino que ali se formou (1099), e Saladino, o sultão do Egito e da Síria que reconquistou a cidade e liderou o final da presença cruzada no Levante (1187).
A Terra Prometida pelo deus de Abrão ao Povo Eleito transformou-se ao longo dos tempos na terra disputada pelas sucessivas civilizações que se adonaram da região. No período compreendido nesta sinopse histórica, o protagonismo foi jogado pelos adeptos ocidentais do Nazareno e os seguidores orientais do Profeta. Nos dias de hoje, todo esse torrão sagrado dos fiéis do Livro é disputado pelos crentes muçulmanos do Crescente de Maomé e os hebreus da Estrela de David, com o olhar atento dos antigos acólitos católicos da Cruz de Cristo. A posse definitiva da Palestina continua relegada para as calendas gregas, como nos dizem dia a dia os mass media globais. Paradoxo pertinaz no nosso horizonte de eventos que o deus único bíblico-corânico se vê incapaz de sanar. Na ausência dum desfecho previsível, fiquemo-nos com a memória da violência dos saques, carnificina, pilhagens, chacinas, massacres cometidos por basileus, imperadores, reis, sultões, califas e emires de então, a par dos atuais senhores do poder, sejam eles judeus, chiitas, sunitas, católicos ou ortodoxos, todos eles, em suma, farinha do mesmo saco.
14 de julho de 2021
Amin Maalouf e a visita-relâmpago dos nossos irmãos inesperados

« Les salauds ! les fous ! Ils ont osé faire ça ! Car à l’instant où j’écris ces lignes, j’ai des raisons de croire qu’une tragédie vient de se produire. Non pas une calamité naturelle, mais une apocalypse brutale façonnée de main d’homme. Le cafouillage ultime de notre espèce. Qui conclura nos quelques milliers d’années d’histoire. Qui fera tomber le rideau final sur nos vénérables civilisations. Et qui, incidemment, nous fera tous périr. Ce soir même. Ou peut-être demain aux aurores… »Amin Maalouf, Nos frères inattendus (2020)
Há livros que mal lhes pegamos os pomos logo de parte, tal o enfado e/ou desconforto que nos causam. Há também aqueles que por mais que nos esforcemos nos deixam completamente indiferentes e incapazes de guardar na memória a sua existência e conteúdo. Há ainda aqueles que felizmente mexem connosco desde a frase inicial à derradeira. O que se diz dos livros lidos pelos leitores severos pode também dizer-se dos livros escritos pelos autores eleitos, aqueles que nos enchem as medidas e que nunca nos cansamos de visitar. Amin Maalouf, o ocupante da poltrona 29 da Académie française, pertence a este número reduzido dos meus criadores diletos. Conheci-o por acaso no romance e adotei-o de seguida no ensaio. O último título publicado, Nos frères inattendus (2020) ﹘ à espera duma tradução portuguesa ﹘ filia-se no cruzamento da ficção novelesca e do pensamento reflexivo, apanágio que, de certo modo, o tem acompanhado ao longo de todo a percurso literário. Volta a recorrer à componente distópica após uma primeira investida no Le premier siècle après Béatrice (1992), onde a configuração dum mundo possível diferente do nosso é abordado, muito embora o problema da natalidade seletiva do mais antigo seja substituído pelo problema do naufrágio das civilizações do mais recente.
Um dos elementos-chave responsáveis pela minha adesão imediata ao estilo inebriante deste pensador líbio-francês reside no modo singular como encara as dialéticas dos tempos, sobretudo no seu relacionamento conflituoso entre os vários blocos civilizacionais que foram desenhando a pouco e pouco os dias de hoje. A procura de diálogo entre o Oriente e o Ocidente, entre os vários povos da cultura monoteísta do Livro, entre a luz e as trevas. Nesta mais recente abordagem do mundo atual, recorre ao contributo grego antigo, ao designado milagre ateniense, o momento grandioso em que o espírito criador humano inventou o teatro, a filosofia, a medicina, a história, a escultura, a arquitetura e a democracia. Os obreiros cabais das artes, ciência e pensamento, que a Idade Média abafou e os irmãos reencontrados﹘filhos secretos de Sócrates, Platão, Eurípedes, Heródoto, Hipócrates, Fídias, Aristóteles e muitos mais ﹘ tentaram restaurar na Idade Moderna. Os anais e os mitos aliaram-se à fábula, num ato de grande cumplicidade com a utopia, o tal mundo paralelo referido no texto, tal como o vê Eco no Sobre os espelhos e outros ensaios*, instituindo um braço de força pacífico e sem tréguas entre a eutopia ideal e a distopia real.
