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25 de fevereiro de 2026

Olhar da Pietà de São Pedro em Roma olhada por Michelangelo Buonarroti

Michelangelo, Pietà, 1497-1499
[Basilica di San Pietro,Città del Vaticano]
OLHARES DA ARTE
«Não sabes tu ‒ dizia ele a Ascanio Condivo ‒ que as mulheres castas se conservam muito mais frescas que as que não são castas? Quanto mais, por conseguinte, uma virgem que jamais teve o menor desejo imodesto a perturbar--lhe o corpo. Não te espantes pois, ‒ concluiu Miguel Ângelo ‒ se por tais razões, representei a Santíssima Virgem, Mãe de Deus, muito mais jovem do que a sua idade exigia e deixei ficar o filho com a sua própria idade.»
Gilles Néret, Miguel Ângelo, Köln, Taschen, 2000

Entramos na Basílica de São Pedro na Cidade do Vaticano e o nosso olhar é logo conquistado pelo esplendor inebriante do classicismo moderno. A totalidade das manifestações renascentistas, maneiristas e barrocas está reunido no maior edifício religioso do cristianismo católico para quem a quiser olhar de frente, de lado e de trás, para cima e para baixo, em todas as direções que o nosso olhar abarque. Olhamos e somos olhados de todos os cantos e recantos postos ao dispor do nosso olhar.

Num desses recessos obstruído pelos olhares perscrutadores duma multidão de romeiros devotos e turistas curiosos, o nosso olhar coletivo vira-se para a Pietà que Miguel Ângelo Buonarroti esculpiu em mármore de Carrara para o Cardeal Jean Bilhères de Lagranlas nos finais do século XV. O grande mestre florentino tinha então 23 anos e mereceu desde logo o apodo de Il Divino. A sua obra-prima inaugural foi colocada inicialmente em Santa Petronila e transferida em 1519 para São Pedro. 

Ali terá sido olhada um sem-número de vezes pelo obreiro entre 1546-1564, período em que continuou e/ou adaptou à sua maneira os planos arquitetónicos gizados por Donato Bramante, Giuliano da Sangallo e Filippo Brunelleschi para o complexo basilical maior da Santa Sé. Deu-lhe em grande parte, nesses derradeiros dezoito anos da sua longa e profícua vida o aspeto final com que a olhamos nos dias de hoje, tanto na sua magnificência da sua volumetria exterior como na do seu interior.

Olhamos para Cristo deitado nos joelhos da Virgem e notamos que nem um nem outro olha ou pode olhar para quem o está a olhar. Voltamos a olhar uma e outra vez e apercebemo-nos da extrema juventude da Mãe face ao ar envelhecido do Filho. A discrepância foi explicada pelo seu artífice, garantindo que só assim poderíamos olhar para a divindade de Maria perante o corpo humano de Jesus feito Deus. Voltamos a olhar e percebemos que a Arte tem, de facto, outras formas bem distintas de olhar. 

Michelagniolo - Michelangelo
[Grafia toscana antiga]

22 de janeiro de 2026

Olhares maneiristas de Narciso olhados em claro-escuro por Caravaggio

Michelangelo Caravaggio, Narcissus (1597-1599)
[Roma, Galleria Nazionale di Arte Antica - Galleria Corsini - Roma]
«Havia uma fonte límpida com águas brilhantes e prateadas, que nem pastores, nem cabras, nem qualquer outro animal jamais se aproximara, que nenhuma ave, nenhuma fera selvagem, nenhum ramo caído de uma árvore jamais perturbara. Estava rodeada de erva que se mantinha fresca pela proximidade da água; e a floresta impedia que o sol aquecesse esses locais. Foi ali que Narciso, cansado do ardor da caçada e do calor, veio deitar-se, atraído pelo aspeto do local e pela fonte. Mas enquanto tentava matar a sede, outra sede crescia dentro dele. Enquanto bebia, seduzido pela imagem da sua beleza que vislumbrava, apaixonou-se por um reflexo sem substância, tomou por corpo o que era apenas uma sombra.»
Ovídio, Metamorfoses (8 EC)

    Narcísicas                                                          

Contam os mitos helénicos ter o deus Cefiso e a ninfa Liríope gerado Narciso, um jovem muito belo insensível aos apelos do amor. A pedido dos pais, o adivinho Tirésias previu que a criança viveria até ser velho, se não olhasse para si mesmo. Já adulto, mostrou-se alheio a todas as paixões, incluindo a ninfa Eco. Esta definharia com a rejeição, até restar apenas a sua voz a ecoar nas montanhas. As pretendentes desdenhadas rogaram vingança aos céus, Némesis ouviu-as e num dia de grande calor, após uma caça, obrigou o efebo a refrescar-se numa fonte. Ao debruçar-se sobre a água, olhou para o rosto ali revelado e enamorou-se pela própria imagem.

O olhar maneirista de Caravaggio capta, precisamente, o momento crucial em que Narciso olha a sua imagem claro-escura refletida no espelho de águas cristalinas duma fonte nas imediações de Tebas. Segundo o olhar de Ovídio, fixado nas Metamorfoses (Liv. III), a semidivindade helénica teria sucumbido ao fascínio da sua beleza, brotando no local da sua morte uma flor a que foi dado nome de narciso. Ignoramos se o grande mestre milanês das artes pictóricas se terá rendido a esta versão latina da lenda ou se teria virado para outros finais alternativos, caso o seu olhar perscrutador tivesse ido um pouco mais longe do plasmado na tela.

Com o olhar letal reproduzido no olho-d'água beócio cumpriu-se o oráculo de Tirésias. A flor que recorda a beleza efémera de Narciso sobreviveu até hoje. Com ela espalhou-se também a memória dum narcisismo absoluto que os narcisos atuais tanto gostam de servir. À diferença dos mitos de antanho, os contramitos hodiernos não enviam ninguém para o reino das sombras com um simples olhar. Espelho, espelho meu, quem é o mais esplendoroso ser vivente do mundo? E sem ouvir a resposta do espelho: Sou eu, sou eu, o mais poderoso narciso de todos os tempos! Até quando, perguntamo-nos nós, a justiça de Némesis continuará inerte...

6 de novembro de 2025

A tertúlia das musas parnasianas…

Raffaello Sanzio, Parnaso (c. 1510-1511)
[Pallazzo Apostolico, Stanza della Segnatura, Vaticano]

Tertúlia - Tália - Parnaso

Ao entrar nos pretéritos anos 60 na Rua das Montras rumo à Praça da Fruta, deparávamo-nos com três pequenas livrarias, cujos nomes nos sugeriam de imediato alguns dos mitos e lendas ancestrais mais conhecidos da cultura helénica clássica: Tertúlia, Tália e Parnaso. Estava concentrado naquela via central da Caldas da Rainha um grupo de seres divinos e heroicos evocados amiúde pelas letras e artes. Olhando para os frescos renascentistas de Rafael no Vaticano, encontramos ali representados muitos deles a duas dimensões, sobretudo os ligados ao deus Apolo e às nove Musas, reunidos na ΄Ορος Παρνασσός, próximos de Delfos, a cantar e dançar em coro ao som da lira e dos versos dos poetas imortais antigos e modernos.

A Tertúlia de Artes e Letras ficava à entrada daquela correnteza de lojas variadas. Estava sediada no primeiro andar dum prédio idêntico a tantos outros ali residentes, mas com um recheio de livros, discos, gravuras, peças de arte, permitindo o convívio com muitos criadores dos heróis da imaginação elevados às alturas da imortalidade. Ali se reuniram no escasso par de anos da sua vida vultos conhecidos da nossa cultura, em tertúlias literárias e artísticas da παιδεία lusitana, resistente às diatribes usuais nos tempos da outra senhora de má memória para os amantes do livre-pensamento. Subi os degraus daquela escadaria uma meia dúzia de vezes e encontrei sempre ao meu dispor tudo aquilo que procurara em vão noutros locais.

Um pouco mais à frente, no outro lado da rua ainda aberta ao tráfego automóvel ficava a Tália, a mais ampla e concorrida do trio, talvez por funcionar também como papelaria, discoteca, ludoteca e outras ofertas mais para quem a visitava por hábito ao longo do dia. A musa da Comédia ‒ a tal que inspirara o nome da loja ‒ lá estava em sintonia fraterna na companhia das demais protegidas de Apolo, a guiar os potenciais amantes mortais da poesia, drama, história, dança e beleza em geral, para levarem para casa um pouco da criação artística e científica produzidas com a sua inspiração divina. Por ali passei vezes sem conta. Ali folheei revistas, ouvi discos e cirandei sem destino certo, como muitas vezes convém.