A visita efémera dos nossos irmãos inesperados teve uma duração fugaz de 20 dias. Os amigos de Empédocles chegaram, dominaram, espalharam um sopro de angústia e de esperança sobre o mundo. Depois partiram sem avisar. Estiveram entre nós de 9 de novembro (terça-feira) a 9 de dezembro (quinta-feira), talvez de 2021, por distar 50 anos da aprovação da 25.ª emenda da constituição do EUA (1967) e se conjugar com os dias da semana apontados no diário do protagonista-cronista, i.e., num futuro perto da publicação da obra e da data em que a li. Esses salvadores/predadores com nomes gregos significativos ﹘ Agamémnom, Demóstenes, Pausânias, Electra ﹘, vindos não se sabe donde no tecido espácio-temporal, detentores de poderes inexplicáveis à luz dos conhecimentos atuais, capazes de evitar uma catástrofe nuclear travada a nível global ou de poder prolongar a vida para além dos limites da morte, espalham-se um pouco por todo o lado à escala planetária, apesar da ação se centrar na minúscula Antioquia, uma das quatro ilhas fictícias do arquipélago Les Chirons, atravessado pela corrente do Golfo, no Atlântico Norte, provavelmente situado nas imediações das costas setentrionais da Noruega ou das Cornualhas, por decorrer em pleno inverno à distância de seis fusos horários de Washington.
À medida que a leitura prossegue, aprendi a gostar das personagens, a sentir o que elas sentem, a sentir a sua falta quando o final do relato se vislumbra no horizonte. Assim se passa com Alexandre e Ève, os protagonistas reportados pelo primeiro em quatro cadernos ﹘Neblinas, Abertas, Ancoragens e Eclipses ﹘, conhecido no meio artístico dos cartoons jornalísticos como Alec Zander, e pela sua única vizinha insular, a autora do romance de culto premonitório L'avenir n'habite plus à cette adresse, narrado pela lendária Lilith no hebraico Talmude de Babilónia. Depois há Moro, o amigo do desenhador-relator e conselheiro do presidente americano Milton. A escolha destes antropónimos, associados aos criadores de duas obras maiores da literatura ocidental, a Utopia de Thomas Morus e o Paraíso Perdido de John Milton, não me deixaram indiferente à trama em que dois modelos civilizacionais edénicos se confrontam, pondo em risco a sobrevivência das duas. A menos que ambas estejam de acordo em abrir uma nova página entre uma e outra. De eleger como única inimiga a morte, de a fazer recuar através da sabedoria e do conhecimento até ao final dos tempos, viabilizando assim a aliança dos dois ramos da humanidade com a vida, livre da doença e do envelhecimento, a união eterna dos irmãos inesperados e dos irmãos reencontrados.
23 de junho de 2020
Amin Maalouf, o naufrágio das civilizações: avisos à navegação
« Je suis né en bonne santé dans les bras d’une civilisation mourante, et tout au long de mon existence, j’ai eu le sentiment de survivre, sans mérite ni culpa-bilité, quand tant de choses, autour de moi, tombaient en ruine ; comme ces personnages de films qui traversent des rues où tous les murs s’écroulent, et qui sortent pourtant indemnes, en secouant la poussière de leurs habits, tandis que derrière eux la ville entière n’est plus qu’un amoncèlement de gravats. »Amin Maalouf, Le naufrage des civilisations (2019)