A terminar o circuito triangular e após uma nova travessia do itinerário comercial a céu aberto da cidade da rainha, deparámo-nos com a Livraria Parnaso, a mais pequena de todas mas também a mais longeva, a única que tem conseguiu resistir até aos nossos dias à voragem inexorável do tempo. A minha memória visual guarda a imagem precisa do espaço exíguo onde os livros se viam por toda a parte protegidos pela vitrine da montra virada para os passeantes e pelo balcão protetor de atendimento dos clientes. Tocávamos-lhes à distância com os olhos arregalados e cheirávamo-los com ambas as narinas bem abertas. Depois da compra, saíamos com os sentidos bem despertos para a aventura da escrita que nunca falhava.

Livrarias surgem, livrarias partem, mas, no admirável mundo novo em que vivemos, são mais as que fecham as portas até um nunca mais do que aquelas que as abrem para os amantes de livros físicos novinhos em folha. O contacto com a escrita faz-se cada vez mais à distância. O virtual condenou as sinestesias da leitura à tirania insípida do digital. Tudo se resume ao matraquear do teclado dum PC ligado à Net e à visualização do texto desejado no respetivo ecrã. Livrámo-nos de vez das poeiras e odores a mofo das edições antigas, mas fomos igualmente impedidos de acariciar as palavras impressas a tinta numa folha de papel. Por outras palavras, deitou-se o bebé fora junto com a água do banho. Nem mais nem menos.

4 de junho de 2025

Olhar & Observar

                        IL SOFFITO DELLA CAPELLA SISTINA IN VATICANO                        
Quando sei a Roma, fai come i romani...

Quando passei de corrida por Roma, não entrei no Coliseu, não vi o Papa, e não visitei a Capela Sistina. Desisti de integrar a fila compacta que me separava cerca de 1,5km dos museus vaticanos e não sei quantas horas para concretizar o ingresso. Depois, não senti um apelo urgente para ver o Sumo Pontífice numa janelinha minúscula da Praça de São Pedro ou para entrar no Anfiteatro Flaviano dos combates de gladiadores, escravos e criminosos mil.  

A falta de tempo para visitar a totalidade dos monumentos papais e imperiais levou-me a selecionar apenas alguns e a virar-me em contrapartida para os exteriores. Deambulei pelos recintos abertos ao público do Vaticano, o mais pequeno estado do mundo; entrei na Basílica de São Pedro e admirei tudo aquilo que havia para ver; Percorri as ruas e ruelas da cidade das sete colinas ou talvez mais. Fui romano entre os romanos. Ecco in poche parole la situazione!

Para olhar e observar devidamente as histórias pintadas por Miguel Ângelo na abóbada e altar da Capela Sistina duas maneiras possíveis. Uma resulta desde logo inviável de realizar, por pressupor esvaziar o recinto das multidões de turistas que o visitam dia a dia e ter os meios necessários para vencer a distância que separa o nosso olhar dos frescos a observar. A outra, mais pragmática, sugere-nos recorrer à ajuda duma boa edição impressa da obra. Foi o que eu fiz.

Com uma edição da Taschen entre mãos, afiro a vantagem de olhar e observar as inúmeras cenas bíblicas, separadas do imenso painel central, lunetas laterais e cantos de esquina ali reunidas a não sei quantos metros do chão ou do monumental Juízo Final colocado ali à frente do nosso raio de visão. Destacar qualquer uma delas seria uma missão votada ao fracasso, máxime porque todas as demais sairiam injustiçadas e, lá diz o ditado, la vita è breve e l'arte è lunga.

9 de maio de 2025

O centro e a periferia no dia da Europa

Percursos europeus pela arte da Via Redit

Uma península de penínsulas...

A Europa  conheceu melhores dias para festejar este dia que dizem ser o seu. Também teve piores e conseguiu sempre superá-los e sair por cima como sói dizer-se. foi centro e agora é periferia. Pouco importa, se nos lembrarmos que a terra é redonda e que em todos os quadrantes se está tanto no centro como na periferia.

A profundidade do mundo representado a duas dimensões é-nos dada pela arte pintada num continente que é uma península de penínsulas. Em cada istmo há um ponto de ligação com a faixa de terra menor com a maior a que está ligada. As leis da perspetiva são exímias em marcar as reais dimensões em presença.

Vi na Net um mapa da Europa com a obra de arte mais notável de cada país. As penínsulas limítrofes apontam-nos o centro de todos eles. O Grito de Munch, a Vénus de Milo de Alexandre de Antioquia, O tratador de tartarugas de Hamdi Bey e o Fado de Malhoa. Viva esta unidade na diversidade que no dia de hoje se celebra.

8 de abril de 2025

Academia de Platão & Escola de Atenas

Raffaello Sanzio, Scuola di Atene (c. 1509-1510)
[Pallazzo Apostolico, Stanza della Segnatura, Vaticano]

O triunfo do pensamento helénico...

No tempo em que os descendentes de Heleno andavam ainda a estabelecer os alicerces da cultura europeia, Platão reunia-se com os seus discípulos no jardim ou bosque sagrado de herói ático Academo, nos arredores de Atenas. Com eles e para eles, fundaria a Ἀκαδήμεια Πλάτωνος (c. 387AEC) que resistiria com saúde e bem de até à sua dissolução pelo Imperador Bizantino Justiniano I (529EC), i.e., cerca de 915 anos depois.

Ainda hoje existem na cidade onde nasceu vestígios da Academia Platónica, por onde passaram tantos vultos do pensamento filosófico grego. Visitei as ruínas que dela restam numas férias de verão e não vi a sombra de nenhum deles. Só os pude imaginar sentados lado a lado, ao redor do mestre. A ouvi-lo falar com um e outro sobre as mais diversas temáticas que cerca de dois milénios e meio de devir histórico não conseguiram ainda apagar.

Alguns deles podem ser vistos hoje em dia na Scuola di Atene, que Raffaello Sanzio pintou alegoricamente a fresco na Stanze della Segnatura do Pallazzo Apostolico do Vaticano. Platão e Aristóteles a presidirem aos ilustres académicos ali representados. Figuras dum classicismo renascentista a trazer ao nosso olhar pós-moderno o classicismo antigo bebido na herança helénica. Um encontro casual no eixo intemporal da criatividade humana.

18 de março de 2025

Olhares de Albrecht Dürer olhados por si mesmo e por quem os quiser olhar

Albrecht Dürer, Selbstbildnis mit Landschaft (1498)
[Madrid, Museo Nacional del Prado]

O autorretrato viajante...

Passei pelo Museu do Prado em 2016 e o meu olhar não se cruzou com o olhar de Albrech Dürer captado em formato de Autorretrato. Na altura, não me apercebi da ausência inexplicável dum olhar seu que já tinham olhado detidamente em visitas anteriores. Quando me apercebi da falta de atenção pessoal então cometida, atribui o facto a ter ocorrido durante uma passagem algo apressada pelas vastas e labirínticas salas da mais famosa coleção de obras de pintura de Madrid. É que a minha atenção nessa primavera já distante e o meu interesse imediato estavam decididamente voltados para a grande exposição ali organizada em honra de Hieronymus Bosch, por ocasião do quinto centenário da sua morte.

Socorri-me da Net para recordar o olhar penetrante do grande mestre renascentista, depois completado nos livros de pintura que o dão a conhecer e até na página oficial do Museu de Arte Antiga de Lisboa. Foi então aí que desvendei o enigma misterioso do seu sumiço madrileno, assinalado aquando da minha última passagem pela capital espanhola. Descobri nessa altura, que o olhar autofixado a óleo numa tela viajara do Passeo del Prado para a rua das Janelas Verdes. Deixara de olhar e ser olhado por quatro meses numa sala majestosa da pinacoteca criada pela rainha Isabel de Bragança por uma sala nobre de exposições temporárias do palácio mandado edificar por D. Francisco de Távora.

Olhados à distância com o olhar duma memória antiga, atualizados com os recursos impressos/virtuais postos à disposição de quem olha e é olhado, revejo o perfil autorretratado a meio corpo do gravurista, pintor, ilustrador, matemático e teórico de arte alemão. Os jogos de olhar de Dürer veem-me à mente como se os estivesse a olhar pela primeira vez. O ambiente cénico que então o envolvia evaporou-se. Supérfluo, inútil, dispensável. Reolho-o sentado de perfil junto a uma janela aberta para o exterior, de mãos cruzadas, em trajo de gala talhado de acordo com as estéticas do olhar da época. A sua, a nossa, a vindoura. Aquela que o olhar da arte fixa para ser olhado para todo o sempre.

9 de janeiro de 2025

Umberto Eco à maneira de Arcimboldo

ARCIMBOLDO
Pormenores da Primavera e de Rodolfo II de Habsburgo
[Paris, Musée du Louvre]

Este cálice pareceu-lhe a certa altura como que uma urna, e pensou que no meio daquelas rochas estaria inumado o cadáver do padre Gaspar. Já não visível, se a ação da água o havia primeiro revestido de macio coralino, mas os corais, absorvendo os humores terrestres daquele corpo, haviam tomado a forma de flores e frutos de jardim. Talvez dentro em pouco ele reconhecesse o pobre velho transformado numa criatura até então estrangeira ali em baixo, o globo da testa fabricado com um coco peluginoso, dois pomos passados a compor as bochechas, olhos e pálpebras tornados duas tâmaras amargas, o nariz de serralha verrugosa como o esterco dum animal; por baixo, no lugar de lábios, figos secos, uma beterraba com o seu ramo apical para o queixo, e um cardo rugoso em ofício de garganta; em ambas as têmperas duas casta-nhas com ouriço a fazer de farripas, e por orelhas as duas cascas duma noz aberta; com dedos, cenouras; de melancia o ventre; de marmelo os joelhos.

Umberto Eco, A ilha do dia antes (1994)

18 de dezembro de 2024

Olhares d'el-Rei Dom Sebastião olhados por Cristóvão de Morais

Dom Sebastião (c. 1571-1574)
Cristóvão de Morais
[Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga]

Olhem para mim! ‒ parece dizer-nos Dom Sebastião (1554-1578) ‒, sou rei desde os 3 anos de idade e, mais dia menos dia, vou ser imperador do mundo. Portugal e Algarves d'Aquém e d'Além-Mar em África não me chegam como reinos há muito herdados pela Graça de Deus. Os Senhorios da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia são só o início dum Quinto Império que a dimensão dos territórios antanho dominados por Assírios, Persas, Gregos e Romanos nunca alcançaram.

Olhem-no, como eu o estou a olhar agora! diz-nos o galgo de caça d'O Desejado, muito compenetrado do seu papel ‒, o derradeiro Cavaleiro-Cruzado da Cristandade a terras da Moirama já está de espada em punho e de armadura engalanado. Levar-me-á com ele ou estou aqui só como figura de decoração num quadro de aparato maneirista. Olho-o e quase lhe beijo a mão, mas o olhar majestático do meu soberano já está virado para outros horizontes distantes, onde o olhar dum canis lupus familiaris não seria muito bem olhada.

Olhem-no, pronto para partir para Marrocos! ‒ sugere-nos o olhar artístico de Cristóvão Morais, ao retratar a meio corpo O Encoberto na flor da idade, que nunca chegou a abandonar, teria então 17 anos (ou talvez 20) e finar-se-ia ingloriamente no campo de batalha de Alcácer-Quibir aos 24 anos. O bisneto por partida dupla, a materna e a paterna, de Dom Manuel Primeiro, não regressaria vivo de Marrocos, à procura duma grandeza sonhada, logo convertida em pesadelo para todos aqueles que seguiram e lhe sobreviveram.    

O olhar enigmático e distante do único monarca lusitano morto a terçar armas continua a olhar-nos como uma das joias maiores expostas destacadamente no Museu de Arte Antiga de Lisboa, ali mesmo às Janelas Verdes. Diz-se também que o seu corpo remido se encontra sepultado no Convento de Santa Maria de Belém, o Mosteiro dos Jerónimos, num túmulo monumental, mas, aí, o seu olhar real não se deixa olhar por ninguém. Só o podemos imaginar com algum esforço, com o poder dos mitos e contramitos nos concedem.

6 de dezembro de 2024

Sinestesias miradas

Vincent van Gogh

De sterrennacht | A noite estrelada (1889)

[NY, Museum of Modern Art - MoMA]
Olhares, Visões, Prismas, Miragens 
Dizem que Vicent van Gogh era daltónico. O mesmo se diz também de Leonardo da Vinci, Miguel Ângelo, Tintoretto, Claude Monet, Paul Cezanne ou Andy Warhol. Outros haveria decerto a apontar, se esse modo especial de olhar o mundo perturbasse o jeito como os seus adeptos olham essas sinestesias de cores pintadas a óleo, guache, pastel, aguarela e acrílico nas telas, tábuas, frescos que nos legaram.

Como teria o grande mestre neerlandês colorido A noite estrelada, se não sofresse da alegada anomalia genética de visionar as diferentes frequências de luz refletida nos corpos? Como seria o sorriso da Mona Lisa, se a paleta cromática do seu criador tivesse sido outra? Por certo não atrairiam as multidões habituais no MoMA e no Louvre. Um se muitíssimo longo, inexistente na mancha gráfica que o regista.

As outras suposições fantasiosas para os demais gestores de cores elencados seria igualmente incomensurável. Os fitares, enfoques, prismas e miragens planas vistas com profundidade imaginada pelo engenho e arte da perspetiva. Perceções combinatórias de natureza sensorial distinta, que os espreitares atentos conseguem enxergar nos espaços cobertos com todas as matizes presentes no arco-íris. 

Olhar distorcida da Mona Lisa de Leonardo da Vinci

18 de setembro de 2024

Olhar de Mariana de Áustria olhado por Velázquez e talvez reolhado por Mazo

Velázquez, Mariana de Áustria (c. 1652-1653)
[Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga das Janelas Verdes]

Proveniência: Londres, col. da Sra. Lyne Stephens. Venda na Christie, Manson & Woods, Londres, 9 de maio de 1895, n.º 322 e identificado como um retrato de Maria Teresa. Comprado por Sir George Drummond, de Montreal. Venda na Christie, Manson & Woods, em Londres, a 26 de junho de 1919, n.º 208, identificado como um retrato de Mariana de Áustria. Adquirido por Calouste Gulbenkian. Em 1952 foi doado por Calouste Gulbenkian ao Museu Nacional de Arte Antiga
Benito Navarrete Prieto e Joaquim Oliveira Caetano
Identidade Partilhadas. Pintura espanhola em Portugal
MNAA -IN (Lx. 2023, 61, p. 202)

Protótipos & Reproduções

Olhei-a a olhar para mim nas Identidades Partilhadas das Janelas Verdes e lembrei-me doutros olhares seus, olhados noutros locais e momentos. Olhei-a por diversas vezes numa das muitas salas de exposição permanente do Museu Nacional de Arte Antiga, olhei-a outras tantas numa das salas maiores do Museo Nacional del Prado. Em Lisboa, olhei-a sempre de perfil e a meio corpo; em Madrid em grande pose e a corpo inteiro. Pormenores que não deixam dúvidas sobre o olhar régio de Mariana de Áustria, filha do Sacro-Imperador Romano-Germânico Fernando III e consorte do Rei Filipe IV de Espanha, Nápoles, Sicília e Sardenha. Não chegou a reinar em Portugal e Algarves, porque à data do matrimónio os Braganças já se tinham livrado dos Habsburgos há nove anos.

Os olhares entendidos de quem está habituado a olhar para os olhares expostos nas grandes pinacotecas mundiais dizem ser todas as versões conhecidas, as maiores e as menores, obra do primo olhar de Diego Rodríguez de Silva y Velázquez (1599-1660), certamente reolhadas, uma, outra e muitas vezes, por algum discípulo do grande mestre sevilhano. Costuma apontar-se o nome de Juan Bautista Martínez del Mazo (c. 1611-1667) como provável coautor dos olhares régios plasmados nessas réplicas que até nós chegaram, não fosse ele genro do criador da matriz original do olhar retratado a óleo. Pouco se sabe ao certo sobre a génese pormenorizada de cada uma delas, assentes, quase sempre, na qualidade intrínseca do olhar da arquiduquesa austríaca e rainha hispânica.

O retrato que se pode olhar no MNAA de Lisboa terá tido origem direta/indireta no exposto no Prado de Madrid, protótipo quase certo das demais reproduções que podem ser olhadas a corpo inteiro no Kunsthistorisches Museum de Viena e no Musée du Louvre de Paris, bem como a meio corpo quer no Historical Society Museum & Library quer no Metropolitan Museum de Nova Iorque. Não se pode dizer que o olhar da filha e neta de imperadores, mulher e mãe de reis não tenha espalhado o seu olhar enjoado pelas grandes capitais museológicas do Velho e do Novo Mundo. Pelo menos em telas pintadas a óleo. Glória também a Velázquez e artesãos que na oficina de mestre reputado nos deram, mais de três séculos e meio, um rosto soturno que ainda hoje continua a olhar quem o quer olhar.

Madrid, Museo del Prado - Viena, Kunsthistorisches Museum -  Paris, Musée  du Louvre